Domingo, 27 de Novembro de 2011
Do património imaterial

Andamos há quanto tempo a questionar o que é e o que não é cultura? Entre eruditismos e popularismos, a cultura deverá ser algo como um património material e imaterial de uma determinada realidade circunscrita e que representa os hábitos e tradições de um determinado colectivo. Não será uma definição rigorosa, é certo, mas, ajuda a compreender a relevância do seu reconhecimento enquanto fenómeno identitário. A cultura será, portanto, a forma como um certo grupo percepciona e representa a sua realidade ao longo do tempo. É uma linguagem.

Não obstante ser um país com características culturais muito interessantes, Portugal não tem uma marca cultural imaterial forte. Ao longo da sua História negou-se a preservar esse património, nomeadamente no séc. XX onde a arte foi confundida transversalmente (diabolizada ou instrumentalizada) com as ideologias - imediatismos que nos fizeram perder alguma consistência. A intelectualização do património cultural popular foi, por isso, fudamental. Para que a cultura popular sobrevivesse foi preciso que as elites a valorizassem. Ainda assim, são poucos os elementos artístico-culturais reconhecidos como uma marca. O Fado será, talvez, o mais representativo, a par do Vinho do Porto.

Enquanto fenómeno artístico, o Fado é um excelente paradigma cultural, na forma de representar a percepção de uma realidade. Não querendo entrar em grandes análises antropológicas, as quais não domino, será mais ou menos consensual que não haverá grande diferença nos sentidos e nos sentimentos dos homens. Talvez seja apenas a experiência desses sentidos - o empirismo - que muda na percepção da realidade. É precisamente aí que nasce a causa da arte e da cultura. O Fado será, assim, a forma como um determinado colectivo sente a sua realidade, assim como o Blues, o Flamenco, o Semba e por aí fora o serão das suas próprias realidades. É a linguagem que muda e que constitui, desta forma, um contributo para o enriquecimento e diversidade das civilizações e, em bom rigor, da humanidade.

Vimos, então, por que razão é importante reconhecer o património cultural das nações. Vejamos agora, também, a importância de ser reconhecido.

A dimensão de um país depende, hoje, da forma como é visto pelo exterior. Não citarei Spínola mas, se é importante contribuir para uma aproximação e harmonização dos povos - o lado positivo da globalização - também é importante que esse contributo seja a partilha da cultura de cada um. Vivemos do Turismo, mas não basta. O nosso desenvolvimento e a nossa credibilidade também se fazem da forma como tratamos o nosso património. O reconhecimento do nosso património imaterial é, ao mesmo tempo, o reconhecimento do nosso desenvolvimento e da nossa disponibilidade para sustentar a nossa própria identidade.

Não é preciso fazer disto patriotismo serôdio. Também não é preciso tornar isto num complexo de provincianismo. Se há factores culturais que são relevantes na nossa identidade, então devemos trabalhá-los e promovê-los, torná-los mais competentes e marcantes, separar o trigo do joio, inseri-los nos manuais e fazer deles um elemento da nossa dimensão social.


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publicado por jorge c. às 13:46
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3 comentários:
De Funes, el memorioso a 29 de Novembro de 2011 às 14:38
E quem é o moço da foto que parece tanto ter feito para que essa irrelevante declaração de que o fado é não sei o quê se tenha tornado possível?


De jorge c. a 29 de Novembro de 2011 às 15:27
É o Alain Oulman, minha amibazinha.


De Funes, el memorioso a 29 de Novembro de 2011 às 14:44
Penso que o facto de um ocasional estrangeiro ter ouvido dizer que a enjoativa Unesco declarou o fado não sei o quê o terá comovido tanto como a mim, o facto de a enjoativa Unesco ter declarado que o Kung-Fu Shaolin era não sei o quê.
O meu entusiasmo pelo kung-fu shaolin não aumentou. Nem sei o que é. Deve ser um daqueles infinitos modos orientais de dar porrada.
O meu estrangeiro também se deve contentar com o facto de saber que o fado é um dos infinitos modos de cantotia.


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