Domingo, 7 de Novembro de 2010
Da falta de cultura democrática

Quando eu era puto costumávamos gozar com alguns cidadãos devido à sua escassez de sensualidade. Dizíamos, então, que "aquele gajo devia processar os pais por ser tão feio". A malta ria-se e tal, mas no fundo, e por sermos proprietários de mais de 2 neurónios, sabíamos que aquilo não passava de uma graçola. Sei lá, podia dar-nos para defender aquela ideia peregrina, até porque alguns de nós enveredaram pelo santo ofício do Direito (entretanto tomámos medicação e ficou tudo bem e há até quem leia poesia).

Hoje, ouvi por alto umas declarações do Dr. Passos Coelho. Sim, porque a minha vida não é isto e infelizmente ninguém me paga para eu fazer comentário político indigente por aí. Dizia, então, o Dr. Coelho algo como isto: os governantes devem ser responsabilizados criminalmente por determinadas consequências das suas políticas (interpretação livre, para os mais rigorosos). Que boa ideia! Fez-me lembrar aquela minha doutrina infanto-juvenil. Acontece que PPC é líder do maior partido da oposição e potencial candidato a governante. Esta ligeira particularidade faz das suas palavras um dos maiores exercícios de demagogia que alguma vez foi dirigido ao país por um representante de um partido de poder. Como nos explicou o velho Aristóteles, a demagogia é a perversão da democracia.

Não vou aqui gastar a minha e a vossa paciência com uma exposição sobre a separação de poderes, os princípios do direito penal e da Constituição. Basta apenas apelar ao bom senso de todos para que se compreenda o disparate (a minha generosidade é infindável como os desígnios do Senhor) que aquelas declarações carregam. O problema é que o disparate é perigoso porque é isso que a demagogia é - perigosa.

Lembrem, assim, o Dr. Coelho de uma ex-ministra do seu partido - Leonor Beleza - que, no sentido da sua proposta, poderia ter sido condenada por decisões tomadas com base na segurança hierárquica. Lembrem este homem que a subjectividade das políticas e, em última análise, a escassez de recursos que conduz a uma inevitável restrição do providencialismo do Estado, não podem ser um factor de penalização de indivíduos concretos e que é o Estado que se deve assumir na sua condição democrática. Não sei se estamos todos sensibilizados acerca do conceito de democracia.

Podem tirar o homem do menezismo, mas não tiram o menezismo do homem.



publicado por jorge c. às 00:56
link do post | comentar | partilhar

3 comentários:
De NanBanJin a 7 de Novembro de 2010 às 03:06
De acordo Jorge. Tudo o que aqui diz é verdade.

Mas também sabemos ser verdade que o país se acha repleto de agentes políticos de primeiro plano que nas últimas décadas agiram clara, deliberada e pessoalmente em prejuízo do país e que o fizeram instrumentalizando os cargos que exerciam em exclusivo proveito dos seus interesses pessoais a curto, médio ou longo prazo.
E que com as suas acções, clara, deliberada e pessoalmente tomadas, torno a dizê-lo, conduziram o país ao estado de "escassez de recursos que conduz a uma inevitável restrição do providencialismo do Estado".
E bem sabemos, ou devíamos todos saber, quem eles são e que cargos ainda exercem.
E só por isso dou o desconto a PPC.
Porque não haja dúvidas que há gente — gente real, com nome e rosto! gente que surge diariamente no nosso espectro noticioso — empossada nas mais altas responsabilidades na condução do destino colectivo do país, que mereciam tão-só ser exemplarmente punidas.
Constatarmos que não "devemos" fazê-lo por mérito da argumentação que o Jorge aqui tão bem invoca no seu artigo, isso sim é deplorável, é cruel, é desesperante.

Meus mais amigáveis cumprimentos,
Luís Afonso, longe, no Japão


De jorge c. a 7 de Novembro de 2010 às 10:51
Caríssimo,

Tudo aquilo que enumera no que diz respeito ao proveito pessoal em prejuízo do Estado já está previsto na lei. Crimes como o peculato, o tráfico de influências ou a corrupção estão consagrados. Se os tribunais não os aplicam como muitas vezes achamos, isso já é outro assunto que não é relevante para esta discussão.
O que PPC sugere é responsabilizar criminalmente decisões políticas legitimadas pelo poder democrático.
O Luís acha mesmo que alguém sobe ao poder para prejudicar os cidadãos? Olhe que eu acho que não. Ser incompetente não é o mesmo que agir com dolo.
Portanto, eu sou eleito, tomo uma série de decisões, a economia entra em recessão por factores externos e eu vou preso por causa disso. Não me parece que faça sequer sentido.

Um abraço.


De Daniel João Santos a 8 de Novembro de 2010 às 22:00
A pergunta que se impõe fazer:

Tal medida inclui aqueles que com a sua abstenção se tornam cúmplices desses senhores?


Comentar post

Um blog de:
Jorge Lopes de Carvalho mauscostumes@gmail.com
pesquisa
 
arquivos

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

tags

todas as tags

blogs SAPO
visitas
subscrever feeds