Terça-feira, 13 de Maio de 2014
do ódio ao desconhecido

Será com muita dificuldade que um programa de debate na televisão consiga esclarecer alguém para lá da mera heurística sobre qualquer matéria. O de ontem, sobre a tauromaquia, não foi excepção. Para além de ser um tema de guerrilha urbana, é um assunto complexo, que envolve factores culturais e identitários endógenos. A ancestralidade do culto tauromáquico não nos merece a leviandade de uma discussão pouco esclarecida e ainda menos esclarecedora.

Se é verdade que a tradição não legitima qualquer actividade por si só, não é menos verdade que o progresso não tem de ser o estrangulamento daquela, a tábua rasa da história dos povos. E se muitas vezes o conservadorismo ganha contornos reaccionários, pouco esclarecidos, também acontece o progressismo exceder-se em tiques pós-modernistas, sem referências, sem cultura, cínico e alimentado por uma ideia de urbanidade que ignora a vida no campo.

A diferença entre as duas vivências é abissal. A espiritualidade que advém de cada uma tem origem em fenómenos identitários dissonantes que apenas se reúnem num mesmo indivíduo cuja sensibilidade foi sendo preparada ao longo do seu próprio desenvolvimento. Não quer isto dizer que tal faça de alguém mais ou menos sensível, melhor ou pior. Quer antes significar que há, por vezes, mais disponibilidade para observar o mundo.

O grande problema da pós-modernidade é, precisamente, a urgência, a efemeridade, a falta de tempo para contemplar e reflectir, para compreender, discernir e, sobretudo, para sentir. Não conseguindo compreender, opta-se pela tentativa de destruir. É esse o génio da multidão, como diz o grande Bukowsky.

 



publicado por jorge c. às 09:36
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Sábado, 25 de Janeiro de 2014
a praxe está morta

O acontecimento da praia do Meco trouxe, mais de um mês depois, uma discussão sobre o movimento académico e sobre a praxe. No meio da revolta e da incompreensão, surge um aproveitamento do caso para destruir a praxe. Julgo que não será preciso. A praxe está morta. A praxe académica é, hoje, uma prática anacrónica nos moldes em que é executada. Já o era no meu tempo, mesmo tendo defendido a sua relevância na altura. As críticas apontadas são, assim, na sua maioria, válidas mas, muitas vezes, injustas.

Para uma crítica ao movimento académico praxista é preciso, em primeiro lugar, conhecê-lo. Isso não acontece. A opinião pública dominante neste assunto é, essencialmente, lisboeta e projecta aquilo que vê, como seria de esperar, dentro da sua perspectiva subjectiva de urbanidade. A praxe em Lisboa não é um exemplo para nada. É, aliás, muito pouco urbana e desenraizada. Até a coisa mais simples como pintar a cara de alguém é uma acção não permitida na praxe do Porto, por exemplo. Portanto, não se trata de uma generalização justa.

A diabolização da praxe, em abstracto, acaba por alcançar um certo tom demagógico, principalmente depois de uma tragédia daquela dimensão. Não podemos, no entanto, desvalorizar o acontecimento do Meco. Ele diz-nos que há algo que não faz sentido. O silêncio da comunidade praxista, a nível nacional, diz-nos, aliás, muito sobre o desconforto que é vivido no seu meio. É um desconforto provocado por um choque de realidade, o choque de que o secretismo da praxe para a prática de actos agressivos de team building (aquilo que a praxe é, em bom rigor) pode ter consequências graves e que, fechados na sua própria realidade, deixam de discernir entre o que está certo e o que está errado. 

É importante termos esta discussão. É importante que se opine sobre adequação de tal prática à sociedade actual. Mas, essa discussão é importante para esclarecer as consciências e não para decidirmos se proibimos ou não. Proibir o quê? Para além do ódio, que já vinha de trás. é preciso parar para pensar. 



publicado por jorge c. às 12:33
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Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014
das elites

Este interessante texto ilustrativo de uma determinada realidade levou-me a outra matéria, mais abstracta, sobre a qual venho a pensar há algum tempo. O texto foca-se numa circunstância muito localizada. Fala-nos de uma elite lisboeta que nasce de uma perspectiva ideológica e/ou político-partidária. Algo muito específico. A ideia que isso me provoca é outra, mais ampla. 

Não sei definir o nascimento de uma elite. Haverá, certamente, um elemento identitário, depois um elemento mobilizador e uma liderança. Com o tempo, passa a existir apenas uma massa mais ou menos compacta e fechada em si mesma. O que me leva aqui à forma inconsequente e onanista da formação das elites, do seu carácter intrinsecamente fútil. Mas será que quando falamos de elite falamos do seu significado original ou estamos apenas a referir-nos a grupos elitistas? Sem possibilidade de consultar a outro dicionário, recorro ao Priberam e encontro, numa das definições, a minha resposta: "Minoria social que se considera prestigiosa e que por isso detém algum poder e influência". É a esta definição que me vou referir. 

O prestígio é um elemento exclusivamente psicológico. Significa isto que é instalado na percepção das pessoas e funciona como um vírus, não derivando de razões práticas muito concretas ou, até, de virtudes específicas. Neste campo de abstracção, surge um espaço para um desejo de pertença meramente estético e que vai criar uma marca influenciadora. É este espaço que dará a ideia de prestígio. 

