Terça-feira, 23 de Julho de 2013
uma ideologia

Há uns anos, falava-se muito de medidas impopulares. Tornou-se um conceito muito utilizado pela direita, já no fim do guterrismo e foi muito desse discurso que levou Durão Barroso ao poder. É verdade que na altura, um gnu com uma placa a dizer PSD ganharia as eleições. Mas, se houve alturas em que um gnu ganharia a Durão Barroso, então podemos assumir que o discurso das medidas impopulares teve os seus méritos. Foi um tempo em que Reforma do Estado era um conceito ainda melindroso. Eu era fã desse discurso.

As medidas impopulares eram compatíveis com o Estado-Providência. Qualquer um dos partidos as podia adoptar. Não tinham um factor ideológico forte, aparentemente, e eram apenas necessidades de um país que pretendia equilibrar-se depois da injecção de fundos comunitários dos anos 90. Era uma questão de prioridades. 

Entretanto, o conceito de medidas impopulares evoluiu, no centro-direita, para a necessidade de austeridade, numa década. O discurso tranformou-se em algo que vai para além das simples necessidades de equilíbrio e começou a afectar o próprio Estado-Providência, o rendimento das famílias, a sustentabilidade das micro e pequenas empresas e o desemprego.

Creio que foi Paul Krugman que definiu a austeridade como uma ideologia. Tendo a concordar. Ao contrário das medidas impopulares, a austeridade tem, de facto, contornos ideológicos. Ela baseia-se na convicção de que se nos focarmos no cumprimento escrupuloso da dívida e no controlo rígido do défice, seremos mais competitivos e o sol brilhará para todos nós. Pelos resultados que vamos vendo, espelhados na dinâmica socio-económica, pode ser que não seja bem assim. 

Não deve haver medo em assumir a narrativa ideológica da austeridade. Será, de certo, mais honesto do que vendê-la como uma necessidade imediata. As tranformações sociais provocadas pela austeridade são políticas; são decisões tomadas com base numa convicção. Ora, estas transformações não são escurtinadas de forma transparente por dois motivos: esconde-se a intenção ideológica e esonde-se a origem da orientação da mesma. Se há uma política europeia clara e inequívoca pela austeridade, e que está a ingerir no contrato que os eleitores fizeram com o seu Estado, então parece-me mais lógico que a votemos. Democraticamente. 

Não há qualquer problema em discutir ideias, desde que se assuma que são ideias. A sua não-assumpção é que é uma neblina contrária aos princípios que todos acordámos.



publicado por jorge c. às 14:54
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Sexta-feira, 12 de Outubro de 2012
Comunicado do Gabinete do Dr. Jorge Carvalho, o Grande Educador das Classes Burguesas

Caros concidadãos Europeus,

 

A Paz pela Europa conquistada ganhou, com o tempo, uma outra vida. A Paz de que tratamos, hoje, é a Paz Social dos Povos. E essa Paz Social, meus caros concidadãos, está na natureza dos nossos dias, no despertar convicto de uma vida melhor, da qualidade do ar que se respira e das mais elementares condições de evolução civilizacional. E a dignidade. Porque nunca haverá Paz sem dignidade. Olhe-se, então, para Atenas, para Madrid e para Lisboa. Olhe-se, então, para o discurso de empobrecimento, proto-agiota, de autoridades internacionais que dirigem a Paz sem política. A Política. Pois que sem Política também não há Paz. E sem Educação, Saúde, Segurança, Arte e Cultura Popular. A Paz é a harmonia da vida por um presente feliz e um futuro sustentável. 

 

Posto isto, meus caros concidadãos, venho por esta via rejeitar em absoluto e repudiar o prémio que hoje me foi co-atribuído.

 

Com toda a cordialidade e por uma Europa livre,

 

Jorge Lopes de Carvalho

 



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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
Europa

Por estes dias, há quem defenda que o modelo europeu está definitivamente ultrapassado. Haverá alguma coisa para celebrar neste dia da Europa, ou será este o triunfo histórico dos eurocépticos?

É verdade que a história do continente se faz de conflitos e desentendimentos. É verdade que os povos são, por tendência, conservadores. Mas, tal como lembra George Steiner, há também factores de grande identificação entre os europeus - a cultura civilizacional e a proximidade. Construir um projecto europeu comum demora, com efeito, o seu tempo. Há adversidades circunstanciais e processos de mudança que têm de ser entendidos a longo prazo e não avaliados impulsivamente. Para isso, também serão necessárias boas lideranças.

