Domingo, 28 de Março de 2010
Dissimulação

O problema da pedofilia em grupos específicos não é um problema exclusivo da Igreja Católica, mas sim um problema dos círculos de poder. Um bom exemplo disso (à sua escala, evidentemente) é o caso da Casa Pia onde, apesar de ainda não haver trânsito em julgado, o núcleo central dos arguidos são indivíduos inseridos num círculo de influência e poder, o que acaba por ser no mínimo sugestivo ou indiciário.

 

A pedofilia é um crime hediondo, um crime demasiado grave para ser utilizado como arma de arremesso contra uma instituição religiosa. Pior do que isso é julgar a fé dos católicos pelo comportamento de homens, indivíduos com uma vontade própria e que não representam a fé mas sim a instituição. Quero com isto dizer que quem tem de ser censurado e punido é o homem e não a religião, ou a fé, como tem vindo a ser sugerido surrateiramente por uma certa mentalidade ateísta primária e desprovida de lucidez.

 

É claro que a instituição tem responsabilidades acrescidas e o crime deve ser encarado como acção qualificada a partir do momento em que se parte de uma posição de domínio e de aproveitamento da relevância social para subjugar uma parte claramente mais fraca. E desta responsabilidade não está excluído o representante máximo da Igreja se ficar claro que foi cúmplice com o crime e que, além disso, ainda tentou branqueá-lo. Antes da violação dos valores que regem a sua própria instituição - uma avaliação que deve ser feita por todos os católicos - está a violação da lei, a prática de um crime previsto e punível, a inobservância de uma conduta moral que visa proteger a dignidade humana. É disto que falamos em primeiro lugar e é isto que temos de condenar. Usá-lo para dar voz a um ódio religioso é uma atitude desprezível.

 

Adenda: A ler este artigo de António Marujo, via Nuno Miguel Guedes.



publicado por jorge c. às 16:55
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31 comentários:
De LPedroMachado a 28 de Março de 2010 às 17:41
A parte da eventual cumplicidade e branqueamento pelo Papa é inaceitável porque é uma insinuação sem o mínimo de fundamento. Essa frase é que é cúmplice com a campanha ignóbil que está a ser dirigida à Igreja Católica por protestantes e ateus.


De jorge c. a 28 de Março de 2010 às 17:48
LPedroMachado, não faço caça às bruxas, lamento.


De FuckItAll a 29 de Março de 2010 às 16:48
LP, e juizinho, não? Católicos que o sejam e tenham um pingo de honra e decência repudiam o que se passou, não dizem que há uma conspiração...


De mc a 28 de Março de 2010 às 19:23
Concordo com a análise. Só faço um reparo - criticar a religião (católica, nocaso) não é pior que os actos de pedofilia. São coisas diferentes.

É um instinto primário aproveitar-se estes crimes cometidos por homens da Igreja para se criticar a Igreja toda. Até porque, como alguém disse (penso que o António Marujo no Público), os actos pedófilos aconteceram sobretudo dentro da comunidade. Tal como acontecem tanto dentro da própria família. O que torna tudo ainda mais doloroso.


De jorge c. a 28 de Março de 2010 às 19:31
Em nenhum lado me viu escrever que a crítica é pior que os actos.


De mc a 28 de Março de 2010 às 20:24
"A pedofilia é um crime hediondo, um crime demasiado grave para ser utilizado como arma de arremesso contra uma instituição religiosa. Pior do que isso é julgar a fé dos católicos pelo comportamento de homens, indivíduos com uma vontade própria e que não representam a fé mas sim a instituição."

Peço desculpa. Não li com a suficiente atenção.


De jorge c. a 28 de Março de 2010 às 20:26
Pior do que usar isso como arma de arremesso, pior do que manipular, é julgar a fé pelo comportamento subjectivo. É isso que está aí escrito.


De lpedromachado a 28 de Março de 2010 às 19:52
Jorge

Não percebi a resposta. Escrevi algo de errado? Afinal a insinuação tem fundamento? Ou então não tem fundamento mas é válida na mesma?


De jorge c. a 28 de Março de 2010 às 19:58
"E desta responsabilidade não está excluído o representante máximo da Igreja se ficar claro que foi cúmplice com o crime e que, além disso, ainda tentou branqueá-lo."

Se, compreendes? Se ficar claro. Ou não queres saber e preferes assobiar para o lado só porque achas (porque sim) que é uma insinuação. No Direito, lpedromachado, existe uma coisa chamada prova material. A Justiça não se baseia na crença, na fé ou no preconceito político-social, que é o que tu estás a defender.


De lpedromachado a 28 de Março de 2010 às 21:55
Ou seja, \"se\" porque sim. Não há nenhum fundamento, e já se sabe que as acusações mentirosas não têm fundamento, mas lança-se o \"se\" para dar a ideia de que até pode ser.

Eu estou a defender o quê? Tu insinuas algo que não tem um mínimo de fundamento e eu é que estou a defender o preconceito ou sei lá o quê. Fantástico.

No Direito? Mas afinal isto é uma discussão jurídica? Não tinha percebido. Vocês, juristas... :-)


De jorge c. a 28 de Março de 2010 às 22:22
A pedofilia é um crime. Não sei se sabias. A suspeição é uma forma de iniciar uma investigação para averiguar a culpa. E quando há uma suspeição, o suspeito pode ainda defender a sua honra e o seu bom nome. Tem esse direito.

