Quinta-feira, 16 de Janeiro de 2014
o lobo de jeddah

Um ex-treinador do Futebol Clube do Porto, Vitor Pereira, foi protagonista de um episódio muito curioso, após um jogo do clube que agora treina na Arábia Saudita, em que se viu perante uma tentativa de condicionamento das suas declarações no final da partida. Para além do descontrolo e do inglês caricaturável, captou-me mais o interesse uma frase dita pelo próprio, de forma muito espontânea e convicta - selvagem, diria. Confrontando o seu censor, em directo na sala de imprensa, Vitor Pereira, exaltado, exigiu dizer aquilo que achava e não o que queriam que ele dissesse, afirmando que "isto é um país livre". O país a que Pereira se refere é a Arábia Saudita, uma monarquia islâmica absolutista, cuja lei fundamental é o AlCorão e a criminal a Sharia. Então, qual a razão da frase impulsiva do treinador português? Talvez seja um pouco revelador da percepção da realidade de que vivem os homens do mundo do futebol. É um universo paralelo onde as regras comuns entre os mortais parecem não ter lugar; um mercado livre de tráfico de capitais e pessoas; um buraco negro de difamção, injúria e violência. Para Pereira, a liberdade de expressão ultrapassa as fronteiras da sociedade em que cresceu porque o futebol lhe permite isso, porque a lei a que obedece é a do futebol que conhece. Poderíamos concluir que é essa a grande obra do futebol para a humanidade - o universalismo ou a globalização em estado bruto. Mas não é. É, antes, um sinal preocupante de alienação e, se quisermos, levando para outros campeonatos, de alguma impunidade, perante a nossa condescendência. Se Jeddah fosse Wall Street, Vitor Pereira seria Jordan Belfort, o seu mais inconsciente lobo.



publicado por jorge c. às 08:03
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Sexta-feira, 6 de Dezembro de 2013
viva a liberdade

Mandela continuará a abrir as portas da impossibilidade sempre que o seu nome for carregado. Fê-lo com as suas próprias forças durante a vida e, agora, na morte, cabe-nos uma missão de grande responsabilidade que é continuar o seu caminho. Um primeiro e muito importante passo foram as homenagens por todo o mundo.

Por cá, vi nas últimas horas centenas de pesares de pessoas que, inconscientemente, esqueceram os seus preconceitos habituais, mesmo que com os lugares comuns e clichés habituais de que o mundo ficou mais pobre e de que perdemos um grande homem e de que era um exemplo para a humanidade e de que temos todos muita admiração pela pessoa de Nelson Mandela, etc. etc.. É por isso importante perceber que o racismo e o sectarismo se dissipam quando aquilo que temos à nossa frente é muito maior e representa um amor universal, mesmo que no mais básico e fútil dos discursos. Esses preconceitos, que nascem de uma influência do meio e que não são inatos, mantém-se devido a alguma ignorância e resignação, mas já não conseguem resistir à força do bom espírito.

É contra a ignorância e a resignação que temos sempre de lutar. É pelos outros que seremos nós. É por todos porque só todos podemos ser livres.

 



publicado por jorge c. às 13:45
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Segunda-feira, 9 de Setembro de 2013
tudo o que tenho a dizer sobre este assunto

 Eis uma atitude impensável para Rita Cavaglia, 20 anos, lisboeta, no segundo ano de Psicologia. "A primeira vez que me lembro de ouvir um "piropo" - que é uma palavra que acho mal escolhida para esta discussão, porque as pessoas refugiam-se na questão semântica para não falar disto - tinha uns 10 anos. Estava à porta da escola e um senhor perguntou-me se queria fazer um broche. Fiquei um bocado assustada e pus-me a pensar naquilo - e que não tinha de andar na rua sujeita a ouvir coisas assim, que os homens não tinham o direito de o fazer". O evento coincidiu, conta, com o facto de os miúdos da escola andarem a apalpar as miúdas. "Resolvi começar a responder, tanto na rua como na escola." Chegou a ser chamada à direcção por ter rasgado a camisa a um rapaz que a apalpara. "Ele apalpou-me e eu é que fui chamada?", questiona, atónita. Não foi a única vez que que se confrontou com consequências da legítima defesa. "Uma vez vinha na rua, um gajo de carro disse-me qualquer coisa, mandei-o à merda e ele saiu do carro e apertou-me o pescoço. Valeu-me haver muita gente à volta que interveio. De outra vez só não apanhei porque fugi: estava num autocarro, um tipo não parava de me chatear e levantei-me, chamei-lhe porco de merda e saí quando as portas estavam quase a fechar. Mas ele saiu na próxima paragem e veio a correr atrás de mim com ares de louco. Não havia ninguém na rua, tive de acelerar dali para fora." Suspira. "É fantástico, não é? Podem dizer tudo o que lhes apetecer e quando alguém responde está sujeita a apanhar uma tareia. Depois penso que me coloquei numa situação de risco, mas na altura fico tão passada..."