O projecto europeu visa, sobretudo, uma harmonização da Europa e um modelo de crescimento e desenvolvimento comum, mais forte e competitivo. Mas para esse projecto, a liberdade, a dignidade e a oportunidade são fundamentais.

Dir-se-ia que, neste momento, todos os princípios basilares da União Europeia estão a ser ignorados por causa da crise das dívidas soberanas. Não o podemos negar. Então, pouco haverá para celebrar. Porém, sabemos que o esforço que todos temos de fazer para acresditar este projecto é uma luta diária, constante, pela nossa liberdade, pela democracia e pelo desenvolvimento sustentável. Esta é uma migalha de tempo, em comparação com a História de um velho continente, cheio de vícios e virtudes.

A integração europeia exige cedência de todos os Estados-membros. Mas, se é manifestamente impossível verificar a cedência de países economicamente mais fortes, não estaremos perante a utopia das sociais-democracias europeias? Se assim o for, será necessário agir, antes que a insistência num projecto falhado consuma a dignidade social dos povos e crie conflitos sociais incontroláveis.

O que se celebra hoje, em rigor, é a Paz. É preciso celebrar a Paz e construir a sua solidez. Celebre-se, então.

 


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publicado por jorge c. às 13:15
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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011
Para uma ideia de Europa

As incertezas, vividas por estes dias, sobre o futuro da União Europeia reflectem, de certo modo, a falta de desígnio de um projecto que deixou de se discutir. Não pode haver projecto europeu sem um desígnio, sem objectivos perfeitamente definidos.

Os Estados-membros vivem, assim, uma crise existencial: deverão responder às exigências da União ou às exigências dos seus eleitores que, cada vez mais, desconfiam da direcção seguida? Havendo uma direcção, não é claro quem a esteja a liderar. A Comissão Europeia tem perdido voz de liderança para o eixo franco-alemão nas conversações diplomáticas.

É certo que em situações de emergência, discutir filosoficamente o futuro da UE não é uma prioridade. Contudo, se essa discussão não se tornar uma realidade e não apresentar soluções imediatas, é legítimo que países reféns dos seus próprios resgates financeiros, optem por abandonar um não-projecto e renascer das cinzas.

Em política, nada sobrevive sem um poder de decisão. Nenhum projecto é verdadeiramente um projecto sem definição de objectivos e regras imperativas, com uma estrutura hierárquica clara e inteligível. Assim, cabe aos Estados decidirem sobre o seu próprio futuro. Se isso significar o fim da UE, não é senão uma consequência lógica da falta de rumo.

Será caso para pegar num chavão, um tenebroso lugar comum que, agora, fará todo o sentido: as pessoas primeiro.



publicado por jorge c. às 22:05
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Sábado, 1 de Outubro de 2011
o critério de determinabilidade do conteúdo da norma

 

 



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Terça-feira, 20 de Setembro de 2011
Vitimização Impossível

Pedro Adão e Silva tem razão e não tem.

Tem razão quando diz que a discussão sobre a crise e a Europa foi desvalorizada durante o anterior Governo. Esta foi, fundamentalmente, a luta ilegítima de arredar os socialistas do poder.

Porém, não tem razão quando se refere a esse tempo com a expressão "com Sócrates". É que "com Sócrates" o argumento da crise e da Europa apareceu muito tarde, muito depois de Pinho-a-crise-acabou 2008, muito depois de orçamentos rectificativos atrás de orçamentos rectificativos e quase ao mesmo tempo do PECIV que, por acaso, não era senão uma actualização anual comum do PEC e que apenas trazia a alteração às pensões (depois acabaram por nos dizer que era exactamente o que estava no memorando da troika... nada de especial).

Uns meses antes de tudo isto, José Sócrates lá ia falando da crise internacional mas, sem se alongar muito. Como dizia Soares há umas semanas na Única, Sócrates não tinha grande cultura política. Por isso, limitava-se a repetir o que os seus conselheiros lhe iam dizendo. Tudo soava a um tremendo vazio.

Pedro Adão e Silva podia perfeitamente ter reforçado que a discussão de que fala é, agora, extemporânea e que muita gente alertou para isso numa altura em que se podia ter feito algo significativo. Não pode é colocar a questão com Sócrates na frente de um pensamento que o próprio parecia desconhecer e com o qual nada fez, de facto.

