Segunda-feira, 14 de Março de 2011
A precariedade da consciência política

Não se pode ignorar que o que aconteceu por todo o país no Sábado é um protesto com relevância. Resta-nos é perceber que tipo de relevância é que está aqui em causa: quantitativa, qualitativa ou as duas.

Ao longo da tarde de Sábado fui acompanhando a manifestação através dos directos na televisão que, de forma aleatória, iam recolhendo testemunhos. Não se tratam de peças editadas e trabalhadas com uma narrativa específica, mas sim entrevistas em directo, sem qualquer critério, feitas ao longo de toda a manifestação. A ideia que passou para fora foi que se tratava de um protesto político contra a governação. No meio disso havia um tópico: a precariedade. Mas, para muitos dos manifestantes, a precariedade é um problema político imediato.

Vejamos por que é que isto não faz sentido. A precariedade, simbolizada pelo recibo verde, é uma realidade cada vez mais preocupante. Ninguém duvida disto. O tratamento que damos ao tema não pode, por isso, cair numa reivindicação inconsequente. Temos o exemplo da questão levantada pelos falsos recibos verdes que não são objectivamente um problema que compete ao poder político mas sim ao poder judicial. Dir-me-ão que os tribunais não funcionam, ao que eu respondo que se não recorrermos a esses mecanismos é certo que eles não funcionam. E o discurso à volta de tudo isto torna-se inconsequente porque não avalia bem todos os dispositivos democráticos espelhados no princípio da separação de poderes. Mesmo a conversa do não funcionamento da justiça tem muitas vezes que ver com a subjectividade do caso. Não é por eu achar que o meu recibo verde é falso que ele o é, de facto, e que isso é um problema geral. Confundir uma frustração com um direito é um erro. O que aconteceu no Sábado foi mais um aglomerado de frustrações do que uma reivindicação certa, objectiva e bem definida. A indignação, a vergonha e todos os outros sentimentos expressados não são uma reivindicação, são sentimentos e a sua manipulação é demagogia.

Posto isto, é legítimo que nos manifestemos contra algo que nos parece ultrapassar todos os limites éticos. Até aqui, de acordo. Acontece que a não existência de um caderno reivindicativo dá azo a que a manifestação não tenha uma narrativa coerente. Se este era um protesto contra a precariedade porque razão se tornou numa manifestação anti-governo?

Em rigor, as medidas propostas por alguns dos manifestantes (um nicho com pouca expressão no meio de 300 mil pessoas) não se afastam daquilo que é uma parte do programa do Bloco de Esquerda. Falar em demissão do governo torna-se, então, numa manobra pouco séria quando o Bloco saiu há 1 ano e meio de eleições com 9,81% dos votos; depois de ter apresentado uma moção de censura que foi chumbada pelo Parlamento na semana passada. Tudo isto - esta reverência pela preponderância popular - é um desrespeito absoluto pela democracia representativa e, acima de tudo, pela memória de uma ditadura sem partidos e sem representatividade. Falar-se, então, de um novo 25 de Abril é falta de consciência política, da mais básica possível.

Também a participação da JSD é bastante caricata. Que eu saiba, a JSD tem deputados na bancada parlamentar do PSD. O que andam eles a fazer? Na manifestação foi evidente o que andaram a fazer: propaganda anti-governamental. O que é absolutamente legítimo, mas convenhamos que encerra só por si a ideia de uma manifestação sem pretensão anti-governamental. E se o problema era a política laboral, onde está a proposta política da JSD até hoje que, ao que eu saiba, ainda é uma organização político-partidária?

Chegamos aqui a um ponto em que se torna tudo muito confuso e inconsequente. É uma manifestação aberta que permite que todos apresentem as suas reivindicações. Essas reivindicações são anti-governamentais. Logo, é nisso que a manifestação se torna. E se o é, porque razão aquelas 300 mil pessoas não votaram nesse sentido nas últimas eleições? Revolucionar um sistema democrático para transformar o sistema político em quê? Se não aceitam resultados de um sufrágio universal, aceitam o quê?

Respondendo à minha primeira questão: a manifestação de Sábado tem relevância quantitativa. O descontentamento de centenas de milhares de pessoas não pode ser ignorado pelos responsáveis políticos, nomeadamente pelo Governo, pelo Presidente da República e por todos os partidos com assento parlamentar. Não foi uma manifestação com relevância qualitativa devido à vacuidade do protesto, à inconsequência e diversidade de movimentos gerados espontaneamente sem qualquer ligação de conteúdos entre si. Não há muito a retirar de discussões de café agrupadas na rua, mesmo que isso pareça uma coisa linda. A estética revolucionária engana sempre.

Sou profundamente solidário com os receios, frustrações e com o desespero do próximo. Sou intolerante à demagogia.



publicado por jorge c. às 14:40
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1 comentário:
De Funes, el memorioso a 14 de Março de 2011 às 23:13
Estou de acordo consigo em praticamente tudo.


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