Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011
Mas que gente tão parva

Gosto muito de leitinho com chocolate. Não de um leitinho com chocolate qualquer, mas sim de Suchard Express, e ninguém me paga para isto. Gosto muito de viver num país onde posso escolher o leitinho com chocolate que me apetecer. Já as pessoas no Egipto não têm tanta sorte. Não se trata só da crise, que também há no Egipto, não é só aqui, mas de um conjunto de narrativas políticas que não são muito favoráveis à existência do Suchard Express, dando exclusividade ao tenebroso Ovomaltine. Já vimos isto a acontecer e não foi bonito. O Ovomaltine é horrível! Pelo que gostaria muito que as pessoas do Egipto como eu e tu tivessem acesso à livre escolha do leitinho com chocolate. Eles até nem se importam de passar por uma crise de sacrifícios e assim se, pelo menos, tiverem direito a escolher entre o Ovomaltine e o Suchard Express derivado ao assunto do preço. Pelo contrário, por cá, a nossa cena já é outra: é termos acreditado que poderíamos beber muito leitinho com chocolate sem nos preocuparmos muito. É tudo uma questão de expectativas. Criou-se a expectativa de que estava tudo bem, e depois de nos fazermos à vida ia continuar tudo bem na mesma porque, seguindo as exigências do progresso, tínhamos feito tudo by the book. Acontece que não foi assim e houve uma - como é que se diz? - frustração de expectativas, que é uma cena tramada que costuma resultar em depressões (modernices). De um momento para o outro, ou não temos dinheiro para comprar leitinho com chocolate ou não temos tempo para o beber, e não era nada disto que tínhamos combinado. A expectativa é uma característica muito forte das sociedades modernas porque é ela que vai catalisar a dinâmica de consumo. Quando as expectativas são frustradas a sociedade ressente-se, mesmo que em rigor os mínimos garantidos continuem a ser cumpridos. Como alguns começam a deixar de o ser - porque a vida é assim mesmo - há gente que faz barulho, que se manifesta de algum modo, nem que seja com canções. O Tony Carreira andou anos a cantar o amor proletário e ninguém ficou muito incomodado. Ou a grande Linda de Suza e La valise en carton. Mas, desta vez, por causa da banda da Damaia, levantou-se aí um sururu com contornos ridículos. É que a frustração de expectativas não é um problema da esquerda ou da direita, é um problema de todos que construímos (mos) um sistema, torrámos o guito todo e agora não temos como dar resposta às expectativas que alimentámos durante duas décadas e meia. Se isto não é motivo suficiente para um gajo ficar indignado e escrever uma merda de uma canção, então traga-se o Mubarak que aqui é mais a cena dele. Admitindo perfeitamente a infelicidade da minha frase anterior se não atendermos ao seu toque de ironia, insisto nela por ver à volta de uma canção catastrofistas e anti-catastrofistas a esgrimar de poltrona para poltrona a ver quem é que tem mais razão sobre a vida dos cidadãos que querem apenas continuar a beber leitinho com chocolate sem grandes preocupações.



publicado por jorge c. às 11:38
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