 

Adenda: O João Pinto e Castro alerta-me, num comentário, que a afirmação de Manuel Pinho é de 2006, pelo que deixa de fazer sentido o meu sarcasmozinho sobre essa questão.



publicado por jorge c. às 22:59
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Quarta-feira, 18 de Maio de 2011
A Turista - let england shake

Se o Reino Unido (RU) é o Estado-membro da UE mais sui generis, então esta visita da Rainha é particularmente interessante para toda a União, não só pela paz social, como também pela narrativa do RU para o futuro em relação a tudo o resto - à sua relação com os outros.

Não deixam de ser apenas dois dias de visita oficial para já (100 anos depois), mas já deu para perceber que não passará muito deste registo turístico e paternalista, diria, até. Quatro dias ao todo de uma visita que se esperava mais relevante e expressiva. Por isso não deixa de ser curioso este artigo no Belfast Telegraph, por Charles Lysaght, que mostra a simpatia que os irlandeses têm por Elizabeth e o desprezo - quando não raiva - pela Coroa que representa.

Portanto, cingindo-me ao que diz Lysaght para os irlandeses seria mais simpático uma visita a título pessoal da Rainha (causal, de ténis, quem sabe) do que uma visita oficial que pode não ter qualquer impacto numa solução histórica e é completamente fútil, vindo apenas agravar tensões que têm desaparecido em grande escala, com o tempo. O autor sugere ainda que esta visita deveria ser acompanhada de uma cedência britânica para que marcasse efectivamente um papel na História, e não este passeio de turista oficial, de traje clássico, como se o tempo tivesse parado 100 anos e a Coroa viesse ver as terras.

 

 

 

"until the day is ending, 
& the birds are silent in the branches, 
& the insects are courting in the bushes, 
& by the shores of lovely lakes 
heavy stones are falling."

 

pj harvey



publicado por jorge c. às 10:44
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Sábado, 14 de Maio de 2011
Fora de jogo

Há umas semanas era capaz de admitir que o único partido com uma visão política europeia e com um discurso coerente sobre a Europa era o PS. Não tenho dúvidas que será o único, pelo menos, a ter esta discussão principalmente desde os trabalhos para o Tratado de Lisboa. O Governo adoptou, desde então, uma nova linguagem com dimensão europeísta. Mas, com a crise financeira, percebemos que essa linguagem concentrava-se apenas na perspectiva económica e de uma forma bastante técnica. Ou seja, de visão estratégica e de capacidade de discussão dessa visão com os parceiros europeus havia muito pouco.

Com o aparecimento dos programas eleitorais percebemos que afinal nem o PS mantém sequer a ilusão de que tem preocupações estratégicas na Europa para além das particularidades financeiras imediatas. Os partidos portugueses parecem não estar atentos ao que se passa dentro e com o espaço Schengen. A discussão sobre a livre circulação não chegou ainda às linhas orientadoras dos partidos para governar um país inserido numa realidade política maior. O ministro Silva Pereira ainda se pronunciou sobre as pretensões da Itália e de França de alterar as regras de Schengen afirmando que o Governo não se poderia pronunciar enquanto governo de gestão. Depois disso nem uma palavra.

A Europa não é um tema da moda, é a nossa realidade política. Para além do problema actual destas alterações à entrada e livre circulação, temos um problema de indefinição de poder político que será urgente resolver e que diz directamente respeito às soluções para uma crise financeira. As lideranças portuguesas não estão para aí viradas, o que diz muito da estrutura do pensamento político em Portugal, da sua falta de visão global e da sua cultura. Votar num partido sem uma ideia clara do que pensa sobre a Europa é votar numa brincadeira.



publicado por jorge c. às 12:00
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Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
Democracia às vezes

Eu nem sou de intrigas, mas o sr. Poul Rasmussen é uma pessoa com problemas, não é?

Em primeiro lugar, o Presidente do PS europeu acha que a Europa está mal entregue no Parlamento que é o único órgão que ainda é eleito democraticamente por todos os cidadãos europeus. Portanto, o sr. Rasmussen primeiro acha que os especuladores estão a desgraçar as democracias, mas depois não acha nada bem que pessoas escolham livremente o Parlamento que entendem. Uma pessoa até fica baralhada. Mas há aqui um padrão. Honra seja feita aos socialistas europeus que são todos muito coerentes: ou eles ou o fim. A democracia é fixe, mas só quando se vota nos socialistas. Mais à esquerda temos os radicais irresponsáveis; à direita, os conservadores maus que têm como objectivo último destruir a humanidade. Só os socialistas querem o nosso bem. Somos mal agradecidos.

