Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013
a ignorância do imediatismo

É comum apontar-se os maus resultados a Matemática e a Português. A Matemática, aliás, é considerada um monstro, para muitos. Mas, também me lembro da aversão que muitos colegas tinham à História, à Geografia ou à Filosofia. A diferença é que estas disciplinas eram mais complicadas de avaliar quantitativamente. Os estudantes seguem-se pela ética dos mínimos e fazem-nas apenas para serem aprovados. É difícil definir o grau de compreensão.

Quando cheguei à Faculdade de Direito, o meu professor de Ciência Política - o Dr. Paulo Rangel - insistia que era fundamental que as respostas às questões fossem relacionadas, que nada na história existia sem enquadramento. Era uma das principais dificuldades para quem estava habituado a decorar matéria.

Os reflexos da falta de compreensão das Humanidades podem ser gravíssimos, como se poderá constatar.

O flagelo da não compreensão das humanidades e da relação entre a própria Humanidade e as ciências sociais é um perigo em tempos de dificuldades financeiras. Não obstante o discurso populista, que tem como objectivo culpabilizar um determinado grupo e que assim justifica um conjunto complexo de circunstâncias, o grande perigo reside na ignorância. E este perigo está, hoje, a pôr e dipor de postos de trabalho e da tendência laboral em Portugal e no mundo. 

Urge uma contra-reforma pelas Humanidades. Contra a ignorância.



publicado por jorge c. às 13:35
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2013
Demita-se

Através da Joana, leio este grande artigo de Pacheco Pereira.

Espantoso como, no meio de tanta polémica, cantoria e dislate, já ninguém se preocupa com uma nova subida do desemprego e a malabarice discursiva de Vitor Gaspar.

Uma das questões inerentes ao cargo ministerial é a responsabilidade. Quando um governo toma uma decisão sobre determinada matéria e falha, o ministro que tutela a pasta tem de assumir a responsabilidade da decisão e deve demitir-se. A decisão, em última análise, foi sua. A escolha política é sua. A política é um conjunto de avaliações e decisões sobre as circunstâncias de uma determinada comunidade, de forma a promover o bem-estar da mesma e o seu desenvolvimento. 

Quando as decisões tomadas divergem deste objectivo mais abstracto, não se está a cumprir o seu compromisso inicial - a natureza das funções democráticas. Com efeito, deve, por razões éticas, sair e deixar a convicção dentro do executivo de que outro caminho terá de ser tomado. 

No entanto, não foi isso que Gaspar fez. Gaspar tentou enganar, mentir e ludibriar os portugueses de uma forma selvagem e asquerosa. O que nos faz pensar que Gaspar tem, efectivamente, uma agenda cujo objectivo é experimentar economicamente sobre um povo. Não pode haver outra explicação. E tem de se demitir já. 



publicado por jorge c. às 12:35
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2013
impressões de um desastre

Desce-se a cidade por qualquer motivo. Pelo meio dos prédios e dos semáforos, a vida das pessoas, num sábado de correrias, é um desafio a quem pouco tempo tem durante a semana para parar e olhar. Onde estão todos os olhares? Estamos ali, na nossa vida, longe da poesia e do calçado ligeiro. Desce-se, então, a cidade. A poesia está na rua: no meio dos jardins, nos beijos dos amantes, nas folhas caídas, nos bichos irreverentes, no estacionamento gratuito. Viva a urbanidade - as linhas rectas, os espaços quadriculados e os retratos da Vieira - rodeada de amoreiras e pátios antigos, como uma história metropolitana com os olhos no devir.

Mas as portas da casa abriram-se para uma outra dimensão. Entraram outros rostos, silhuetas e gestos. Entre a sombra e a luz, num universo de subjectividade, a dor e a angústia; a esperança do carinho. No meio dos traços no papel, ou na tela, uma fuga. Foge, a artista, do cinismo. Vêmo-la a expor e a esconder o progresso, a dar profundidade ao simbolismo da transformação e deixar a ideia errada da luz na superfície.