Podemos observar algumas das elites que se espalham pelo país, umas mais compreensíveis do que outras: a elite política urbano-burguesa lisboeta, bem descrita no texto de António Araújo quando este se refere à mistura ideológica em determinado contexto social; a elite académica de Coimbra e de Lisboa; a elite burguesa portuense da Foz e da Boavista; a elite empresarial de Braga ou de Aveiro; a elite aristocrata do Ribatejo; a elite proprietária alentejana. Todas estas realidades minoritárias criam dentro de si o fenómeno da exclusão, da antipatia e, de certo modo, de alguma soberba, criando a ideia de um espírito sofisticado e esclarecido que os demais são incapazes de atingir. A reclusão destas elites dentro de si mesmas acaba por gerar uma dinâmica acrítica e com pouca correspondência no real. Em alguns casos ganha contrastes corporativos. Semper Fi. A abertura ao real acontece, muitas vezes, apenas pela necessidade ou pelo calculismo, regressando muito rapidamente ao movimento original. 

O fenómeno das elites é um dos mais interessantes de uma sociedade moderna. Tal como no referido post do Malomil, é sempre difícil reflectirmos assertivamente sobre a sua evolução nas plataformas contemporâneas. Contudo, atrever-me-ia a dizer que há hoje uma elite online, que já se formou a partir de uma outra mais dispersa, entre jornalistas, políticos, publicistas, alguns (não muitos) artistas e gente nova que surgiu devido à diversidade dos meios, provinda dos blogs. A característica nuclear das elites está lá: é sedutora e aliciante. Mas como todas as elites, ela tende a fechar-se sobre si mesma, resguardando-se numa estética, agora muito mais abstracta mas que, com o tempo, vai se tornando mais clara. A sua grande inovação é, ainda assim, a diversidade pós-ideológica, conferindo-lhe um tom snob muito interessante e a sensação de uma falsa abertura. 

Ao mesmo tempo, assistimos ao fim de outras elites que, por falta de actualidade, acabaram por ser vítimas da sua reclusão e se extinguiram ou se dispersaram, misturando-se noutras elites.

 



publicado por jorge c. às 10:00
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Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2014
silêncio

Um pacto de silêncio que omite uma relação perversa que um indivíduo tem consigo próprio e com os outros não é algo que deva passar despercebido. Foi esse o pacto de silêncio que encobriu crimes de guerra, que encobre abuso sexual de menores, corrupção entre muitas outras questões que são, antes de mais, um problema que cada um de nós tem consigo mesmo. Em Nuremberga disseram que cumpriam apenas ordens.

A relação que o individuo tem consigo mesmo é um reflexo daquilo que ele acredita que a sociedade exige dele: integração, pertença, partilha de interesses e, fundamentalmente, sucesso ou reconhecimento inter pares. A questão que se levanta é se esta pressão do exterior está só na cabeça do indivíduo ou se ela existe, de facto, como uma imposição tolerada. 

Julgo que não é na proibição da praxe académica que está a solução para um problema maior. Mas, uma vez mais, depende das perguntas que quisermos fazer. 

 

 

Devo esta pequena discussão ao meu amigo e fiel interlocutor Eduardo Sardinha. 



publicado por jorge c. às 10:18
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Segunda-feira, 9 de Setembro de 2013
tudo o que tenho a dizer sobre este assunto

 Eis uma atitude impensável para Rita Cavaglia, 20 anos, lisboeta, no segundo ano de Psicologia. "A primeira vez que me lembro de ouvir um "piropo" - que é uma palavra que acho mal escolhida para esta discussão, porque as pessoas refugiam-se na questão semântica para não falar disto - tinha uns 10 anos. Estava à porta da escola e um senhor perguntou-me se queria fazer um broche. Fiquei um bocado assustada e pus-me a pensar naquilo - e que não tinha de andar na rua sujeita a ouvir coisas assim, que os homens não tinham o direito de o fazer". O evento coincidiu, conta, com o facto de os miúdos da escola andarem a apalpar as miúdas. "Resolvi começar a responder, tanto na rua como na escola." Chegou a ser chamada à direcção por ter rasgado a camisa a um rapaz que a apalpara. "Ele apalpou-me e eu é que fui chamada?", questiona, atónita. Não foi a única vez que que se confrontou com consequências da legítima defesa. "Uma vez vinha na rua, um gajo de carro disse-me qualquer coisa, mandei-o à merda e ele saiu do carro e apertou-me o pescoço. Valeu-me haver muita gente à volta que interveio. De outra vez só não apanhei porque fugi: estava num autocarro, um tipo não parava de me chatear e levantei-me, chamei-lhe porco de merda e saí quando as portas estavam quase a fechar. Mas ele saiu na próxima paragem e veio a correr atrás de mim com ares de louco. Não havia ninguém na rua, tive de acelerar dali para fora." Suspira. "É fantástico, não é? Podem dizer tudo o que lhes apetecer e quando alguém responde está sujeita a apanhar uma tareia. Depois penso que me coloquei numa situação de risco, mas na altura fico tão passada..."

