Segunda-feira, 22 de Abril de 2013
Carta aberta a Miguel Gonçalves

Caro Miguel Gonçalves,

 

Permita-me que não o trate por tu. Gosto de formalismos. Com eles, habituamo-nos ao recato, à cautela e a uma estratégia honesta de relação com os outros.

Mas, não lhe escrevo para conversar sobre formas de tratamento. Não lhe quero tirar tempo desnecessário às suas actividades. Louvo, até, essa energia e questiono-me como seria a minha vida se o meu objectivo fosse, tal como o seu, trabalhar para enriquecer muito, pornograficamente, nas suas palavras. Admiro imenso.

Dirijo-lhe esta carta, antes, para lhe mostrar o meu desagrado (repúdio, até) pelas suas pornográficas palavras no jornal i, de hoje. Para mim, a pornografia nas ideias, nas palavras e nos actos é uma forma pouco elegante e explícita de fazer o que quer que seja. A pornografia é grosseira e bruta. Não conhece as maravilhas do sonho. 

Eu compreendo que esta seja a linguagem do exagero que necessita para fazer o seu negócio. Julgo que é psicólogo de formação, não é verdade? Acho extraordinário que utilize essas ferramentas para vender uma ideia constante aos seus clientes. E que boa altura, esta, em que as empresas estão tão permeáveis aos artigos e livros de auto-ajuda que Harvard vomita todos os dias.

Contudo, um país não é uma empresa, Miguel. Eu compreendo que não saiba, nem queira saber nada de política, como muito bem afirma. A cidadania não é nenhuma obrigação e nunca levou o pão para a mesa de ninguém. Mas, se assim é, então seria mais coerente e lógico que não se envolvesse em questões políticas, como um programa lançado por um governo que tem, para a infelicidade da humanidade, uma natureza política. Aliás, quando afirma que "Isso (a perversão do mercado) seria outra discussão que nos levaria para sítios imprevistos", fico sem saber se o Miguel tem estrutura social, cultural e intelectual para discutir tal assunto. Porque tal assunto, Miguel, é pura política.

Posto isto, e resolvida a questão da sua fragilidade sociológica e intelectual, vamos ao que interessa porque, certamente, já está a ficar nervoso sem resultados efectivos. Ainda o tenho comigo? Vamos a isso.

Assumo que o Miguel, por não perceber nada de política, não tenha, então, muita sensibilidade para a matéria social. Gostaria de lhe dizer que a taxa de desemprego em Portugal aumentou mais de 10% nos últimos 4 anos. Esta situação é um reflexo da redução do staff das empresas, políticas de contenção de custos realizadas através de despedimentos colectivos, extinção de postos de trabalho (postos estes muitas vezes vendidos pelos gurus dos anos 90 para convencer as empresas que a tendência, na altura, era outra), degradação do sector industrial, mercado insuficiente e pouco competitivo para absorver determinados recursos. Esta informação pode encontrá-la, com alguma facilidade, nos jornais. Se tiver tempo, dê uma vista de olhos. É que as reportagens servem, fundamentalmente, para dar visibilidade a realidades que as pessoas muito ocupadas não têm tempo para apanhar da rua. Sabe, temos um grande problema de iliteracia em Portugal. Disponibilizam-se ferramentas mas, desvalorizam-se os valores e princípios que determinaram a sua funcionalidade. Estamos, aliás, perante o primado da funcionalidade. Não quero maçá-lo com questões filosóficas. Se, entretanto, lhe estiver a doer a cabeça, diga. Arranjo-lhe um comprimido, sem precisar de me pagar por este meu acto solidário disruptivo. 

Bem sei que esta minha carta peca por falta de assertividade. Poderia ter-lhe dito que a sua generalização no que respeita aos desempregados é de uma inacreditável falta de sensibilidade e representa, até, tudo aquilo que é contrário aos mais básicos valores da humanidade. Poderia dizer-lhe que está a utilizar uma ferramenta política do Estado para promover o seu trabalho, tendo o seu retorno com a publicidade e que isso é, de certo modo, pornográfico. Poderia dizer-lhe que é um palerma e que o seu tempo, como o de todos os outros self-proclamed gurus (curtiu do anglicismo?) chegará ao fim. Porque a sociedade, apesar de gostar de ser enganada por vendedores de banha de cobra, acaba por procurar conforto na bondade, na solidariedade e na fraternidade. 

