Segunda-feira, 25 de Abril de 2011
A esperança que a democracia tem

A solução encontrada pela Presidência da República para a celebração do 25 de Abril em cerimónia solene foi muito bem conseguida. Sem Assembleia da República, era urgente marcar este 37º aniversário do 25 de Abril com uma cerimónia simbólica e forte. Era, por isso, de esperar que os discursos dos ex- Presidentes e mesmo o do Presidente se centrassem no momento sui generis da democracia em que nos encontramos.

De um modo geral, todos os discursos foram conduzidos pela mesma narrativa, apesar de diferenças significativas na sua gestão entre passado, presente e futuro. E é precisamente no momento actual que todos convergiram numa mensagem de cidadania e responsabilidade de todos, uma mensagem clara para uma democracia regenerada e revigorada. Talvez daí ter sido transversal a ideia pessoana de uma consciência de nós próprios e do que queremos fazer de nós.

Neste sentido, o discurso de Jorge Sampaio tem o brilhantismo da leveza e da serenidade, da lucidez do compromisso e da assunção dos erros. Sem dramas. Mas será necessária uma nova atitude, diz Sampaio. E essa atitude passará sempre por uma restauração da confiança para que possamos crescer consistentes. Também Sampaio se deixou convencer pelo problema do défice. A vida foi secada pelo défice e agora é preciso uma solução. Ironias do destino.

A tónica da integração europeia foi de Mário Soares que, num discurso competente, mostrou um quadro evolutivo da nossa existência em democracia e que passa hoje, fundamentalmente, por uma existência europeia. A cidadania europeia, coisa em que muitos ainda não pensam, é essencial para uma adequação mais justa e equitativa das regras, para uma maior solidariedade europeia. Para Soares, a crise cresceu dessa falta de solidariedade.

Eanes voltou um pouco ao mote de Sampaio, no sentido da autoconsciência. No entanto, concentrou-se mais na ideia de responsabilidades passadas, na "passividade cívica", na irresponsabilização individual e política. Foi também o único a lembrar os perigos da demagogia num contexto tão difícil. No fundo, foi um discurso muito semelhante ao de Sampaio na sua natureza, mas com um tom negativista que se afastou de todos os outros e que talvez tenha pecado por esse tom excessivamente negro.

É interessante ver como tudo isto traça o nosso perfil. Entre a saudade e a esperança, entre a culpa dos outros e a nossa própria culpa. Cada um a seu jeito, com raros movimentos de equilíbrio. Porque responsabilidade é a palavra que nos consome e que nem sempre sabemos o que fazer dela. Ela está ali, existe, nós sabemos isso e usamo-la em proveito próprio.

Salta também do discurso de Ramalho Eanes a ideia de um consenso político alargado que irá servir o discurso de Cavaco Silva. Ficou no ar se esta ideia pretende ser uma mensagem para os partidos se entenderem formalmente ou para deixarem apenas quezílias menores de lado. Mas o Presidente não insistiu e preferiu transmitir outra mensagem que pairou em todos os outros discursos: a ideia de que há gente capaz e competente, de que há uma esperança e um futuro, de que podemos ter cada vez mais mérito. E tudo isto só pode crescer e melhorar com uma cidadania forte e com o exercício exemplar da mesma, desde o voto ao caminho comunitário, feito de esforço colectivo. A História, lembrou Cavaco, existe para nos superarmos. No fundo, hoje como nunca, está nas nossas mãos.

 

 



publicado por jorge c. às 13:07
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11 comentários:
De Cristiano a 25 de Abril de 2011 às 18:43
É a conversa da treta do costume, a que o autor deste blogue adere. Fala-se muito e trabalha-se pouco. Dizem-se palavras lindas, responsabilidade, democracia, unidade, etc.., mas o que é certo é que cada um procura satisfazer apenas os seus interesses pessoais.
O nosso glorioso passado? Até me dá vontade de rir. Roubámos, matámos, impusemos, esbanjámos. Nunca construímos nada a partir de dentro, mas tudo fomos buscar ao exterior. Há os que ficam cada vez mais ricos e os que ficam cada vez mais pobres. Os nossos historiadores deviam contar a verdadeira história em vez de enaltecerem os alegados feitos dos portugueses.
Fernando Pessoa? Um narcisistazito, obcecado consigo próprio, repetitivo e monótono, fraquinho, fraquinho como este país.


