Quinta-feira, 30 de Junho de 2011
O valor da informação

A notícia que vos trago hoje, para que possam apreciar a minha capacidade crítica em relação aos assuntos no geral e em abstracto, traduz um conjunto de maus costumes: nossos, dos jornais e do Estado enquanto elemento administrativo.

Diz, então, o jornal i que o "Governo de Sócrates apagou informação dos computadores". A ânsia do novo órgão do garcia pereira do Sport Lisboa e Benfica de apanhar Sócrates na curva é tal que arriscam a total desonestidade na formulação de uma parangona. Quem é a autora da peça? Tcharan! Filipa Martins! A escritora-comentadora-esquerda-direita-volver mais famosa dos blogs, ou como lhe chamam os companheiros de blog "a nossa Filipa Martins". Enfim, uma jóia de moça sobre a qual faço uma série de comentários pejorativos em privado perfeitamente justificados. Eu, mais logo, irei a um happening, se quiserem apareçam e eu conto tudo o que sei sobre a vida privada das pessoas execravelmente públicas. Adiante.

Se é sabido e informado mais abaixo que esta é uma prática reiterada da máquina do Estado, qual a razão para fazer um título destes? Não há razão, é pura mesquinhez.

Mas, que razão haverá para esta prática absurda do Estado? O Estado não são os executivos. Os funcionários do Estado não são do Governo. A informação não é do Governo, é do Estado. A informação não pode ser assim perdida porque tem demasiado valor. Qual será a quantidade de informação essencial, para e sobre os cidadãos, que se perde negligenciando processos já por si complexos? Não faz qualquer sentido.

Parece que os portugueses têm um problema com a informação. Ninguém gosta de partilhar informação. Saber coisas é uma espécie de my precious como escrevia Tolkien, um autor que nunca poderia ser plagiado pela Filipa Martins. Quem tem objectivos comerciais facilmente compreende que toda a informação deve ser partilhada para que não se torne redundante, inconsequente ou negligente. A informação que fica em nós não tem qualquer valor.

Todo este comportamento tem um toque provinciano, de um país onde, infelizmente, ainda não se aprendeu a trabalhar em equipa, por objectivos e com um objectivo comum. Um país onde, com efeito, se prefere lançar boatos e acusações em vez de questionar o que está, de facto, na origem dos problemas, porque não se compreende sequer essa origem.

 

Adenda: Era obrigação desta notícia esclarecer que informação foi apagada, se profissional, se pessoal. Não o fazendo, eu não posso adivinhar. Portanto, se alguém me quiser esclarecer sobre esse assunto, com conhecimento de causa, eu estou disposto a emendar a única informação à qual tenho acesso que é a de que toda a informação foi apagada.



publicado por jorge c. às 10:15
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Segunda-feira, 27 de Junho de 2011
Prioridades

Uma figura pública com pouca relevância na cultura portuguesa, mas com elevado mediatismo, teve um acidente de viação. Três dos quatro ocupantes do veículo não levavam cinto de segurança. Dois deles morreram. Um deles morreu. Um segundo - Angélico Vieira - está a passar um mau bocado. A relevância noticiosa do estado da figura pública é pouca. Não se trata de uma figura proeminente da cultura popular, mas de um artista de segunda linha cujo trabalho passa, essencialmente, por vender uma imagem a um target juvenil sem grandes critérios artísticos. Se há relevância, ela encontra-se apenas no factor segurança rodviária. Angélico Vieira constitui, antes de mais, um mau exemplo para os seus fãs.

Poderíamos aproveitar para sensibilizar o cidadão comum para o disparate que é ir num descapotável numa auto-estrada sem cinto de segurança. Em vez disso, há 2 dias que os principais noticiários abrem com a tragédia de Angélico. No mesmo dia em que morreu Salvador Caetano, uma das mais importantes figuras empresariais do país, ou até mesmo nos dias que correm na formação do Governo, só para dar alguns exemplos, a comunicação social portuguesa parece que prefere o registo cor-de-rosa e dramático de uma sociedade pouco esclarecida e desinteressada.

