Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011
O Cisne Branco

Quando Tchaikovsky compôs o Lago dos Cisnes, fê-lo com a intenção de criar uma tragédia, mais do que um simples drama, tal como lhe fora encomendado pelo Bolshoi. Esta é a altura de grande crescimento do ballet nas artes do espectáculo. Havia que colocá-lo ao lado do Teatro e torná-lo sublime e transcendente. Para o compositor russo, essa função colocar-se-ia não nos momentos mais trágicos da peça, mas sim nos mais delicados, porque seria precisamente da fragilidade que nasceria a hipótese da perversão.

O mais difícil na vida é ser o cisne branco correndo sempre com uma imagem cândida sob a ameaça de um cisne sedutor e, lá está, perverso. Concorrer com o lado obscuro dos outros é, à partida, uma derrota certa que causa uma frustração tão grande na mais profunda das bondades que a tragédia se torna o final mais evidente. Esta relação clássica entre o bem e o mal está presente na cultura da maioria das civilizações. As relações amorosas são sempre uma boa solução para metaforizar essa disputa, pois a elas está naturalmente agregado o núcleo mais instintivo das emoções, mas não são o problema em si.

Em Black Swan (2010), Aronofsky dá a essa disputa uma face unilateral que cria em si mesma um dilema. Deixa de haver dois lados e a problemática está apenas numa personagem que se debate com os seus próprios demónios. Julgo estar tudo numa frase de Thomas Leroy (Vincent Cassel): "The only person standing in your way is you". Sendo que a tónica é esta, Aranofsky vai explorar todo o universo possível á sua volta sem se concentrar muito numa única causa do dilema. O realizador percebe bem que os problemas psicológicos são muito alimentados pela sociabilização e que isso será condicionante de comportamentos futuros.

Assim, não são só os elementos estéticos ou a brilhante prestação de Portman que fazem deste filme um soco no estômago. As tensões criadas com a sonoplastia reforçando a tendência persecutória ou a própria disposição da narrativa, sempre muito nebulosa apesar da aparente evidência, dão a este filme uma grandeza que exige alguma sensibilidade.

Nina (Natalie Portman) não está ali para ser o Cisne Negro. Ela está ali para ser o Cisne Branco, a sua fragilidade, os seus dilemas e as consequências da sua corrupção.  Nina não quer ser o Cisne Negro, ela quer conseguir executá-o e, nessa necessidade de ser o que não se é, ela vai agudizar uma dor antiga que estava ali escondida, mas que, no fundo, sempre existiu - um cisne branco que acumula demasiados demónios. Porque é nessa existência escondida que está a natureza do filme e é isso que o torna absolutamente belo.


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publicado por jorge c. às 10:23
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