A vida, Miguel, foi feita para ser desfrutada e o objectivo é que sejamos todos eroticamente felizes. 


Despeço-me com cordialidade,

Jorge C.



publicado por jorge c. às 13:06
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27 comentários:
De Ana a 22 de Abril de 2013 às 14:23
Bravo!


De Anónimo a 22 de Abril de 2013 às 15:30
"Premiáveis" de premiar ou "permeáveis" de permeável?


De jorge c. a 22 de Abril de 2013 às 15:36
Toda a razão, caro anónimo. Assim estava inicialmente, mas alterei influenciado por outra chamada de atenção. É no que dá estar a escrever posts em vez de estar a produzir pornograficamente.


De João Catalão a 22 de Abril de 2013 às 16:36
Olá

Adorei o tom irónico e acutilante do texto! Muito bem escrito (coisa rara nos tempos de hoje).
Conheço pessoalmente o Miguel Gonçalves. Simpatizo com ele! Não percebi o facto de ele ter aceite o cargo que o "estranho personagem" Relvas lhe "ofereceu". Ele terá a suas razões...Respeito-as. desejo-lhe o melhor...
Independentemente do que ele diz, e como o diz, quero acreditar que ele é muitoooo melhor como pessoa do que dizem as pessoas que não gostam dele. Sinto que é um personagem bem intencionado...
Como estou farto, muito farto do politicamente correcto e do "nacional porreirismo", acabo por gostar mais dos "Miguéis" do que dos "bem comportadinhos, alinhadinhos e merdosinhos...
Oxalá Portugal perceba de vez que TRABALHO bem feito é incompatível com mediocridade, facilitismo e outras porcarias que por aí abundam...
Acredito no "tuga power"...afinal de contas, é tudo uma questão de ATITUDE...


De drmaybe a 22 de Abril de 2013 às 19:23
de boas intenções está o inferno cheio. e o mundo cheio de trabalhadores que não estão à altura das suas tarefas.


De Ricardo Mendonca a 22 de Abril de 2013 às 21:41
Meu caro,
Sabemos que a ma publicidade nao existe e eu nao deveria estar a escrever isto mas a liberdade eh para ser partilhada.
Encontrar-se-a muitos problemas no discurso do sr. Miguel Goncalves, alguns advenientes da circunstancia de ser um discurso oral e dialogado, ao contrario do seu, que seguramente por escrito nao desbarataria os 'absolutamente', os 'garanto', os 'enormissimos' ou os 'ponto um' e 'ponto dois'.
Ou seu, por outro lado, na parte do texto em que nao esta a insultar gratuitamente o visado, na forma mais detrimental e portuguesinha de mal-dizer, mesquinha, maldosa e estupida [apelo a que va procurar uma definicao da palavra], pouco diz de substancial, alude a essa expressao balofa e vazia que eh "valores humanos" como se pretendesse dizer alguma coisa. Vossa excelencia eh um estupido!, e ai tem o recato que a deferencia oferece.
Eh facil escrever assim, como ve.

Encorajo-o a reduzir a sua carta aberta ah sua frase final, que aplaudo e na qual adivinho um bom espirito que as suas infelizes demais palavras querem esconder: "A vida, Miguel, foi feita para ser desfrutada e o objectivo é que sejamos todos eroticamente felizes."
Sera seguramente um bom leitor de 'Sex at dawn', de Christopher Ryan, bom entendido que eh da lingua inglesa ['percebes, pa?'].
De resto, perdoe tambem, se para tal houver lugar nesse coracao com pelos, a falta de acentuacao: nao lhe eh especialmente dedicada, o teclado eh 'anglicanista'.


De Cristina a 22 de Abril de 2013 às 22:19
Eia, o vendedor de pipocas tem claque!


De Ricardo Mendonca a 23 de Abril de 2013 às 10:04
Cara Cristina,
note que tambem nao teci nenhum elogio a uma palavra que fosse do dito Miguel Goncalves.
E menos tempo tenho ainda para depreciar as escolhas de trabalho dos outros.


