Quarta-feira, 18 de Maio de 2011
A Turista - let england shake

Se o Reino Unido (RU) é o Estado-membro da UE mais sui generis, então esta visita da Rainha é particularmente interessante para toda a União, não só pela paz social, como também pela narrativa do RU para o futuro em relação a tudo o resto - à sua relação com os outros.

Não deixam de ser apenas dois dias de visita oficial para já (100 anos depois), mas já deu para perceber que não passará muito deste registo turístico e paternalista, diria, até. Quatro dias ao todo de uma visita que se esperava mais relevante e expressiva. Por isso não deixa de ser curioso este artigo no Belfast Telegraph, por Charles Lysaght, que mostra a simpatia que os irlandeses têm por Elizabeth e o desprezo - quando não raiva - pela Coroa que representa.

Portanto, cingindo-me ao que diz Lysaght para os irlandeses seria mais simpático uma visita a título pessoal da Rainha (causal, de ténis, quem sabe) do que uma visita oficial que pode não ter qualquer impacto numa solução histórica e é completamente fútil, vindo apenas agravar tensões que têm desaparecido em grande escala, com o tempo. O autor sugere ainda que esta visita deveria ser acompanhada de uma cedência britânica para que marcasse efectivamente um papel na História, e não este passeio de turista oficial, de traje clássico, como se o tempo tivesse parado 100 anos e a Coroa viesse ver as terras.

 

 

 

"until the day is ending, 
& the birds are silent in the branches, 
& the insects are courting in the bushes, 
& by the shores of lovely lakes 
heavy stones are falling."

 

pj harvey



publicado por jorge c. às 10:44
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Sábado, 18 de Setembro de 2010
Aconteceu na Europa

Em 1506, depois de um longo período de peste e do consequente fervor religioso, Lisboa foi vítima de um dos maiores massacres da História de Portugal. Uma migalha fazia rebentar uma das mais sanguinárias operações de ódio de que há memória.

Entretanto, o mundo foi mudando, as mentalidades mudaram e consolidou-se a tolerância necessária à melhor convivência entre os homens dentro da sua diversidade identitária. Proclamámos o Direito como a nossa fonte de regulação em comunidade e o fiel depositário dos valores que entendemos como fundamentais. Chegámos mesmo, depois de cenários infernais, a declarar em conjunto numa Carta aqueles que julgamos serem os direitos universais do Homem e do Cidadão. Bastar-me-ia uma breve leitura pelos primeiros artigos desta Carta para compreender que o que se passou em Lisboa não faz sequer parte de uma escala actual de valores que se foram conquistando, em grande parte baseados numa experiência arrepiante, e que defendemos hoje como uma marca essencial da nossa civilização.

Por toda a Europa assistimos durante séculos a atentados sistemáticos ao outro. Perseguimos, discriminámos, ostracizámos, diminuímos, hostilizámos, massacrámos. E é exactamente dessa experiência e da necessidade de coexistir comunitariamente que nasce a União a que pertencemos, não parcial ou limitadamente, mas sim de plena cidadania. Somos hoje, enquanto cidadãos europeus, responsáveis e guardiões de uma História em construção - uma História de valores e de princípios muito bem definidos. Abrir o flanco ou perverter o espírito dessa História pode tomar proporções catastróficas.

Aquilo a que todos temos assistido em França nas últimas semanas não é um assunto de menor relevância nesta matéria, não é uma simples questão de política de imigração ou um tema de trato burocrático, nem tampouco uma divergência ideológica. Trata-se, pelo contrário, de matéria respeitante aos direitos civis universais e à dignidade da pessoa humana. E não falamos aqui do campo ideológico pois parece ser de senso comum que o que está escrito na Convenção para a Protecção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais é um conjunto de princípios gerais e abstractos que nos definem enquanto comunidade e não uma mera declaração ideológica (esquerda-direita) de apenas uma parte de nós.