O serviço prestado pelos media neste capítulo é, em suma, popularucho e incompreensível.



publicado por jorge c. às 21:43
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Domingo, 19 de Junho de 2011
Publicidade, comunicação e concorrência

Acho que nunca discordei do Paulo. Mas há sempre uma primeira vez. O Paulo é o génio da sensatez. Aprendo sempre que ele escreve e muitas vezes aqui me denunciei. Acontece que desta vez não consigo encontrar uma linha de convergência, mesmo que, porém, não possa dizer que discordo. Assumo, assim, que pretendo discutir, tendo a consciência que posso não estar a ver totalmente a fotografia (the big picture, como se diz no estrangeiro), tentarei ser breve expondo a minha perspectiva.

Segundo compreendi, o Paulo não acha correcto que um jornal subverta o sentido da publicidade transformando-a em notícia. Estaremos todos de acordo. É uma regra. Não falaremos, por ora, do dogma. Também não falaremos já de outras questões de concorrência que poderão ser mais ou menos relevantes. Não concordo que se compare o incomparável, muito embora estas questões, e de uma forma pragmática, se possam considerar relevantes. Vamos à questão de princípio.

O objectivo desta rubrica é, pelo que nos é dado a entender, explorar a dimensão da marca portuguesa num sentido amplo. Para tal utilizam o formato da entrevista de uma personalidade, dir-se-ia insuspeita. Temos aqui 3 factores: uma entrevista, uma personalidade e uma marca. Temos como evidente (por uma questão de princípio) que um formato jornalístico está a ser usado para publicitar (sentido amplo) uma ou várias marcas (poderíamos dizer produtos ou empresas). Também por uma questão de princípio, e a olho nu, achamos que aqui existe a tal subversão de que falávamos. As coisas confundem-se e geram confusão. Até aqui, de acordo.

A entrevista tem um contexto que é a rubrica. A personalidade aceita. A marca promove-se. Facto. Também será facto a marca não se deixar apenas promover. Vamos então a um ponto fundamental que deixámos lá atrás. A marca faz-se promover. Será isto um problema de concorrência e igualdade de oportunidades ou igualdade de tratamento nos meios de comunicação?

Todos temos, hoje, noção que as marcas ou certas entidades se promovem através da comunicação que é produzida por agências especializadas nos media. Estas companhias têm um âmbito de negócio baseado na influência. Sabemos que um conjunto significativo de notícias é produzido por estas, seja a sua temátia política, económica, cultural, outra, não sabe/não responde.

Tudo o que é marca deseja promover-se. Essa promoção não parte única e exclusivamente da perspectiva comercial, apesar de ser este o seu ponto de partida e, fudamentalmente, a sua finalidade (o lucro, para sermos mais exactos, e nada contra, pelo menos daqui de onde vos escrevo com amor). Ela pode partir, também, de uma necessidade de divulgar características fundamentais ao bem comum. Coloca-se, aqui, antes, a questão do acesso aos meios. Uma empresa familiar não terá os mesmos meios que a Jerónimo Martins ou a Sonae, no sentido em que as vantagens que apresentam são, em quase tudo, semelhantes. O interesse noticioso não poderá ser diferente. Acontece que o crescimento económico de determinada empresa fá-la ter capital para comprar um serviço de influência, não o meio de comunicação em si. Podemos, portanto, estar a falar de uma concorrtência desleal por factores de monopólio.

Contudo, acredito que antes deste ponto existem outros factores de monopólio e consequente deslealdade de concorrência mais influentes no comportamento do consumidor, como sejam os preços e o seu tratamento. Nada disto implica que não se tenha um tratamento noticioso equivalente. Acontece apenas que um media tem o direito de ser influenciado. E aqui não estamos na orla da publicidade, mas sim da influência.

