Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011
Impressões de uma campanha VI - epílogo

Fico com a ideia de que a maioria das pessoas tem algum desinteresse pela campanha eleitoral. Só pelas redes sociais é que há um surto forçado de campanha e que tem como foco principal Cavaco Silva. Julgo que se tratará mais de um facto do que de uma percepção exclusivamente minha.

Com um cenário destes, o meio dos que gostam de debater a política está um pouco condenado a cair no erro dos casos laterais e dos soundbites sem conteúdo ou enganadores. Poderá ser este um dos motivos para o desinteresse dos cidadãos em geral? Eu julgo que sim. Não porque as pessoas tenham necessariamente consciência do fraco grau de debate, mas sim porque deixam de compreender a necessidade da política nas suas vidas por falta de esclarecimento.

Ora, se os media tradicionais optam pelo lado da campanha menos relevante para o país (reflexo do que os candidatos transmitem), deveria caber aos comentadores, aos bloggers e aos milhares de pessoas espalhadas pelas redes sociais uma discussão mais profunda porque são estes os que a mais informação têm acesso. Limitarem-se a reproduzir soundbites das assessorias dos candidatos e dos partidos é um sinal evidente do falhanço do debate democrático.

Acima de tudo, estamos perante uma falta de juízo crítico provocada pelo sectarismo e pela propaganda. Alimentam-se expressões-chave ou casos sem uma acusação em concreto, levantando suspeitas sobre as pessoas, e ignora-se a substância política de cada candidatura. Para que serve a Presidência da República? Quais os seus poderes e funções? Não, nada disso. É preferível discutir a insignificância de um artigo matricial numa escritura pública (sem saber ao certo do que se está a falar, mas levanta-se sempre a suspeita), o passado extremista do candidato ou se é o partido A ou B que dá ou não dá apoio, e por aí fora. A desculpa é o escrutínio do carácter dos políticos. Já comi pior e não paguei.

Dizem que os soundbites resultam, porque as pessoas não querem conteúdos. Eu muito gostava de saber quem é que lhes passou procuração sobre o que os eleitores querem ou não. Os eleitores não são estúpidos e a culpa do regime não é deles. Responsabilizar o povo, em abstracto, pelo resultado das suas opções é desresponsabilizar os políticos da sua vertente pedagógica e honestidade intelectual. Conhecemos muitos instrumentos para fugir a essa responsabilidade: o populismo, a demagogia, a propaganda, etc.

A repetição do discurso vazio das candidaturas por pessoas informadas, por puro sectarismo, é que vai, então, revelar essa falta de juízo crítico e incapacidade de pensar e promover a política como um bem comum e não como um projecto egoístico que não olha a meios para atingir fins. Compete-nos ser exigentes com o debate político e não nos conformarmos com o caminho que cada vez mais ele toma.



publicado por jorge c. às 12:14
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9 comentários:
De Dylan a 19 de Janeiro de 2011 às 15:04
Porque não me esqueço de quem governou o país durante 10 longos penosos anos como primeiro-ministro acentuando as desigualdades sociais, porque não me esqueço das malditas propinas do ensino superior, dos espectáculos degradantes no buzinão da ponte 25 de Abril, da investida sobre os policiais na Praça do Comércio e sobre os vidreiros da Marinha Grande, dos delírios das supostas escutas governamentais a Belém. Não quero voltar ao Cavaquismo, carrancudo e conservador, sorvedouro dos fundos estruturais da CEE, terreno propício às tentações da banca e dos oportunistas. Nem que para isso tenha que votar nesta espécie de "Tiririca" da Madeira, que salta da esquerda para a direita como quem muda de camisa, que ridiculariza a política ridicularizando-se a si mesmo, que denuncia os vícios da sua ilha e a imoralidade em que se transformou a política.


De jorge c. a 19 de Janeiro de 2011 às 15:07
Um comentário absolutamente ao lado do meu post e revelador do que eu disse.


De Dylan a 19 de Janeiro de 2011 às 22:18
Amigo,

Ou é ao lado do seu post ou é revelador do que disse no seu post. Decida-se...

Eu não faço acusações nem levanto suspeitas, apenas falo da realidade e do que tem se passado neste país. Se ficou chateado por o visado ser o professor Cavaco Silva, temos pena...
Sabe, eu gosto de política, e é precisamente por essas atitudes que aí relatei, que a mesma fica descredibilizada.