De Maria Teresa Oliveira a 25 de Abril de 2011 às 22:04
Bom, este Cristiano é ultra pessimista e para ele, Portugal é o piorio como país. Não creio que o seja. Já tivemos de tudo, é verdade, mas também temos gente de muito mérito que é muito apreciada lá fora. Mas é caracteristica do português dizer mal do que é seu. Se calhar por isso é que não saimos da cepa torta. Estamos sempre à espera que os governos façam tudo, enquanto alguns vão esbanjando o dinheiro que não têm e pediram emprestado. Com a maior desfaçatez e irresponsabilidade. Sejamos mais conscientes, mais unidos e só assim o país irá ter hipótese de futuro.


De Pao Metálico a 26 de Abril de 2011 às 01:43
Ilustre Cristiano,

E o seu glorioso passado, é exactamente qual?


De Cristiano a 26 de Abril de 2011 às 10:05
Caro Pao (???!!!!)

Não tenho glorioso passado, mas também não passo a vida a dizer que o tenho, percebeu?


De Pão Metálico a 26 de Abril de 2011 às 10:27
Caríssimo Cristiano,

Se não tem glorioso passado, que tipo de passado, referências, ou o que quer que seja, tem para classificar Fernando Pessoa de fraquinho?

Para quem afirma que não passa a vida a dizer que não tem passado, só o facto de se exibir num blogue ajuizando Pessoa como o faz já é uma façanha.


De Cristiano a 26 de Abril de 2011 às 13:36
Caro Pao

Não é preciso ter um passado glorioso para verificar se um escritor tem valor ou não. Basta ter conhecimentos sobre Literatura. Para reconhecer um génio não é preciso ser génio. E para reconhecer um não-génio também não.


De Funes, el memorioso a 27 de Abril de 2011 às 09:03
Caro Cristiano,

Não acredito em vacas sagradas e, por isso, reconheço-lhe inteiro o direito de qualificar Fernando Pessoa como poeta monótono, fraquinho, fraquinho. Simplesmente, não sendo essa a opinião comum, a sua afirmação carece de argumentação que a fundamente. Está disposto a apresentá-la?
Do meu lado, posso adiantar-lhe que o "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena" e "o menino de sua mãe" são composições miseráveis. Mas são excepções. Por exemplo, o poema:
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo...
honra qualquer literatura.



De Duarte a 25 de Abril de 2011 às 22:35
Estamos falidos política e financeiramente.Esta é a nossa realidade para a qual não vislumbro solução, com os partidos que temos.Oxalá esteja enganado!


De Funes, el memorioso a 27 de Abril de 2011 às 08:57
Cavaco é uma sombra. Pertence àquele núcleo de falsos líderes que são eficazes a gerir o tempo de vacas gordas, mas que se apagam completamente quando a crise chega e os verdadeiros líderes se revelam. A crise revelou o Cavaco que Cavaco sempre foi: um politicote pequenino e medíocre. Tudo nele hoje parece um esforço terrível para não se deixar abater. Gasta toda a energia nesse esforço e não é capaz de uma decisão. Talvez esteja doente.


De jorge c. a 27 de Abril de 2011 às 10:59
Funes,

Era importante que os discursos do 25 de Abril fossem discursos galvanizadores do ideal democrático. Com o crescimento da intolerância aos agentes políticos, muitas vezes absurda, outras vezes justificável, o reforço da narrativa cidadanista tornou-se uma necessidade do discurso político. Tanto se tornou que acabou por estar presente no discurso dos 4 oradores. Isto é inegável.
Aparte disso, notou-se uma série de particularidades de cada um dos cavalheiros. Soares na estratosfera perfeitamente nas tintas para a solidez financeira do Estado e unicamente centrado numa narrativa europeia fictícia. Sampaio a sacudir a água do capote e a atirar a bola para a frente e Eanes a querer responsabilizar tudo e todos com um moralismo que já lhe conhecíamos. Isto foi aquilo a que assistimos. O bónus foi a falta de - eu sei lá! - originalidade, entusiasmo, seja lá o que for, de Cavaco.
Mas estas são características destes personagens. Outra coisa completamente diferente é o papel simbólico destes discursos para um país que celebra a soberania popular. Daí a necessidade de se galvanizar.
Estamos demasiado concentrados na nossa desgraça para perceber que não é a lamentar e a culpar que vamos sair dela.


De Funes, el memorioso a 27 de Abril de 2011 às 12:25
Concordo integralmente consigo neste último comentário.


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