Nos movimentos vemos os nossos dias. Mas vemos também a expressão eterna de um país. Talvez as cores. Talvez os sons que saem das cores e que marcam a retina como um selo de uma única identidade. É ali, em Lisboa, como é no Nordeste que esta mulher traz na cabeça, como poderia ser na China. Mas ali somos nós. Todos. Completos e imperfeitos. É assim que Graça Morais nos vê. Com toda a ternura. 

 

Graça Morais estará na Fundação Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva até 14 de Abril.



publicado por jorge c. às 12:06
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Sábado, 16 de Fevereiro de 2013
we can't rewind we've gone too far.

O CEO da SoundCloud cresceu num mundo em que se ensina a criar necessidades a partir das fragilidades nas personalidades. Talvez por ter crescido nesse mundo em que a linguagem do negócio e a dos conteúdos nem sempre converge, lhe tenha escapado uma canção que fez muito sucesso quando a Mtv dominava o mundo.

 

 

"Faz do teu negócio um sucesso". Mesmo que seja irrealista e ignorante, o gestor moderno sabe que as tendências se moldam, se transformam e que é possível influenciar pelo valor da marca. São coisas que foi lendo nos livros de auto-ajuda para os negócios, de forma a evitar uma depressão ou - sabe-se lá - a felicidade real. No entanto, como tudo na vida, a evolução dos meios tem uma lógica. Ora, essa lógica é que os consumidores querem estar dentro do conteúdo. 

No século XIX e no início do século XX, a música que conhecíamos era a que estava à nossa porta. A única coisa que circulava eram os músicos ou as partituras. O som, por si, não. Com as gravações, a música foi transportada para uma nova fase e o acesso aos seus conteúdos originais cresceu.

O vídeo veio dar ao mundo a imagem do artista tal como ele queria ser visto. Uma imagem trabalhada e produzida tal como o som. A televisão passou a ser o maior divulgador de música.

No final dos anos 90, a internet era já a ferramenta mais eficaz na divulgação de música e artistas. O All Music Guide, por exemplo, conheceu o seu maior sucesso mundial online. A maior e mais qualificada enciclopédia de música do mundo ganhou notoriedade que nunca teve com a edição em papel. Por sua vez, o Youtube trouxe a possibilidade da selecção de conteúdos que se mostrara impossível na televisão.

É certo que novos formatos surgirão e que novos meios terão a capacidade de abranger melhor a intenção artística dos autores e o voyeurismo dos fãs.

Mas é preciso não esquecer que hoje o consumo recai sobre o mediatismo e não sobre o valor da música. E é aqui que Ljung está enganado. Ele pode inverter a tendência da necessidade por uns tempos. Ganhará o seu quinhão. Mas nunca conseguirá resolver o grande problema da desvalorzação da música, da desculturização das massas em prol de um lucro ganancioso e irresponsável. Fomos longe de mais. 



publicado por jorge c. às 12:42
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013
Da odiosidade do Fisco ao Estado-polícia

Colocar o ónus da fiscalização no cidadão é uma inversão das responsabilidades na dinâmica de funcionamento de um Estado. A lei ultrapassa, neste caso, os limites da coercibilidade a que se pode propor a priori.
Se, com tanta tecnologia disponível, isto é o melhor que o Estado português consegue no combate a evasão fiscal, estamos conversados sobre as suas motivações para um combate real.

No meio de tudo isto, o mais surpreendente é a justificação. Parece que o Fisco não tem recursos suficientes para fazer, por si, uma fiscalização eficaz. No entanto, ao mesmo tempo, já disponibiliza recursos para multar os contribuintes que não pedem factura. Concluímos, assim, que o Fisco prefere multar a fiscalizar.

Alia-se a este discurso pobrezinho da escassez de recursos a ideia de que todos temos obrigação de participar neste combate. Sem limites, todos os contribuintes passam a ser colaboradores do Estado na acção fiscalizadora, sob pena de serem multados. Para além da sujeição a um aumento de impostos sem precedentes, os contribuintes têm ainda de sustentar a ineficácia dos organismos do Estado e das suas políticas fiscais.