É também interessante como Rasmussen considera que a Europa está nas mãos erradas pelo lado da imposição da austeridade. Eu não sei o que ele andou a fazer estes anos todos, talvez os seus camaradas saibam, mas a União Europeia não determina descricionariamente muitas das regras que o senhor tanto critica. São regras estabelecidas, assinadas e ratificadas em Tratados por todos os Estados-membros. Não quer isto dizer que elas estejam absolutamente correctas, também acho que não estão. Mas quer dizer que, pelo menos, devemos cumpri-las enquanto estão em vigor porque se queremos uma prática solidária temos de ser responsáveis e mostrar que o somos e não querer mudar de regras a meio do jogo sempre que não são do nosso agrado.

Mudar de regras, de rumo e de filosofia monetária importa, acima de tudo, responsabilidade e continuidade. Os socialistas parecem não saber o que isto é. A culpa, claro, é da democracia.


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Domingo, 6 de Fevereiro de 2011
De como Žižek está errado

O patusco Slavoj Žižek lá regressou com a sua habitual evangelização carregadinha de manipulação intelectual e preconceitos. Eu acho piada a Žižek, mas não posso deixar de notar esta sua tendência para a manipulação através de um discurso todo fixolas que a malta curte, tipo ya. Ora, como eu não curto, tipo ya, que a malta curta, tipo ya, achei por bem demonstrar como a ideia de fundo, de boa-fé, não é má de todo, mas o raciocínio e a justificação são absolutamente falsos. Isto não é uma discussão filosófica, por amor de Deus! Isto tem a ver com factualidade.

Portanto, diz-nos o nosso camarada: "Vamos lá romper o impasse da dicotomia entre liberais anémicos e extremistas". Porreiro. Por mim tudo bem. Mas, se formos lendo vemos que o único problema que Žižek tem é com os liberais-conservadores (suposição minha). É estranho, não é? Os extremistas até são capazes de se adaptar, os liberais é que andam a empatar isto tudo.

Mais à frente, como não poderia deixar de ser, vem a entrada a pés juntos a Cristo. O pobre desgraçado morre na cruz para a redenção dos pecados da rapaziada toda, mas ainda assim ele acha que o escandaloso Jesus só queria malta da dele. Claro. Todos nós sabemos que a teleologia cristã é promover o ódio. Eu julgava que a confusão entre a base do cristianismo e as atitudes da Igreja Católica tinha desaparecido no início do Séc. XX. Mas pelos vistos, ainda há quem use a mesma técnica usada pelos jacobinos do início do século. Ya, como está de se ver.

Aproveitando o facto de estar com a mão na massa, vamos lá falar dos conservadores, misturando com os liberais de forma a parecer que está tudo enfiado no mesmo saco. A malta da JCP normalmente não repara, e pelo que vejo, a do Bloco também não, tal é a ansiedade de concordar com o mestre. Estou a ser preconceituoso? Estou, porque eles merecem. Não sejam carneirinhos e a gente conversa. Até lá: aguenta, rapaz! (Esta referência ao Mário-Henrique Leiria foi só para competir com a do Chesterton para mostrar que nós também lemos cenas e assim).

Portanto, para o Žižek o facto dos conservadores insistirem "que cada Estado se baseia num espaço cultural predominante, que deve ser respeitado pelos membros de outras culturas habitando no mesmo espaço", significa automaticamente que se vão silenciar em relação ao racismo e perder a autocrítica. Claro, é uma lógica fortíssima. Como é que eu nunca pensei nisto? Ou seja, i conservador, que desejo que a minha comunidade se mantenha inalterada na sua estrutura, na sua cultura, através de um desenvolvimento sustentável de todas as suas premissas, serei um racista por negligência. Certíssimo quanto a honestidade intelectual e compreensão de posições ideológicas diferentes.

