Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013
esquerda, direita, volver

Já não nos víamos há algum tempo. O único contacto que temos tem sido feito, claro, pelo Facebook, onde eu vou postando freneticamente, entre canções, manifestação política ou divulgação de outras matérias. Ele raramente interage, manifestando-se de vez em quando numa ou outra música, ou quando assinalo a memória de personalidades mais ligadas à direita. 

Desta vez, encontrámo-nos, no meio de outros amigos. A noite ia longa, tal como a amizade. A conversa foi seguindo e, inevitavelmente, caiu na política e no estado actual das coisas. De repente, vejo-o nervoso com o meu discurso e tento acalmar o tom para que se perceba o que estou a dizer com lucidez e clareza. Ele não aguenta e desata num disparate. Que eu agora sou comunista, que a esquerda é que nos meteu aqui e eu sou o idiota útil deles, agora, e que desde que fui para Lisboa isto e aquilo e aqueloutro. E por aí fora. Disparou com o que lhe estava entalado há algum tempo e que por sabe-se lá o quê, nunca quis discutir.

Esta conversa não é uma surpresa. Ao longo dos dois últimos anos, tenho sido acusado - é esta a palavra - de ser de esquerda por estar contra a conduta de um Governo de direita. Também pela esquerda, sou afavelmente recebido como uma nova aquisição. Para a esquerda, sorrio. Para a direita, mando-os estudar. A direita hoje padece de cultura e de esclarecimento. É ignorante, preconceituosa e pouco esclarecida. Para além de, muitas vezes, ser oportunista e taticista.

Não pretendo fazer aqui qualquer declaração de interesses sobre as minhas escolhas ideológicas. Era o que me faltava. Porém, há uma questão fundamental no meio de tudo isto que urge esclarecer, porque a luta política é cada vez menos esclarecida e auto-crítica. 

A coerência ideológica existe porque as pessoas se mantém fiéis a um conjunto de valores e princípios. Acima desses valores e princípios ideológicos, existem, ainda, outros mais importantes, como a dignidade humana, a liberdade, a igualdade, a solidariedade. A verdadeira incoerência reside em nos afastarmos destes princípios por oportunismo ou circunstancialismo partidário. O resto é mantermo-nos fiéis ao tipo de sociedade em que acreditamos e que juntos, democraticamente, aceitámos construir. Este é o maior valor que temos - a comunidade e o outro.

Portanto, será errado pensar que a minha deslocação foi feita para a esquerda. Em rigor, eu mantenho-me no mesmo sítio. Quem mudou foram aqueles que deixaram de colocar valores e princípios à frente do preconceito ideológico, da fantasia pseudo-liberal e da politiquinha de corredor.

No dia em que o nº2 de Durão Barroso (não sei se estão recordados deste senhor, que ia ser o nosso homem em Bruxelas) diz que é importante baixar salários para atrair investimento, com a maior das canduras, este é um assunto sobre o qual devemos reflectir para decidirmos de que lado é que vamos estar. Eu apenas decidi o meu com a minha consciência.



publicado por jorge c. às 13:12
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Sexta-feira, 16 de Julho de 2010
Pedro e o lobo

Um dos maiores vícios na linguagem política é o da conotação dos adversários com ideologias radicais ou mais incompreendidas. Da esquerda à direita é comum ouvir acusações de extrema esquerda ou neoliberalismo, de reaccionarismo ou estalinismo. É sempre de desconfiar e dar o devido desconto à mente retorcida por detrás dessas afirmações.

Portugal, tal como grande parte dos países ocidentais, aburguesou-se ideologicamente e aquilo que era a base das meta-narrativas políticas desapareceu. A virtude passou a estar definitivamente no meio e qualquer desvio é apontado como um atentado ao Estado de direito e à democracia de Abril. A tendência centrista é a mais forte e não há muitos sinais de mudança de paradigma. O mar está calmo.

Portanto, é uma questão de pensar e perceber que qualquer afirmação efectiva e competente de uma ideologia forte e objectiva seria cruxificada e morreria na praia. Os nossos políticos, sabendo disso, jogam com o interesse do poder e não assumem com coragem um objectivo. Enrolam, desdizem-se, travam. É deste modo, também, que as reformas se tornam insuficientes e incompletas. Contudo, é assim que o povo se sente em controlo aparente da sua democracia.

Olhando para trás, na História, percebe-se que foi este amorfismo ideológico, banhado a acusações inconsequentes, que conduziu muitos Estados a regimes totalitários. É um bocado como a história de Pedro e o lobo.


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publicado por jorge c. às 11:37
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