Com efeito, parece-me que discriminar um grupo específico numa circular que pretende reflectir o procedimento administrativo adequado a uma determinada legislação é um acto que atenta contra esses mesmos princípios e que, portanto, fere o direito comunitário num dos seus pilares fundamentais. No mínimo.

Não irei aqui ensaiar um discurso sobre identidades e as suas ramificações, causas e consequências. Não é de todo a minha pretensão converter ignorantes em cidadãos conscientes. Posso apenas dizer que não é o gostar ou desgostar de um certo grupo de pessoas que está aqui em causa, mas o tratamento humano e político que lhe damos, a forma como aplicamos a nossa lei, a equidade da nossa Justiça. E foi exactamente nesse sentido que o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou de um modo bastante categórico que a lei é para ser cumprida e que a Comissão agirá sempre em conformidade com o Direito Comunitário.

É esta dogmática da lei que nos faz ter segurança institucional e acreditar que as conquistas civilizacionais serão preservadas. É esta dogmática que impede homens sem cultura europeia, sem consciência histórico-filosófica, homens como Nicolas Sarkozy ou José Sócrates, de banalizarem o mal operando administrativamente sobre os direitos fundamentais.



publicado por jorge c. às 09:25
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Sábado, 4 de Setembro de 2010
História

Afirmo que "o silenciamento de ideias dissidentes assumiu um papel vital no regime que Salazar estabeleceu"; a comparação com a violência exercida em décadas anteriores abrange apenas uma parte da violência estatal do regime salazarista; não ignoro nem o Tarrafal nem a PVDE/PIDE; e - julgo - torno claro que Salazar deu rédeas demasiado largas aos directores da sua polícia secreta: era a estes homens que Salazar pedia explicações sobre os excessos da PIDE que lhe chegavam aos ouvidos, ou às mãos. Quanto à inclusão de Salazar na "família fascista", digo que "à primeira vista" não faz sentido nenhum. É importante realçar, no entanto, que não só o Estado Novo não se resumia a Salazar, como também Portugal estava aberto a influências estrangeiras, apesar da censura e da "política do espírito" do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN). E uma parte importante do Estado Novo sentia uma atracção muito forte pelo fascismo, numa altura em que este se estava a fortalecer por toda a Europa. Havia fascistas em Portugal, dentro do regime, e Salazar teve de pactuar com alguns deles; tinham inimigos comuns e, de certa forma, armas idênticas para os combater. Mas o que me parece claro é que Salazar quis sempre - e conseguiu sempre - travar e controlar estes elementos mais radicais. Conseguiu-o porque tinha uma autodisciplina notável e porque, nos anos 30, pouco se podia fazer sem o patrocínio financeiro do Estado: mas era precisamente Salazar quem controlava os cordões da bolsa. Todas as organizações que tinham uma componente fascista - os Vanguardistas, a Mocidade, a Legião - acabaram por se curvar perante o homem que continuava a ser o "ditador das Finanças". No fundo, esta questão tem na base a interpretação feita do fascismo. Quem o vê como uma simples resposta ao comunismo provavelmente verá em Salazar um fascista. Mas para quem considera o fascismo um fenómeno histórico digno de estudo, complexo nas suas causas e nas suas acções, Salazar surge como algo bem diferente. E não é a repressão estatal, impossível de negar, que chega para colmatar a brecha.

Finalmente. Fico com uma grande expectativa em relação à biografia depois desta entrevista (muito bem conduzida por Maria José Oliveira, já agora). 40 anos após a morte de Salazar torna-se cada vez mais urgente uma visão realista do que foi o homem e o Estado que abraçou e que o abraçou a ele. Realista. Não sei se preciso de repetir. Aguardamos todos ansiosamente a descredibilização pública do historiador Filipe Ribeiro de Meneses pelos lutadores anti-fascistas.



publicado por jorge c. às 09:58
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