Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014
das elites

Este interessante texto ilustrativo de uma determinada realidade levou-me a outra matéria, mais abstracta, sobre a qual venho a pensar há algum tempo. O texto foca-se numa circunstância muito localizada. Fala-nos de uma elite lisboeta que nasce de uma perspectiva ideológica e/ou político-partidária. Algo muito específico. A ideia que isso me provoca é outra, mais ampla. 

Não sei definir o nascimento de uma elite. Haverá, certamente, um elemento identitário, depois um elemento mobilizador e uma liderança. Com o tempo, passa a existir apenas uma massa mais ou menos compacta e fechada em si mesma. O que me leva aqui à forma inconsequente e onanista da formação das elites, do seu carácter intrinsecamente fútil. Mas será que quando falamos de elite falamos do seu significado original ou estamos apenas a referir-nos a grupos elitistas? Sem possibilidade de consultar a outro dicionário, recorro ao Priberam e encontro, numa das definições, a minha resposta: "Minoria social que se considera prestigiosa e que por isso detém algum poder e influência". É a esta definição que me vou referir. 

O prestígio é um elemento exclusivamente psicológico. Significa isto que é instalado na percepção das pessoas e funciona como um vírus, não derivando de razões práticas muito concretas ou, até, de virtudes específicas. Neste campo de abstracção, surge um espaço para um desejo de pertença meramente estético e que vai criar uma marca influenciadora. É este espaço que dará a ideia de prestígio. 

Podemos observar algumas das elites que se espalham pelo país, umas mais compreensíveis do que outras: a elite política urbano-burguesa lisboeta, bem descrita no texto de António Araújo quando este se refere à mistura ideológica em determinado contexto social; a elite académica de Coimbra e de Lisboa; a elite burguesa portuense da Foz e da Boavista; a elite empresarial de Braga ou de Aveiro; a elite aristocrata do Ribatejo; a elite proprietária alentejana. Todas estas realidades minoritárias criam dentro de si o fenómeno da exclusão, da antipatia e, de certo modo, de alguma soberba, criando a ideia de um espírito sofisticado e esclarecido que os demais são incapazes de atingir. A reclusão destas elites dentro de si mesmas acaba por gerar uma dinâmica acrítica e com pouca correspondência no real. Em alguns casos ganha contrastes corporativos. Semper Fi. A abertura ao real acontece, muitas vezes, apenas pela necessidade ou pelo calculismo, regressando muito rapidamente ao movimento original. 

O fenómeno das elites é um dos mais interessantes de uma sociedade moderna. Tal como no referido post do Malomil, é sempre difícil reflectirmos assertivamente sobre a sua evolução nas plataformas contemporâneas. Contudo, atrever-me-ia a dizer que há hoje uma elite online, que já se formou a partir de uma outra mais dispersa, entre jornalistas, políticos, publicistas, alguns (não muitos) artistas e gente nova que surgiu devido à diversidade dos meios, provinda dos blogs. A característica nuclear das elites está lá: é sedutora e aliciante. Mas como todas as elites, ela tende a fechar-se sobre si mesma, resguardando-se numa estética, agora muito mais abstracta mas que, com o tempo, vai se tornando mais clara. A sua grande inovação é, ainda assim, a diversidade pós-ideológica, conferindo-lhe um tom snob muito interessante e a sensação de uma falsa abertura. 

Ao mesmo tempo, assistimos ao fim de outras elites que, por falta de actualidade, acabaram por ser vítimas da sua reclusão e se extinguiram ou se dispersaram, misturando-se noutras elites.

 



publicado por jorge c. às 10:00
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Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013
esquerda, direita, volver

Já não nos víamos há algum tempo. O único contacto que temos tem sido feito, claro, pelo Facebook, onde eu vou postando freneticamente, entre canções, manifestação política ou divulgação de outras matérias. Ele raramente interage, manifestando-se de vez em quando numa ou outra música, ou quando assinalo a memória de personalidades mais ligadas à direita. 

Desta vez, encontrámo-nos, no meio de outros amigos. A noite ia longa, tal como a amizade. A conversa foi seguindo e, inevitavelmente, caiu na política e no estado actual das coisas. De repente, vejo-o nervoso com o meu discurso e tento acalmar o tom para que se perceba o que estou a dizer com lucidez e clareza. Ele não aguenta e desata num disparate. Que eu agora sou comunista, que a esquerda é que nos meteu aqui e eu sou o idiota útil deles, agora, e que desde que fui para Lisboa isto e aquilo e aqueloutro. E por aí fora. Disparou com o que lhe estava entalado há algum tempo e que por sabe-se lá o quê, nunca quis discutir.

Esta conversa não é uma surpresa. Ao longo dos dois últimos anos, tenho sido acusado - é esta a palavra - de ser de esquerda por estar contra a conduta de um Governo de direita. Também pela esquerda, sou afavelmente recebido como uma nova aquisição. Para a esquerda, sorrio. Para a direita, mando-os estudar. A direita hoje padece de cultura e de esclarecimento. É ignorante, preconceituosa e pouco esclarecida. Para além de, muitas vezes, ser oportunista e taticista.

Não pretendo fazer aqui qualquer declaração de interesses sobre as minhas escolhas ideológicas. Era o que me faltava. Porém, há uma questão fundamental no meio de tudo isto que urge esclarecer, porque a luta política é cada vez menos esclarecida e auto-crítica. 

A coerência ideológica existe porque as pessoas se mantém fiéis a um conjunto de valores e princípios. Acima desses valores e princípios ideológicos, existem, ainda, outros mais importantes, como a dignidade humana, a liberdade, a igualdade, a solidariedade. A verdadeira incoerência reside em nos afastarmos destes princípios por oportunismo ou circunstancialismo partidário. O resto é mantermo-nos fiéis ao tipo de sociedade em que acreditamos e que juntos, democraticamente, aceitámos construir. Este é o maior valor que temos - a comunidade e o outro.

