Terça-feira, 17 de Junho de 2014
o ano da morte de josé saramago

Durante alguns anos, a blogosfera foi um passeio público de manifestações deslumbrantes e inovadoras. Revelou centenas de bons escribas e catapultou boa e má gente para a comunicação social. Se quisermos, a blogosfera refrescou o panorama cronista. Por outro lado, tornou-se num espaço insuportável, juntamente com outras redes sociais, e em particular nos últimos 5 anos, de disputa política. Os blogs colectivos de política, devido ao seu sectarismo e spin competitivo, mataram a personalidade inovadora que os bloggers conferiam a este espaço. A reflexão perdeu para a opinião, o pensamento perdeu para o impulso, o humor perdeu para a fanfarronice, o conhecimento perdeu para a informação privilegiada, a inteligência perdeu para o cliché rápido que a velocidade da rede acaba por disfarçar de originalidade, a literatura perdeu para o soundbite.

Talvez por isso, e por ter tentado seguir outro caminho, este blog tornou-se anacrónico, aborrecido e, de certo modo, pretensioso. Foi, durante estes anos, o meu espaço para exercícios de reflexão sem querer combater opiniões. Por breves instantes, isso foi conseguido e o seu autor  foi crescendo um pouco mais. Porém, chegou agora altura de seguir outros registos. Encerra-se com alguma resignação sobre a forma triunfadora de pensar a política. É ressentimento, claro, e bem profundo, não o nego. Por vezes parece que estamos a ver fantasmas e, para não parecermos loucos, o melhor é sairmos como Adão e Eva do Paraíso Perdido, sabendo que loucos são os outros dois que ficaram no mais vil jogo maniqueísta.

Até à vista. 

 



publicado por jorge c. às 09:00
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Quinta-feira, 22 de Maio de 2014
you gotta get out more


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publicado por jorge c. às 13:33
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os que te querem bem

Há uns anos, Brian Warner foi acusado pelos movimentos conservadores americanos de ser um dos responsáveis pelo famoso massacre de Columbine, porque os seus autores seriam seus fãs. Warner explicou, na altura, que o problema nuclear estava na política de uso e porte de arma nos Estados Unidos e não na sua música. Ao longe, será fácil compreender o artista e defender a irreverência e o seu estilo. Entende-se o que é uma manifestação artística se formos ao seu encontro e não nos deixarmos impressionar pelo primeiro impacto.

Talvez seja mais óbvio se eu disser que Brian Warner é, também, Marilyn Manson. A própria escolha do seu nome, bem como dos outros elementos da banda, foi feita com base numa dialética: a beleza e o sonho americano representados pelo icon Marilyn Monroe e o lado negro da condição humana representado pelo tenebroso Charles Manson.

Em Portugal, há cerca de 25 anos, conhecemos uma personagem muito semelhante. Adolfo Luxúria Canibal é um artista reconhecido não só pelos seus pares mas, por todos os que pararam para o ouvir dentro e fora do palco. Quem o fez teve a oportunidade de perceber como é possível encenar rock'n'roll. Lembro-me bem quando no início da década de 90, a propósito do sucesso de Mutantes S-21 - o seu disco mais mediático -, o aparecimento de Adolfo nos media provocou um choque nas almas mais sensíveis. Ai que nome horroroso! Era natural, num país ainda massacrado pela falta de percepção artística e ainda receoso do avant-garde, que se estranhasse toda aquela mise-en-scéne dos Mão Morta. Mas com o passar do tempo, e em particular com o extraordinário Müller no Hotel Hessischer Hof, o país foi percebendo o artista e passou a respeitá-lo. Adolfo contou um dia uma história caricata. Já muito depois de Mutantes S-21 ser lançado, foi confrontado com um fã que tinha visitado as cidades descritas nessa obra-prima porque - e passo a citar - "não viu nada daquilo". O artista tentou explicar que o disco era sobre experiências individuais e era, fundamentalmente, uma obra artística inspirada nas cidades e no ambiente que ele teria sentido aquando de viagens feitas na sua juventude.

Em 2014 há quem ainda prefira apostar na literalidade e nos processos de intenções. Nunca esperaria isso, porém, de Ferreira Fernandes e fiquei muito triste quando li esta crónica. Não me espantaria que gente que lê por obrigação ou por entretenimento fizesse um juízo tão básico; gente que nunca entrou num teatro ou viu um filme sem se queixar da "falta de história"; gente que olha para Pollock e vê rabiscos; gente que diz que o jazz lhe faz confusão aos nervos; que a poesia é coisa de maricas e lamechas. Não, não é esse o tipo de pessoa que vejo em Ferreira Fernandes. Mas, hoje, muito sinceramente, pareceu. E foi horrível.

