Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011
Ando a tentar perceber...

Isto sou só eu a pensar. Voltando a um post anterior, e sempre com a noção da minha ignorância, acabo por pensar mais sobre a natureza da política do que propriamente nas suas circunstâncias. Portanto, acredito que é necessário combater o relativismo da natureza porque é essencial que os povos tenham a certeza do modelo que estão a seguir de modo a compreenderem as circunstâncias. O modelo - no caso, económico - é, assim, o ponto fundamental desta nossa discussão.

A pergunta que se coloca é: devemos seguir o modelo actual ou um que achamos melhor? Pode parecer estúpida e infantil, esta pergunta. Eu também achei quando a formulei. Mas, depois percebi que podia haver várias respostas e todas elas faziam sentido. Primeiro, posso dizer que se há um modelo que considero melhor então é esse que devemos seguir. Segundo, se estamos integrados num modelo conjunto então temos de o respeitar. Isto continua a parecer parvo, mas eu já concluo. Postas as coisas nestes termos, fará sentido responsabilizar sujeitos externos? À partida pode parecer que sim, o que é até bastante sedutor para quem a primeira necessidade é defender uma governação, mas se virmos bem não faz qualquer sentido. Repare-se no primeiro argumento: se eu considero que há um modelo melhor então tenho que sair do actual. Não faz sentido proceder à prática de um modelo não vigente, principalmente quando não se está sozinho. Acabamos por cair numa resposta única: devemos seguir, no sentido de colaborar, com o modelo actual. Podemos discutir a sua eficácia e os seus resultados, mas não nos podemos justificar com políticas de um modelo que não praticamos.



publicado por jorge c. às 17:12
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5 comentários:
De Funes, el memorioso a 13 de Janeiro de 2011 às 20:25
A pergunta que se coloca é: devemos seguir o modelo actual ou um que achamos melhor?

Julgo que o livro de Rui Ramos «Outra Opinião: ensaios de História» o pode ajudar a equacionar melhor esta questão. è uma edição do jornal "O Independente, da colecção "horas extraordinárias". É barato (custa 2,5 €) e vende-se, por exemplo, nas feiras do livro das estações de comboio de Campanhã e Santa Apolónia ou na estação do metro do cais do Sodré.
Como nota Rui Ramos, o nosso país viveu sempre (desde 1834) regimes tutelados em que, mesmo quando pareciam democracias, não o eram verdadeiramente, porque não havia escolha, apresentando-se sempre uma solução oficial que se assume e apresenta como única, passando por tolinhos aqueles que se atreverem a questioná-la.
Só para dar os dois exemplos mais recentes:
a escolha de Salazar pela defesa das colónias assentou na ideia - vendida como necessária e inquestionável - de que Portugal continental não era um país viável sem as colónias. E assim a sua defesa era um imperativo que não admitia discussão, porque admiti-lo era pôr em causa a própria sobrevivência da nação.
O mesmo fez o regime saído do 25 de Abril. Partindo do mesmo pressuposto que Salazar, assentou que Portugal não era viável sem a Europa e que não existia vida para lá da Europa. A integração europeia surgiu assim como a via única que não admitia qualquer alternativa não havendo sequer lugar para discutir outras escolhas que não podiam ser senão as escolhas de tolinhos.
Voltando à sua questão: devemos seguir o modelo actual ou um que achamos melhor?
O problema é que o modelo actual faliu. Faliu completamente. Logo, temos que encontrar outro. Neste é que não podemos continuar.
É certo que não temos outro que possamos jurar conduzir-nos a resultados melhores. Neste contexto, resta-nos o experimentalismo. Tentemos. Experimentemos. Procuremos chegar lá, quanto mais não seja pelo método da tentativa e erro.
O que não é admissível é que nos conformemos paralisados com a falência que temos, como se não houvesse outras escolhas. É esta, porventura, a melhor razão para não votar Cavaco Silva no dia 23. O voto em Alegre, Nobre, Lopes ou Coelho pode ser um voto pouco fiável, infeliz ou sem grande senso. Mas é o voto que não se conforma com o estado actual da situação. Cavaco Silva verbera a mudança e grita pela manutenção do status quo que nos conduziu à falência. O voto em cavaco é o voto no conformismo e no imobilismo.
Dou-lhe uma imagem real para fazer uma comparação com o que se passa hoje no país: em 1976 ou 77 (já não me lembro) Pires Veloso viajava num helicóptero que sobrevoava a zona da Foz do Douro quando começou a despenhar-se. Num espaço de segundos os passageiros tiveram que tomar uma decisão. Pires Veloso decidiu saltar. Caiu em cima de umas pedras e partiu-se todo. Mas sobreviveu. Os outros, os que ficaram dentro do aparelho a ver se ele pegava esborracharam-se contra o solo e morreram. O país está hoje no estado do helicóptero que se despenha. Ficar dentro dele a ver o que acontece, como propõe Cavaco, só pode conduzir-nos ao abismo. Correndo o risco de errar, o tempo é de experimentalismos, é de saltar do helicóptero. Pior ainda, é, como Cavaco, pregrar a ideia de que não há outra escolha possível senão permanecer quietinho dentro do helicóptero, porque a avaria não vai para aventureirismos.


De jorge c. a 14 de Janeiro de 2011 às 11:26
"O problema é que o modelo actual faliu. Faliu completamente. Logo, temos que encontrar outro. Neste é que não podemos continuar."