Portanto, será errado pensar que a minha deslocação foi feita para a esquerda. Em rigor, eu mantenho-me no mesmo sítio. Quem mudou foram aqueles que deixaram de colocar valores e princípios à frente do preconceito ideológico, da fantasia pseudo-liberal e da politiquinha de corredor.

No dia em que o nº2 de Durão Barroso (não sei se estão recordados deste senhor, que ia ser o nosso homem em Bruxelas) diz que é importante baixar salários para atrair investimento, com a maior das canduras, este é um assunto sobre o qual devemos reflectir para decidirmos de que lado é que vamos estar. Eu apenas decidi o meu com a minha consciência.



publicado por jorge c. às 13:12
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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012
as minhas coisas favoritas

Em alturas como esta oferece-se dizer que só valorizamos as coisas quando as perdemos. Mas, logo viria alguém discutir o lugar comum e a falta de sofisticação, a pouca urbanidade da coisa e a necessidade de seguir em frente. É a chamada ética dos fúteis. 

É uma merda perder as coisas. É uma merda que sejamos poucos a tentar mobilizar as pessoas para os lugares que sabemos mágicos, onde o tempo não passa e se mantem estático para que, então, uma certa transcendência nos coloque os olhos no futuro. É isso que o Jazz nos faz. É o mais perfeito instrumento da consciência livre.

Pouco pretensioso, o jazz é da rua, é dos bares generosos. Quando as ruas e os bares perdem o jazz, nós perdemos um pouco mais de liberdade, de oportunidade para lançar a conversa num precipício interminável, empurrada pela enxurrada de uísque e de fumo livre.

Hoje, de manhã, acordei com uma notícia amarga. O Catacumbas - o último speak easy, digno do nome, na cidade - fechará em fevereiro. Talvez seja mais uma das consequências do tempo que vivemos. A crise. Porém, pergunto-me se a verdadeira crise não será a mesma história de sempre: a desvalorização das coisas, a troca do brinquedo velho pelo novo, a ditadura da novidade e do trendy e assim sucessivamente. 

Este é o meu maior ressentimento, não o nego. Porque não gosto de perder as minhas coisas favoritas. 

 

 

Até jazz, Manel.



publicado por jorge c. às 13:20
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Domingo, 15 de Maio de 2011
Há metafísica bastante na Emel

Sobre o que é a esquerda e a direita tive muitas discussões com amigos ao longo dos anos. Porém, nenhuma distinção terá sido tão perfeita como aquela que RPS deu certa noite, à mesa de jantar. Disse o meu amigo que aquilo que distinguia as duas é que a esquerda não gosta da polícia e a direita não gosta dos polícias. A simplicidade desta distinção é tão maior quanto a sua assertividade. A partir de então, sempre que a discussão ressurgiu, citei sempre RPS. Confesso que o impacto não tem sido o esperado. Talvez não se dê assim tanto valor a metáforas tão simples (o que é uma pena), ou talvez muitas destas pessoas não tenham experimentado um acontecimento onde fossem confrontadas com esse factor de separação das imensas águas territoriais que rodeiam a sua natureza ideológica. São experiências que nos põem à prova.

Pois comigo, aconteceu, já lá vão cinco dias, passar por uma experiência próxima que me fez questionar o território em que me situo. Um desafio a que não soube responder imediatamente com a maior das seguranças, mas a que a metafísica, como sempre, ajudou a esclarecer. Estava eu, portanto, a encaminhar-me para o carro quando ao longe reparo que à sua volta se entrelaçava uma fita amarela. Praguejei, insultei e perdi noção de tudo o resto. Recompus-me para resolver o assunto. No vidro a informação no autocolante era clara e precisa: 90€ = 30€ de multa + 60€ para desbloquear o veículo. Enquanto aguardava que os cavalheiros da empresa municipal regressassem para me desbloquear o carro fui pensando nos motivos da minha - agora - bancarrota. Assumi o meu erro: não paguei o estacionamento pelo que me bloquearam o carro por falta de ticket. Pouco ou nada interessam as razões. Não paguei e este é um erro sancionável. Mas se a coima existe antes do bloqueio, por que razão não me haviam dado hipótese de ser apenas multado? A simultaneidade das sanções fez-me questionar a seriedade da instituição.

Chegados os funcionários da empresa municipal (uma autoridade em matéria de estacionamentos), tentei ser o mais cordato e gentil possível. O tempo que esperei fez-me pensar que aqueles homens apenas cumpriam regras e as suas funções seriam meramente administrativas, sem espaço para discricionariedades. Não deveria obrigá-los aos meus maus instintos, nem às minhas desculpas. Também não valeria a pena mostrar que era um cidadão cumpridor e que umas semanas antes teria até - diz-se - entregue um ticket a um desconhecido por ainda restar tempo de estacionamento. Esses desabafos da moralidade ficam para Deus ou para a edilidade. Paguei, despedi-me e desejei um bom dia de trabalho. Uma simpatia e adeus 90€.

Não tinha razão para me chatear com quem apenas fazia o seu trabalho. Estava então revoltado com a instituição "Empresa Municipal de Estacionamento", uma entidade fantasmagórica que habita no imaginário dos locais tanto pelo desprezo que lhes merece como pela raiva que lhes suscita. Repito que a minha revolta não se devia à sanção em si, mas sim à simultaneidade de sanções que me pareceu desadequada e, de certo modo, perversa. Teriam aqueles homens responsabilidade na adequação da sanção ao caso concreto, ou estariam apenas a seguir ordens específicas? A dúvida. Estaria eu, pela primeira vez, confrontado com a possibilidade de ter um problema com a instituição e não com o indivíduo? Ah! A metafísica!

A dúvida resolve-se quando invocamos questões de princípio. Todas as instituições que impõem acções a partir de regras, devidamente escrutinadas, têm de fazê-lo em proporção do erro cometido. Se houver um aproveitamento do princípio da proporcionalidade, a regra geral estará a ser pervertida. A responsabilidade nesta matéria é do agente que aplica a regra. Mesmo que envolva hierarquia e ordem superior, o agente tem uma escolha: cumprir ou perverter o sentido nuclear da regra. Se a filosofia da empresa, neste caso, é servir os cidadãos (e que no caso específico será bastante discutível), a perversão das suas regras implica um prejuízo para os cidadãos, uma perda de confiança institucional, em abstracto. Perde-se o valor institucional à conta da cobardia do agente local.