 

 



publicado por jorge c. às 08:45
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Terça-feira, 13 de Maio de 2014
do ódio ao desconhecido

Será com muita dificuldade que um programa de debate na televisão consiga esclarecer alguém para lá da mera heurística sobre qualquer matéria. O de ontem, sobre a tauromaquia, não foi excepção. Para além de ser um tema de guerrilha urbana, é um assunto complexo, que envolve factores culturais e identitários endógenos. A ancestralidade do culto tauromáquico não nos merece a leviandade de uma discussão pouco esclarecida e ainda menos esclarecedora.

Se é verdade que a tradição não legitima qualquer actividade por si só, não é menos verdade que o progresso não tem de ser o estrangulamento daquela, a tábua rasa da história dos povos. E se muitas vezes o conservadorismo ganha contornos reaccionários, pouco esclarecidos, também acontece o progressismo exceder-se em tiques pós-modernistas, sem referências, sem cultura, cínico e alimentado por uma ideia de urbanidade que ignora a vida no campo.

A diferença entre as duas vivências é abissal. A espiritualidade que advém de cada uma tem origem em fenómenos identitários dissonantes que apenas se reúnem num mesmo indivíduo cuja sensibilidade foi sendo preparada ao longo do seu próprio desenvolvimento. Não quer isto dizer que tal faça de alguém mais ou menos sensível, melhor ou pior. Quer antes significar que há, por vezes, mais disponibilidade para observar o mundo.

O grande problema da pós-modernidade é, precisamente, a urgência, a efemeridade, a falta de tempo para contemplar e reflectir, para compreender, discernir e, sobretudo, para sentir. Não conseguindo compreender, opta-se pela tentativa de destruir. É esse o génio da multidão, como diz o grande Bukowsky.

 



publicado por jorge c. às 09:36
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Terça-feira, 15 de Abril de 2014
sempre!

Aproximam-se as comemorações dos 40 anos de 25 de Abril Sempre Fascismo Nunca Mais! Ainda que tímidas, ou resignadas à letargia dos dias que passam, já se vão vendo algumas iniciativas. É pouco, pensamos. E sente-se um clima de saudosismo aterrorizador. Pergunto-me se a maioria sente o peso da liberdade, o que é que isso significa. Porque não acho normal considerar-se que a economia deve prevalecer sobre a liberdade. A verdade é que houve uma cedência ao populismo dos partidos do governo e a todo o discurso contra a legitimidade do bem-estar e da qualidade de vida que conquistámos lentamente. E um dos pontos em que se sente aquele saudosismo aterrorizador é no argumento desvalorizador da própria revolução. Tem-se ouvido dizer que não é uma revolução do povo, que só serviu interesses corporativistas, etc. Ora, esta tentativa de desvalorização é perigosa porque manipula a história com um objectivo evidente. De facto, a revolução foi executada por militares. Mas, foi do sacrifício pessoal, familiar, político e colectivo de milhões de pessoas durante 41 anos que reunimos as condições para reivindicar um regime democrático, justo, equitativo, nobre e digno. E ainda depois da revolução, foi da conquista diária do respeito pela dignidade que se fez a democracia e se celebrou a liberdade, a igualdade e a fraternidade dentro de casa, no trabalho, no género, nas identidades, nos cafés, nas associações, nos partidos e em tantas outras coisas que só a ignorância e o obscurantismo podem fazer esquecer.

Por isso, celebremos essa liberdade. Sempre.



publicado por jorge c. às 16:26
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Sábado, 25 de Janeiro de 2014
a praxe está morta

O acontecimento da praia do Meco trouxe, mais de um mês depois, uma discussão sobre o movimento académico e sobre a praxe. No meio da revolta e da incompreensão, surge um aproveitamento do caso para destruir a praxe. Julgo que não será preciso. A praxe está morta. A praxe académica é, hoje, uma prática anacrónica nos moldes em que é executada. Já o era no meu tempo, mesmo tendo defendido a sua relevância na altura. As críticas apontadas são, assim, na sua maioria, válidas mas, muitas vezes, injustas.

Para uma crítica ao movimento académico praxista é preciso, em primeiro lugar, conhecê-lo. Isso não acontece. A opinião pública dominante neste assunto é, essencialmente, lisboeta e projecta aquilo que vê, como seria de esperar, dentro da sua perspectiva subjectiva de urbanidade. A praxe em Lisboa não é um exemplo para nada. É, aliás, muito pouco urbana e desenraizada. Até a coisa mais simples como pintar a cara de alguém é uma acção não permitida na praxe do Porto, por exemplo. Portanto, não se trata de uma generalização justa.