Poderia ter resumido tudo isto ao seguinte: a comunicação de uma característica comercial não é obrigatoriamente publicidade. A publicidade é paga. Haverá mecanismos para investigar sobre a legalidade desta comunicação que aparenta publicidade. Poderíamos até considerar que estamos perante publicidade indirecta. No entanto, teríamos de questionar antes a legitimidade das agências de comunicação que promovem e influenciam junto dos órgãos de comunicação os seus clientes. Clientes que pagam para ter eficácia comercial.

Este é um tema de discussão e não de impulsão. Reforço, agora, a problemática do dogma. Em Portugal temos uma linguagem assumidamente dogmática em relação às entidades privadas. Encaramo-las como monstros subversivos. Mas, esquecemos que muito do seu sucesso passa por despender recursos para conseguir 5 minutos de atenção. Não questionamos a companhia de teatro ou o dirigente partidário que tem um amigo próximo numa redacção, mas iremos certamente questionar o capitalista que tenta influenciar, só porque tem um capital evidente. Tudo é mera influência.

Como se diria nos meandros do Direito: Quid iuris?

 



publicado por jorge c. às 02:08
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Domingo, 22 de Maio de 2011
A crise da ironia

Acordam-me de manhã: "apareceste na televisão". O pânico. Não é algo de que uma pessoa se possa orgulhar, principalmente a um Sábado de manhã. Nunca se sabe o ponto a que chegou a noite de Sexta. Mas desta tinha a certeza: fiquei em casa. Vasculhei e descobri que afinal tinha sido um tweet meu a ser exposto em praça pública. E perguntam vocês: o que é um tweet? Ainda bem que perguntam. Devemos sempre perguntar quando não sabemos. Um tweet é um micro post-it do Twitter - uma rede social simples, rápida e directa onde se escreve apenas em 140 caracteres. Mas não basta isto. Com o tempo percebemos que não só podemos tuitar, como podemos retuitar (uma espécie de citação) e responder a todos os que seguimos e àqueles que nos seguem (ao contrário do Facebook, no Twitter não é necessária reciprocidade). Bastarão - digamos - uns dias para entrar dentro da coisa e perceber o seu funcionamento, alguns dos seus truques e a sua dinâmica. Para tudo na vida é necessário algum enquadramento.

Acontece que ontem, durante as notícias da manhã, Daniel Catalão, como já vai sendo hábito, foi mostrando algumas das reacções das redes sociais ao debate entre Passos Coelho e Sócrates. Os media tradicionais adoram ver o que se passa nas redes sociais quase tanto como eu adoro livros. É uma preocupação que quase chega a parecer genuína e comovente. E tal como podemos ver aqui, aos 22 minutos, lá apareceu este vosso camarada citado por Daniel Catalão como se tivesse sido o autor do tweet "vencedor do debate não sei. mas quem perdeu sei bem: portugal". Ora, como será bom de verificar não fui eu que disse isso, mas sim a tuiteira @NadiaMelk como fica bem visível no vosso ecrã. O que eu fiz foi um RT, ou seja, um retuíte; eu citei a @NadiaMelk fazendo um pequeno comentário antes.

Nesse meu pequeno comentário, parece ser mais ou menos evidente que estou a ser um bocadinho parvo. Bem sei que não sou muito hábil na utilização de figuras de estilo, e aquilo que pode não ter parecido uma tentativa cobarde de não ofender a minha amiga devido à utilização absurda de um lugar comum despropositado é, de facto, uma reles ironia. Julguei que fosse mais ou menos evidente.

Os media tradicionais querem usar as redes sociais a todo o custo. Eu compreendo que não seja por mal. É aquela velha euforia do empresário português "agora é isto que está a dar". Ah, a modernidade! Convém, pelo menos, que saibam o que estão a fazer e que não façam o meu pai (que assistiu a tudo isto, meu Deus) ter quase um colapso a acreditar que eu teria algum dia dito que "portugal tinha ficado a perder" como se diz nos funerais das estrelas da Emissora Nacional.