Meus senhores (chamo o Luís Afonso para esta conversa, também),

Esta frase do Funes diz tudo aquilo que precisamos para compreender por que razão isto é um argumento a meu favor. Eu não julgo em qualquer lado a viabilidade do modelo actual. O que eu digo é que há um compromisso em relação a ele. Por exemplo, Paul Krugman defende que se ignore o deficit. Se Portugal o fizesse estaria a ir contra um compromisso assumido com os seus pares. Portanto, uma mudança de modelo teria de ser um compromisso de toda a união.
Por conseguinte, o que eu defendo é que um governo que promove e assina um compromisso (o Tratado de Lisboa, por exemplo) não se pode desresponsabilizar se não houver cumprido com o que se propôs.
Em suma, eu nunca disse que o modelo era mau ou bom. Eu disse é que ele representa um compromisso. São duas discussões absolutamente diferentes.


De NanBanJin a 14 de Janeiro de 2011 às 03:19
Nesta estou com o Funes.

O comentário anterior diz tudo. Pronto.
As questões colocadas no artigo foram, com superior poder de síntese, respondidas nesta breve análise.
Eu só acrescentaria à afirmação de que o actual modelo faliu, a conjectura: se é que alguma vez existiu um 'modelo' de fosse o que fosse (???).

Caro Jorge:
Só um corte radical, profundo e eventualmente doloroso com o dito 'modelo' (se é que alguma vez houve um 'modelo', torno a indagar) é que pode impedir a hecatombe.
Já aqui o escrevi antes: o país deixou há algum tempo de ter um tecido produtivo capaz de suprir as suas necessidades económicas e financeiras, que é como quem diz, de suprir todas as outras — comparando Portugal a um indivíduo, ele assemelha-se cada vez mais a um desempregado de longa duração que já só sabe viver de biscates, pequenos expedientes ocasionais e da caridade dos seus.
Enquanto não houver quem se empenhe em reconstruir a capacidade produtiva real do país, assim ele continuará penando, na via sacra para o calvário da mais completa miséria. (E qualquer ajuda externa ou intervenção de fora só a curto prazo terá alguma valia, como é evidente, porque tem sempre o carácter de uma esmola, que tem sempre e só um proveito provisório, como é evidente, e por muito que custe aceitar essa realidade.)
Alternativa? Só mesmo a do Pires Veloso... que é como a minha e de tantos outros Portugueses, que já saltaram, ou vão saltar, desse helicóptero...

Forte Abraço,
Luís Afonso, NBJ


De GRaNel a 14 de Janeiro de 2011 às 12:40
A questão é mesmo essa Jorge.Independentemente de seguirmos ou não este "modelo" temos de assumir as nossas responsabilidades.

Mesmo desviando-me um pouco da discussão deixa-me acrescentar isto. e nada vale o déficit se este não gerar ganhos futuros, algo que em Portugal não tem acontecido. Parece-me que não resta se não poupar e com isso diminuir a dependência externa. O recente caso da venda da divida à China é só mais um caso.


De NanBanJin a 14 de Janeiro de 2011 às 13:01
Jorge:

Pessoalmente não creio que subsistam quaisquer condições para honrar qualquer compromisso emanado do Tratado de Lisboa ou de qualquer outro quadro institucional.
O peso actual da U.E. nas decisões que afectam o país é absolutamente excessivo — já todos o devíamos ter compreendido, assim creio eu.

Seria possível ignorar o deficit e seguir em frente, como Krugman parece propor — e como por exemplo, e já aqui o disse, o Japão que me acolhe, a braços com uma dívida pública monstruosamente muito maior, tem vindo a fazer —, em condições de soberania plena e tendo o país forças produtivas suficientemente sólidas para proporcionar uma recuperação económica firme e credível, ainda que eventualmente lenta — duas realidades que, como também já tenho aqui e noutros fóruns alertado, parecem irremediavelmente perdidas (e não querendo parecer demasiado fatalista, é mesmo assim que o quadro se mostra...).

Nas actuais condições, só mediante uma muito cuidadosa e faseada retirada da 'Eurocracia' que mantém a capacidade decisória soberana, não apenas no que a Portugal se refere mas também no que concerne a todas as demais economias europeias feridas de morte, de mãos atadas, poderia, em meu modesto entender, proporcionar as condições para uma verdadeira recuperação e simultanemente para a implementação de um novo modelo económico, político e social.
Assim, como estamos, é impossível.
Reféns de terceiros, não temos qualquer capacidade de iniciativa própria.
E este é também um problema derivado de uma certa mentalidade política que, como o Funes refere e muito bem, não sabe pensar o país sem Europa ou sem colónias ou sem outra muleta qualquer!
Claro que saltar do barco, num amuo caprichoso e repentino, só poderia antecipar mais desastres. Daí eu afirmar que qualquer retirada a empreender deveria ser levada a cabo de forma ponderada e faseada.
No actual estado de completa subserviência às instituições europeias e respectiva(s) liderança(s), é que não temos mesmo a mais pequenina chance de sair do buraco onde nos meteram/metemos.

Mas como faço sempre questão de afirmar, quanto a este e outros assuntos, só espero estar redondamente enganado.
E os experts do costume que tenham a bondade de corrigir a minha delirante ignorância, assim seja caso para tanto.

Abraço,
Luís F. Afonso, NBJ, Japão


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