É claro que eu acredito numa sociedade integradora e que dê espaço ao outro: na sua religião, na sua cultura, no seu quotidiano. Todos os dias faço concessões. É esta a minha forma, e a de muitas outras pessoas, de aceitar uma Europa mais sofisticada e democraticamente madura. Mas é isso mesmo, eu faço concessões. Slavoj Žižek não faz. Para ele, o problema reside apenas num dos lados de uma barricada que ele continua a alimentar para beneficiar a sua narrativa ideológica. É um discurso radical que se manifesta na imposição das ideias a partir de manipulação preconceituosa. Em democracia, o espaço do diálogo não deve estar só limitado aos que concordam connosco. Ora, quando se atirou a Cristo, Žižek estava a projectar.



publicado por jorge c. às 10:58
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Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011
"Uma ideia de Europa"

O Presseurop convidou 10 personalidades para escrever sobre uma ideia de Europa, entre as quais Gonçalo M. Tavares, Fernando Savater ou Anon Grunberg. A visão destas 10 personalidades é, felizmente, muito positiva e coloca a Europa num caminho cosmopolita que pode beneficiar todos os cidadãos europeus e até os que vierem de fora. Pede-se mais abertura, novos rumos com nova gente, uma atitude sofisticada e ao mesmo tempo solidária.

De certo modo, estas visões acabam por ter, na sua maioria, mais de utopia do que de realidade. Não digo isto com ressentimento, mas sim com preocupação. É possível que se sonhe demasiado e se deixe de dar atenção ao que se está a passar em tempo real.

Leia-se este exemplo de Loretta Napoleoni, economista italiana, que vê solidariedade nos motins londrinos do passado mês, vê uma atitude semelhante à do Maio de 68 nos jovens de hoje, por toda a Europa. Falamos, claro, dos mesmos jovens que deixaram passar a Convenção de Bolonha sem questionar as suas consequências no plano do conhecimento (a base estrutural de uma comunidade esclarecida), nomeadamente em matérias mais clássicas. Os mesmos jovens que assistem serenos às alterações da sua economia através de uma autoridade que não elegem e se resignam com a precariedade cada vez mais frequente no espaço europeu.

Comparar estudantes de há 40 anos com os de hoje é pura ficção. Senão vejamos uma particularidade do mercado contemporâneo: a especialização. Qualquer licenciado é, hoje, um técnico em área específica. É pouco provável que se olhe para a sua formação como uma mera base para um trabalho muito mais amplo e se lhe reconheça legitimidade para outras competências. No currículo de um jovem licenciado é mais importante o seu grau académico do que a experiência vivida e todas as suas actividades extra-curriculares. É evidente que aqui assumo uma questão pessoal, logo parcial. A verdade é que esta realidade não é uma invenção desse meu hipotético ressentimento e constitui - mais uma vez - um factor de preocupação dentro de um caminho impreciso.

Estamos longe de uma geração uniformizada com um carácter social e cultural nivelado por cima. Estamos ainda mais longe de uma uniformização económica dentro dessa geração. As possibilidades de circular não são as mesmas. As oportunidades existem, mas a possibilidade é outra coisa. E enquanto existir esse impedimento, seja cultural ou económico, as elites de hoje só poderão ser substituídas por novas elites e não por uma geração livre e solidária, como parece ser o ideário da economista italiana.

Devemos sempre alimentar este cosmopolitismo de proximidades, como tão bem descreveu Steiner. O que não podemos é ignorar o resto da fotografia.



publicado por jorge c. às 12:50
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Sábado, 18 de Setembro de 2010
Aconteceu na Europa

Em 1506, depois de um longo período de peste e do consequente fervor religioso, Lisboa foi vítima de um dos maiores massacres da História de Portugal. Uma migalha fazia rebentar uma das mais sanguinárias operações de ódio de que há memória.

Entretanto, o mundo foi mudando, as mentalidades mudaram e consolidou-se a tolerância necessária à melhor convivência entre os homens dentro da sua diversidade identitária. Proclamámos o Direito como a nossa fonte de regulação em comunidade e o fiel depositário dos valores que entendemos como fundamentais. Chegámos mesmo, depois de cenários infernais, a declarar em conjunto numa Carta aqueles que julgamos serem os direitos universais do Homem e do Cidadão. Bastar-me-ia uma breve leitura pelos primeiros artigos desta Carta para compreender que o que se passou em Lisboa não faz sequer parte de uma escala actual de valores que se foram conquistando, em grande parte baseados numa experiência arrepiante, e que defendemos hoje como uma marca essencial da nossa civilização.