Depois desta reflexão respirei de alívio. RPS ainda tinha razão, ou o mesmo será dizer que eu ainda navegava pelas mesmas águas, sem ilusões ou confusões do território. E de repente todos aqueles adágios repetidos à exaustão fazem sentido: a árvore e a floresta, a andorinha e a primavera. A questão de princípio será sempre a mesma: a instituição nasce pura, o homem é que a corrompe.



publicado por jorge c. às 10:05
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Segunda-feira, 14 de Março de 2011
A precariedade da consciência política

Não se pode ignorar que o que aconteceu por todo o país no Sábado é um protesto com relevância. Resta-nos é perceber que tipo de relevância é que está aqui em causa: quantitativa, qualitativa ou as duas.

Ao longo da tarde de Sábado fui acompanhando a manifestação através dos directos na televisão que, de forma aleatória, iam recolhendo testemunhos. Não se tratam de peças editadas e trabalhadas com uma narrativa específica, mas sim entrevistas em directo, sem qualquer critério, feitas ao longo de toda a manifestação. A ideia que passou para fora foi que se tratava de um protesto político contra a governação. No meio disso havia um tópico: a precariedade. Mas, para muitos dos manifestantes, a precariedade é um problema político imediato.

Vejamos por que é que isto não faz sentido. A precariedade, simbolizada pelo recibo verde, é uma realidade cada vez mais preocupante. Ninguém duvida disto. O tratamento que damos ao tema não pode, por isso, cair numa reivindicação inconsequente. Temos o exemplo da questão levantada pelos falsos recibos verdes que não são objectivamente um problema que compete ao poder político mas sim ao poder judicial. Dir-me-ão que os tribunais não funcionam, ao que eu respondo que se não recorrermos a esses mecanismos é certo que eles não funcionam. E o discurso à volta de tudo isto torna-se inconsequente porque não avalia bem todos os dispositivos democráticos espelhados no princípio da separação de poderes. Mesmo a conversa do não funcionamento da justiça tem muitas vezes que ver com a subjectividade do caso. Não é por eu achar que o meu recibo verde é falso que ele o é, de facto, e que isso é um problema geral. Confundir uma frustração com um direito é um erro. O que aconteceu no Sábado foi mais um aglomerado de frustrações do que uma reivindicação certa, objectiva e bem definida. A indignação, a vergonha e todos os outros sentimentos expressados não são uma reivindicação, são sentimentos e a sua manipulação é demagogia.

Posto isto, é legítimo que nos manifestemos contra algo que nos parece ultrapassar todos os limites éticos. Até aqui, de acordo. Acontece que a não existência de um caderno reivindicativo dá azo a que a manifestação não tenha uma narrativa coerente. Se este era um protesto contra a precariedade porque razão se tornou numa manifestação anti-governo?

Em rigor, as medidas propostas por alguns dos manifestantes (um nicho com pouca expressão no meio de 300 mil pessoas) não se afastam daquilo que é uma parte do programa do Bloco de Esquerda. Falar em demissão do governo torna-se, então, numa manobra pouco séria quando o Bloco saiu há 1 ano e meio de eleições com 9,81% dos votos; depois de ter apresentado uma moção de censura que foi chumbada pelo Parlamento na semana passada. Tudo isto - esta reverência pela preponderância popular - é um desrespeito absoluto pela democracia representativa e, acima de tudo, pela memória de uma ditadura sem partidos e sem representatividade. Falar-se, então, de um novo 25 de Abril é falta de consciência política, da mais básica possível.

Também a participação da JSD é bastante caricata. Que eu saiba, a JSD tem deputados na bancada parlamentar do PSD. O que andam eles a fazer? Na manifestação foi evidente o que andaram a fazer: propaganda anti-governamental. O que é absolutamente legítimo, mas convenhamos que encerra só por si a ideia de uma manifestação sem pretensão anti-governamental. E se o problema era a política laboral, onde está a proposta política da JSD até hoje que, ao que eu saiba, ainda é uma organização político-partidária?

Chegamos aqui a um ponto em que se torna tudo muito confuso e inconsequente. É uma manifestação aberta que permite que todos apresentem as suas reivindicações. Essas reivindicações são anti-governamentais. Logo, é nisso que a manifestação se torna. E se o é, porque razão aquelas 300 mil pessoas não votaram nesse sentido nas últimas eleições? Revolucionar um sistema democrático para transformar o sistema político em quê? Se não aceitam resultados de um sufrágio universal, aceitam o quê?

Respondendo à minha primeira questão: a manifestação de Sábado tem relevância quantitativa. O descontentamento de centenas de milhares de pessoas não pode ser ignorado pelos responsáveis políticos, nomeadamente pelo Governo, pelo Presidente da República e por todos os partidos com assento parlamentar. Não foi uma manifestação com relevância qualitativa devido à vacuidade do protesto, à inconsequência e diversidade de movimentos gerados espontaneamente sem qualquer ligação de conteúdos entre si. Não há muito a retirar de discussões de café agrupadas na rua, mesmo que isso pareça uma coisa linda. A estética revolucionária engana sempre.

Sou profundamente solidário com os receios, frustrações e com o desespero do próximo. Sou intolerante à demagogia.



publicado por jorge c. às 14:40
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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011
Das regras

O que se passou em Paços de Ferreira tem interesse geral, como bem afirma o Bloco de Esquerda. O meu amigo RPS costuma dizer que a direita e a esquerda distinguem-se da seguinte forma: a esquerda não gosta da polícia e a direita não gosta de polícias. É bem verdade que a discussão passa sempre por aqui e perde a força do interesse efectivo que tem para a sociedade, mesmo quando se trata de uma questão de direitos fundamentais. Não importa aqui afirmar qualquer opinião sobre o caso em concreto por falta de enquadramento. Não sabemos, em rigor, o que se passou nem ao que estavam autorizadas as forças de segurança do estabelecimento prisional. Depois do inquérito talvez possamos chegar a mais alguma conclusão. Mas, antes, importa sim discutir a relevância deste assunto e por que razão estiveram bem todos os partidos ao concordar com a audição do Ministro da Justiça.

