Quinta-feira, 3 de Março de 2011
Infantilidades

Sou insuspeito de gostar do Primeiro-ministro. Mas há situações em que é impossível não tomar partido porque, em rigor, são questões mais abstractas. É o caso desta anormalidade da conversa anti-políticos. "Os políticos" parecem ser uma entidade medonha. Tudo porque um conjunto significativo de cidadãos, devido à ignorância e à frustração, não consegue discernir entre pequenos ódios pessoais de factos, de lei, de democracia, enfim, de regras. Uma das regras é a presunção de inocência. É claro que para um político há questões éticas e morais com mais peso e que têm de ser muito bem medidas. Mas também é válido para o lado que acusa. Senão, começávamos todos a insinuar coisas sobre todos os governantes e ficávamos - se calhar para gáudio de muitos - sem classe governativa, por nossa conta e risco, power to the people.

Vem isto a propósito de mais um raciocínio recheado de demagogia e incapacidade de sentido crítico objectivo e devidamente definido pelas regras e pelo bom senso. Comparar um plágio de uma tese de doutoramento, que é algo mais ou menos detectável, com uma licenciatura supostamente tirada ao Domingo (e digo supostamente porque existe a possibilidade de não haver implicação directa de José Sócrates) é desonestidade ou, no mínimo, desnorte. Isto porquê? Porque não há uma prova concreta que determine o dolo. Comparar qualquer coisa que seja com um membro do aparelho de Estado estar a passar férias quando se está perante uma das maiores crises políticas por falta de democracia no próprio local de férias, sem sequer se dar conta, é um disparate. Ainda que seja comparável (dou de barato a capacidade imaginativa dos cidadãos), são factos que dizem respeito a cada indivíduo e que devem ser escrutinados e avaliados individualmente e nunca presumindo que se trata de uma característica dos políticos em abstracto. Até porque a consciência moral será sempre diferente em cada indivíduo, muito embora haja um conjunto de valores definidos com carácter geral.

Tomar cada caso destes como um mecanismo para acusar a classe política portuguesa (vejam, é só aqui e nas grandes ditaduras, a comparação extraordinária a que esta conversa conduz) de falta de responsabilidade política é pura e simples demagogia. Há uma manipulação emocional para tentar chegar a uma conclusão política. Sem disfarces, sem grande sofisticação - pura demagogia. Os políticos em Portugal e em grande parte das democracias do mundo são chamados à responsabilidade das suas opções políticas na acto eleitoral. Quando existe alguma falha na conduta ética minimamente exigida deve, pelo menos, haver factos objectivos que suportem a tese da obrigatoriedade moral do abandono do cargo.

Para além disto tudo, misturar questões ético-morais de grande relevância na vida pública com "passar à frente de velhinhos" chega a meter pena por nem haver ponta de discussão possível tal a mediocridade da perspectiva. E como se sabe, não se explica a mediocridade aos medíocres.

Não ponho em causa de forma alguma que todos estes problemas sejam passíveis de ser verdadeiros. Mas também não ponho em causa que o não sejam. E esta dúvida não pode tombar para um dos lados por capricho, tem de ter um fundamento que a sustente.

É claro que eu gostava que José Sócrates fosse um bronco irresponsável e mentiroso em todos os aspectos da sua vida. É claro que eu gostava que Armando Vara ardesse empalado em Praça Pública. Mas o meu gosto particular por estes indivíduos ou a minha animosidade política, não pode interferir com o escrupuloso cumprimento das regras mínimas do bom senso e da ponderação. Temos uma classe política fraca ou até medíocre? Não digo que não. Este não é o Primeiro-ministro que deveríamos ter? De certeza absoluta que não. Mas não vale tudo e, acima de tudo, há que distinguir o essencial do acessório para uma discussão honesta.


tags:

publicado por jorge c. às 11:30
link do post | comentar | partilhar

2 comentários:
De Aurea Mediocritas a 6 de Março de 2011 às 08:58
Sabujo do PS.


De jorge c. a 6 de Março de 2011 às 10:40
Caro Aurea Mediocritas,

eu tenho uma família para alimentar, sabe? Em tempos de crise a corrupção é remuneração.


Comentar post

Um blog de:
Jorge Lopes de Carvalho mauscostumes@gmail.com
pesquisa
 
arquivos

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

tags

todas as tags

blogs SAPO
visitas
subscrever feeds