Não quero com isto ser mal agradecido. Eu adoro ser famoso e agradeço a atenção. É um sonho de criança.



publicado por jorge c. às 12:09
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O costume

A inexistência de um único vinho da Sogrape nesta peça é reveladora de duas coisas: preconceito e ignorância arrogante. Durante anos, em Portugal, o hiato entre os vinhos caros e os vinhos baratos era o mesmo entre os bons e os maus e era profundo. Empresas como a Sogrape equilibraram o mercado e apresentaram vinhos bem feitos e competentes a preços acessíveis. Pela primeira vez, e só aí por meados dos anos 90 ou até mais tarde, é que se começou a falar do conceito de "relação qualidade/preço" porque só empresas grandes tinham uma mentalidade mais evoluída e não tão familiar. O alentejano deixa de ser o vinho de eleição nas jantaradas da rapaziada ("olha uma de Monte Velho, que pomada!") e o Douro começa a entrar e a tomar território. Por causa dos vinhos que estão naquela lista? Não, por causa do Esteva.

Muito mais haveria para dizer sobre esse preconceito. Até com vinhos de topo isto acontece. Temos má crítica de vinhos, um mercado desconhecedor (a mudar, é certo) e excessivamente influenciável. Temos uma cultura vinícola fraca e queiroziana - superficial e fútil. As revistas de vinhos são pagas para destacar certas marcas e quem não o faz não entra. Os retalhistas ou não pagam ou competem a preços inadmissíveis, negociando muitas vezes abaixo do preço de custo e interferindo desse modo na concorrência directa do produto. Tudo isto é relevante para nós, consumidores. Mas o Fugas do Público prefere fazer artigos parciais. Já estamos habituados. É o costume.

 

 

Nota: Este post é escrito com um disclaimer já que o seu autor tem uma relação próxima com a Sogrape. Era só para avisar.



publicado por jorge c. às 11:44
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Segunda-feira, 16 de Maio de 2011
Dos direitos das crianças e dos jovens

Quem olha para este tipo de notícias será facilmente induzido em erro, como muito bem diz a João neste post.

A realidade das pensões e das responsabilidades parentais, em abstracto, é muito mais ampla do que esta pequena mentalidade do aproveitamento dos malandros. Não passou sequer pela cabeça do jornalista do Diário de Notícias que se há um recurso à Justiça com resultados favoráveis é porque algo o permite. Ora, não é apenas a legislação portuguesa que tenta garantir a sustentabilidade dos jovens mesmo quando passam a maiores de idade. A própria Convenção sobre os direitos da criança tem como filosofia a defesa e a protecção do desenvolvimento das crianças e dos jovens, num conceito de dependência mais adequado à realidade. Esse desenvolvimento não tem um prazo, nem pode ter, porque envolve uma adaptação subjectiva a uma nova realidade de auto-suficiência.

Tudo isto se faz em respeito pelo princípio da adequação. Não estamos a obrigar ninguém a ir para além das suas possibilidades, mas antes a assumir uma responsabilidade. Os Estados que assinam aquela Convenção obrigam-se a garantir o cumprimento das necessidades e o respeito pela dignidade de cada indivíduo. É isto que está aqui em causa e não um juízo precipitado e ignorante de uma parangona de néon.



publicado por jorge c. às 11:44
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Sexta-feira, 29 de Abril de 2011
Do interesse público à futilidade

Nos últimos dias tentei evitar falar no casamento real britânico. Não que tenha alguma coisa contra a perpetuação pública do amor. Muito pelo contrário. Adoro a perpetuação pública do amor e principalmente a perpetuação pública dos escândalos depois do amor. Simplesmente não vejo qualquer relevância no acontecimento, como também não vejo na questão das primeiras-damas e de todo um conjunto de situações que não cabem na minha concepção de República. Acredito que a consolidação do Reino a partir da família real seja uma característica fundamental das monarquias. A solidez familiar pode também ser encarada como um símbolo de conservação da unidade nacional. Nas Repúblicas isto é um absurdo. São outras realidades e devemos compreendê-las no seu contexto cultural e político.