De jorge c. a 23 de Abril de 2013 às 10:00
Caro Ricardo Mendonça,

Não perderei tempo a explicar-lhe o que escrevi. Aprendi, com o tempo, que quem nasce puta, morre puta.


De André Pedrosa a 2 de Maio de 2013 às 19:54
Que alarvidade pornográfica e explícita - e tão distante das maravilhas do sonho que apregoou.


De joão gaspar a 23 de Abril de 2013 às 02:51
olha lá, tu que te interessas por política: isto do impulso jovem ainda por cima não é o mesmo que os estágios profissionais e o inov, só que com outra de mão e um discurso pateta?

era só para tirar a dúvida.

de resto gosto muito de ti, do teu texto, do miguel gonçalves, de pipocas, de bater punho com força, de personagens alegres e bem dispostas e de banha da cobra.





De jorge c. a 23 de Abril de 2013 às 10:02
É um programa bem intencionado. Não sei se acrescentará algo mais. Mas, é até aos 30. Esquece lá isso.


De Maria a 23 de Abril de 2013 às 10:01
Muito bom! Parabéns!


De Mini_Saia a 23 de Abril de 2013 às 10:11
Grande texto!
Parabéns


De Manuel Gomes a 23 de Abril de 2013 às 10:39
Peço desculpa por me vir intrometer caro amigo mas se conhecer o trabalho deste senhor percebe que este rapaz já ajudou muita gente a encontrar emprego.
É um defensor de que as empresas devem trabalhar directamente com as universidades, para assim não existirem tantos universitários no desemprego.
Tenta incutir criatividade nos desempregados para quando procuram emprego.
Um dos exemplos é o facto de ao entregar o curriculum não entreguem o básico, aquele que toda a gente entrega, pois pela igualdade ninguém é contratado mas sim pela criatividade.
E tudo isto antes de se tornar conhecido e de ter aceitado este tacho (do qual não é remunerado).
Mas o meu objectivo não é defender este senhor mas sim falar um pouco dos desempregados.
Quanto aos desempregados que tanto fala mesmo nesta altura existem pessoas que não se contentam com o emprego que lhes é oferecido.
Sou empresário e muitas vezes em conversa com alguns empresários já me apercebi que ainda existem pessoas que procuram o emprego ideal aquele de entrar as 12 e sair ao meio dia, claro que não podemos falar na generalidade nem toda a gente é assim.
Mas experimente ir ao Centro de Emprego procurar por um funcionário para a sua empresa.
Se o emprego não for do agrado dessa pessoa muitas delas preferem receber subsídio de desemprego a trabalhar, ou porque tem de trabalhar a determinadas horas, ou porque para irem para o local de trabalho tem de acordar muito cedo entre outros factores.
Fazem a tal equivalência para receber o mesmo vale mais estar em casa a receber.
Outra coisa por acaso sabe quantas pessoas me batem a porta para carimbar a folha do desemprego? Atenção disse “carimbar”, posso-lhe dizer que apenas 5% me perguntam se estamos a precisar de alguém. E desses 5% apenas 10% me trazem curriculum. Penso que isto não é procurar emprego.
Outra coisa que me apercebo em conversa com os empresários, é que muitos dos seus Funcionários apenas se preocupam em chegar a horas, sair a horas e receber a horas. Não defendem a empresa não se preocupam em produzir, vender ou o que quer que seja.
Esquecem-se que se a empresa não cumprir os objectivos o mais certo é passado algum tempo fechar e eles vão para o desemprego ou mesmo que não fechem tem de haver a tal redução de custos.
Disse-nos livros que deve ser a empresa a motivar os funcionários, a promover o diálogo entre funcionários entre outros.
Pois eu quando procuro um funcionário para a minha empresa procuro um que esteja motivado, que seja ele a promover o diálogo, e que seja ele o criativo e me dê ideias.
Porque se ele for isto tudo sabe que mais tarde é recompensado e que o mais provável é que eu nem pense em despedi-lo por ser uma mais valia para a empresa..
Não digo que seja toda a gente assim mas sabemos que uma grande parte é.
Isto tudo é uma crítica a tal Sociedade que existe que apesar de haver muitas pessoas com qualidades e que eu até gostaria de ter na minha empresa os tais motivados, existe também a outra parte e toda gente sabe que existe.
Este senhor que tanto critica apenas pede que sejam os primeiros, porque ninguém contrata se parecem que são os segundos.