Mesmo assim, crê que não é só por medo que a maioria das raparigas e mulheres não reagem. "Há muita gente que acha que a atitude correcta é não dar importância, é aquela coisa da mulher honesta não tem ouvidos. E como ninguém fala disto, é como se não acontecesse. Mas quando temos 13, 14 anos é todos os dias. Temos ar de miúdas e os gajos acham que não te sabes defender. Quanto mais desprotegidas mais pica lhes dás." No rosto angelical, a determinação não vacila: "Enerva-me profundamente. E não estou só a falar do lambia-te e fazia-te e acontecia-te, o 'és tão bonita' também não me deixa confortável, porque não conheço aquela pessoa de lado nenhum, não tenho de ouvir isso, tenho o direito de não ser importunada. E assusta-me particularmente a idade com que as miúdas começam a ouvir aquelas coisas."

Aliás, diz, mesmo quando consegue "desarmar" o piropador e sentir o poder que advém de se ter defendido, é "sempre uma situação humilhante. Não sei se é fácil criminalizar o piropo mas é uma discussão que é importante ter. E não consigo explicar as mulheres que não querem falar disto".

 

Retirado da reportagem "Cenas eventualmente chocantes", da Fernanda Câncio, no DN de 07/09/2013



publicado por jorge c. às 14:06
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Quinta-feira, 27 de Junho de 2013
uma questão de fé

Mundialmente conhecido por me irritar com extrema facilidade, há coisas que me levam, até, a perder a esperança na humanidade.

Não se pode dizer que a opinião pública seja dotada de inteligência, já que parte da forma como se manifesta é influenciada por uma espécie de tradição de pensamento. Se, por um lado, a tradição do pensamento (que representa, muitas vezes, uma memória colectiva) ajuda-nos a não repetir determinados erros, por outro lado, cria um problema sério de falta de juízo crítico, de consciência.

Teríamos muitos exemplos, bastante actuais, para dar: a greve, a nossa Michelle e Portugal a dar cartas lá fora, o calor e os incêndios, os malandros dos desempregados, os políticos corruptos e os empresários mafiosos, o desenrascanso enquanto característica positiva de um povo, a crise de valores e o facilitismo, e por aí fora. Tínhamos aqui cinema para a tarde toda. 

Mas, sejamos sucintos que o tempo é curto: o lugar comum na mentalidade contemporânea é uma bala de mau gosto que fere a harmonia entre a rapaziada, que dificulta o debate de ideias e que contribui para uma maior incompreensão do outro. E é por isso que devemos parar antes de dizer a primeira coisa que nos vem à cabeça, que nos é trazida por aquilo que fomos ouvindo a vida inteira e que nem sequer questionamos, porque nos parece lógico. Ora, como pode ser considerado lógico algo sobre o qual não pensámos, não discutimos e que concluímos com ideias emprestadas?

É uma espécie de gosto que se vai infiltrando, como um vírus, por afirmações peremptórias e que nos dá uma espécie de confiança e a ilusão de convicção que não é, senão, uma fé. Acontece, com frequência, sermos confrontados e, quando procuramos prova, não está lá nada. É um vazio que parece fazer desmoronar a nossa percepção das coisas.

Porque é assim. Porque pronto. Não achamos bem. Não nos parece bem. É porque é. 

 

 

 


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publicado por jorge c. às 12:28
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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012
as minhas coisas favoritas

Em alturas como esta oferece-se dizer que só valorizamos as coisas quando as perdemos. Mas, logo viria alguém discutir o lugar comum e a falta de sofisticação, a pouca urbanidade da coisa e a necessidade de seguir em frente. É a chamada ética dos fúteis. 

É uma merda perder as coisas. É uma merda que sejamos poucos a tentar mobilizar as pessoas para os lugares que sabemos mágicos, onde o tempo não passa e se mantem estático para que, então, uma certa transcendência nos coloque os olhos no futuro. É isso que o Jazz nos faz. É o mais perfeito instrumento da consciência livre.

Pouco pretensioso, o jazz é da rua, é dos bares generosos. Quando as ruas e os bares perdem o jazz, nós perdemos um pouco mais de liberdade, de oportunidade para lançar a conversa num precipício interminável, empurrada pela enxurrada de uísque e de fumo livre.

Hoje, de manhã, acordei com uma notícia amarga. O Catacumbas - o último speak easy, digno do nome, na cidade - fechará em fevereiro. Talvez seja mais uma das consequências do tempo que vivemos. A crise. Porém, pergunto-me se a verdadeira crise não será a mesma história de sempre: a desvalorização das coisas, a troca do brinquedo velho pelo novo, a ditadura da novidade e do trendy e assim sucessivamente. 

Este é o meu maior ressentimento, não o nego. Porque não gosto de perder as minhas coisas favoritas. 

 

 

Até jazz, Manel.



publicado por jorge c. às 13:20
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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2012
uma história extraordinária

Não há nada como uma boa aldrabice.

Os grandes impostores da nossa história, e da literatura, foram sempre personagens de grande competência. D.Juan, por exemplo, aos olhos de Molière, era um refinado hipócrita. Porém, não tenhamos dúvidas de que se tratava de um excelente impostor. Atrevo-me, até, a vigarizar uma célebre frase sua para dizer que "a aldrabice é um vício que está na moda". E, por falar em vigarizar, atente-se à inolvidável competência do Vigário que Pessoa imortalizou num pequeno conto, não obstante ter durado apenas umas horas.