A diabolização da praxe, em abstracto, acaba por alcançar um certo tom demagógico, principalmente depois de uma tragédia daquela dimensão. Não podemos, no entanto, desvalorizar o acontecimento do Meco. Ele diz-nos que há algo que não faz sentido. O silêncio da comunidade praxista, a nível nacional, diz-nos, aliás, muito sobre o desconforto que é vivido no seu meio. É um desconforto provocado por um choque de realidade, o choque de que o secretismo da praxe para a prática de actos agressivos de team building (aquilo que a praxe é, em bom rigor) pode ter consequências graves e que, fechados na sua própria realidade, deixam de discernir entre o que está certo e o que está errado. 

É importante termos esta discussão. É importante que se opine sobre adequação de tal prática à sociedade actual. Mas, essa discussão é importante para esclarecer as consciências e não para decidirmos se proibimos ou não. Proibir o quê? Para além do ódio, que já vinha de trás. é preciso parar para pensar. 



publicado por jorge c. às 12:33
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Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014
uma ignorância letrada

As declarações do ministro da economia, António Pires de Lima, sobre a inadaptação da investigação centífica às exigências do mercado são um sintoma de uma determinada mentalidade que vai ganhando, cada vez mais, espaço na opinião pública, como um vírus. Para esta mentalidade, torna-se urgente transformar a relevância de uma matéria num equívoco simplista ao estilo ovo e galinha. Para qualquer mente mais esclarecida, não será difícil perceber que o conhecimento e a ciência são a origem do desenvolvimento. Qualquer resultado que hoje tenhamos, qualquer solução para um problema que se coloca à humanidade, parte de uma questão que é colocada. O exercício que pretendemos que nos conduza ao resultado final pode falhar. E nesse erro da investigação está, muitas vezes, o resultado em si mesmo. Até quando reflectimos sobre determinado assunto, podemos não chegar a conclusão alguma e esse ser, em si mesmo, um resultado. Ora, para aquela mentalidade, típica da nova-gestão, isto parece não fazer qualquer sentido, porque lhe parece inútil. O processo é inverso. Assim, serão os negócios que determinarão a utilidade (através da rentabilidade imediata) do conhecimento e da ciência. É como se a característica que distinguisse os seres humanos dos animais fosse a sua capacidade de bem suceder nos negócios e não a inteligência, e aqui voltamos à galinha e ao ovo. Começa por colocar-se uma falsa questão à sociedade: o que terá nascido primeiro, o negócio ou o conhecimento? Não adianta, neste ponto da discussão, lembrar sequer as mais importantes conquistas da investigação científica. Porque é esta mesma mentalidade que desvaloriza a constituição, os direitos civis, a cidadania, a História, a Filosofia, a Literatura ou a Biologia. Importa, contudo, questionar a sociedade sobre o que pretende para si: um mundo cuja última finalidade é o efémero crescimento económico (efémero porque não está ao nosso alcance controlar todas as suas premissas e, por isso, é passível de não acontecer) ou, antes, um mundo sem finalidade, que se constrói com solidez e se desenvolve harmoniosa e sustentavelmente.



publicado por jorge c. às 10:10
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Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014
das elites

Este interessante texto ilustrativo de uma determinada realidade levou-me a outra matéria, mais abstracta, sobre a qual venho a pensar há algum tempo. O texto foca-se numa circunstância muito localizada. Fala-nos de uma elite lisboeta que nasce de uma perspectiva ideológica e/ou político-partidária. Algo muito específico. A ideia que isso me provoca é outra, mais ampla. 

Não sei definir o nascimento de uma elite. Haverá, certamente, um elemento identitário, depois um elemento mobilizador e uma liderança. Com o tempo, passa a existir apenas uma massa mais ou menos compacta e fechada em si mesma. O que me leva aqui à forma inconsequente e onanista da formação das elites, do seu carácter intrinsecamente fútil. Mas será que quando falamos de elite falamos do seu significado original ou estamos apenas a referir-nos a grupos elitistas? Sem possibilidade de consultar a outro dicionário, recorro ao Priberam e encontro, numa das definições, a minha resposta: "Minoria social que se considera prestigiosa e que por isso detém algum poder e influência". É a esta definição que me vou referir. 

O prestígio é um elemento exclusivamente psicológico. Significa isto que é instalado na percepção das pessoas e funciona como um vírus, não derivando de razões práticas muito concretas ou, até, de virtudes específicas. Neste campo de abstracção, surge um espaço para um desejo de pertença meramente estético e que vai criar uma marca influenciadora. É este espaço que dará a ideia de prestígio. 

