Quinta-feira, 25 de Março de 2010
a fava certa

A menos de 24 horas das eleições para o PSD, chego ainda a tempo de dizer qualquer coisa. Muita tinta foi derramada por causa desta corrida à liderança do partido. Também houve vontade de sangue. No espaço de um mês disse-se tanto e tão pouco sobre aquilo que é o PSD e os seus candidatos que custa a acreditar que vivemos todos no mesmo país. É mais fácil acreditar que se vive no país que convém de semana para semana a cada qual. Julgo que não é por mal que se faz tanta análise distorcida. É apenas a histeria habitual dos actos eleitorais em Portugal que ganha contornos de arena romana ou circo sul americano.

 

Não é a primeira vez que o PSD está tão mal servido de candidatos à sua liderança. A disputa entre Menezes e Marques Mendes marcou a primeira vez que me senti envergonhado por apoiar activamente um partido político, mas também não vou agora expor as razões que me levam a tal apoio, deixando isso para outra altura. O que me interessa neste preciso momento é manifestar o meu desconforto com a total falta de alternativas de poder. O que está a acontecer com os militantes do PSD é que começaram a nivelar as suas escolhas por baixo. Dos 4 candidatos não há um único que se encontre em totais condições de oferecer aos portugueses uma alternativa sólida e de confiança.

 

Não é de todo compreensível que militantes e apoiantes do PSD que andaram durante uma legislatura inteira a criticar José Sócrates pela falta de conteúdo e pela superficialidade das suas políticas, que condenaram o favorecimento mediático das chamadas "causas fracturantes" em deterimento de questões que se têm revelado hoje de uma gravidade sem precedentes, que se insurgiram contra a política dos resultados deste governo, venham agora apoiar um candidato que preenche todos estes requisitos. Pedro Passos Coelho é uma incógnita porque ninguém sabe que princípios ele vai defender amanhã. Aliás, isso pouco lhe parece interessar porque é o circunstancialismo eleitoral que parece formar a sua vontade política. Um homem que já foi a favor das grandes obras públicas em período de crise e que se dizia, ao mesmo tempo, liberal; um homem que agora parece já não achar o mesmo, tal e qual como a privatização da Caixa Geral de Depósitos; um homem que fez campanha com estas incoerências, durante dois anos, contra a direcção do seu próprio partido. Isto para não falar dos ataques dos seus apoiantes a Paulo Rangel desde a sua apresentação como candidato. É que uma coisa é confrontar projectos políticos e outra completamente diferente é estabelecer juízos de valor e de princípio acerca de alguém de quem se disse precisamente o contrário nem há um ano atrás. Não falo obviamente de Rangel candidato ao Parlamento Europeu, mas acima de tudo do líder parlamentar cuja oratória e capacidade de confrontação ao governo pareciam agradar a todos.

 

Mas nem vale a pena entrar por esta guerra civil entre claques de candidatos porque do lado de Paulo Rangel a coisa não é certamente mais simpática. E nem o maior problema de Rangel é a sua entourage mas sim a oportunidade da sua candidatura. Paulo Rangel é, muito provavelmente, a maior revelação da política portuguesa dos últimos 15 anos. Revejo-me em grande parte da sua forma de encarar a política e o espaço que esta ocupa ou deve ocupar. Mas nem por isso este candidato tem de ser uma boa solução para o partido. Quer-me parecer que a candidatura de Rangel foi imprudente. E essa imprudência pode-lhe custar caro mais tarde quando estiver mais à altura deste desafio que é liderar um partido com aspiração e tendência para governar. Paulo Rangel não tem massa política suficiente para se aguentar, e quando digo massa política refiro-me ao apoio e compreensão ou até mesmo ao conhecimento e reconhecimento dos vários sectores da sociedade portuguesa. A sua ideia de ruptura é muito boa e apelativa a quem se mostra um pouco cansado do estado actual das coisas. Contudo, o candidato tem tendência para abraçar mais depressa a famigerada real politik do que a ruptura com um regime decrépito e corrompido por dentro. Isto não dá, como é evidente, qualquer confiança aos cidadãos, e um político para ambicionar mudar alguma coisa tem de transmitir essa confiança com uma conduta objectiva e inequívoca.

 

Ora, depois destas fragilidades dos dois candidatos, cheguei a acreditar que a candidatura de José Pedro Aguiar-Branco pudesse representar a solução de poder que o PSD necessitava para resolver o problema da saída de Manuela Ferreira Leite. Aguiar-Branco, apesar da inultrpassável falta de carisma, reunia a meu ver uma característica fundamental do agrado do eleitorado do PSD - a defesa do regime tal como ele é, um Estado-Providência sem grandes propostas de liberalização disto e daquilo. O candidato seria a mudança dos valores que norteiam os homens da política. Acreditei, enfim, na capacidade que a sua postura séria e a sua rectidão teriam para renovar a confiança dos portugueses naqueles que os governam. No entanto, Aguiar-Branco acabou por se portar como um garoto e adoptou um discurso que só o tem feito perder apoios, tanto dentro como fora do PSD. E ninguém pode acreditar que alguém que está mais preocupado em discutir chatices com amigos do que discutir programas políticos sirva ao país. Nem sequer aproveitou o conhecimento que tinha das pastas mediáticas como líder do grupo parlamentar.

 

Toda esta campanha assustou pela pobreza de espírito e pela histeria. Não consigo imaginar um líder do PSD assim. Mas digo desde já que não acredito que o próximo líder do PSD seja necessariamente Primeiro-ministro. Isso é wishful thinking. Agora, uma campanha e uma liderança são coisas diferentes. Pode ser que as coisas mudem. É esperar.


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publicado por jorge c. às 17:22
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6 comentários:
De ALVITREIRO a 26 de Março de 2010 às 05:35
PIADOLA: Como é que portugal pode andar pra frente a passos de coelho, se nem aguiar lá chega ?


De PDuarte a 26 de Março de 2010 às 09:44
quanto ao psd nem uma virgula me diferencia daquilo que pensas.
quanto ao blog...até o Sidónio fica a matar.
abraço deste seguidor.


De Lynce a 26 de Março de 2010 às 11:47
Não é só o PSD que está mal servido de candidatos, muito embora eu acredite no Pedro Passos. Portugal tem um défice muito grande de homens sérios, transparentes e com capacidade de trabalho capazes conduzir os destinos deste país.


De mdsol a 26 de Março de 2010 às 12:13
Quem bem se quer bem se encontra no blog!

:)))


De Luis Melo a 26 de Março de 2010 às 12:35
Concordo com quase tudo...o porquê do meu voto (http://eramaisumfino.wordpress.com/)


De António Parente a 26 de Março de 2010 às 13:13
O PSD é um partido sem rumo, sem ideologia e sem programa. Tem três candidatos com très programas diferentes: um liberal, um conservador e um mais ou menos idefinido (pelo menos para mim). São três partidos dentro de um. Não se pode funcionar assim. Há um PSD que devia estar dentro do PS, outro dentro do CDS e outro ou ficar com o actual PSD e transformá-lo num partido social-democrata (um espaço que um partido descaracterizado como o PS não preenche) ou decidir por ser liberal.


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