Há mais de 10 anos que os governos portugueses adoptaram a postura de colocar os cidadãos uns contra os outros. Instala-se, na sociedade portuguesa, um clima de desconfiança insustentável. O ar nesta latrina tornar-se-á irrespirável.


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publicado por jorge c. às 09:17
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Domingo, 10 de Fevereiro de 2013
O grande taxi do inferno

O problema da petição pela moralidade não é o seu grau de moralismo mas, antes, a altura em que surge. Como diria Frankie Pentangeli, em O Padrinho II, nunca deveriam ter deixado Hitler sair de Munique. Uma crise financeira é propícia a estas romarias dos arautos da "crise de valores" e isso pode tornar-se muito perigoso. É uma caça às bruxas. Conhecemos bem as consequências mais graves destes circos.

O populismo moralista é um perigo numa sociedade livre. Ele parte de um fenómeno demagógico, de uma adulteração dos factos para galvanizar a preponderância popular. A sua linguagem é sempre muito próxima da íntima desconfiança das pessoas. Liga-se, com facilidade, à sua condição de eleitor, sem influência directa nas decisões políticas, nos tribunais, etc. "Tudo uma cambada". Alimenta-se, assim, a sensação da sua impotência e da impunidade dos outros.

Não quer isto dizer que essa impunidade não exista. Não quer dizer que as instituições estejam, ao dia de hoje, a passar o seu melhor momento de credibilidade. Não estão. Porém, uma generalização é o primeiro passo para a tolerância de uma liberdade condicionada. 

Mas, o moralismo tem sempre um lado cómico. Lembrar-se-ão, certamente, de Charles Foster Kane, da sua declaração de princípios e da sua tentativa de incursão no Senado. Mesmo assim, parece que não aprendemos; que nos deixamos dominar por esse impulso irracional do justicialismo. Talvez seja falta de amor ou, simplesmente, má-fé intrínseca. 



publicado por jorge c. às 09:19
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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2013
Regresso ao passado

O retrocesso legal nunca foi a melhor forma de garantir a harmonia social. A dogmática do Direito é fundamental para a estabilização da dinâmica de uma sociedade.

Ao ler esta notícia, confesso que fiquei incrédulo. Pois não é possível que alguém considere retirar direitos e liberdades a um determinado grupo de pessoas, que em nada prejudica outros grupos, com o argumento máximo de uma imoralização e não protecção de uma instituição - no caso, a família.

Quem, por algum motivo, conhece este blog, sabe que no tempo em que estas discussões tiveram lugar, manifestei-me contra a forma adoptada para o Casamento entre pessoas do mesmo sexo (cpms). Contudo, defendi sempre que era urgente enquadrar juridicamente uma determidada conjugalidade que estava desprotegida.

O que não me parece correcto é, agora, tentar reverter essa questão, indo contra direitos fundamentais adquiridos e expectativas legítimas. A forma encontrada pelo Estado português para a conjugalidade entre pessoas do mesmo sexo não concorre com o seu conteúdo, em matéria de direito. A realidade constitucional exigia uma formalização da conjugalidade entre pessoas que constituiam, já, uma família. Este conceito, de família, é mutável, como bem refere o Prof. Pereira Coelho nas suas lições. A questão nuclear deveria ter sido, sempre, a forma.

A formatação de uma sociedade, pela moralização, é um processo revisionista que fere a dignidade do ser humano e deixa a sensação de intranquilidade nos cidadãos.

A protecção da família, enquanto instituição, não é, de todo, afectada pelo alargamento do seu conceito. Nenhum argumento contrário parece ser apresentado numa medida lógica. É apenas moralista. È apenas uma manifestação de discriminação negativa, contrária aos mais altos valores constitucionais e civilizacionais.

No que diz respeito à Interrupção Voluntária da Gravidez, o assunto não merece grande discussão e a afronta à dignidade humana deve ser totalmente ignorada.



publicado por jorge c. às 13:14
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