A evolução do direito penal e dos seus vários ramos tem sido muito rápida nos últimos 20 ou 25 anos. Hoje, por exemplo, já não se entende a pena como um correctivo, mas como uma forma de retirar direitos e liberdades. A proporcionalidade é um dos princípios fundamentais nesta filosofia que decidimos adoptar para a melhor satisfação do interesse geral, como salvaguarda dos direitos humanos. Se pode acontecer a um, pode acontecer a todos. Assim, não faz sentido a utilização de instrumentos que tenham como propósito infligir dor para imobilizar. É importante que, dentro daquilo que seja a sua discricionariedade, um agente de segurança saiba agir em proporção.

Com efeito, é este o momento em que partimos para uma ideia mais abstracta: a de que é fundamental que as instituições sejam rigorosas no cumprimento das regras e na sua auto-regulação. Todas as instituições têm uma característica em comum que é ser uma criação da lei. Por conseguinte, estão vinculadas a um conjunto de regras perfeitamente definidas. Logo, a prevaricação será sempre um factor de descredibilização das instituições. E quando falamos de forças de segurança o assunto ganha ainda um peso maior porque se tratam de organismos que têm por objectivo assegurar a segurança de todos os cidadãos e protegê-los ao abrigo da lei. Um estabelecimento prisional não é excepção.

É claro que o meu amigo RPS tem razão na sua distinção. Acontece que quando se trata de avaliar a prestação da polícia não o podemos fazer com essa leveza. Há um bem muito maior a proteger: a segurança de todos, incluindo a da própria instituição. Porque uma instituição descredibilizada é uma instituição desrespeitada e fútil.



publicado por jorge c. às 12:09
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Sábado, 12 de Fevereiro de 2011
Ainda Black Swan

Há uma frase do Chesterton no Tremendas Trivialidades de que gosto bastante e que tenho citado muito: "O mundo nunca morrerá à fome por falta de maravilhas, mas apenas por falta de se maravilhar." Foi isto que pensei com as críticas que ouvi a Black Swan. Quer dizer, primeiro pensei "estúpidos" e só depois é que pensei com erudição. É sempre assim, primeiro somos grosseiros e depois é que vem a erudição, excepto com aquelas pessoas que escrevem nos blogs colectivos de esquerda com rigor científico que são muito chatas.

Mas, dizia eu, as críticas que tenho ouvido são bastante incompreensíveis porque partem de premissas erradas. Primeiro, o filme é previsível. Ora, nem todos os filmes têm um twist, mas acho curioso que se diga isso em relação à relação de Nina com os outros e não com ela própria. Segundo, a temática é um cliché psicológico (diz o meu amigo Rodrigo, mais assertivo). Sim, talvez, mas também o foram o Dr. Jekyll and Mr. Hyde, o Shinning ou The Rise and Fall of Ziggy Stardust e muito mais coisas desde o início dos tempos, certamente. O homem tenta compreender e discutir a sua mente através de processos criativos e a partir de realidades novas. E é precisamente na abordagem que está a novidade deste filme. Tem se visto algo relativamente próximo em Sofia Coppola e a dimensão interior das suas personagens. São coisas simples e se calhar chatas para quem quer ver apenas filmes complexos com grandes twists. Assim sendo, teríamos o mundo entregue a Fincher. Mas, na simplicidade também reside a beleza. É isso que Chesterton pretende dizer com aquela frase.

Entretanto, vi o Shaft em África - The brother man in the mother land. Talvez assim percebam melhor o que quero dizer.



publicado por jorge c. às 11:13
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Domingo, 6 de Fevereiro de 2011
De como Žižek está errado

O patusco Slavoj Žižek lá regressou com a sua habitual evangelização carregadinha de manipulação intelectual e preconceitos. Eu acho piada a Žižek, mas não posso deixar de notar esta sua tendência para a manipulação através de um discurso todo fixolas que a malta curte, tipo ya. Ora, como eu não curto, tipo ya, que a malta curta, tipo ya, achei por bem demonstrar como a ideia de fundo, de boa-fé, não é má de todo, mas o raciocínio e a justificação são absolutamente falsos. Isto não é uma discussão filosófica, por amor de Deus! Isto tem a ver com factualidade.

Portanto, diz-nos o nosso camarada: "Vamos lá romper o impasse da dicotomia entre liberais anémicos e extremistas". Porreiro. Por mim tudo bem. Mas, se formos lendo vemos que o único problema que Žižek tem é com os liberais-conservadores (suposição minha). É estranho, não é? Os extremistas até são capazes de se adaptar, os liberais é que andam a empatar isto tudo.

Mais à frente, como não poderia deixar de ser, vem a entrada a pés juntos a Cristo. O pobre desgraçado morre na cruz para a redenção dos pecados da rapaziada toda, mas ainda assim ele acha que o escandaloso Jesus só queria malta da dele. Claro. Todos nós sabemos que a teleologia cristã é promover o ódio. Eu julgava que a confusão entre a base do cristianismo e as atitudes da Igreja Católica tinha desaparecido no início do Séc. XX. Mas pelos vistos, ainda há quem use a mesma técnica usada pelos jacobinos do início do século. Ya, como está de se ver.

Aproveitando o facto de estar com a mão na massa, vamos lá falar dos conservadores, misturando com os liberais de forma a parecer que está tudo enfiado no mesmo saco. A malta da JCP normalmente não repara, e pelo que vejo, a do Bloco também não, tal é a ansiedade de concordar com o mestre. Estou a ser preconceituoso? Estou, porque eles merecem. Não sejam carneirinhos e a gente conversa. Até lá: aguenta, rapaz! (Esta referência ao Mário-Henrique Leiria foi só para competir com a do Chesterton para mostrar que nós também lemos cenas e assim).

