Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011
A música portuguesa se gostasse dela própria

Não me recordo onde ouvi Fernando Tordo dizer que os putos tocam o que ouvem na rádio. Nada mais verdade, se entendermos "rádio" como um símbolo da difusão cultural da época. Tal como eu, milhares de pessoas da minha faixa etária, e até das que estão à volta (permitam-me este exercício de egocentrismo) cresceram sob uma forte influência da cultura anglo-saxónica. Talvez mais do que qualquer outro grupo etário, aquele em que me incluo levou com uma dose grande da cultura popular britânica e americana. A partir desse momento, a expressão cultural, o raciocínio artístico ou a linguagem criativa têm uma matriz não tradicional, exterior ao meio. É natural que assim a expressão se faça nesse sentido.

A minha base cultural é americana. Quando penso em fazer música ou tocar faço-o naturalmente em blues, country ou rock'n'roll. Quando imagino um diálogo para ficção humorística, imagino-o numa língua que não é a minha. Mas quando penso ou escrevo no sentido mais literário faço-o em português. A minha cultura tem, assim, natureza diferente que varia consoante a forma como me chegou o objecto cultural e a qualidade desse mesmo objecto ou o interesse que ele suscita.

Já se tentou de tudo para modificar esta realidade. Normalmente vai-se pela lógica da obrigação: quotas, imposições editoriais ou de agenciamento, etc. Mas a cultura popular portuguesa parece não interessar aos mais novos, àqueles que estão em formação e mais permeáveis à influência cultural. A imposição editorial, por exemplo, não resulta porque para o fazer tem de se ter algum poder (financeiro e de lobby). Em Portugal só o tem quem participa no mercado mainstream que é um mercado com um enorme défice de criatividade, qualidade e inovação. Qual será a solução?

Ontem, pouco antes do Benfica, falávamos de Tiago Pereira e dos seus documentários. "A música portuguesa se gostasse dela própria". É uma frase do João Aguardela (vide vídeo vici) que descreve muito bem a raiz do problema: do preconceito à falta de auto-estudo. Mais tarde, passámos perto do Rock Rendez-Vous e lembrei-me do Aguardela, de como nos faz falta haver referências com essa auto-estima de que o próprio fala.

A importância dos docs do Tiago Pereira está exactamente aqui: na forma como nos descobrimos e reinventamos. É essa a solução.



publicado por jorge c. às 13:56
link do post | comentar | partilhar

1 comentário:
De Anónimo a 25 de Fevereiro de 2011 às 16:00
Conhece o projecto açoreano "O Experimentar na m'incomoda" do Pedro Lucas? É chamado o mais fiel herdeiro do Aguardela.


Comentar post

Um blog de:
Jorge Lopes de Carvalho mauscostumes@gmail.com
pesquisa
 
arquivos

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

tags

todas as tags

blogs SAPO
visitas
subscrever feeds