Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011
"Uma ideia de Europa"

O Presseurop convidou 10 personalidades para escrever sobre uma ideia de Europa, entre as quais Gonçalo M. Tavares, Fernando Savater ou Anon Grunberg. A visão destas 10 personalidades é, felizmente, muito positiva e coloca a Europa num caminho cosmopolita que pode beneficiar todos os cidadãos europeus e até os que vierem de fora. Pede-se mais abertura, novos rumos com nova gente, uma atitude sofisticada e ao mesmo tempo solidária.

De certo modo, estas visões acabam por ter, na sua maioria, mais de utopia do que de realidade. Não digo isto com ressentimento, mas sim com preocupação. É possível que se sonhe demasiado e se deixe de dar atenção ao que se está a passar em tempo real.

Leia-se este exemplo de Loretta Napoleoni, economista italiana, que vê solidariedade nos motins londrinos do passado mês, vê uma atitude semelhante à do Maio de 68 nos jovens de hoje, por toda a Europa. Falamos, claro, dos mesmos jovens que deixaram passar a Convenção de Bolonha sem questionar as suas consequências no plano do conhecimento (a base estrutural de uma comunidade esclarecida), nomeadamente em matérias mais clássicas. Os mesmos jovens que assistem serenos às alterações da sua economia através de uma autoridade que não elegem e se resignam com a precariedade cada vez mais frequente no espaço europeu.

Comparar estudantes de há 40 anos com os de hoje é pura ficção. Senão vejamos uma particularidade do mercado contemporâneo: a especialização. Qualquer licenciado é, hoje, um técnico em área específica. É pouco provável que se olhe para a sua formação como uma mera base para um trabalho muito mais amplo e se lhe reconheça legitimidade para outras competências. No currículo de um jovem licenciado é mais importante o seu grau académico do que a experiência vivida e todas as suas actividades extra-curriculares. É evidente que aqui assumo uma questão pessoal, logo parcial. A verdade é que esta realidade não é uma invenção desse meu hipotético ressentimento e constitui - mais uma vez - um factor de preocupação dentro de um caminho impreciso.

Estamos longe de uma geração uniformizada com um carácter social e cultural nivelado por cima. Estamos ainda mais longe de uma uniformização económica dentro dessa geração. As possibilidades de circular não são as mesmas. As oportunidades existem, mas a possibilidade é outra coisa. E enquanto existir esse impedimento, seja cultural ou económico, as elites de hoje só poderão ser substituídas por novas elites e não por uma geração livre e solidária, como parece ser o ideário da economista italiana.

Devemos sempre alimentar este cosmopolitismo de proximidades, como tão bem descreveu Steiner. O que não podemos é ignorar o resto da fotografia.



publicado por jorge c. às 12:50
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