Sexta-feira, 16 de Julho de 2010
Pedro e o lobo

Um dos maiores vícios na linguagem política é o da conotação dos adversários com ideologias radicais ou mais incompreendidas. Da esquerda à direita é comum ouvir acusações de extrema esquerda ou neoliberalismo, de reaccionarismo ou estalinismo. É sempre de desconfiar e dar o devido desconto à mente retorcida por detrás dessas afirmações.

Portugal, tal como grande parte dos países ocidentais, aburguesou-se ideologicamente e aquilo que era a base das meta-narrativas políticas desapareceu. A virtude passou a estar definitivamente no meio e qualquer desvio é apontado como um atentado ao Estado de direito e à democracia de Abril. A tendência centrista é a mais forte e não há muitos sinais de mudança de paradigma. O mar está calmo.

Portanto, é uma questão de pensar e perceber que qualquer afirmação efectiva e competente de uma ideologia forte e objectiva seria cruxificada e morreria na praia. Os nossos políticos, sabendo disso, jogam com o interesse do poder e não assumem com coragem um objectivo. Enrolam, desdizem-se, travam. É deste modo, também, que as reformas se tornam insuficientes e incompletas. Contudo, é assim que o povo se sente em controlo aparente da sua democracia.

Olhando para trás, na História, percebe-se que foi este amorfismo ideológico, banhado a acusações inconsequentes, que conduziu muitos Estados a regimes totalitários. É um bocado como a história de Pedro e o lobo.


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publicado por jorge c. às 11:37
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6 comentários:
De cjt a 16 de Julho de 2010 às 12:26
a ideologia é uma questão de mito e propaganda. penso que tem sido mesmo a ideologia o grande impecilho à definição de objectivos e sucesso na empresa dos governos.
o tempo actual necessita, isso sim, de pragmatismo.
no entanto, não posso deixar de pensar que o pragmatismo sem, ao menos, um pingo de ideologia nos poderá levar a um perigo, o do relativismo - esse sim, fundador das grandes ditaduras, de um e de outro lado da barricada.

há algo que está em curso neste portugal, que é o facto de os partidos para além do ps e do psd estarem a ser considerados um problema - isto a fiar nas sondagens que vão saindo e que, sabemos, valem o que valem nesta altura do campeonato. mas há que considerar que isto possa ser uma tendência: uma vez mais, o povo refugia-se na "segurança" de um partido que "tem provas dadas", remetendo a liberdade da sua opinião sobre causas para quando a crise passar.
ora, esta situação anula o radicalismo ideológico de indicador em riste, pelo menos sob o ponto de vista do eleitor. ao homem comum que vota, nada lhe dizem termos como neo-liberalismo ou terceiras-vias, ou coisas assim.
o discurso político é outra coisa: perfeitamente representativo do mau estar que, de um ao outro lado da assembleia, é provocado pela mais que evidente incapacidade de lidar com a realidade. dos outros.

mas não era sobre nada disto que estavas a falar, pois não?


De jorge c. a 16 de Julho de 2010 às 13:02
também, também.


De Pão Metálico a 16 de Julho de 2010 às 13:58
Muito falam vocês no povo. Mas qual povo?
O povo conhece certamente o(s) Pedro(s).
E também sabe o que são lobos.
Mas entre muitas coisas, não conhece a história de Pedro e o lobo.

E tu, escreves para o povo?


De jorge c. a 16 de Julho de 2010 às 14:19
Repara que o preconceito não é meu. Passo a explicar.

Povo, território e soberania são os três elementos fundamanetais do estado. Não sei em que termos falas, mas eu falo em termos objectivos. Povo somos todos.


De Pao Metálico a 16 de Julho de 2010 às 17:11
Não é preconceito. É a realidade. Tu fazes parte de uma minoria. A malta que te comenta também.

O povo? O povo é sábio? Onde é que já vai essa sabedoria.

Não vivesse o povo nesta ignorância apática, e há muito que estes coirões já tinha sido apertados a valer. Assim, é como tu dizes, o povo sente-se em controlo aparente.

Este teu post, quanto a mim, não enferma de nenhuma maleita. Pelo sim, pelo não, talvez um antipirético quando falas no povo.


De Aurea Mediocritas a 17 de Julho de 2010 às 23:22
Grande post senhor C.


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