Acontece que os media portugueses tiveram um ataque de caspa e entrou tudo numa histeria cor-de-rosa, em modo sensacionalista. De manhã ainda vi João Adelino Faria animadíssimo a comentar vestidos e protocolos na RTP como se estivesse a apresentar o Fama Show. Agora, à tarde, dou com a página do Diário de Notícias neste estado:


.

 

 

Que os media considerem que o acontecimento serve o interesse público, é discutível, mas aceito. Que se transformem em revistas cor-de-rosa não é de todo tolerável.



publicado por jorge c. às 16:46
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Sexta-feira, 8 de Abril de 2011
Menos que zero

Não se compreende a importância dada a um momento que, para além de tudo, foi gaffe da estação de televisão que o transmitiu e não da pessoa em concreto. Parece que Sócrates é o único a ensaiar a forma como olha para a câmara. Podemos sempre esperar que, sem ensaio, Sócrates fique a olhar para o lado e então fazemos regabofe disso. A infantilidade não tem limites e não tem qualquer graça, principalmente quando promovida por meios de comunicação a quem atribuímos credibilidade. O interesse noticioso disto é menos que zero.



publicado por jorge c. às 11:53
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Sexta-feira, 18 de Março de 2011
Uma curiosidade

O que leva as televisões a manter programas de vox populi nos dias de hoje? Haverá algum interesse público nestes programas? Temos de continuar a fingir que há que dar voz ao povo? Se as pessoas querem ter voz que se filiem em partidos, que trabalhem para isso, que escrevam em blogs, que liguem aos amigos, o que quiserem. O que não me parece minimamente aceitável é que um canal de televisão ou uma estação de rádio permitam que, durante um horário que está mesmo a pedi-las, um conjunto de ignorantes ressentidos esteja a disparar as maiores alarvidades, a insultar e atacar a dignidade de figuras públicas de todas as áreas com total impunidade, para já não falar em disparates menos graves mas igualmente preocupantes.

Expliquem-me o interesse porque eu não entendo.



publicado por jorge c. às 17:53
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Quinta-feira, 3 de Março de 2011
Qualidade e rigor, desta vez na Sic

Acabo de ouvir no Jornal da Tarde Primeiro Jornal da Sic, o mesmo onde ontem Bento Rodrigues garantia que a descida da despesa tinha que ver com a subida de impostos, que o treinador do Sporting, José Couceiro, tinha uma "tarefa herculana". Parei, saboreei o vento que vinha da minha janela virada a sul e senti a brisa do mar tralara rarara. Depois de um ligeiro momento de descontracção, relaxamento dos músculos do pescoço e das mãos, fiz-me a um dicionário online. Vejam bem, já há dicionários online! É a loucura do progresso! Como não tinha nada para fazer pensei, ora deixa lá ver o que é uma tarefa herculana. Sendo que sou um génio, percebi logo que herculana seria um adjectivo e meti as mãos à obra. Olha... não aparece nada. A palavra não existe no dicionário online. Deixa lá ver nos antigos. Isto não há nada como papel que estas coisas da modernidade são muito falíveis. E... nada! Que estranho! Se calhar não teve tempo de procurar, o cavalheiro cujo nome me escapou. Ou se calhar - e eu não quero aqui lançar falsos testemunhos - os chefes destes cavalheiros andam a dormir.

 

 

Adenda: Portanto, a palavra enquanto adjectivo existe, mas é estúpido porque o ignorante deveria usar as mais comuns: hercúlea ou herculeana. Mantenho a minha posição e não desarmo. Fogo!

 

Adenda 2: Agora mais a sério, na Caixa de comentários deste post Bento Rodrigues responde à crítica que lhe enderecei.



publicado por jorge c. às 14:20
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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011
That's entertainment!