Portanto, para o Žižek o facto dos conservadores insistirem "que cada Estado se baseia num espaço cultural predominante, que deve ser respeitado pelos membros de outras culturas habitando no mesmo espaço", significa automaticamente que se vão silenciar em relação ao racismo e perder a autocrítica. Claro, é uma lógica fortíssima. Como é que eu nunca pensei nisto? Ou seja, i conservador, que desejo que a minha comunidade se mantenha inalterada na sua estrutura, na sua cultura, através de um desenvolvimento sustentável de todas as suas premissas, serei um racista por negligência. Certíssimo quanto a honestidade intelectual e compreensão de posições ideológicas diferentes.

É claro que eu acredito numa sociedade integradora e que dê espaço ao outro: na sua religião, na sua cultura, no seu quotidiano. Todos os dias faço concessões. É esta a minha forma, e a de muitas outras pessoas, de aceitar uma Europa mais sofisticada e democraticamente madura. Mas é isso mesmo, eu faço concessões. Slavoj Žižek não faz. Para ele, o problema reside apenas num dos lados de uma barricada que ele continua a alimentar para beneficiar a sua narrativa ideológica. É um discurso radical que se manifesta na imposição das ideias a partir de manipulação preconceituosa. Em democracia, o espaço do diálogo não deve estar só limitado aos que concordam connosco. Ora, quando se atirou a Cristo, Žižek estava a projectar.



publicado por jorge c. às 10:58
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Domingo, 9 de Janeiro de 2011
Mad World

A imagem do fim pode estar nos pássaros que caem mortos, nas devastadoras cheias, no aumento da população mundial ou nos climas de guerra. Mas nada pode ser mais catastrófico do que uma sociedade que não se consegue respeitar e perde todas os seus traços solidários. Se há algo que nos pode ajudar a manter a lucidez num tempo de hecatombes é a prática de uma escala de princípios e valores assente na melhor relação de todas as dimensões humanas. Quando isso falha deparamo-nos com um cenário de fim dos tempos pouco ou nada original.

 



publicado por jorge c. às 12:01
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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010
A função social das empresas

Se um dos problemas do país é, neste momento, a crise de valores, temos de perceber de que valores estamos a falar. Não se pode apenas atirar para o ar um pacote de lugares comuns do moralismo. É preciso avaliar com atenção a função de cada um no meio.

O que entendemos, então, por função social das empresas? Para além da evidente relevância que as empresas têm no desenvolvimento social e do impacto dos seus produtos e serviços, estes sujeitos têm uma função interna para a estabilidade das comunidades. A sua organização é fundamental não só para responder ao mercado como também para dar qualidade de vida aos seus trabalhadores. Não são, por isso, positivas as cargas horárias impostas pelos empregadores, nomeadamente a jovens trabalhadores que estão dispostos a tal por se encontrarem no início de carreira e recearem o desemprego.

Pode parecer um assunto insignificante, mas não é. Repare-se que com uma carga horária pesada não é possível viver fora das empresas, despender tempo para as famílias, aproveitar as vilas e cidades, patrocinar actividades socio-culturais, não só criando públicos como participando; não é possível, enfim, viver, ter vida, mundo. E a falta de mundo é hoje um problema grave no seio das empresas, porque dele nasce a compreensão, a inteligência e a capacidade de evoluir. Mais: quanto maior é o volume de negócio da empresa mais esse cuidado deve ser tido em conta. É que, no fim de contas, o cansaço da dedicação sem retorno desgasta a imagem de qualquer negócio. No limite, a insatisfação gera desconforto e insegurança e isso pode ter efeitos perigosos - a saúde, por exemplo.

Este é, sobretudo, um problema de organização. Gastam-se rios de dinheiro em acções de formação, de motivação e coaching, mas é-se incapaz de olhar para dentro e perceber um grupo de pessoas.



publicado por jorge c. às 16:58
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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010
Uma nova aurora

Quando Guevara chegou ao Chile viu uma América Latina diferente mas com muitas semelhanças. Talvez por isso tenha confundido aquilo que é uma proximidade cultural com patriotismo (no seu caso, um conceito muito mais amplo e extensível a toda a América Latina).

Hoje, pela manhã, enquanto ouvia os mineiros chilenos a cantar o seu hino ("Puro Chile...") julgo ter sentido o mesmo que Guevara - que Deus Nosso Senhor me perdoe - quando se apercebia que as pessoas gostavam mesmo da sua identidade e que o amor pela Pátria era o da sua vontade de uma Pátria melhor para todos. Este sentimento eu compreendo. Ele reflecte uma identificação com o meio e uma necessidade de o preservar e desenvolver.

Os símbolos da Pátria são as marcas de uma pertença. Mas mais do que isso são a certeza de um objecto. Quando ignoramos os símbolos ou os desprezamos é sinal que perdemos o amor próprio, que já não sabemos distinguir entre o que é a Pátria e aquilo que fazem dela. Pela madrugada, enquanto saíam os últimos mineiros, entoou-se o hino do Chile porque, apesar de uma certa desumanidade, aqueles latino-americanos, como a grande maioria dos outros, têm um orgulho imenso na sua identidade e na sua nacionalidade. Ao saírem maravilharam-se com uma nova aurora.

Chesterton escreve em Tremendas Trivialidades: "O mundo nunca morrerá à fome por falta de maravilhas, mas apenas por falta de se maravilhar". Compreendo que haja hoje, em Portugal, gente cansada e desgostosa. No entanto, que não confundamos aquilo que é a Pátria com aquilo que fazem dela. Não nos deixemos morrer por falta desse deslumbramento.



publicado por jorge c. às 16:33
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Terça-feira, 17 de Agosto de 2010
Os Beatles e o conservadorismo moderno

Ali em baixo, no post sobre os 50 anos dos Beatles, o comentador Alexandre Carvalho da Silveira diz que "a banda" são os Rolling Stones. ACS comete um erro, não só de interpretação do meu post, como também um erro histórico. Este erro acaba por ser muito útil para retomar a minha conversa chata e enervante sobre as maravilhas do conservadorismo.

