Domingo, 9 de Maio de 2010
Falar por falar

São já raras as vezes que presto atenção ao Eixo do Mal. A figura de Pedro Marques Lopes (PML) e os seus lugarejos comuns, frases lapidares ("o problema deste país", "só neste país") e lições sobre o que é a direita (a dele, claro) passam agora os limites do entediante e começam a ser irritantes. Ontem, enquanto ia mudando de canal, lá passei pelo Eixo do Mal e estava o Dr. Marques Lopes muito empenhado a falar das obras públicas e dos seus riscos. Mas como não queria falar só mal do governo, e completamente a despropósito, disse estar muito preocupado com as declarações de Cavaco Silva por este ter lembrado o passado, sendo que teria sido ele um dos principais contribuidores para o endividamento na sua era.

 

Ora bem, isto é como em tudo, há sempre alguém que nunca gosta de tomar uma posição objectiva sobre nada e agradar a gregos e troianos, acabando por cair no disparate pegado e fazer figura de pateta. O que PML não consegue perceber é a diferença das circunstâncias. Cavaco pode lembrar o que quiser porque o tempo era outro, tal como a situação das finanças públicas e o movimento dos mercados internacionais e principalmente da banca. Acontece que primeiro é preciso compreender que ninguém está contra o TGV ou o Aeroporto (sendo este muito mais discutível, no meu entendimento, enfim...) mas sim que a gravidade do endividamento é muito maior do que alguma vez havia acontecido e as probabilidades de não haver financiamento e capacidade de cumprimento são demasiado altas para que se avance de imediato para tais obras. Foi isto, aliás, que defendeu a Dra. Ferreira Leite quando falou em suspensão, repetindo até à exaustão que se tratava de uma situação provisória até os mercados estabilizarem e as finanças se revitalizarem. De nada adiantou devido a tresleituras deste género.

 

O problema das grandes obras públicas não é a sua natureza, mas sim as circunstâncias em que a sua construção se vai proporcionar. Ninguém duvida que vai gerar emprego e contribuir para uma maior mobilidade e desenvolvimento económico, mas se a banca for incapaz de dar resposta às necessidades de empréstimo dos Estados as consequências podem ser tão más que não compensa arriscar.

 

Há uma certa desonestidade intelectual na promoção das grandes obras públicas. Ainda esta semana, José Sócrates disse que não tinha sido o grande investimento público a provocar a crise. Pois não. Isto é uma não-questão. Nunca se ouviu ninguém a dizê-lo. O que se diz - isso sim - é que poderão agravar ainda mais o endividamento e isso tem consequências que passam a estar fora do nosso controlo. O problema é, portanto, de futuro, e não de presente ou passado.

 

Não sou um grande fã da política de obras públicas de Cavaco. A verdade é que no seu tempo esse investimento impulsionou a economia portuguesa e ajudou à integração europeia. Havia muito dinheiro a circular e resposta para os créditos. As circunstâncias actuais são tão diferentes como o dia e a noite e por isso compará-las com outras épocas (seja os anos 90 ou os 60) é estar a falar de uma cátedra comprada na Feira da Ladra; é encher espaço de comentário político com disparates. Nada a que já não estejamos habituados com esta nova geração de comentadores políticos que julgava vir substituir as vacas sagradas. Seria a substituição das elites tão querida pelo marxismo. Acabariam com os terríveis pacheco's e pulido's desta vida e singrariam iluminadas pela modernidade. Depois vai-se ver e é isto...



publicado por jorge c. às 12:34
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