Hoje deparei-me com uma peça no Correio da Manhã que incluía um vídeo de um homicídio. É algo que me recuso a colocar aqui mas que acabei por partilhar durante o dia por estar em estado de choque. Não é o homicídio em si que me choca. Apesar da curta vida, já me passaram pela frente cenários bem mais inenarráveis do que aquele. Choca-me em particular a forma leviana como tudo isto é colocado à disposição das pessoas, sem qualquer filtro, sem qualquer critério. Choca-me porque vejo no Correio da Manhã e outros meios de comunicação da mesma estirpe um moralismo e um justicialismo que não são compatíveis com o Estado de Direito. Lembra aliás outras publicações de um tempo a que a grande maioria dos portugueses não quer certamente regressar. Ou pelo menos assim quero acreditar. Um tempo de fechar pessoas no Campo Pequeno.

Adenda: "Sobre uma certa forma de liberdade de expressão", por Funes, el memorioso



publicado por jorge c. às 23:02
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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011
Breve nota

Reparei hoje de manhã que a grande maioria de canais de notícias internacionais exploravam uma série de tópicos da política internacional. Abro alguns jornais e o tema para além dessa questão é a economia e política mundiais não confinadas ao local de origem. Os media portugueses, por seu lado, estão na estratosfera. A narrativa do internacional está absolutamente influenciada por uma mentalidade que já foi ultrapassada há, pelo menos, 6 anos. Nas notícias conjunturais de economia e política ignora-se em absoluto o factor europeu e as imposições do Tratado. Além disto, a meio da manhã e a meio da tarde, os 3 canais noticiosos perdem uma hora com um espaço de opinião de telespectadores. Não sei se o problema é a falta de qualidade dos jornalistas, dos editores ou das direcções. O que sei é que as prioridades cheiram a mercantilismo e isso, muitas vezes, é incompatível com a qualidade da informação.


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publicado por jorge c. às 12:32
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Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011
As circunstâncias da morte

É um facto: as pessoas morrem. Mas parece que ainda não é um facto entendido por todos. A morte é uma coisa mais ou menos certa. Digo mais ou menos porque, tal como Agostinho da Silva dizia, nunca morri e por isso tudo pode acontecer. Nunca se sabe.

Acontece que o precedente da morte não deixa muito espaço para dúvidas. As circunstâncias da morte variam, claro, mediante o ambiente social. Por isso, desde sempre que se morre de morte matada e de morte morrida. E na morte morrida ou se morre com assistência ou sozinho. Não há muitas hipóteses. É, portanto, provável que todos os dias morra gente sozinha em casa. Como é provável que muita gente morra nos paliativos cheios de flores e miminhos à volta. A vida é feita deste conjunto de probabilidades quase circular. O problema, como diz a Fernanda neste texto brilhante, é outro. E esse problema tem que ver com a forma como nos organizamos na manutenção do Estado que parece ser o escolhido pela maioria, mas cujos responsáveis não estão a cuidar da melhor forma.

Assim, parece ser um bocadinho despropositada esta vaga de "idosos a morrer sozinhos" que os jornais se lembraram de começar como se se tratasse de um problema contemporâneo. O núcleo do problema continua sem ser discutido e alimenta-se a ideia de um flagelo que não é senão uma circunstância natural da vida em sociedade.

Já agora, "os idosos" é algo muito relativo. Lembro, por exemplo, o caso de Layne Staley. Acontece.



publicado por jorge c. às 17:32
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Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011
"Pior que gente devassa é um clero com preguiça"*

 

Ricky Gervais fez aquilo que melhor sabe fazer e para o qual foi convidado, nos Globos de Ouro 2011: ser inconveniente. Só quem não viu The Office ou Extras pode achar que Gervais é um humorista comum. Não é. É o maior e mais desagradável humorista do mundo. E isso é tão bom.

Nos últimos dois dias, tem surgido uma enxurrada de notícias sobre o desconforto provocado pelo humorista na gala e boatos sobre um eventual fim da sua participação na próxima cerimónia.