Podemos observar algumas das elites que se espalham pelo país, umas mais compreensíveis do que outras: a elite política urbano-burguesa lisboeta, bem descrita no texto de António Araújo quando este se refere à mistura ideológica em determinado contexto social; a elite académica de Coimbra e de Lisboa; a elite burguesa portuense da Foz e da Boavista; a elite empresarial de Braga ou de Aveiro; a elite aristocrata do Ribatejo; a elite proprietária alentejana. Todas estas realidades minoritárias criam dentro de si o fenómeno da exclusão, da antipatia e, de certo modo, de alguma soberba, criando a ideia de um espírito sofisticado e esclarecido que os demais são incapazes de atingir. A reclusão destas elites dentro de si mesmas acaba por gerar uma dinâmica acrítica e com pouca correspondência no real. Em alguns casos ganha contrastes corporativos. Semper Fi. A abertura ao real acontece, muitas vezes, apenas pela necessidade ou pelo calculismo, regressando muito rapidamente ao movimento original. 

O fenómeno das elites é um dos mais interessantes de uma sociedade moderna. Tal como no referido post do Malomil, é sempre difícil reflectirmos assertivamente sobre a sua evolução nas plataformas contemporâneas. Contudo, atrever-me-ia a dizer que há hoje uma elite online, que já se formou a partir de uma outra mais dispersa, entre jornalistas, políticos, publicistas, alguns (não muitos) artistas e gente nova que surgiu devido à diversidade dos meios, provinda dos blogs. A característica nuclear das elites está lá: é sedutora e aliciante. Mas como todas as elites, ela tende a fechar-se sobre si mesma, resguardando-se numa estética, agora muito mais abstracta mas que, com o tempo, vai se tornando mais clara. A sua grande inovação é, ainda assim, a diversidade pós-ideológica, conferindo-lhe um tom snob muito interessante e a sensação de uma falsa abertura. 

Ao mesmo tempo, assistimos ao fim de outras elites que, por falta de actualidade, acabaram por ser vítimas da sua reclusão e se extinguiram ou se dispersaram, misturando-se noutras elites.

 



publicado por jorge c. às 10:00
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Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2014
lealdade

Por suprema ironia foi Teresa Leal Coelho, figura próxima do Primeiro-ministro, que em consciência faltou à votação sobre a proposta de referendo aprovada na passada sexta-feira e que se demitiu da direcção da bancada parlamentar. Teresa, leal a Coelho, compreendeu que a sua lealdade deve-se primeiro ao país, à democracia representativa e às instituições democráticas. À jogada mesquinha e perigosa do líder da bancada parlamentar do PSD, com a conivência do presidente do partido, reagiram outro(a)s deputado(a)s com declarações de voto, após votarem favoravelmente por imposição de disciplina de voto, violando assim a sua própria consciência e a lealdade ao povo que representam e que lhes confia a maior diligência no desempenho das suas funções. Ora, por mais incompreensível que seja a imposição de tal disciplina em questões de consciência e não instumentais, exige-se que prevaleça sempre essa lealdade e responsabilidade com a confiança do eleitorado. Não está aqui em causa estar ou não de acordo com a matéria. O que está aqui em causa é repudiar o procedimento.



publicado por jorge c. às 10:30
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silêncio

Um pacto de silêncio que omite uma relação perversa que um indivíduo tem consigo próprio e com os outros não é algo que deva passar despercebido. Foi esse o pacto de silêncio que encobriu crimes de guerra, que encobre abuso sexual de menores, corrupção entre muitas outras questões que são, antes de mais, um problema que cada um de nós tem consigo mesmo. Em Nuremberga disseram que cumpriam apenas ordens.

A relação que o individuo tem consigo mesmo é um reflexo daquilo que ele acredita que a sociedade exige dele: integração, pertença, partilha de interesses e, fundamentalmente, sucesso ou reconhecimento inter pares. A questão que se levanta é se esta pressão do exterior está só na cabeça do indivíduo ou se ela existe, de facto, como uma imposição tolerada. 

Julgo que não é na proibição da praxe académica que está a solução para um problema maior. Mas, uma vez mais, depende das perguntas que quisermos fazer. 

 

 

Devo esta pequena discussão ao meu amigo e fiel interlocutor Eduardo Sardinha. 



publicado por jorge c. às 10:18
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Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014
referendo? não, obrigado

Confesso que me apetecia mais falar sobre umas declarações ignorantes do ministro da Economia sobre a investigação científica do que do Referendo sobre a coadopção. Porém, um dever moral para com todas as crianças do presente e do futuro do nosso país, obriga-me a dizer qualquer coisa.