Há aldrabices lentas e aldrabices tão repentinas, que apenas a competência da execução distingue os seus protagonistas.

Em Portugal - país de inúmeras aldrabices - a competência é, contudo, relativa. E é isto que incomoda. A uma aldrabice incompetente, facilmente desmontável, e ao seu desajeitado impostor, logo se junta uma tutela que os protege. Poderá isto suceder por mera ingenuidade mas, a verdade, é que se estraga logo a beleza da aldrabice. É batota. Porque o bom da aldrabice é que ela engane tudo e todos sustentada, apenas, pela competência do impostor.

A opinião pública portuguesa está, todos os dias, sob a mira da aldrabice. Enchem-se canais de comunicação das mais variadas vigarices mentais, de simples desconstrução, que são sustentadas por directores e editores nas redacções, por um senado de especialistas e, por consequência, pelos representantes políticos do povo. E, se estes se deixam enganar, então a aldrabice perde a sua originalidade e a sua competência. 

Por estes dias, apanharam um impostor. Um grande e verdadeiro impostor. Ludibriou tudo e todos, como nesses truques de ilusionismo em que a arte está na manobra de diversão criada. O espanto generalizou-se e as reacções foram, até agora, sublimes, desde os mais sabichões aos mais envergonhados.

Nas grandes obras literárias, não podemos dizer que existe sempre uma moral da história. O que há é uma demonstração das formas que a condição humana toma, sem juízos. Cabe-nos a nós, leitores, decidir. Talvez só daqui a muitos anos, saberemos que decisão tomámos para as nossas vidas, depois desta história extraordinária.



publicado por jorge c. às 19:43
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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
Queixume e ressentimento

Fará o queixme parte dos nossos costumes? Sabemos que é, pelo menos, um vício. Eu queixo-me do braço, o meu vizinho queixa-se dos dois e um terceiro queixar-se-á do corpo todo. É um vício de competição de mau-estar. Nos locais de trabalho, nos grupos de amigos, em conversas de café, as pessoas competem por horas de sono dormidas, número de horas a trabalhar, horas de almoço perdidas, acumulação de trabalho. Persiste a ideia de que o nosso mau-estar é sempre maior do que o dos outros e, até, que há quem se queixe de nada, supomos. Pois o problema não está no queixume. É bom que as pessoas se queixem. Se não nos queixarmos, ninguém conhecerá os nossos limites. Porque os nossos limites não são todos iguais. Há quem fique bem com 4 horas de sono e há quem precise de um sono de beleza de 8 horas (como eu). Há quem tome café e aguente o dia, há quem não o faça e prefira dormir. Há quem passe o dia sem comer e outros há que precisam de se manter alimentados. Somos todos diferentes. E quando os limites são ultrapassados, é tarde de mais para ficarmos surpreendidos. Daí que competir não é um bom princípio. Agravamos o ressentimento, o nosso e o dos outros, numa espiral negativa muito mais grave que a desse mau-estar - a da nossa convivência.


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publicado por jorge c. às 21:45
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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011
Os zangados

Como era o mundo antes da internet? Muitos de nós parecem ter-se esquecido. Só isso explica que um conjunto de pessoas possa, hoje, manifestar uma homenagem ou um desconforto sobre uma personalidade, publicamente, e ainda ter direito a uma resposta (quando nem se perguntou nada) ao estilo mais ressabiado "agora toda a gente conhece o, ou a, não sei quem".

Ontem aconteceu um fenómeno extraordinário que os mais desatentos não repararam. Durante todo o dia falou-se no desaparecimento de uma personalidade, um empreendedor, de obra reconhecida e de grande valor sócio-económico e, até, cultural. Foi um reconhecimento global feito por milhões de pessoas, a grande maioria delas através da internet.

No mesmo dia, um ilustre desconhecido, Tomas Tranströmer, nasce para o mundo, premiado pela sua desconhecida obra poética. Mais uma vez, "agora toda a gente conhece o...". De repente, milhões de pessoas ficaram a conhecer uma pessoa nova, ao mesmo tempo, e ganharam a oportunidade de descobrir o valor da sua obra. A sua melhor reacção é criticar o vizinho do lado por uma aparente falsidade?

O desaparecimento e o nascimento de duas obras feitas por dois homens de áreas completamente diferentes e a possibilidade de serem divulgadas pelo mundo todo. Desde quando é que deixámos de nos maravilhar?



publicado por jorge c. às 10:36
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Domingo, 2 de Outubro de 2011
Nas redes como na vida

No outro dia, um colega meu informava os restantes presentes que, em média, cada pessoa passa 2 horas e meia no Facebook. Este dado gerou logo o espanto geral. Como é que é possível? No que nos estamos a tornar? Calma, calma. Há 15 anos atrás, um estudo feito por profissionais do ramo dizia que, em média, as crianças viam 4 horas e meia por dia de televisão. Já ninguém se lembra. O mundo, entretanto, não acabou, essas crianças cresceram e deixaram de ver televisão para passar a estar no Facebook numa média de 2 horas e meia.

As empresas, hoje, preocupam-se muito com o tempo que as pessoas perdem nas redes sociais. Não duvido que tenham alguma razão. Mas será um problema das redes, em si, ou do utilizador? Será que eu posso ser condenado por utilizar as redes pelos mesmos motivos que o meu colega do lado? Que utilização dela fazemos?