Mesmo assim, crê que não é só por medo que a maioria das raparigas e mulheres não reagem. "Há muita gente que acha que a atitude correcta é não dar importância, é aquela coisa da mulher honesta não tem ouvidos. E como ninguém fala disto, é como se não acontecesse. Mas quando temos 13, 14 anos é todos os dias. Temos ar de miúdas e os gajos acham que não te sabes defender. Quanto mais desprotegidas mais pica lhes dás." No rosto angelical, a determinação não vacila: "Enerva-me profundamente. E não estou só a falar do lambia-te e fazia-te e acontecia-te, o 'és tão bonita' também não me deixa confortável, porque não conheço aquela pessoa de lado nenhum, não tenho de ouvir isso, tenho o direito de não ser importunada. E assusta-me particularmente a idade com que as miúdas começam a ouvir aquelas coisas."

Aliás, diz, mesmo quando consegue "desarmar" o piropador e sentir o poder que advém de se ter defendido, é "sempre uma situação humilhante. Não sei se é fácil criminalizar o piropo mas é uma discussão que é importante ter. E não consigo explicar as mulheres que não querem falar disto".

 

Retirado da reportagem "Cenas eventualmente chocantes", da Fernanda Câncio, no DN de 07/09/2013



publicado por jorge c. às 14:06
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Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011
Mas que gente tão parva

Gosto muito de leitinho com chocolate. Não de um leitinho com chocolate qualquer, mas sim de Suchard Express, e ninguém me paga para isto. Gosto muito de viver num país onde posso escolher o leitinho com chocolate que me apetecer. Já as pessoas no Egipto não têm tanta sorte. Não se trata só da crise, que também há no Egipto, não é só aqui, mas de um conjunto de narrativas políticas que não são muito favoráveis à existência do Suchard Express, dando exclusividade ao tenebroso Ovomaltine. Já vimos isto a acontecer e não foi bonito. O Ovomaltine é horrível! Pelo que gostaria muito que as pessoas do Egipto como eu e tu tivessem acesso à livre escolha do leitinho com chocolate. Eles até nem se importam de passar por uma crise de sacrifícios e assim se, pelo menos, tiverem direito a escolher entre o Ovomaltine e o Suchard Express derivado ao assunto do preço. Pelo contrário, por cá, a nossa cena já é outra: é termos acreditado que poderíamos beber muito leitinho com chocolate sem nos preocuparmos muito. É tudo uma questão de expectativas. Criou-se a expectativa de que estava tudo bem, e depois de nos fazermos à vida ia continuar tudo bem na mesma porque, seguindo as exigências do progresso, tínhamos feito tudo by the book. Acontece que não foi assim e houve uma - como é que se diz? - frustração de expectativas, que é uma cena tramada que costuma resultar em depressões (modernices). De um momento para o outro, ou não temos dinheiro para comprar leitinho com chocolate ou não temos tempo para o beber, e não era nada disto que tínhamos combinado. A expectativa é uma característica muito forte das sociedades modernas porque é ela que vai catalisar a dinâmica de consumo. Quando as expectativas são frustradas a sociedade ressente-se, mesmo que em rigor os mínimos garantidos continuem a ser cumpridos. Como alguns começam a deixar de o ser - porque a vida é assim mesmo - há gente que faz barulho, que se manifesta de algum modo, nem que seja com canções. O Tony Carreira andou anos a cantar o amor proletário e ninguém ficou muito incomodado. Ou a grande Linda de Suza e La valise en carton. Mas, desta vez, por causa da banda da Damaia, levantou-se aí um sururu com contornos ridículos. É que a frustração de expectativas não é um problema da esquerda ou da direita, é um problema de todos que construímos (mos) um sistema, torrámos o guito todo e agora não temos como dar resposta às expectativas que alimentámos durante duas décadas e meia. Se isto não é motivo suficiente para um gajo ficar indignado e escrever uma merda de uma canção, então traga-se o Mubarak que aqui é mais a cena dele. Admitindo perfeitamente a infelicidade da minha frase anterior se não atendermos ao seu toque de ironia, insisto nela por ver à volta de uma canção catastrofistas e anti-catastrofistas a esgrimar de poltrona para poltrona a ver quem é que tem mais razão sobre a vida dos cidadãos que querem apenas continuar a beber leitinho com chocolate sem grandes preocupações.



