Domingo, 18 de Abril de 2010
nuvens

Domingo é um bom dia para leituras. No entanto, parece que este não está lá muito famoso. Pelo menos na blogosfera, onde a preocupação é a terrível troca de palavras entre dois politiquinhos que todos nós permitimos que chegassem ao lugar que ocupam, as remunerações de gestores de empresas privadas com participação do Estado e uma dúzia de outros faits-divers, as leituras não são muito recomendáveis. A preocupação do país é com tudo aquilo que não é de facto importante. São pequenas nuvens que provocam aguaceiros rápidos e agressivos que nada dizem sobre o estado real do tempo, lembrando um pouco esta nossa Primavera temperamental.

 

Pela Europa uma outra nuvem parece assumir o tópico de atenções. Não, não falo da crise grega e da especulação sobre o who's next?, mas sim da nuvem de cinza que está a dificultar a circulação de pessoas por causa da total falta de visibilidade. De repente, a ideia de Europa foi ameaçada por uma causa maior que apanhou desprevenido o velho continente e cujas alternativas podem não ser uma solução desejável ou até mesmo viável. Numa era de velocidade e rapidez de comunicação serão as formas mais tradicionais de circular que constituem a única solução possível para que as pessoas não fiquem retidas. Lembro, assim, as palavras de George Steiner nesse seu famoso ensaio "A ideia de Europa":

"A Europa foi e é percorrida a pé. Isto é fundamental. A cartografia da Europa é determinada pelas capacidades, pelos horizontes percepcionados dos pés humanos. Os homens e as mulheres europeus percorreram a pé os seus mapas, de lugarejo em lugarejo, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade. O mais das vezes as distâncias têm uma escala humana, podem ser dominadas pelo viajante que se desloque a pé, pelo peregrino até Compostela, pelo promeneur, seja ele solitaire ou gregário. Há extensões de terreno árido, proibitivo; há pântanos; os alpes elevam-se. Mas nada disto constitui um obstáculo intransponível."

No fundo trata-se de uma questão de prioridades que estabelecemos ao longo do tempo e às quais chamamos progresso. Talvez a prudência nos devesse obrigar a reservar alternativas baseadas nessa memória física da circulação, ou melhor, naquilo que mais nos aproxima.



publicado por jorge c. às 11:34
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