Não devo projectar a minha própria utilização. Desde que me lembro da existência de feeds que uso tudo o que estiver ao meu alcance para absorver informação. É uma forma simpática de não perder tempo a consultar jornais e estar, ao mesmo tempo, informado. As redes sociais aumentam ainda mais este potencial, se cada pessoa contribuir. Quando isso não acontece temos bom remédio: delete.

O que vou notando, com o tempo, é que os utilizadores de Facebook, por exemplo, estão agarrados a um sentimento de posse da sua rede e não fazem, muitas vezes, ideia do seu potencial. É muito fácil confundir comunicação com coscuvilhice. Mais fácil ainda é culpar o mundo pela nossa própria rede social. Habituado a ser cliente na vida, o utilizador comum projecta as suas pequenas frustrações na pobre ferramenta. O último grande disparate é esta questão levantada por este texto.

Quanto mais não seja, as redes sociais são aquilo que nós fazemos delas. As pessoas que seleccionamos são uma opção nossa. Aquilo que dizemos publicamente é uma opção nossa. As discussões em que nos metemos são uma opção nossa.

Há cerca de dois anos, um texto de Miguel Sousa Tavares ficou muito famoso por se mostrar contra o Facebook. Na opinião do autor, para além da já habitual doutrina de costumes as far as he can see, o Facebook é uma invasão de privacidade. Ora, a opinião de MST não é muito diferente da de pessoas que estão na rede e que nela participam todos os dias, nem que seja a ver o que os outros lá colocam.

Quero dizer com isto que tem tudo muito mais a ver com uma desorientação generalizada, uma ansiedade social e uma projecção de frustrações. Não podemos achar que as redes vieram agravar a decadência da civilização. Podemos, sim, gerir melhor as nossas redes, decidirmos com firmeza o que queremos e o que não queremos nas nossas vidas, em vez de esperarmos que, por obra e graça do Senhor e das queixinhas, seja feita a nossa vontade.



publicado por jorge c. às 10:36
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Domingo, 25 de Setembro de 2011
Da civilidade

Há uns dias explicava a um estrangeira (assim mesmo, uma estrangeira) que, de toda a História de Portugal, o momento que mais me orgulhava era a abolição da pena de morte. Esse momento representa, para mim, um grande avanço civilizacional no caminho para uma sociedade mais inteligente e sustentável, mais esclarecida no estabelecimento consciente das regras.

Provavelmente, se eu fosse saudita estaria, hoje, muito orgulhoso do meu país por abrir o sufrágio às mulheres. É um sinal de que os tempos mudam e as realidades se transformam. É um sinal de que só com a integração e solidariedade podemos ter uma comunidade mais forte, porque justa.

Não deixa é de ser irónico que, quase ao mesmo tempo, se tenha executado um cidadão nos EUA - um exemplo para tantas outras coisas e, neste caso específico, uma amostra de paragem no tempo. A sua altura também chegará.



publicado por jorge c. às 13:51
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The joke is on you

A tendência, mais do que a moda, é um conceito muito interessante. Quando olhamos em volta e conseguimos perceber que algo está a nascer de uma idiossincrasia muito particular para se tornar num comportamento de grupo, numa tendência de época, acabamos por preferir a nossa velha atitude conservadora, demasiado portuense do "eu não papo grupos mas também não me vou chatear por causa disso".

Um dos últimos conceitos fashion da época é o de hipster. Trata-se de um conceito que mal nasceu começou logo a levar pancada. Ora, se o hipster é o pretensiosozinho anti-comercial, a sua crítica, baseada em moda de circunstância, é paradoxal. Não sei se me faço entender. 

Escrevo isto depois de uma tentativa de provocação que me fizeram. Confesso que, apesar de não ser muito dado a provocações (gosto de discutir, isso é outra coisa), fiquei a pensar no conceito. Hipster. Durante anos chamámos-lhe outra coisa qualquer. Sempre houve gente que se tentou marginalizar de uma forma muitas vezes patética, afastando-se do mainsteam ostensivamente como que por uma jogada de superioridade moral, qual bofetada de luva branca na imundice popular. Notou-se sempre isso na música. Todos tivemos o amigo que só ouvia coisas que ninguém conhecia. É claro que vai daí uma grande distância até à nossa própria ignorância. Eu não posso acusar alguém de pretensiosismo quando o problema é, efectivamente, a minha falta de conhecimento, de vontade e de disponibilidade.

Mas, este caso particular da moda do hipster muda tudo. Se o hipster se tornou numa personagem do mainstream, facilmente acusável, o verdadeiro hipster passou a ser o seu acusador, aquele que não alinha nas modas. O processo inverteu-se. E daí talvez não. De facto, o pretensioso esteve lá sempre, no crítico, no que não admite comercialização da sua própria atitude. Os conteúdos é que são flutuantes. A alternativa (ou o indie, como preferirem) de ontem é o mainstream de hoje. O alternativo é que mudou os gostos para não se deixar comercializar. Como se um disco pudesse deixar de ser bom de um dia para o outro só porque toda a gente o ouve. O protótipo do hipster nunca é genuíno por passar demasiado tempo preocupado com os outros, com o mesmo grau de futilidade de quem passa demasiado tempo ao espelho. Não existe grande diferença entre a arrogância vaidosa física e a intelectual. São ambas defeitos que nos impedem de sociabilizar mais, de comunicar, de estarmos de bem com a vida e nos obrigam a inventar uma marginalidade ridícula e inconsequente.