publicado por jorge c. às 11:38
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Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010
Que Deus nos ajude!

Talvez seja o fim do mundo em cuecas. Ou se calhar estamos só a dramatizar.

Chegamos ao fim da década endividados, com uma ameaça terrorista que provocou o horror na maior cidade do mundo, com uma classe política duvidosa e um conflito de liberdades difícil de resolver. Vimos a informação circular a uma velocidade nunca antes vista e novas formas de cidadania a emergir devido ao poder da web.

Só este ano, em Portugal, fomos do casamento entre pessoas do mesmo sexo ao mais recente Jonasgate e fomos também visados no estranho caso Wikileaks. Falámos de escutas, de défice, de dívida, de saúde e educação. Mas continuamos sem saber discutir. Somos incapazes de um mínimo de objectividade e confundimos amor com sexo como adolescentes de 16 anos. Já pouco se olha à dignidade, à justiça, à honestidade e à civilidade. Porque no meio do pânico decadentista, salve-se quem puder. É, como diria Sena, o país dos sacanas.

O ano encerra, portanto, uma década que marcou a imagem pública, onde a fronteira entre a privacidade e a liberdade foi muitas vezes transposta; onde a palavra pública foi muitas vezes exigida e outras tantas posta em causa. Talvez uma road to nowhere, ou simplesmente uma passageira esquizofrenia. Daí que para o próximo ano só exija: rock'n'roll e democracia.

 



publicado por jorge c. às 12:16
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Sábado, 11 de Setembro de 2010
Acordar com Nova Iorque

A década de oitenta acabou mais cedo do que se esperava. A falsa festa decadente e yuppie do ocidente foi interrompida pela Queda do Muro. "O Muro está a cair" foi a primeira frase que me marcou, e a imagem de gente a precipitar-se na ânsia da mudança, numa noite fria, no meio de lágrimas e silêncios aliviados, é a fotografia que abre a minha década.

Cresci e fui adolescente num mundo livre onde o dinheiro caía do céu, a informação circulava cada vez mais rápida e onde se respirava paz. Tinha todos os motivos para me tornar etnocêntrico. A Europa era agora uma lição de democracia e os Estados Unidos uma fonte de inspiração. Mas estava na moda ser multicultural. A minha geração, ou todos aqueles que beberam os anos 90, achou que ser multicultural era comer "comida étnica", ouvir "world music" e ser solidário com as criancinhas em África usando uma t-shirt branca em hora e data a definir. Felizmente também li e ouvi muita música e comi muitas coisas diferentes. Tive foi a sorte de tentar compreender o outro, estivesse ele no outro lado de um outro muro ou mesmo a meu lado, na minha Europa livre.

Pensar de uma forma global e diversa, plural e tolerante, foi meio-caminho para acreditar que finalmente tudo estaria no sítio.

A 11 de Setembro de 2001, dez anos escorreram pelo cano abaixo. Vi o mundo mudar entre uma gigante nuvem de cinzas que trouxe o ódio, o terror, o medo, a paranóia, a conspiração, a demagogia, o preconceito, a inquietação, a perseguição, a desconfiança, a vergonha, o moralismo e nos mandou para trás, quando já não pensávamos lá voltar, para uma guerra-fria que mói e nos destrói todo o sentido de Humanidade que julgamos estar sempre a conquistar.

 



publicado por jorge c. às 10:56
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