De jorge c. a 20 de Janeiro de 2011 às 10:02
A assunção de que eu fiquei chateado, mais uma vez, é reveladora do que digo no post. A projecção do entrincheiramento dá nesses erros de análise do discurso do outro.

Mas vamos por partes. Hoje acordei com disposição para a pedagogia. E sim, estou a ser arrogante - devo anunciar -, visto que o Dylan tenta fazer o que não sabe: usar bem a retórica. Quando o fazemos não devemos deixar muitas pontas soltas. Ora, o seu comentário é uma ponta solta. Os dois, aliás.

Por que é que o seu comentário é ao lado do meu post?
O meu post não incide sobre o desempenho político das candidaturas ao longo da História e da sua campanha directa. O meu post incide sobre o esclarecimento e o debate das pessoas que o fazem habitualmente: comentadores, analistas, bloggers, twitters, facebookers. Logo, fosse sobre Cavaco, Alegre, Nobre, Chico Lopes, Defensor ou Coelho, eu diria exactamente o mesmo. Mas, como a sua crítica é sectária, não percebeu isso.
Chegamos então ao segundo ponto: é revelador do que eu digo. Esse sectarismo impede-nos de perceber que nada esclarecemos da campanha presidencial - repare no nome presidencial - ao falar de assuntos ao lado. O meu post é exactamente sobre isso, sobre comentários como o seu quando se tenta discutir outra coisa.
O seu cérebro sectário está formatado para uma coisa: Cavaco. Não pensa em mais nada. Eu respeito isso - é uma forma legitima de existência. Concedo.
Por fim, por que razão o seu comentário é errado? Porque confunde algo que vai dar à separação de poderes. Esse cavaquismo nunca poderia existir na Presidência. É um cargo com funções não-executivas. Logo, o argumento é falacioso relativamente ao debate presidencial. Haverá certamente uma série de motivos para criticar o primeiro mandato de Cavaco. Relembrar a sua era no executivo é o mais fraquinho dos argumentos. Vê? Até lhe respondi ao comentário e tudo. Se quiser comentar o post propriamente dito, terei todo o prazer em mudar o meu tom e ser mais cordial.



De Dylan a 21 de Janeiro de 2011 às 23:33
Amigo,

Deixo a retórica para os intelectuais da nossa praça e da blogosfera. É que por vezes, apesar de tudo bem espremido, pouco se aproveita...

Eu percebi muito bem o seu comentário e o seu post. Só acho estranho que chame sectário aos outros quando fala da "insignificância de um artigo matricial numa escritura pública (sem saber ao certo do que se está a falar, mas levanta-se sempre a suspeita)". Tantos casos para falar e foi logo apontar para este. Conveniente. Será isto uma espécie de "cérebro formatado para o sectarismo que tanto apregoa"? Também respeito isso.

Reconheço que o cavaquismo dificilmente poderá existir na presidência, mas olhando para o recente Verão de 2009, mais concretamente sobre a insinuação de que o Governo estaria a espiar a Presidência da República em véspera de eleições legislativas, talvez deva mudar de opinião...

Continuo a achar o debate político interessante e necessário para a sociedade, mas já lhe disse: o cidadão demitiu-se da discussão pelos maus exemplos de alguns políticos. Não se trata de sectarismo e propaganda. É a realidade palpável aos nossos olhos que ninguém nem você conseguirá desmentir


De jorge c. a 21 de Janeiro de 2011 às 23:55
Você é um desonesto intelectual. Eu dei exemplos de assuntos laterais para, pelo menos, 2 candidatos. Isso é desonestidade e uma filha de putice que os malucos usam para auto-confirmarem a ideia que têm dos outros. Não dou conversa a isso. Chama-se profecia auto-confirmatória. Maluquice, portanto.


De Dylan a 22 de Janeiro de 2011 às 00:01
Sim, isso tudo...Mas diga-me, gosta de Cavaco ou não?

(e perdoo-lhe a linguagem visto ser do norte como eu)


De jorge c. a 22 de Janeiro de 2011 às 00:03
Não.


De Dylan a 22 de Janeiro de 2011 às 00:12
Ok, então a assunção foi minha e curvo-me humildemente.
Não fique com má impressão do Dylan. Relaxe:
http://aboutportugal-dylan.blogspot.com/
http://vagueando-dylan.blogspot.com/

Até qualquer dia.
Cumps.


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