Domingo, 20 de Março de 2011
it's only words

Fiz uma experiência hoje com uma tenebrosa piada de mau gosto. Num universo de 4 pessoas, 2 ficaram irritadas. É uma perentagem que me assusta. Por que é que se liga tanto às palavras? Num célebre Crossfire, Frank Zappa explicava que eram só palavras, que não devíamos fazer grande alarido sobre isso. Piadas sobre a morte, a doença, a incapacidade, a identidade, são sobretudo piadas sobre a condição humana. Porque - nas sábias palavras de Eric Cartman - a vida é uma merda e depois morremos. Valerá a pena estarmos tão preocupados com a parvoíce alheia?

As pessoas levam-se demasiado a sério. Criaram o hábito de se lamentar elevando os sentimentos a níveis que a mais profunda das misérias não atinge. Finge-se a dor que deveras se sente, como dizia o outro. Parece uma coisa mais ou menos definida por regra: oh! temos de sofrer e não suportamos que nos falem do assunto. Será que a minha dor por ter perdido um pai é mais profunda que a dor de um amigo pelo mesmo motivo? Isso é quantificável? Será o meu sentido de humanidade maior ou menor do que o de alguém que tem obrigatoriamente de lamentar a sua própria dor? I feel the pain of my brothers in Africa. Claro. Todos os dias, logo após o pequeno-almoço.

Sabem por que é que gosto do Ricky Gervais? Porque ele vai para além. Ele transgride a mais fina das linhas do mau gosto e provoca um choque naqueles que menos se habituam a libertar a sua cabeça de formas convencionais. Os palavrões, por exemplo. Qual é o problema das pessoas com os palavrões? Uh! As pessoas conseguem ser cruéis com os outros, dizer as maiores barbaridades e ofender a dignidade alheia, e ainda assim: palavrões é que não!

Seja pela utilização de palavrões ou pela acidez das piadas, não há nada que ofenda senão a cabeça do ofendido que vê o mundo com a sua própria incapacidade de se rir de si mesmo. Julgar o parvo pela piada é, também, desconhecer a sua intimidade e o seu universo. E este é o primeiro passo para o ressentimento - julgar.

O meu pai lê este blog diariamente. Se eu disser aqui que preferia que ele estivesse morto para não ter de passar pelo constrangimento de lhe ligar para dizer "Feliz dia do Pai" ou porque este é um dia que me faz gastar dinheiro que em tempo de crise não me convém, ele ia achar piada. Porquê? Porque ele não se leva demasiado a sério. A relação não se faz disso, mas da cumplicidade e da compreensão que levam a que isso seja possível sem que para tal eu tenha de me ver privado dos 50 euros que vou receber de herança, já que o resto ele gastou com a família gerada no Ultramar. It's just words.


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publicado por jorge c. às 00:34
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1 comentário:
De Daniel João Santos a 20 de Março de 2011 às 20:52
excelente texto. Bravo!


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