Mas, vamos primeiro ao erro histórico. A relevância dos Beatles no panorama da música popular contemporânea não é sequer discutível. Parece ser por demais evidente a influência que a banda teve na história do pop/rock. Já os Rolling Stones, que aparecem um pouco mais tarde, terão certamente o seu cunho na história do rock'n'roll, mas não serão uma referência tão marcante num espectro mais alargado.

Quanto ao erro de interpretação do meu post, este passa por ter comentado como se eu estivesse a estabelecer uma preferência. Pois se o fizesse, não seriam os Beatles a levar com o epíteto de "A Banda", mas sim os Zeppelin. Acontece que o meu post é mais sobre a história da música do que sobre uma preferência, e história é história, não se pode inventar muito, nem tampouco confundir aquilo que é a nossa preferência com aquilo que acontece de facto.

E por que é que isto é um erro?

É muito comum fazermos este juízo em relação a todas as áreas que são do domínio público. Na política, por exemplo. Eu posso acreditar convictamente que a aristocracia é o melhor sistema político, mas se eu considerar os factores culturais dentro dos trâmites republicanos, tenho de preservar aquele sistema que se adequa mais a uma realidade que existe e não a uma sobre a qual eu especulo. A minha preferência pode não encontrar reflexo na realidade. Se eu sou dj numa rádio de música popular não vou passar meia hora de transe.

Com a imposição das nossas preferências o que estamos a fazer é tentar mudar mentalidades. Queremos ser os grandes educadores do povo. Esta atitude paternalista não encontra correspondência na tendência democrática da nossa linguagem civilizacional. Daí que ser conservador importe, mais do que tudo, tentar salvaguardar a estrutura actual (não a mais actual) por uma questão de equilíbrio e sustentabilidade. Ser conservador em 2010 não é ser conservador em 1960. Não se é conservador ou, no limite, reaccionário numa época que já passou. Tudo aquilo que aconteceu no mundo, aconteceu. Não há muito a fazer. Se os Beatles acabaram por ser mais relevantes no panorama musical universal, não podemos tentar mudar essa realidade. Se foi para um Estado Providência que caminhámos, então temos de assumi-lo e tentar assegurar a sua eficiência.

 



publicado por jorge c. às 10:57
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Quinta-feira, 24 de Junho de 2010
A odiosidade do progresso

O Progresso. Sempre o progresso. Não há nada que nos livre dos progressistas. É claro que depois, por não se ponderar o progresso, acaba tudo numa embrulhada cheia de remendos e cedências e malabarismos e mais legislação... Enfim, o estado caótico a que chegámos.

Parece que o problema das scut agora ocupa o centro da nossa atenção. Com alguma razão, mas nem sempre pelos mais válidos motivos. No fundo, estamos a discutir problemáticas que deveriam ter sido discutidas antes do servicinho estar pronto. Seja a questão da cobrança das scut, seja a questão dos chips. Senão, vejamos: o Estado acordou bem disposto um dia a garantir que era tudo à vontade do freguês, fartou-se de betonar o país, até ao dia em que o asfalto acabou e era preciso pagar a conta. Eh pá, que maçada, esqueceu-se da carteira em casa. Vai ter de ser a dividir por todos. O problema não se punha se o Estado, armado em novo rico, não tivesse garantido bar aberto.

Já em relação aos chips a conversa dos direitos de liberdade também não deixa de ser interessante. O Estado vai obrigar todo e qualquer cidadão a ter uma conta bancária. Hoje, parece ser uma situação normalíssima obrigar as pessoas a terem uma conta bancária. Mas por que carga de água é que eu tenho de ter uma conta bancária para usufruir de alguns serviços?

Parece ridículo, mas quando me disponho a prestar um serviço nas eleições, enquanto elemento de uma mesa de voto, é-me oferecido um chequezinho. O cidadão mais moderno deposita. Mas eu, mais avisado, gosto de levantar logo o guito, não vá dar-se o caso do país falir entretanto e eu deixar de ser pago pela minha prestação. Não me deixam. Tenho de ter uma conta.

É a isto que se chama a odiosidade do progresso, quando ele não olha a mais nada senão a si próprio e esquece todo um campo de realidades que são anteriores. O progresso é egocêntrico e os progressistas os seus serviçais acéfalos.



publicado por jorge c. às 10:48
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Terça-feira, 8 de Junho de 2010
A direita da causa perdida

Quando falo de diabolização da direita não estou a afirmar que esse é o mal do mundo. Digo apenas que é uma forma incorrecta e desonesta de discutir política.

Se essa forma é um tique da esquerda, também a direita tem tiques maus e que a fazem perder terreno no combate político. Um desses tiques é o moralismo apócrifo e um certo excesso de emotivismo político. Viu-se bem isto na discussão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, onde não houve uma posição jurídico-institucional forte por parte da direita que, em vez disso, andou a pregar aos peixes sobre a anormalidade de uma relação homossexual e sobre a família tradicional. A direita perde a concentração nestes momentos e deixa-se levar por um conjunto de preconceitos que não são sequer relevantes na discussão. Se é uma relação jurídica que está em causa é nesse sentido que a questão deve ser discutida. Se é uma instituição que está em causa é nesse sentido que deve ser discutida. O plano subjectivo provoca a guerra identitária e isso sai fora do âmbito da direita.

Em rigor, a direita é institucionalista e comunitária. O seu espaço de discussão política não se pode confundir com as posições de pequenos grupos dentro desse bolo ideológico. O que esses grupos, por norma elitistas, provocam é a massificação de um pensamento político acéfalo baseado no ódio pelo próximo e na ignorância.