Quando o meu primeiro blog individual foi criado, estava a começar a discussão sobre a IVG. Na altura, escrevi que achava um absoluto disparate referendar-se matéria de Direitos Fundamentais. O perigo que isto constitui para a opinião pública é grande, para não falar nas feridas que provoca nos objectos dos referendos. Numa sociedade onde o preconceito é raiz da discussão pública, e não o interesse público, não é sensato deixar nas mãos dos cidadãos a decisão directa sobre matéria relativa a minorias. 

Isto só acontece por cobardia política e, no caso, por má-fé e absoluta ignorância de uma criatura chamada Hugo Soares, a quem ninguém consegue reconhecer competência nestas e noutras matérias, a quem o PSD resolveu dar voz, num total desrespeito pela Assembleia da República e, até, pelos seus próprios colegas de bancada. Liderada por um conservador católico (pelo menos de tradição e talvez nem tanto de espírito), a bancada do PSD está hoje resignada aos valores trogloditas da convivência parlamentar. O descrédito que isto provoca é tal que dificilmente o partido irá recuperar uma parte significativa do seu eleitorado que não se revê nesta fanfarronice. 

Os trabalhos sobre a cadopção estavam, já, num ponto avançado de conclusão. Fazer isto a famílias que esperam por uma decisão para poderem, por fim, consolidar o futuro das suas crianças, é um golpe de uma crueldade e de uma desumanidade - essas sim - muito pouco cristãs.



publicado por jorge c. às 08:29
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Quinta-feira, 16 de Janeiro de 2014
o lobo de jeddah

Um ex-treinador do Futebol Clube do Porto, Vitor Pereira, foi protagonista de um episódio muito curioso, após um jogo do clube que agora treina na Arábia Saudita, em que se viu perante uma tentativa de condicionamento das suas declarações no final da partida. Para além do descontrolo e do inglês caricaturável, captou-me mais o interesse uma frase dita pelo próprio, de forma muito espontânea e convicta - selvagem, diria. Confrontando o seu censor, em directo na sala de imprensa, Vitor Pereira, exaltado, exigiu dizer aquilo que achava e não o que queriam que ele dissesse, afirmando que "isto é um país livre". O país a que Pereira se refere é a Arábia Saudita, uma monarquia islâmica absolutista, cuja lei fundamental é o AlCorão e a criminal a Sharia. Então, qual a razão da frase impulsiva do treinador português? Talvez seja um pouco revelador da percepção da realidade de que vivem os homens do mundo do futebol. É um universo paralelo onde as regras comuns entre os mortais parecem não ter lugar; um mercado livre de tráfico de capitais e pessoas; um buraco negro de difamção, injúria e violência. Para Pereira, a liberdade de expressão ultrapassa as fronteiras da sociedade em que cresceu porque o futebol lhe permite isso, porque a lei a que obedece é a do futebol que conhece. Poderíamos concluir que é essa a grande obra do futebol para a humanidade - o universalismo ou a globalização em estado bruto. Mas não é. É, antes, um sinal preocupante de alienação e, se quisermos, levando para outros campeonatos, de alguma impunidade, perante a nossa condescendência. Se Jeddah fosse Wall Street, Vitor Pereira seria Jordan Belfort, o seu mais inconsciente lobo.



publicado por jorge c. às 08:03
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Segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014
a minha bola

