Sábado, 11 de Dezembro de 2010
Decisões e consequências

Há cerca de um ano e meio, Miguel Vale de Almeida escrevia este post. Algum tempo depois integrava as listas do PS. Na altura, eu disse que não via com bons olhos esta forma de encarar a política, não por ser MVA a usar a política para fazer lobby (todos os cidadãos o devem fazer), mas sim pelo PS que estava a usar uma característica de alguém para vender uma imagem. Essa imagem, da modernidade, da vanguarda, é uma imagem que o PS nunca terá porque é, de facto, um partido do centrão, cinzento. E é assim porque é assim que o eleitorado vota nele (e no PSD). Mas quando essa vanguarda representa um número significativo de votos, o PS avança mesmo que hipocritamente.

Não acredito que MVA fosse ingénuo ao ponto de acreditar que José Sócrates seria muito diferente desse PS centrão e que agora se tivesse apercebido disso e recuado no seu apoio. Aliás, já tinha alguns exemplos de como o PM prefere a imagem ao conteúdo: Correia de Campos e Maria de Lurdes Rodrigues são os que me ocorrem assim de repente. Também não creio, pelo respeito que tenho por MVA, que o agora ex-deputado encare o lugar no Parlamento com displicência. Custa-me, aliás, que tenha dito que o seu objectivo era apenas um.

Uma bancada parlamentar deve ser uma equipa. Um jogador não abandona uma partida depois de marcar um golo porque já cumpriu o seu objectivo. Certamente que muitos dos que votaram no PS por causa de MVA e da sua causa tinham mais expectativas. Foi essa a ideia com que fiquei quando confrontei algumas pessoas com a ideia de que o único motivo pelo qual lá estava era o casamento entre pessoas do mesmo sexo (cpms) e me garantiram com veemência (quase me mataram) que não, que havia ali muito mais cidadania para dar e vender. Pois não é isso que o Miguel diz e confirma-se o receio que tinha de se estar a instrumentalizar a Assembleia da República para pouco tempo depois sair.

Era muito interessante que agora todos os deputados o começassem a fazer. Faziam lobby por um interesse de um grupo específico, concretizava-se e punham-se a andar. Que belo Parlamento com que ficávamos. Vão-me desculpar, mas não é aceitável.

Esta semana vi, pela primeira vez Milk, curiosamente. Harvey Milk é um personagem interessante que, apesar de tudo, nunca desistiu. Não se limitou a ser apenas o elemento gay. Ele sabia que a vanguarda que defendia não parava, não acabava na aprovação de uma lei específica e havia muito mais lutas. No caso de MVA muitas mais, mesmo dentro do PS, como o ministro Silva Pereira a fazer declarações como as últimas relativas ao apadrinhamento de crianças por casais homossexuais. Se isto não é motivo para continuar a fazer lobby, se as questões de igualdade de género se reduzem ao cpms, então teremos todos razão para falar em causas fracturantes com o devido perjúrio?

Não se admire o Miguel que esta seja a consequência da sua saída abrupta: um total desrespeito pelos causídicos das ditas fracturantes e a perda de força do lobby. Como se pode depois disto argumentar em torno de uma causa específica sem ser desvalorizado (ainda mais)? As críticas às causas fracturantes irão certamente aumentar, tendo agora uma arma de arremesso muito forte. A descredibilização dos seus defensores é agora inevitável e para muitas questões de direitos fundamentais isso poderá ser muito complicado.



publicado por jorge c. às 09:06
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5 comentários:
De Ana Matos Pires a 11 de Dezembro de 2010 às 10:51
Dpvolto, mas deixa-me só relembrar-te que te esqueces de explicar que quase te matavam qdo dizias "o único motivo pelo qual lá estava -pq o PS o queria usar e não pq o Miguel assim o tivesse entendido - era o casamento entre pessoas do mesmo sexo (cpms)". E olha q não foi só o cpms, estás desatento.


De jorge c. a 11 de Dezembro de 2010 às 11:06
Então, desatento estou eu e o próprio que fala no seu post apenas de duas situações: o cpms e a lei dos transgéneros. Na altura eu desconhecia a proposta sobre os transgéneros.
Ainda assim, compreendo que tenham de defender esta decisão, mas não há muito por onde ir. Podes refugiar-te de certa forma em pormenores das críticas, mas a questão de fundo é criticável e tu sabes isso perfeitamente. Porque foste a primeira a dizer que era inconcebível pensar que o MVA iria para lá por uma causa única porque era um cidadão pleno e com muito para dar politicamente. Não foste a única.


De Ana Matos Pires a 11 de Dezembro de 2010 às 11:25
"tenham" quem? Estou, eu, a falar contigo, não me venhas com plurais.

"Podes refugiar-te de certa forma em pormenores das críticas, mas a questão de fundo é criticável e tu sabes isso perfeitamente." não tenho que nem quero refugiar-me em nada, Jorge. Claro que criticável é td, acontece que neste caso não faço partes dos que criticam, agrada-me q as pessoas saltem qdo acham q não são uma mais valia ou qdo lhes apetece ir fazer outra coisa, seja ela o q for - voltar p a academia ou ir p a ongoing, p ex. Não sei se fui a primeira mas defendi, e mantenho, que "era inconcebível pensar que o MVA iria para lá por uma causa única porque era um cidadão pleno e com muito para dar politicamente", vê, p ex, o trabalho que desenvolveu em sede de comissão.

Ps: recordo-te q "o não iria para lá por" das nossas conversas de há 1 anos dizia respeito à opção pelo Miguel e não à opção do Miguel)


De jorge c. a 11 de Dezembro de 2010 às 11:32
Ana, isso é retórica. Não mais que retórica. Mas julgo que não compreendeste o meu plural nem o link que te pedi para abrires. È que quando eu o uso é mau, quando o MVA usa é um orgulho, certamente. Mas, ok.

Adiante, quem admitiu que lá esteve apenas por aqueles motivos foi o MVA. Está no texto dele. E eu não falo sequer em ser bom ou mau que as pessoas renunciem aos cargos. Nem tão pouco faz parte do meu argumentário tal imbecilidade.

O que faz parte do meu argumentário é a instrumentalização de um lugar no Parlamento por um período muito curto. Mas mais do que criticar, se leres bem, o que fiz foi uma espécie de aviso: a partir de agora a conversa das "causas fracturantes" vai piorar.

Depois, os jogos de palavras não são a minha especialidade. Uma pessoa foi para o Parlamento por uma causa. Um partido tirou proveito da sua identidade. Não sei se por, se em, se através. E nem me parece que essa discussão seja produtiva no seguimento do meu post.


De mdsol a 11 de Dezembro de 2010 às 14:15
No fundamental (e isso é que interessa) estou de acordo consigo. Mas discordo da imagem que usou, do jogador que marca golo (deduzo tratar-se de um desporto de equipa). Em muitas equipas, de certos desportos, há jogadores com funções tão especializadas que só entram em campo em determinadas circunstâncias. Em prol da equipa, de acordo com a estratégia do treinador, para atingir o objectivo colectivo: ganhar o jogo. Mas, nestas andanças da politica, o conceito de "ganhar o jogo" do pequeno colectivo (que pode ser uma bancada parlamentar) e do grande colectivo que somos todos, nem sempre coincide. E aí está o busílis. Ou não?

:)))


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