Sexta-feira, 25 de Junho de 2010
Grand Jacques

 

Parece que Brel passou pelos Açores. Mas, que história poderia sair daqui? O que pode ter acontecido de tão extraordinário para que esse facto, esse simples facto, fosse motivo para um espectáculo? Fica-se quase com a sensação que estamos perante um daqueles golpes saloios de promover o turismo. "Vá para fora cá dentro. Olhe que o Brel foi e lá ficou". Pois ficou. Porque estava doente. E desse imprevisto nasceu uma pequena história de universalidade, de existência crua e simples, na cabeça de Nuno Costa Santos.

Brel nos Açores é, acima de tudo, uma obra de uma generosidade única em que o autor nos oferece o seu olhar mais intimista e nos diz com alegria "vejam, vejam como ele era por dentro, vejam o que eu vi". E essa oferta genuína reflecte-se ao longo da peça com momentos de uma agressividade tal que deviam ser proiíbidos. Quase que era necessário colocar um aviso à porta a prevenir as pessoas de que "este espectáculo contém cenas e linguagem que podem ferir a sua alma de forma irreversível. Tenha cuidado, amigo!"

Para este efeito é fundamental compreender quem está no palco. Dinarte Branco é o actor ideal para o espectáculo. Um olhar que galopa entre o melancólico, o colérico, o doce e o distante. Dinarte consegue ser dois ou três narradores diferentes dando relevo à figura de Brel como que o deixando sempre no centro da espiral de emoções que andam por ali. É, ele próprio, os olhos de Brel e também a sua boca e os seus gestos mais contidos, o seu cinismo agreste e a sua necessidade de partir.

Mas não se monta um espectáculo destes. Um cenário improvável e impraticável.

Revela-se mais uma vez a sua qualidade numa cenografia simples, minimalista e com uma dinâmica livre que começa por envolver o público e ligá-lo ao actor, carregando-o lentamente para o palco num movimento de elevação da personagem. E essa dinâmica livre poderia chocar com a tensão das palavras de Brel muito bem traduditas, diga-se, se me permitem o neologismo. Pelo contrário, há uma harmonia plena na narrativa, como uma onda que nos tira o peso do corpo e nos transporta, a nós e ao desconforto, mar adentro. Uma onda Breliana, como diria o Nuno. Não fosse este espectáculo uma grande parte de si mesmo.

 

Está lá até Sábado, no S. Luiz. Não hesitem. Seria uma perda irreversível.

 



publicado por jorge c. às 11:56
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3 comentários:
De Ana Matos Pires a 27 de Junho de 2010 às 01:57
Comentário da Batata pouco dp do início do espectáculo "isto é o Dinarte a 'dizer' Nuno, mãe!"


De Osvaldo Castro a 28 de Junho de 2010 às 00:28
Caro jorge c.

Fiz link para "A Carta a Garcia".Obrigado.Parabéns.

OC


De jorge c. a 28 de Junho de 2010 às 11:14
Obrigado, Osvaldo Castro. Darei uma vista de olhos no blog, que não conhecia.


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