Um dia ganhei uma bola, cosida em pentágonos verdes e brancos. Era uma manhã de primavera, daquelas frescas que anunciam o calor da tarde. Saímos da escola muito cedo para chegar a horas ao Estádio do Mar. Nessa manhã eu já era feliz. O Prof. Salgueiro nunca me havia deixado para trás. Os rapazes também não, mesmo sabendo que só por morte súbita do adversário eu conseguiria aguentar a bola no pé mais de três segundos. Mas, eu estava sempre com eles. Era assim. Nunca me deixariam para trás. "Vais para a equipa técnica". E lá fui eu, na inocência dos 8 anos, fazer de massagista, com uma caixa de primeiros socorros com algodão, água oxigenada e pensos rápidos e muito voluntarismo para um futuro de ortopedista, carreira que acabaria por falhar por só mais tarde perceber que a boa-vontade e a caixa de primeiros socorros não eram bem recebidos na academia. O torneio lá seguiu. Centenas de miúdos de todo o lado para disputar a grande final inter-escolas do concelho de Matosinhos. O Neno na baliza, porque o Victor Hugo queria era jogar na frente (eu sempre achei, e até muito tarde, que o Hugo seria um grande guarda-redes) e depois, na frente, o Bruno e o Ricardo, muito rápidos, tecnicamente dotados para a idade. Lá pelo meio, o Joaquim Luís e o Augusto, que já eram mais velhos e acabariam por ter algum sucesso nas suas carreiras marginais, assustavam os outros minorcas sem ortodoxias. Não se engalfinharem todos à pancada dentro do campo era uma sorte. Fazia parte do charme do trabalho de equipa. Acabaríamos num lugar ridículo, na velha tradição mamedense de se preferir seduzir o sucesso do que estabelecer logo um compromisso. Era, então, chegada a altura de atribuir e receber os troféus: taças, medalhas, um capri sonne, um pão com fiambre ou queijo e uma bola para cada um. Uma bola para cada criança daquelas. Foi então que o vi. Estava ali, mesmo à minha frente e eu, como S.Tomé, só acreditei quando o vii, em carne e osso, tão vivo e tão presente, como no meu imaginário. Lembro-me de não conseguir dizer nada. O Victor Hugo acabaria por falar por mim e dizer com aquele seu ar muito assertivo, de quem está a constatar um facto que os outros parecem não ter coragem de admitir, que eu era do Benfica. "Ele é do Benfica. Nós não". E ele olhou para mim e sorriu, para depois me fazer uma festa na cabeça e me dar a bola que correria pela minha rua durante anos e que seria um marco dessas amizades imaculadas que só se fazem na rua.

Para mim, o Eusébio é a minha bola, a minha rua, os meus amigos, o meu Porto, a generosidade e a solirariedade que fazem dos rapazes todos bons rapazes, que fazem com que todos os rapazes, no momento em que vêem uma bola ali perdida pensem, imediatamente, em lhe dar um chuto e marcar golo. Porque tal como aquele rapaz que chegaria a Lisboa em 61 para ser o melhor, os bons rapazes só procuram a alegria mágica do golo - a mais refinada das artes.


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publicado por jorge c. às 09:44
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Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2013
na sua inocência

Travou a fundo, mas já ia lançado. Rui Rio, na sua inocência, acabou por dizer aquilo que confirma a tendência dos nossos tempos: a lei é um obstáculo à prática de uma política sem limites que nos irá redimir. Deus lhe pague. Mas, a verdade é que Rio, como tantos outros, não dizem este tipo de coisas por maldade; parece-lhes natural que a lei deva ser preterida em prol das circunstâncias económico-financeiras e das decisões pragmáticas que devolvem o homem à sua condição livre, como na Alemanha dos anos 30. E perdoem-me o exagero, que olhando para a Hungria e para a Holanda pode não sê-lo, mas a História é sempre importante para nos lembrarmos do que significam conceitos como Estado de Direito e Princípio da Separação e Interdependência dos Poderes. Temos de estar atentos e alerta. E não podemos desatar aos abraços e salamaleques às pessoas só porque, aparentemente, estão a iniciar uma oposição ao nosso adversário. Se essa oposição insistir no mesmo erro discursivo e prático, então é porque ainda não percebemos bem o que é que estamos aqui a defender. É importante garantir que elas perceberam isto. Porque Rio não será candidato em Janeiro, mas será mais adiante.



publicado por jorge c. às 12:31
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Sexta-feira, 6 de Dezembro de 2013
viva a liberdade

Mandela continuará a abrir as portas da impossibilidade sempre que o seu nome for carregado. Fê-lo com as suas próprias forças durante a vida e, agora, na morte, cabe-nos uma missão de grande responsabilidade que é continuar o seu caminho. Um primeiro e muito importante passo foram as homenagens por todo o mundo.

Por cá, vi nas últimas horas centenas de pesares de pessoas que, inconscientemente, esqueceram os seus preconceitos habituais, mesmo que com os lugares comuns e clichés habituais de que o mundo ficou mais pobre e de que perdemos um grande homem e de que era um exemplo para a humanidade e de que temos todos muita admiração pela pessoa de Nelson Mandela, etc. etc.. É por isso importante perceber que o racismo e o sectarismo se dissipam quando aquilo que temos à nossa frente é muito maior e representa um amor universal, mesmo que no mais básico e fútil dos discursos. Esses preconceitos, que nascem de uma influência do meio e que não são inatos, mantém-se devido a alguma ignorância e resignação, mas já não conseguem resistir à força do bom espírito.

É contra a ignorância e a resignação que temos sempre de lutar. É pelos outros que seremos nós. É por todos porque só todos podemos ser livres.