Por toda a Europa assistimos durante séculos a atentados sistemáticos ao outro. Perseguimos, discriminámos, ostracizámos, diminuímos, hostilizámos, massacrámos. E é exactamente dessa experiência e da necessidade de coexistir comunitariamente que nasce a União a que pertencemos, não parcial ou limitadamente, mas sim de plena cidadania. Somos hoje, enquanto cidadãos europeus, responsáveis e guardiões de uma História em construção - uma História de valores e de princípios muito bem definidos. Abrir o flanco ou perverter o espírito dessa História pode tomar proporções catastróficas.

Aquilo a que todos temos assistido em França nas últimas semanas não é um assunto de menor relevância nesta matéria, não é uma simples questão de política de imigração ou um tema de trato burocrático, nem tampouco uma divergência ideológica. Trata-se, pelo contrário, de matéria respeitante aos direitos civis universais e à dignidade da pessoa humana. E não falamos aqui do campo ideológico pois parece ser de senso comum que o que está escrito na Convenção para a Protecção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais é um conjunto de princípios gerais e abstractos que nos definem enquanto comunidade e não uma mera declaração ideológica (esquerda-direita) de apenas uma parte de nós.

Com efeito, parece-me que discriminar um grupo específico numa circular que pretende reflectir o procedimento administrativo adequado a uma determinada legislação é um acto que atenta contra esses mesmos princípios e que, portanto, fere o direito comunitário num dos seus pilares fundamentais. No mínimo.

Não irei aqui ensaiar um discurso sobre identidades e as suas ramificações, causas e consequências. Não é de todo a minha pretensão converter ignorantes em cidadãos conscientes. Posso apenas dizer que não é o gostar ou desgostar de um certo grupo de pessoas que está aqui em causa, mas o tratamento humano e político que lhe damos, a forma como aplicamos a nossa lei, a equidade da nossa Justiça. E foi exactamente nesse sentido que o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou de um modo bastante categórico que a lei é para ser cumprida e que a Comissão agirá sempre em conformidade com o Direito Comunitário.

É esta dogmática da lei que nos faz ter segurança institucional e acreditar que as conquistas civilizacionais serão preservadas. É esta dogmática que impede homens sem cultura europeia, sem consciência histórico-filosófica, homens como Nicolas Sarkozy ou José Sócrates, de banalizarem o mal operando administrativamente sobre os direitos fundamentais.



publicado por jorge c. às 09:25
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Domingo, 18 de Abril de 2010
nuvens

Domingo é um bom dia para leituras. No entanto, parece que este não está lá muito famoso. Pelo menos na blogosfera, onde a preocupação é a terrível troca de palavras entre dois politiquinhos que todos nós permitimos que chegassem ao lugar que ocupam, as remunerações de gestores de empresas privadas com participação do Estado e uma dúzia de outros faits-divers, as leituras não são muito recomendáveis. A preocupação do país é com tudo aquilo que não é de facto importante. São pequenas nuvens que provocam aguaceiros rápidos e agressivos que nada dizem sobre o estado real do tempo, lembrando um pouco esta nossa Primavera temperamental.

 

Pela Europa uma outra nuvem parece assumir o tópico de atenções. Não, não falo da crise grega e da especulação sobre o who's next?, mas sim da nuvem de cinza que está a dificultar a circulação de pessoas por causa da total falta de visibilidade. De repente, a ideia de Europa foi ameaçada por uma causa maior que apanhou desprevenido o velho continente e cujas alternativas podem não ser uma solução desejável ou até mesmo viável. Numa era de velocidade e rapidez de comunicação serão as formas mais tradicionais de circular que constituem a única solução possível para que as pessoas não fiquem retidas. Lembro, assim, as palavras de George Steiner nesse seu famoso ensaio "A ideia de Europa":

"A Europa foi e é percorrida a pé. Isto é fundamental. A cartografia da Europa é determinada pelas capacidades, pelos horizontes percepcionados dos pés humanos. Os homens e as mulheres europeus percorreram a pé os seus mapas, de lugarejo em lugarejo, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade. O mais das vezes as distâncias têm uma escala humana, podem ser dominadas pelo viajante que se desloque a pé, pelo peregrino até Compostela, pelo promeneur, seja ele solitaire ou gregário. Há extensões de terreno árido, proibitivo; há pântanos; os alpes elevam-se. Mas nada disto constitui um obstáculo intransponível."

No fundo trata-se de uma questão de prioridades que estabelecemos ao longo do tempo e às quais chamamos progresso. Talvez a prudência nos devesse obrigar a reservar alternativas baseadas nessa memória física da circulação, ou melhor, naquilo que mais nos aproxima.



publicado por jorge c. às 11:34
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