Domingo, 25 de Setembro de 2011
The joke is on you

A tendência, mais do que a moda, é um conceito muito interessante. Quando olhamos em volta e conseguimos perceber que algo está a nascer de uma idiossincrasia muito particular para se tornar num comportamento de grupo, numa tendência de época, acabamos por preferir a nossa velha atitude conservadora, demasiado portuense do "eu não papo grupos mas também não me vou chatear por causa disso".

Um dos últimos conceitos fashion da época é o de hipster. Trata-se de um conceito que mal nasceu começou logo a levar pancada. Ora, se o hipster é o pretensiosozinho anti-comercial, a sua crítica, baseada em moda de circunstância, é paradoxal. Não sei se me faço entender. 

Escrevo isto depois de uma tentativa de provocação que me fizeram. Confesso que, apesar de não ser muito dado a provocações (gosto de discutir, isso é outra coisa), fiquei a pensar no conceito. Hipster. Durante anos chamámos-lhe outra coisa qualquer. Sempre houve gente que se tentou marginalizar de uma forma muitas vezes patética, afastando-se do mainsteam ostensivamente como que por uma jogada de superioridade moral, qual bofetada de luva branca na imundice popular. Notou-se sempre isso na música. Todos tivemos o amigo que só ouvia coisas que ninguém conhecia. É claro que vai daí uma grande distância até à nossa própria ignorância. Eu não posso acusar alguém de pretensiosismo quando o problema é, efectivamente, a minha falta de conhecimento, de vontade e de disponibilidade.

Mas, este caso particular da moda do hipster muda tudo. Se o hipster se tornou numa personagem do mainstream, facilmente acusável, o verdadeiro hipster passou a ser o seu acusador, aquele que não alinha nas modas. O processo inverteu-se. E daí talvez não. De facto, o pretensioso esteve lá sempre, no crítico, no que não admite comercialização da sua própria atitude. Os conteúdos é que são flutuantes. A alternativa (ou o indie, como preferirem) de ontem é o mainstream de hoje. O alternativo é que mudou os gostos para não se deixar comercializar. Como se um disco pudesse deixar de ser bom de um dia para o outro só porque toda a gente o ouve. O protótipo do hipster nunca é genuíno por passar demasiado tempo preocupado com os outros, com o mesmo grau de futilidade de quem passa demasiado tempo ao espelho. Não existe grande diferença entre a arrogância vaidosa física e a intelectual. São ambas defeitos que nos impedem de sociabilizar mais, de comunicar, de estarmos de bem com a vida e nos obrigam a inventar uma marginalidade ridícula e inconsequente.


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publicado por jorge c. às 12:21
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1 comentário:
De Reimberg a 26 de Abril de 2013 às 05:28


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