 



publicado por jorge c. às 13:45
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Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2013
o consenso

Hoje é quinta-feira, o dia em que, na televisão, comentam os dois líderes da oposição ou, se quisermos, em que Manuela Ferreira Leite e José Pacheco Pereira marcam a agenda da oposição em Portugal. É estranho que seja dentro do mesmo partido mas, a verdade é que António José Seguro não existe, nem sequer aparece. Poderia ter aparecido para comentar os resultados do PISA e nem vê-lo. Tendo sido a educação uma das maiores batalhas dos Socialistas, é de estranhar.

Porém, podemos dizer que a oposição feita por Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira é forte o suficiente para podermos, pelo menos, sentir que não estamos sozinhos. Muito pelo contrário.

Numa altura em que se fala tanto de consensos, parece-me que há um indício claro de consenso na sociedade portuguesa: o governo é mau e o PS não é alternativa. Mas, não desesperemos. Há uma alternativa. Porque o grande consenso nacional pedido pelo Presidente da República existe num país que está contra a forma mesquinha com que uma nova mentalidade política europeia ataca as instituições nacionais, a soberania e a dignidade dos portugueses. Tem aí um consenso, vossa excelência. Pode aproveitar e dissolver a Assembleia da República e mostrar ao governo liderado pelo inenarrável Passos Coelho que nem o seu próprio partido está com ele. Que este não é o país que queremos.



publicado por jorge c. às 14:33
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Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013
esquerda, direita, volver

Já não nos víamos há algum tempo. O único contacto que temos tem sido feito, claro, pelo Facebook, onde eu vou postando freneticamente, entre canções, manifestação política ou divulgação de outras matérias. Ele raramente interage, manifestando-se de vez em quando numa ou outra música, ou quando assinalo a memória de personalidades mais ligadas à direita. 

Desta vez, encontrámo-nos, no meio de outros amigos. A noite ia longa, tal como a amizade. A conversa foi seguindo e, inevitavelmente, caiu na política e no estado actual das coisas. De repente, vejo-o nervoso com o meu discurso e tento acalmar o tom para que se perceba o que estou a dizer com lucidez e clareza. Ele não aguenta e desata num disparate. Que eu agora sou comunista, que a esquerda é que nos meteu aqui e eu sou o idiota útil deles, agora, e que desde que fui para Lisboa isto e aquilo e aqueloutro. E por aí fora. Disparou com o que lhe estava entalado há algum tempo e que por sabe-se lá o quê, nunca quis discutir.

Esta conversa não é uma surpresa. Ao longo dos dois últimos anos, tenho sido acusado - é esta a palavra - de ser de esquerda por estar contra a conduta de um Governo de direita. Também pela esquerda, sou afavelmente recebido como uma nova aquisição. Para a esquerda, sorrio. Para a direita, mando-os estudar. A direita hoje padece de cultura e de esclarecimento. É ignorante, preconceituosa e pouco esclarecida. Para além de, muitas vezes, ser oportunista e taticista.

Não pretendo fazer aqui qualquer declaração de interesses sobre as minhas escolhas ideológicas. Era o que me faltava. Porém, há uma questão fundamental no meio de tudo isto que urge esclarecer, porque a luta política é cada vez menos esclarecida e auto-crítica. 

A coerência ideológica existe porque as pessoas se mantém fiéis a um conjunto de valores e princípios. Acima desses valores e princípios ideológicos, existem, ainda, outros mais importantes, como a dignidade humana, a liberdade, a igualdade, a solidariedade. A verdadeira incoerência reside em nos afastarmos destes princípios por oportunismo ou circunstancialismo partidário. O resto é mantermo-nos fiéis ao tipo de sociedade em que acreditamos e que juntos, democraticamente, aceitámos construir. Este é o maior valor que temos - a comunidade e o outro.

Portanto, será errado pensar que a minha deslocação foi feita para a esquerda. Em rigor, eu mantenho-me no mesmo sítio. Quem mudou foram aqueles que deixaram de colocar valores e princípios à frente do preconceito ideológico, da fantasia pseudo-liberal e da politiquinha de corredor.

No dia em que o nº2 de Durão Barroso (não sei se estão recordados deste senhor, que ia ser o nosso homem em Bruxelas) diz que é importante baixar salários para atrair investimento, com a maior das canduras, este é um assunto sobre o qual devemos reflectir para decidirmos de que lado é que vamos estar. Eu apenas decidi o meu com a minha consciência.



publicado por jorge c. às 13:12
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Sexta-feira, 22 de Novembro de 2013
da social-democracia



publicado por jorge c. às 12:58
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Segunda-feira, 18 de Novembro de 2013
sobre o partido de Rui Tavares*

A chegada de um novo partido fundado por pessoas que respeitamos é sempre uma boa notícia. Espero que o Rui Tavares tenha sucesso neste projecto político e que o mesmo sirva como um elemento positivo na discussão de alguns pontos que me parecem mal representados no debate público em Portugal e na Europa. 