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publicado por jorge c. às 12:21
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Quinta-feira, 30 de Junho de 2011
O valor da informação

A notícia que vos trago hoje, para que possam apreciar a minha capacidade crítica em relação aos assuntos no geral e em abstracto, traduz um conjunto de maus costumes: nossos, dos jornais e do Estado enquanto elemento administrativo.

Diz, então, o jornal i que o "Governo de Sócrates apagou informação dos computadores". A ânsia do novo órgão do garcia pereira do Sport Lisboa e Benfica de apanhar Sócrates na curva é tal que arriscam a total desonestidade na formulação de uma parangona. Quem é a autora da peça? Tcharan! Filipa Martins! A escritora-comentadora-esquerda-direita-volver mais famosa dos blogs, ou como lhe chamam os companheiros de blog "a nossa Filipa Martins". Enfim, uma jóia de moça sobre a qual faço uma série de comentários pejorativos em privado perfeitamente justificados. Eu, mais logo, irei a um happening, se quiserem apareçam e eu conto tudo o que sei sobre a vida privada das pessoas execravelmente públicas. Adiante.

Se é sabido e informado mais abaixo que esta é uma prática reiterada da máquina do Estado, qual a razão para fazer um título destes? Não há razão, é pura mesquinhez.

Mas, que razão haverá para esta prática absurda do Estado? O Estado não são os executivos. Os funcionários do Estado não são do Governo. A informação não é do Governo, é do Estado. A informação não pode ser assim perdida porque tem demasiado valor. Qual será a quantidade de informação essencial, para e sobre os cidadãos, que se perde negligenciando processos já por si complexos? Não faz qualquer sentido.

Parece que os portugueses têm um problema com a informação. Ninguém gosta de partilhar informação. Saber coisas é uma espécie de my precious como escrevia Tolkien, um autor que nunca poderia ser plagiado pela Filipa Martins. Quem tem objectivos comerciais facilmente compreende que toda a informação deve ser partilhada para que não se torne redundante, inconsequente ou negligente. A informação que fica em nós não tem qualquer valor.

Todo este comportamento tem um toque provinciano, de um país onde, infelizmente, ainda não se aprendeu a trabalhar em equipa, por objectivos e com um objectivo comum. Um país onde, com efeito, se prefere lançar boatos e acusações em vez de questionar o que está, de facto, na origem dos problemas, porque não se compreende sequer essa origem.

 

Adenda: Era obrigação desta notícia esclarecer que informação foi apagada, se profissional, se pessoal. Não o fazendo, eu não posso adivinhar. Portanto, se alguém me quiser esclarecer sobre esse assunto, com conhecimento de causa, eu estou disposto a emendar a única informação à qual tenho acesso que é a de que toda a informação foi apagada.



publicado por jorge c. às 10:15
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Domingo, 19 de Junho de 2011
Publicidade, comunicação e concorrência

Acho que nunca discordei do Paulo. Mas há sempre uma primeira vez. O Paulo é o génio da sensatez. Aprendo sempre que ele escreve e muitas vezes aqui me denunciei. Acontece que desta vez não consigo encontrar uma linha de convergência, mesmo que, porém, não possa dizer que discordo. Assumo, assim, que pretendo discutir, tendo a consciência que posso não estar a ver totalmente a fotografia (the big picture, como se diz no estrangeiro), tentarei ser breve expondo a minha perspectiva.

Segundo compreendi, o Paulo não acha correcto que um jornal subverta o sentido da publicidade transformando-a em notícia. Estaremos todos de acordo. É uma regra. Não falaremos, por ora, do dogma. Também não falaremos já de outras questões de concorrência que poderão ser mais ou menos relevantes. Não concordo que se compare o incomparável, muito embora estas questões, e de uma forma pragmática, se possam considerar relevantes. Vamos à questão de princípio.

O objectivo desta rubrica é, pelo que nos é dado a entender, explorar a dimensão da marca portuguesa num sentido amplo. Para tal utilizam o formato da entrevista de uma personalidade, dir-se-ia insuspeita. Temos aqui 3 factores: uma entrevista, uma personalidade e uma marca. Temos como evidente (por uma questão de princípio) que um formato jornalístico está a ser usado para publicitar (sentido amplo) uma ou várias marcas (poderíamos dizer produtos ou empresas). Também por uma questão de princípio, e a olho nu, achamos que aqui existe a tal subversão de que falávamos. As coisas confundem-se e geram confusão. Até aqui, de acordo.

A entrevista tem um contexto que é a rubrica. A personalidade aceita. A marca promove-se. Facto. Também será facto a marca não se deixar apenas promover. Vamos então a um ponto fundamental que deixámos lá atrás. A marca faz-se promover. Será isto um problema de concorrência e igualdade de oportunidades ou igualdade de tratamento nos meios de comunicação?