A tendência para a futilidade ideológica é, portanto, muito alta. Tal como aconteceu na esquerda dos anos 60, a direita acha agora que também é esteta e passou a desfilar com vaidade um catolicismo falso, fala no liberalismo com uma sofisticação serôdia e concentra as suas forças no combate à esquerda caviar em nome de um suposto conservadorismo. Ora, caviar de um lado e lata de atum disfarçada do outro, pelo menos comidinha não há-de faltar à rapaziada.

Falta-lhe, assim, o estudo e a concentração necessárias para uma conquista política relevante, baseada no espírito de preservação da comunidade, na defesa das instituições, no rigor jurídico, na aceitação e diversificação das relações sociais e jurídicas, na sustentação ambiental e cultural. Uma maior consciência da importância da comunidade e uma maior dedicação a esta fortalece a direita. O identitarismo estrangula-a.

Com efeito, a direita não tem de ser católica. Ela tem de defender o catolicismo na sua perspectiva cultural e institucional. Não tem de lhe obedecer aos cânones, mas sim suportar os costumes inseridos na cultura ao longo dos séculos. E quem fala no catolicismo fala também noutras questões como as forças policiais, o regime político e a natureza do Estado, em particular do seu povo.

O conservadorismo tem que ver com a sustentação actual e não a de há 40 ou 50 anos.



publicado por jorge c. às 12:20
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Segunda-feira, 7 de Junho de 2010
A bem do Progresso: diabolizar!

Para defender o progresso, não se sabendo ao certo o que isso significa, a esquerda utiliza uma táctica política de rua muito eficaz: a diabolização. Ao longo dos anos essa táctica vai-se tornando cada vez mais perfeita e enraizada nessa particular mentalidade do "ser de esquerda". É uma espécie de teoria da conspiração típica das extremas, mas mais sofisticada. Um jornalista, um colunista, um artista, um político, ao assumirem-se como de direita, em Portugal, poderão estar a pôr o seu bom nome em causa. Ser de direita corresponderá automaticamente a ser nojento, um pulha, um canalha, etc, etc. A não ser que se seja a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, da interrupção voluntária da gravidez, da eutanásia, da adopção por casais homossexuais e utilizador frequente de palavrões (eu sou, estou safo). Ou seja, para a esquerda moderna, próxima do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda, ou entre os dois, uma boa pessoa de direita é uma pessoa de esquerda.

As principais vítimas desta maldição nos últimos tempos foram Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite. Ninguém lhes tirou o rótulo de conservadores monstruosos que queriam fechar o país dentro da Santa Madre Igreja e queimar o resto das pessoas. Disseram-se coisas inenarráveis, truncaram-se afirmações, insultou-se, criaram-se boatos de bastidores e especulou-se (tipo agências de rating) sobre hipotéticas más intenções. Enfim, diabolizou-se de tal forma a imagem destas pessoas que, a certa altura, até parecia real. Não acredito que alguém num estado de lucidez razoável fique convencido disso. A verdade é que não parece haver um estado de lucidez razoável nestas coisas. Se por um lado temos a geração castrada de Abril sempre à procura da igualdade absoluta entre homens e minhocas, reivindicadora dos direitos das sereias, por outro temos a esquerda mais moderna que pretende proceder a uma alteração estratégica das elites e a quem convém mudar o sentido da opinião pública (em abstracto).

Acontece que essa diabolização não tem correspondência na realidade. A direita portuguesa é uma direita social. Não tem qualquer comparação com movimentos políticos extremados. Mesmo a direita católica é bastante moderada, tendo ainda em conta que nos últimos 30 anos aguentou com "os beatos", a "padralhada", entre muitos outros epítetos simpáticos que, como bons cristãos, devem aceitar sem piar. Há uma espécie de Verdade à esquerda, um dogma anti-religioso e politicamente preconceituoso.

O que não se compreende, e chega mesmo a ser paradoxal, é como é que a esquerda defensora de Abril não aceita uma ideologia política contrária e como é que à falta de melhor confrontação ideológica recorre à banalidade da diabolização, ao insulto e aos atentados fictícios de carácter. Começa a ser preocupante e deixa de ser apenas patético.



publicado por jorge c. às 12:13
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Sexta-feira, 21 de Maio de 2010
Do relativismo

Quando Bento XVI fala em relativismo está a tocar num ponto muito comum na opinião pública e que depois se reflecte, por exemplo, na política. E quando se fala de relativismo estamos a falar de coerência de princípios vs. subjectividade. Dito de outra forma, quando alguém defende algo por princípio fá-lo independentemente dos sujeitos envolvidos. Trata-se aqui da velha questão dos "dois pesos e duas medidas". O relativismo será, nesse sentido, um forte entrave à estabilidade social, à consciência política e jurídica porque o que vai acontecer é o esvaziamento do código ético e moral, que a sociedade foi construindo como necessidade básica de convivência, em prol dos sujeitos. Com o entrincheiramento actual a situação agrava-se.



publicado por jorge c. às 13:48
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Segunda-feira, 17 de Maio de 2010
Pequeno apontamento sobre a histeria dos nichos

O Presidente da República decidiu fazer hoje uma declaração ao país onde irá manifestar a sua decisão relativamente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. A agitação nas redes sociais a esta hora é grande.

Será preciso lembrar que ao Presidente restam duas alternativas: ou promulga ou veta politicamente. Acontece que qualquer que seja a escolha é sempre uma decisão política, porque a Presidência é um cargo político. Não sabiam? Mas é, sim senhor. E mais ainda, o Presidente é eleito pelas suas características políticas e é por isso que se diz ser o Presidente de todos os portugueses, pois é representativo. Portanto, mesmo que o Presidente vete o diploma, a sua opção é meramente política, não constitui um acto escandaloso de homofobia como se quer desonesta e radicalmente fazer parecer.