Dito isto, e após ter visitado o http://livrept.net/, poderei deixar aqui algumas reflexões, sem a pretensão de querer dar uma opinião muito assertiva sobre se está certo ou errado. Assumo, antes, que é uma escolha que podemos ter ou não ter, sendo sempre legítima.

Todos os cidadãos têm inquietações e sentem-se, muitas vezes, órfãos de partido. É assim que, por exemplo, eu me sinto, hoje, à direita. Os partidos precisam de ser melhorados, reforçados com qualidade e valor político. A divisão, dentro da mesma linha ideológica, pode aprofundar um caminho de política única, sem equilíbrio democrático. Pode, também, potenciar o clima de guerra (não conflito) ideológica que tem vindo a crescer nos últimos 10 anos. Nestas alturas, exige-se alguma responsabilidade na previsão do futuro, na dogmática dos partidos que transmite segurança aos cidadãos. Não significa isto que não haja um espaço vazio, sem intervenção. Mas, haverá ou será apenas uma micro-narrativa circunstancial ou puramente ética?

O espectro ideológico português é muito semelhante ao tamanho do país. Em rigor, no seio da opinião pública, não existe um leito assim tão grande que afaste as duas margens de tal modo que se torne impossível distinguirem-se à distância. A única forma de entrar um elemento novo é penetrar no meio, indo buscar alguns inadaptados e aquilo a que Tavares chama de independentes (uma parte substancial da sua geração que nunca se quis comprometer partidariamente - uns por cobardia, outros por snobismo). Nessa lógica, todos os simpatizantes de partidos que não fossem militantes (ou seja, independentes) por não se identificarem com meros comportamentos, criariam partidos. Seria confuso e pouco sensato.

Na declaração de interesses deste movimento proto-partidário podemos encontrar um conjunto de intenções, ou de boas intenções, se quisermos. Não muito mais do que isso. Não há uma apresentação da possível composição, estrutura de órgãos e de competências, sendo que a formalidade é um factor nuclear para a segurança do militante relativamente às suas expectativas e à sua confiança no partido. Não há, também, uma definição ideológica clara. É, talvez, ainda mais dispersa que a do Bloco de Esquerda, um pouco à semelhança do PSD e do PS - um catch-all-party embrionário. O que, em rigor, nada nos diz. Passa um pouco por aquilo que está na cabeça de Rui Tavares e de uns quantos seguidores. Nada é comunicado para o exterior, como se a posição ideológica fosse óbvia. E é aqui que reside a falta de humildade inicial do movimento e, atrever-me-ia até a dizer, o elitismo da auto-admiração e do auto-reconhecimento. É um movimento político que nasce mais para a internet, para as redes sociais, do que para as ruas e isso terá, naturalmente, as suas consequências. Quer dizer que as redes sociais não são, também elas, ruas? Claro que são e muito importantes. Mas, os eleitores exigem sempre a proximidade dos agentes políticos e é preciso admitir que existe um fosso enorme entre aquilo que nós achamos que é o futuro e aquilo que é o presente e a realidade dos povos. Sem ilusões.

Por último, julgo que há na declaração de princípios, na organização e na missão um conjunto de valores universais. Ser europeísta, ser ecologista, ser anti-tacitista, etc, etc. não são valores ou princípios exclusivos de um partido. E ser de esquerda não é um campo ideológico único, nem uma virtude em si e por si. Muitas das questões que Tavares aponta são questões éticas, como já havia dito em cima. A ética não é partidarizável. Portanto, o discurso inicial é o discurso de um candidato independente que se julga moral e eticamente acima dos seus semelhantes e que acaba por não ter um projecto amplo com longevidade bem definido, sendo que as suas preocupações incidem fundamentalmente num período muito específico da sociedade portuguesa - propício a isso, em boa verdade.

 

 

*Entenda-se este título como uma provocação. É evidente que sabemos que Rui Tavares foi apenas o impulsionador e que a sua vontade é que o movimento seja total e absolutamente colectivo e democrático. Não me restam dúvidas. Mas, à mulher de César, lá diz o ditado. 



publicado por jorge c. às 15:41
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Quinta-feira, 7 de Novembro de 2013
da dignidade (parabéns, meu querido camus)



publicado por jorge c. às 06:14
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