Terça-feira, 6 de Setembro de 2011
Divide et impera

Existem duas maneiras legítimas de fazer oposição em democracia, compatíveis entre si: demonstrar o erro ou promover uma estratégia dissimuladamente. A segunda será mais difícil quando na governação está um executivo simples e sólido, ainda que minoritário. Nesse caso, como aconteceu há uns meses, só uma união entre facções divergentes (esquerda e direita) poderá ter sucesso para derrubar um Governo. Esta solução é arriscada; dir-se-ia contraproducente. No entanto, será mais fácil quando se trata de um Governo de coligação onde a fronteira ideológica está perfeitamente definida, tal como no momento actual.

A estratégia que é, hoje, evidente para derrubar o Governo, apesar de não trazer novidade, é muito interessante. Mais interessante do que a anterior, que é apenas feia. Ela passa, essencialmente, por empurrar um dos elos da coligação contra o outro, criando-lhe a dúvida sobre o seu valor executivo. Isto é quase Oteliano (ou Shakespeariano, se preferirem). Na esperança de derrubar um Governo por outros meios que não as eleições, a oposição actual tenta que seja, antes, o Governo a derrubar-se a si mesmo. O BE, por exemplo, chega mesmo a permitir-se participar nesta demanda ao lado dos que lhe chamaram irresponsável e inconsciente por alturas da sua famosa moção de censura ao executivo anterior (repare-se que eu tento, sem habilidade, aplicar a mesma estratégia).

Otelo não aguentou a pressão que lhe foi induzida por Iago. A dúvida e a consequente revolta acabariam por triunfar e derrubar o próprio Mouro. Contudo, Iago nunca se deixou apanhar.



publicado por jorge c. às 00:51
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5 comentários:
De Funes, el memorioso a 6 de Setembro de 2011 às 09:26
Só que aqui o papel do instilador da dúvida não está na oposição. Está no governo e é primeiro-ministro. Foi ele que não designou Paulo Portas para o Conselho de Estado; foi ele que nomeou Beleza não sei para que posto de consultor, interferindo na esfera de competências do Ministro dos Negócios Estrangeiros; foi ele que - em prejuízo do mais competente Bagão Félix - nomeou Lopes para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
E outra coisa: no fim, a não ser que fosse necrófilo (eventualidade que a história não nos desvenda), Iago não come a miúda.


De jorge c. a 7 de Setembro de 2011 às 00:24
Não discordo. Mas tentei concentrar-me na estratégia das oposições. Acontece que dentro do acordo de coligação, o CDS aceitou as regras do jogo. Mas isto pode ser outra discussão, apesar de podermos discuti-la a par do que digo no post, claro.
Quanto ao Iago, a cena dele não era a santinha da Desdémona.


De Funes, el memorioso a 7 de Setembro de 2011 às 08:50
Não era, de facto. Mas ele era a cena dela. E com cuidado ele tinha-a levado de brinde.

PS - A minha Desdémona é Rita Lello.


De jorge c. a 7 de Setembro de 2011 às 10:26
Funes, dos 3 Otelos que vi, a pior Desdémona de todas foi Rita Lello. O Bill até deve ter dado voltas na campa. Atenção que ninguém lhe tira o mérito de ser bem boa.


De Reimberg a 26 de Abril de 2013 às 05:30


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