Apesar de acreditar que o diploma será promulgado, julgo ser acertada a decisão de fazer uma declaração ao país. A alteração na lei é uma mudança no paradigma civilizacional. Eu compreendo a urgência do lobby gay e restantes cães de fila, mas na vida em sociedade é exigível alguma harmonia e gradualismo. Esta histeria progressista só espelha a falta de consciência social e o capricho egoísta de uma pequena parte da população que por acaso conseguiu penetrar nas agendas políticas.



publicado por jorge c. às 13:49
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Sexta-feira, 23 de Abril de 2010
O que é a democracia?

Aproxima-se o 25 de Abril e com ele uma série de homenagens emocionadas, louvas à liberdade e à democracia. Mas será que os portugueses compreendem hoje estes conceitos? Chega a parecer que não, pois basta uma palavra para se gerar um burburinho típico nas sociedades menos democráticas: conservadorismo. O preconceito em relação ao conservadorismo é hoje excessivo, e é preconceito porque resulta da ignorância e da desinformação. Dizer que uma instituição ou um cidadão é conservador é quase sempre usado em sentido perjurativo como algo que não cabe na democracia, como algo relacionado com a ditadura, como se república, democracia e progresso fossem três sinónimos. Não são. Pois só quem milita no pensamento único, na ideologia única pode acreditar nisso e isto é tudo menos espírito democrático.

 

Num Estado providência como aquele em que vivemos, a imposição moral de uma ideologia única seria anti-democrática. A liberdade em democracia importa a diversidade de ideologias e a sua convivência em debate. Se essa liberdade propiciar algo que seja violador da lei, então temos meios para julgar essa violação. Não é portanto por discórdia que vamos renunciar à liberdade do outro se poder exprimir, nem tampouco à sua legitimidade para discutir ou ter uma voz presente na condução da democracia.

 

Não compreender isto é não compreender o significado de democracia.



publicado por jorge c. às 15:20
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Domingo, 18 de Abril de 2010
nuvens

Domingo é um bom dia para leituras. No entanto, parece que este não está lá muito famoso. Pelo menos na blogosfera, onde a preocupação é a terrível troca de palavras entre dois politiquinhos que todos nós permitimos que chegassem ao lugar que ocupam, as remunerações de gestores de empresas privadas com participação do Estado e uma dúzia de outros faits-divers, as leituras não são muito recomendáveis. A preocupação do país é com tudo aquilo que não é de facto importante. São pequenas nuvens que provocam aguaceiros rápidos e agressivos que nada dizem sobre o estado real do tempo, lembrando um pouco esta nossa Primavera temperamental.

 

Pela Europa uma outra nuvem parece assumir o tópico de atenções. Não, não falo da crise grega e da especulação sobre o who's next?, mas sim da nuvem de cinza que está a dificultar a circulação de pessoas por causa da total falta de visibilidade. De repente, a ideia de Europa foi ameaçada por uma causa maior que apanhou desprevenido o velho continente e cujas alternativas podem não ser uma solução desejável ou até mesmo viável. Numa era de velocidade e rapidez de comunicação serão as formas mais tradicionais de circular que constituem a única solução possível para que as pessoas não fiquem retidas. Lembro, assim, as palavras de George Steiner nesse seu famoso ensaio "A ideia de Europa":

"A Europa foi e é percorrida a pé. Isto é fundamental. A cartografia da Europa é determinada pelas capacidades, pelos horizontes percepcionados dos pés humanos. Os homens e as mulheres europeus percorreram a pé os seus mapas, de lugarejo em lugarejo, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade. O mais das vezes as distâncias têm uma escala humana, podem ser dominadas pelo viajante que se desloque a pé, pelo peregrino até Compostela, pelo promeneur, seja ele solitaire ou gregário. Há extensões de terreno árido, proibitivo; há pântanos; os alpes elevam-se. Mas nada disto constitui um obstáculo intransponível."

No fundo trata-se de uma questão de prioridades que estabelecemos ao longo do tempo e às quais chamamos progresso. Talvez a prudência nos devesse obrigar a reservar alternativas baseadas nessa memória física da circulação, ou melhor, naquilo que mais nos aproxima.



publicado por jorge c. às 11:34
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Quinta-feira, 25 de Março de 2010
Salvem a Pátria

Nem há tanto tempo quanto isso o nosso Prémio Nobel da Literatura - galardão individual que parece funcionar como uma espécie de orgulho colectivo - afirmou que a Bíblia era um manual de maus costumes com um ar muito espantado. Pois é natural. Saramago estava habituado a estruturas de perfeição sublime como o leninismo, o maoísmo ou até a Cuba de Fidel, que para já não encaixa em nenhum ismo destes mais conhecidos. Ninguém conseguiu explicar ao escritor que a intenção do manual judaico-cristão é mesmo a de mostrar a imperfeição, as fragilidades e as vicissitudes da vida sob o olhar atento de Deus e a mão generosa de Cristo para que o Homem se consciencialize.

 

Será, portanto, um exagero pedir ao Homem a perfeição. Seria, aliás, impossível que a perfeição pretendida fosse constante já que o mundo muda a cada segundo. A vida, José, é irregular e imprevisível. E é exactamente no contexto da diversidade consequente que temos de viver e conviver. A política nasce e orienta-se a partir daí, como um manual de maus costumes. O princípio é "a partir daqui só pode correr pior" e a sorte é que apareça alguém que tenha intenção de fazer um bocadinho melhor. Isto na prática é quase impossível pelo simples facto de a política necessitar sempre de um apoio dos sectores mais relevantes.

 

Também para escrever sobre costumes, política e afins é necessário ter algum apoio. Daí que este blog esteja condenado à partida. Ninguém perde tempo com alguém que não tem sequer uma proximidade relativa em relação aos outros. Sidónio Pais disse "Eu tenho hoje a hostilidade declarada das esquerdas ao mesmo tempo que a falta de apoio das direitas". É como eu. Resta-me o apoio popular e o sorriso do General Eanes.

 

Queria deixar só uma nota final de agradecimento ao Pedro Neves que é o criador deste design moderno e de nível internacional e também à Maria João Nogueira por ser uma pessoa moderna e espectacular.



publicado por jorge c. às 11:09
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