Domingo, 19 de Setembro de 2010
Estereotipar por aí

A visita de Bento XVI a Londres despertou-me novamente para um assunto de relativa importância e ao qual julgo não se dar a devida atenção por parecer tão banal - a estereotipagem.

A grande maioria dos críticos da Igreja criou uma lógica de explicação de comportamentos ou práticas reprováveis. Assim, o abuso sexual de menores, por exemplo, explica-se através das restrições sexuais, para falar em termos abstractos. É uma lógica aflitiva. Consegue-se deste modo estereotipar toda uma religião. Este é também um dos motores do fanatismo que se diz combater - visualizar um inimigo compacto com certas características perfeitamente definidas. Um padre = um abusador. Um padre = um provocador de fanatismo. Um padre = um atentado contra a liberdade. Diga o que disser, primeiro funciona sempre a lógica que lhe será inculcada.

Mas a mesma história funciona para outras realidades. A estereotipia é, por si, uma arte. Repare-se na questão do abuso sexual de menores. Que imagem se faz de um abusador? O Luís M. Jorge, por exemplo, não teve dúvidas. Um abusador só pode ser um tipo de direita, gordinho e oleoso, um canastrão empresário, um porco da classe média, ignorante da filosofia e da poesia mas mestre em futebol, tremoços e charutos rascas. Ou então, como relatava um jornalista do Diário de Notícias aquando do julgamento da Casa Pia, o feliz proprietário de um "carro de alta cilindrada" que, segundo os mais informados, parecem ser os únicos a passear-se lentamente pelo Parque Eduardo VII - o único sítio onde existe, aliás, prostituição masculina em todo o mundo - ou seja, gente de posses e mal resolvida com o seu machismo e por aí em diante. Deus! Metade do país é um abusador sexual de menores.

A questão da estereotipagem tem, para mim, a ver com insegurança e medo. Dar ao que não compreendemos uma cara será sempre mais fácil. Criar um inimigo físico com características específicas faz muito mais sentido para uma certa fragilidade da nossa personalidade. Foi isso mesmo que Vincenzo Natali mostrou em Nothing (2003), onde duas criaturas perseguidas pela sua própria vida e pelas suas vicissitudes começam a apagar pessoas e situações só com o poder da vontade até restarem apenas as suas cabeças. Só as suas cabeças.


tags:

publicado por jorge c. às 12:18
link do post | comentar | partilhar

1 comentário:
De MJM a 20 de Setembro de 2010 às 10:24
Brilhante!!!
É agradabilíssimo ler alguém que tão bem define o que penso sobre este tema e que não me é facil explicar a amigos ou conhecidos quando digo que esteriotipam.
É tão fácil, para a maioria das pessoas, esteriotiparem como generalizarem.


Comentar post

Um blog de:
Jorge Lopes de Carvalho mauscostumes@gmail.com
pesquisa
 
arquivos

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

tags

todas as tags

blogs SAPO
visitas
subscrever feeds