Todos temos, hoje, noção que as marcas ou certas entidades se promovem através da comunicação que é produzida por agências especializadas nos media. Estas companhias têm um âmbito de negócio baseado na influência. Sabemos que um conjunto significativo de notícias é produzido por estas, seja a sua temátia política, económica, cultural, outra, não sabe/não responde.

Tudo o que é marca deseja promover-se. Essa promoção não parte única e exclusivamente da perspectiva comercial, apesar de ser este o seu ponto de partida e, fudamentalmente, a sua finalidade (o lucro, para sermos mais exactos, e nada contra, pelo menos daqui de onde vos escrevo com amor). Ela pode partir, também, de uma necessidade de divulgar características fundamentais ao bem comum. Coloca-se, aqui, antes, a questão do acesso aos meios. Uma empresa familiar não terá os mesmos meios que a Jerónimo Martins ou a Sonae, no sentido em que as vantagens que apresentam são, em quase tudo, semelhantes. O interesse noticioso não poderá ser diferente. Acontece que o crescimento económico de determinada empresa fá-la ter capital para comprar um serviço de influência, não o meio de comunicação em si. Podemos, portanto, estar a falar de uma concorrtência desleal por factores de monopólio.

Contudo, acredito que antes deste ponto existem outros factores de monopólio e consequente deslealdade de concorrência mais influentes no comportamento do consumidor, como sejam os preços e o seu tratamento. Nada disto implica que não se tenha um tratamento noticioso equivalente. Acontece apenas que um media tem o direito de ser influenciado. E aqui não estamos na orla da publicidade, mas sim da influência.

Poderia ter resumido tudo isto ao seguinte: a comunicação de uma característica comercial não é obrigatoriamente publicidade. A publicidade é paga. Haverá mecanismos para investigar sobre a legalidade desta comunicação que aparenta publicidade. Poderíamos até considerar que estamos perante publicidade indirecta. No entanto, teríamos de questionar antes a legitimidade das agências de comunicação que promovem e influenciam junto dos órgãos de comunicação os seus clientes. Clientes que pagam para ter eficácia comercial.

Este é um tema de discussão e não de impulsão. Reforço, agora, a problemática do dogma. Em Portugal temos uma linguagem assumidamente dogmática em relação às entidades privadas. Encaramo-las como monstros subversivos. Mas, esquecemos que muito do seu sucesso passa por despender recursos para conseguir 5 minutos de atenção. Não questionamos a companhia de teatro ou o dirigente partidário que tem um amigo próximo numa redacção, mas iremos certamente questionar o capitalista que tenta influenciar, só porque tem um capital evidente. Tudo é mera influência.

Como se diria nos meandros do Direito: Quid iuris?

 



publicado por jorge c. às 02:08
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Quinta-feira, 2 de Junho de 2011
As pessoas

Talvez por presunção minha esteja a pensar nas pessoas do meu tempo. E as pessoas do meu tempo referem-se às pessoas, e não a homens e mulheres, quase como uma nova praxis para não levantar conflitos desnecessários e discussões supérfluas de protocolos e sexismos. Fiquemos pelas pessoas do meu tempo.

Dizia eu que pensava nas pessoas do meu tempo e da forma como delas se apoderou a discussão político-partidária. Será este tempo - este mesmo - conhecido como o do primado destas discussões sobre todas as outras, nem sempre com a dialéctica exigível. Parece que nada mais existe em redor do que um conjunto de temas agendados e que, em abstracto, não são mais do que essa tal espuma superficial. Pelo meio, deixa de se distinguir o essencial do acessório, promove-se o revisionismo da factualidade, o relativismo, o ascetismo; esquecem-se as solidariedades e a interdependência.

Dos novos conceitos da gestão e da liderança sai um conjunto de lugares comuns proferidos como técnicas infalíveis, mas cuja prática serôdia não consegue criar mais do que uma redundância e a sua inconsequência. Dificilmente nascerá a luz para quem tão confortavelmente vai decorando o buraco. Outras alegorias.

É por isso que as pessoas do meu tempo ficarão paradas em frente ao muro, imóveis e inflexíveis. Também eu por lá tenho andado e, hoje, quando saía do trabalho, depois de uns dias alheado dessa espuma, pensava como podemos sair desse buraco se nos colocarmos na posição de quem se foca em objectivos concretos para si e para os outros, de quem se disponibiliza a construir para não embrutecer.

 


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publicado por jorge c. às 01:37
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Domingo, 29 de Maio de 2011
My own personal cântico negro

Ao fundo, a histeria de campanha. Fico à porta a ver o que se passa, como o homem que chega a uma festa, só de passagem, e tenta dizer qualquer coisa lá para dentro. Cuidado com o barulho! E do outro lado não se ouve e diz-se qualquer outra coisa parcialmente a ver com o tema geral dos acontecimentos. É a conveniência da embriaguez. Desculpem interromper. Volto, então, este Domingo a outras leituras, a outros sons. Passo os olhos nas revistas online que os senhores fazem o favor de nos facilitar. Gosto deste sossego exilado.

Há quem diga que somos um povo alegre por causa do folclore. Outros que somos um povo triste, por causa do fado. Esta indefinição forçada pelos lugares comuns da idiossincrasia popular é muitas vezes reveladora da forma como nos comportamos, como nos relacionamos e como fazemos auto-crítica. É o determinismo do "ai, eu sou assim" e quem disser o contrário não sabe nada, é arrogante, é snob, é demasiado novo, é demasiado velho, enfim, é demasiado qualquer coisa.

