Segunda-feira, 10 de Maio de 2010
Amanhã vai ser outro dia

Sou do Benfica. Nasci numa cidade que tem uma cultura tauromáquica fortíssima e quase exclusiva. No desporto, o hóquei foi sempre soberano e o futebol tinha uma linha clubística relativa ou, se calhar, inequívoca - as pessoas ou eram do Benfica ou do Sporting. Apesar de uma parte substancial da minha família ser sportinguista, correu tudo bem. Os meus pais, educados nas melhores circunstâncias sociais e na sua adaptabilidade singular à sociabilização secundária (Giddens), viveram normalmente benfiquistas. Todas as suas relações desenvolveram-se e cresceram obedecendo a um padrão inconsciente do benfiquismo - natureza e cosmos. Dessas relações resultou uma amizade que envolvia um casal de alentejanos que alojavam dois gremlins do sexo masculino que, apesar dos actos terroristas cometidos sobre a minha pessoa em tenra idade (processo judicial por bulling em 2010), adoravam o Benfica e influenciavam gravitacionalmente pessoas de rudimentar desenvolvimento psicológico, por manifesta falta de experiência etária, como eu. Há alguma felicidade na minha ignorância, confesso.

 

Eu deveria ter uns 6 anos e caminhava a passos largos para um upgrade dessa ignorância. Mas, naquele dia, naquele fatídico dia, ficámos - eu e ele - sentados num sofá algures em Algés a ver o Tarzan (versão heterossexual para crianças, apesar do Christopher Lambert) enquanto um grupo de pessoas, que entendíamos serem as nossas famílias, se deslocavam ao Estádio da Luz para visionamentalizar in loco aquele que acredito ter sido o primeiro Benfica-Porto da minha vida. Aposto que o Magnussen marcou, antes de ser comido por um alien de 120 quilogramas (dados oficiosos da Herbolife). Ficou 3-1 e o pai do Tarzan morreu.

 

Não me recordo de muito mais. Apesar de um historial num camarote da Luz com 3 grandiosos benfiquitas (avô, pai e neto), o futebol resumiu-se sempre a uma paixão avassaladora mas nunca prioritária. O Benfica uma maneira de ser, mas nunca um objectivo. E quando migrámos para o Porto, não obstante o crescimento e a consciência abstracta, o futebol passou a ser uma luta por definição de terras, de tribos ou até de valores. Nunca o entendi. Fui obrigado a aceitar provocações, a provocar e a discutir alarvidades ilógicas para defender aquilo que era, no meu tempo, um clube de futebol que eu apenas queria ver ganhar a um Domingo à tarde. O ódio era tal que me amedrontei e houve mesmo alturas em que tive receio de me manifestar em favor do meu clube.

 

Recordo sempre aquele Domingo em que ficámos os dois em casa a ver um filme banal. Ganhámos na mesma e foi porreiro. Ganhámos mais 3 ou 4 campeonatos a seguir e, por consequência, conheci o AC Milan - a melhor equipa do mundo depois do Benfica. Conheci Baresi, Albertini e Van Basten e o futebol nasceu pouco depois de perceber que existia Romário. Mais tarde, muito mais tarde. Depois vieram as imagens e com elas Cruyff e Maradona - os dois melhores homens da história da humanidade. O Benfica passava a ser apenas emocional. Futebol é futebol.

 

Continuei a recordar aquela tarde. E hoje, quando o Benfica nos fez campeões de novo, abdiquei da algazarra festiva e saí para jantar com 3 amigos. Falámos de tudo menos do Benfica. Porque a nossa vida, meus amigos, não é isto.

 

Campeões e tal...

 




publicado por jorge c. às 01:34
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2 comentários:
De fernando antolin a 10 de Maio de 2010 às 17:01
Como também acho que a minha vida não é isto, dediquei a tarde e boa parte da noite de ontem a Rachmaninov e ao Viejas historias de Castilla la Vieja e Vivir al dia, do Delibes. Ah e andei pelo youtube a ver uns vídeos de Judo do Yamashita, mas isso são gostos decadentes, sei lá !!


De mdsol a 11 de Maio de 2010 às 18:21
Muito bonito este texto.
E muitos parabéns!

:)))

[No domingo deixei lá papoilas para todas as "papoilas saltitantes"]


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