Quinta-feira, 24 de Março de 2011
A confiança em nós próprios

Sobre o despropósito de uma crise política neste preciso momento já citei o artigo de Pedro Santos Guerreiro há uns posts atrás. Julgo que não será necessário dizer mais nada. De leitura obrigatória será também este excelente post do Paulo Pinto - uma análise lúcida e equilibrada como pouco ou nada se tem visto. Pouco mais há a dizer, também.

É verdade que este assunto agora passará apenas para os compêndios da História ou para os arquivos dos mais combativos como argumentário de arremesso. O que importa agora são as eleições, a campanha, enfim... está-se mesmo a ver o filme. Não nos bastava já o risco de agravamento da situação económica do país, ainda vamos ter de assistir a uma trágica guerra civil entre as tropas sedentas de sangue - uma guerra civil larvar, como um dia ouvi Irene Pimentel dizer.

Contudo, não posso deixar de relevar o que aconteceu ontem, no sentido do que significa para a nossa democracia. Guerras à parte, uma crise política não pode ser inevitável quando se está no momento fundamental para restabelecer a confiança do exterior no país. Dê por onde der, o país tem de saber unir esforços mesmo com uma governação de que não gosta. O que é também muito relativo, visto que este foi o Governo eleito há um ano e meio. Mas, já lá vamos. Importa primeiro perceber que o problema da crise portuguesa é hoje um problema da confiança dos nossos credores na nossa capacidade enquanto devedores. A confluência de esforços é, nesse sentido, fundamental. Não pode o Governo ignorar as instituições representativas dos portugueses, nem o Parlamento confundir um instrumento crucial de restauração de confiança com uma moção de censura.

O Governo é eleito para tomar as decisões que achar convenientes para a prossecução do interesse nacional. O Plano de Estabilidade e Crescimento não é passível de ser votado na AR, é um compromisso que temos com a UE e cabe ao Governo tomar as medidas que achar adequadas à sua concretização. Foi este o Governo que elegemos para tal quando todos já sabíamos que estávamos perante uma crise grave.

É certo que nem só de actos eleitorais se faz a democracia. Mas, num momento tão delicado como é este que vivemos, valores mais altos se levantam, dir-se-ia.

O que aconteceu ontem foi um total desrespeito pelos resultados eleitorais, pela vontade soberana do Povo. O que aconteceu ontem foi confundir a vontade de mandar Sócrates embora com a necessidade de mostrar coesão nacional em nosso próprio benefício. Estamos agora mais perto de nos tornarmos um império de ressentidos, abertos cada vez mais à demagogia que nasce nas ruas com a irresponsabilidade de quem não compreende as regras do jogo nem quer compreender; de quem não se esforça nem admite que os outros o façam. Este foi só o primeiro passo para afundarmos a confiança em nós próprios.



publicado por jorge c. às 10:51
link do post | comentar | partilhar

1 comentário:
De Irene Pimentel a 24 de Março de 2011 às 23:34
partilhei no facebook


Comentar post

Um blog de:
Jorge Lopes de Carvalho mauscostumes@gmail.com
pesquisa
 
arquivos

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

tags

todas as tags

blogs SAPO
visitas
subscrever feeds