Não sei o que os portugueses são, nem me atrevo a traçar perfis generalistas. Sei, no entanto, que há sempre um clima de ressentimento no ar, que alegria muitas vezes é apenas aparato sem profundidade, sem verdadeiro prazer pela harmonia, como quem sorri por reflexo e não por vontade própria. Sei que a tristeza não é muitas vezes senão falta de atenção ou de afirmação, que a rotina e a as suas vicissitudes não são suficientes para uma dor que se tenta vender aos outros, numa vitimização que é quase um distintivo de rua. Porra, toda a gente tem problemas. É a vida! Sei que a cada conversa, a cada discussão, a cada desabafo há um clima de guerra, de se olhar o outro como um inimigo - alguém que nos quer mal, que quer mal - e eu não quero ser maniqueísta.

 

Fico por aqui descansadinho a ler poesia, crazy 'bout my baby.

 


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publicado por jorge c. às 12:04
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Quinta-feira, 19 de Maio de 2011
Home

Em Grande Hotel, de Lotte Stoops, Berta, a mulher que podemos ver e ouvir logo no início do trailer, diz-nos que se "saudade" é uma palavra exclusivamente portuguesa, então "home" será uma palavra exclusivamente inglesa. Nenhuma palavra pode descrever o significado de "home": esse lugar onde nos sentimos confortáveis, cúmplices e parte integrante; esse lugar onde a linguagem é inteligível, onde nos entendemos e onde somos naturalmente solidários.

Para Berta, não foi regressar a Portugal, mas deixar esse útero e chegar a um sítio estranho. Apesar de não o compreender, passados tantos anos, sabe que não há outra solução. Mas não lhe peçam para aceitar e fazer de conta que é forte e que está tudo bem. Longe dessa casa nunca se estará totalmente bem, mesmo que qualquer tábua sirva de cama.

 



publicado por jorge c. às 20:17
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Domingo, 8 de Maio de 2011
um vídeo divertido. reacções parvas. portugal é um país de gente chata, falta dizer isso.

"O que os finlandeses precisam saber sobre Portugal" tornou-se num vídeo viral, como alguém previa na sua estreia nas Conferências do Estoril. Um vídeo divertido, de claque, que serve como uma boa resposta aos finlandeses. Não se trata de generalizar, trata-se apensas de ser divertido. Não se trata de ser pouco rigoroso historicamente, mas sim apenas de brincar com a história de uma forma suave e descontraída. É um vídeo.

Mas parece que há sempre dois marretas no camarote que não conseguem estar satisfeitos com a vida e tratam de desconstruir. O gozo de tentar estragar a brincadeira dos outros é uma das infantilidades mais patéticas da história da humanidade. Estou mesmo a ver o homem das cavernas (impreciosismo histórico) a chatear um camarada porque nas suas pinturas o cavalo tinha cinco patas. A ironia e o humor são ancestralmente subvalorizados.

É bastante idiota ter de escrever este post. Não deveria ser necessário ter de explicar o ressentimento aos ressentidos. Era suposto que todos os dias, quando se fossem deitar, pensassem "mas por que raio estou eu a dar valor a esta merda?". Relaxar é preciso. É que há hoje uma má conduta pelas redes sociais que é contrária à solidariedade e partilha que são a sua natureza. O egoísmo temático e o desprezo incendiário pelos interesses dos outros não podem ser ignorados e tomados apenas como opinião. Opinião, o tanas. É puro ressentimento.


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publicado por jorge c. às 10:53
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Terça-feira, 3 de Maio de 2011
A puta da subjectividade

Só lhe via as pernas. A ambulância ia-se fazendo ouvir do outro lado da Praça. Dois homens gesticulavam com veemência e outros dois e uma senhora, sentada, estavam ao pé do corpo que caiu ali discreto numa das paragens de autocarro. Talvez uma quebra de tensão. Com a chegada da emergência médica aproximam-se mais uns quantos transeuntes oriundos de outras paragens. Um polícia municipal ignora o acontecimento e segue em passo apressado para qualquer parte. Metem o homem na maca. Agora reparo que é um homem, talvez um septuagenário, mas muito próximo dos 80. A mulher que estava sentada acompanha-o. Um dos homens da emergência médica pede-lhe alguns dados e sugere-lhe qualquer coisa conduzindo-a até parte incerta. Os mirones continuam em cima do acontecimento e ao meu lado uma senhora irrita-se com a burocracia da acção médica: com o marido foi assim uma série de vezes, era cardíaco (acendo um cigarro). No topo da ambulância lê-se Ministério da Saúde. Não fosse o autocarro para Almada servir perfeitamente o seu destino e o homem acabaria por morrer por culpa do Governo. Lá vai ela, nem um adeuzinho, nem nada. Então adeus, minha senhora, cumprimentos à vítima. A ambulância também parte e na rua fica um ar carregado. O meu autocarro chega. Lá dentro os dois homens (mais um camarada) que haviam orientado a chegada da ambulância vão conversando animadamente. Mataram o Bin Laden. De manhã, a mesma conversa. Acorda, mataram o Bin Laden. Na América festejam.



publicado por jorge c. às 10:16
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