Mas já vi que não te interessa saber se é verdade ou não que houve cumplicidade num acto criminoso do qual falas muitas vezes em relação à Casa Pia porque te interessa, porque aí constam pessoas de uma facção política de que não gostas. A partir do momento em que o teu argumentário muda de um ponto para o outro eu não posso discutir porque parte de factores não lógicos e irracionais. Com isso, lamento, mas não sei discutir.

A nível religioso, para ti parece ser razoável que alguém que evangeliza uma comunidade com valores morais e princípios seja suspeita de um crime desta natureza. Estás a defender o quê, afinal? Não estou a perceber.


De Ricardo Cataluna a 28 de Março de 2010 às 22:03
Belíssimo texto! Subscrevo!


De drmaybe a 28 de Março de 2010 às 22:21
os jornalistas são pessoas más


De Alexandra Tavares Teles a 1 de Abril de 2010 às 03:26
a quem o dizes


De Daniel João Santos a 28 de Março de 2010 às 22:37
concordo.


De lpedromachado a 28 de Março de 2010 às 23:14
O Papa é suspeito de pedofilia?


De jorge c. a 28 de Março de 2010 às 23:35
lpedromachado, o Papa é suspeito de cumplicidade. Foi isso que eu disse. É isso que indicam alguns factos porque levam a crer que o Vaticano sabia de alguns dos casos e nunca se manifestou, mantendo muitas vezes nos seus lugares alguns sacerdotes.


De lpedromachado a 29 de Março de 2010 às 03:41
Jorge

Vejo que voltaste ao assunto, depois daquele comentário em que desconversas com um processo de intenções relativamente ao que digo alhures sobre a Casa Pia. Apesar de ser desconversa e um mero processo de intenções cuja relevância para a discussão actual não consigo perceber, respondo na mesma.

Não percebo em que é que o meu \"argumentário\" (qual é o meu \"argumentário\"?) muda da Casa Pia para aqui. O que eu vejo, pelo contrário, é muita gente a tratar os casos de pedofilia no clero de modo muito diferente com que trata a pedofilia na Casa Pia. Na Casa Pia, há \"alegadas vítimas\" e \"alegados pedófilos\". Aliás, nem \"alegados pedófilos\", sequer. São meros réus. E ai de quem ousar insinuar que os acusados são pedófilos. Aparece logo um pederasta a ameaçar com tribunal. Já quando se trata da Igreja Católica, não há \"alegado\" para ninguém, mesmo que o visado nem tenha sido sequer investigado judicialmente. Basta a denúncia.

Eu trato os pedófilos da mesma forma. Eu quero que todos os pedófilos sofram pelo que fizeram, sejam eles da Casa Pia, sejam eles padres, ou o que for. Já a função da Igreja é perdoar, como manda Cristo. A Igreja não anda a denunciar gente à polícia.

Mas se alguém dissesse: \"Se ficar claro que a Catalina Pestana foi cúmplice com o crime\", esse alguém estaria a dar crédito à suspeita de que ela foi cúmplice. Ora, que eu saiba não há fundamento para essa suspeita. É exactamente o que disse aqui em relação ao Papa.

Há alguma suspeita, com o mínimo de fundamento, de que Bento XVI tenha deixado conscientemente um padre pedófilo continuar a maltratar alguma criança? Se sim, dou-te razão. Se não, tens de ma dar a mim.

E um jurista usar, numa argumentação, ao que parece, jurídica, a palavra \"cúmplice\" para alguém que alegadamente não denunciou um criminoso à polícia é um pouco estranho. Mas isso digo eu, que, graças a Deus, não sou jurista. :)

Por fim, noto que ao fim duma dúzia de comentários, dizes que não percebes o que eu quero dizer. Essas coisas dizem-se no início. Mas acho que percebeste bem o que quis dizer desde o início.


De jorge c. a 29 de Março de 2010 às 10:26
LPedroMachado,

A função da Igreja é perdoar. Muito bem. Perdoar não é ser cúmplice. E não é preciso ser jurista para compreender o conceito de cumplicidade. Tudo isto, aliás, é uma questão de puro bom senso.


De FuckItAll a 29 de Março de 2010 às 16:59
LPMachado, pelo contrário: os crentes podem e, "pelo livro", devem, perdoar. A Igreja é uma instituição e um Estado e, se não for por razões éticas (o que já é muito estranho) tem a obrigação legal de impedir e denunciar este tipo de situação. A cobertura dada a crimes é outra forma de crime.

Acresce que os crimes em causa foram cometidos por estes homens através do poder consignado pela Igreja, pelo que qualquer hesitação desta é duplamente grave.

Quanto à CAsa Pia, deve ter passado os últimos anos noutro país...


De lpedromachado a 29 de Março de 2010 às 15:31
Perguntei-te se havia \"alguma suspeita, com o mínimo de fundamento, de que Bento XVI tenha deixado conscientemente um padre pedófilo continuar a maltratar alguma criança\". Como não respondeste, presumo que não saibas de nenhuma. Porque não há. Ou seja, tenho razão. E por aqui me fico.


De jorge c. a 29 de Março de 2010 às 16:10
Pois tens razão. Fica com ela. Não te posso ajudar na tua ignorância. E eu é que me fico mesmo por aqui.


De Micas a 1 de Abril de 2010 às 20:53
ia sugerir exactamente o mesmo.


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