De jorge c. a 23 de Abril de 2013 às 11:23
Caro Manuel Gomes,

Agradeço o seu comentário e sinta-se sempre na liberdade de o fazer.
O Manuel costuma ir para a porta do centro de emprego todos os dias? Gabo-lhe a paciência.


De Manuel Gomes a 29 de Abril de 2013 às 16:37
Não vou, apenas conto o que se passa na minha empresa.

Eu sei que vivemos numa situação dificil que cada vez há mais desemprego mas tambem não é assim que se procura emprego.

Andar com uma folha do centro de emprego a recolher carimbos sem sequer perguntar se procuramos funcionarios? "Olhe desculpe podia por um carimbo aqui na folha do desemprego?" Acha bem?

Tenho uma funcionaria de baixa (4 Meses). Onde a sua baixa diz que apenas pode sair de casa para ir a consultas. Já a viram algumas vezes no café, ou num shopping qualquer? Acha bem?

Deixo-lhe apenas estas questões ai talvez perceba a indignação...


De Maria a 23 de Abril de 2013 às 12:58
Essa conversa dos desempregados que não querem trabalhar já enjoa...

Só espero que o senhor Manuel Gomes seja daqueles empresários que paga acima do ordenado mínimo e não entra na lógica da exploração de quem está na mó de baixo! Porque dizer que as pessoas que estão no desemprego a receber 600 euros (!!), uma fortuna, portanto, se recusam a um trabalho de 40 horas semanais a receber 485 Euros, leva-me a acreditar que há quem ache que a escravatura deveria regressar...


De Manuel Gomes a 29 de Abril de 2013 às 16:16
Peço desculpa mas ninguem recebe 485€ a esse valor ainda se soma o subsidio de almoço ou seja a media é 500€ e sou a favor de aumentarem o salario minimo.

Quanto a outra questão só tenho de responder coisas: É possivel acumular o subsidio que se recebe com o ordenado ou seja não iria passar a receber os tais 485 mas sim os 600.

Se acha que é muito trabalhar 40 horas semanais percebo a sua indignação, olhe eu trabalho 60 não me queixo e recebo 500€ de ordenado liquido e quando o recebo...


De Edite Mendes a 3 de Maio de 2013 às 14:40
Não se deixe enganar pela realidade que conhece! Olhe que há muito boa gente que trabalha tanto ou mais e não recebe esse salário!

Infelizmente, têm contas para pagar e assim sendo, submetem-se a trabalhar e receber em condições bastante miseráveis!

Poderá dizer que podem fazer queixa ao Tribunal do trabalho ou outras entidades, contudo, muitos não têm contrato e a verdade é que continuam com contas para pagar e filhos que precisam de comer.

Devemos todos aprender a ser mais solidários e mais compreensivos com o próximo. Verdade, muitos só procuram os tais carimbos, mas essa não é a única verdade.

Penso que que tem a vida facilitada (não que seja o seu caso, porque nem o conheço, atenção) por vezes fala de luta, sem saber que ela já existe para além das suas fronteiras de sonho.


De Gonçalo a 23 de Abril de 2013 às 14:34
Muito bonito de se ler, agora só espero é que a preocupação que tem com a sua empresa seja a mesma com o país e o funcionamento do mesmo.
Por isto mesmo, depois desta sua "lição de moral" ao trabalhador, espero, mesmo, que quando vai a uma oficina deixar o seu automóvel para reparação que peça factura e pague o IVA, quando vai a um restaurante, peça factura e pague o IVA, quando faz obras ou uma repação que peça a factura e pague o IVA. Faz isto não faz?


De Manuel Gomes a 29 de Abril de 2013 às 16:21
Faço e tenho orgulho em faze-lo e se mais pessoas o fizessem se calhar não estavamos como estamos, claro que os que estão lá em cima (Governo) tambem tinham de deixar de ser corruptos.


De CJT a 23 de Abril de 2013 às 20:32
também tu perdeste tempo a falar de um parolo com lábia... um rapazola vendedor de banha da cobra.
a jonetização em curso, meu caro.


De Fernanda Manangao a 23 de Abril de 2013 às 20:40
Melhor só de encomenda ,, bravo e obrigada


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