Vendo que o caso era assunto nos media internacionais, mais do que a chegada de Duvalier ao Haiti ou de Hu Jintao aos EUA, o jornalista Sérgio Andrade, do Público resolveu verificar o que se passa e fazer uma notícia com o título: "Ricky Gervais dificilmente voltará a apresentar os Globos de Ouro". Porquê? Porque esta é a "impressão generalizada". E depois cita uma fonte do El País - alguém ligado à cena - e uma crónica no New York Times. Isto bastou-lhe para tão brilhante conclusão, mesmo depois de ter lido o blog de Gervais (eu faço questão de linkar - manias!) e outras opiniões. As primeiras dão mais jeito à teoria...

Ricky Gervais diz uma coisa muito curiosa no seu blog:

Why do people have to embellish? They're allowed to say they hated it. They're allowed to say they didn't find it funny, that it was tasteless, over the top, or whatever. But why do they speculate and make stuff up? Don't worry, I know the answer. Because it's more interesting than "it went fine and some people won some awards and then went to a party". But that's all that happened. Actually, I see what they mean. Boring. So here's what really happened. Bruce Willis and Sly Stallone started a fight with me but Alec Baldwin and Mark Walberg stepped in and helped me out. That's what happened.

 

Enfim, o problema não é dos jornalistas, é dos editores. Não restem dúvidas.

 

 

*O título foi roubado a uma música do Tiago Guillul, também conhecido por estes lados como Tiago Cavaco.

 

 


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publicado por jorge c. às 14:18
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Sábado, 15 de Janeiro de 2011
Despertares: o que move as redes sociais?

É sempre curioso ver o que move as pessoas. Ontem, o tema que montou uma comunidade internacional espontânea à volta das redes sociais foi a situação na Tunísia. Também os media por todo o mundo focaram a sua atenção no país que até há uma semana não era mais que uma estância balnear. Havia até quem nem colocasse a hipótese daquilo ter um Governo ou um Chefe de Estado.

Mas, o que terá movido esta comunidade espontânea para esta questão, na mesma semana em que começou o referendo no Sudão, ou poucas semanas depois de ter estourado uma crise na Costa do Marfim? É como se tratasse de um micro-fenómeno de popularidade (sem follow up, como sabemos). O país que tiver sorte de ser mais sedutor a estas comunidades tem direito a toda a atenção necessária à causa. Os outros ficam um bocadinho à sua sorte (estou a exagerar, claro, visto que a comunidade internacional está atenta a todas as crises políticas).

Isto levanta uma questão mais ampla: o que move as redes sociais?



publicado por jorge c. às 09:33
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Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011
Impressões de uma campanha I

Chamemos-lhe campanha externa, visto não ser a campanha dos candidatos propriamente dita, mas dos seus simpatizantes ou detractores. Começo por este interessante texto da Sandra Monteiro no Le Monde Diplomatique. Eu tinha-lhe prometido duelo, mas fico-me só por uma breve observação.

É uma forma comum de discutir política à esquerda - levantar o fantasma do neoliberalismo. Diaboliza-se e estereotipa-se o candidato à direita como sendo um inimigo do povo e da democracia que só quer tirar proveitos próprios. Temos assim o retrato do indivíduo de direita. Este argumento cai num erro tremendo e numa demagogia fácil de desmontar. O carácter de um político não se avalia na sua ideologia. Daí que um inimigo do povo possa estar à esquerda ou à direita. Se eu entender que a propriedade e a iniciativa privada cabem hoje no catálogo dos Direitos, Liberdades e Garantias, então terei de encontrar um inimigo constitucional no PCP ou no BE, logo, nos candidatos Francisco Lopes e Manuel Alegre. Não seria sério da minha parte fazê-lo.

Outra questão que a Sandra levanta prende-se com a complacência de Cavaco no caso BPN. A única questão que poderíamos levantar aqui era a de Dias Loureiro. Ainda assim é discutível fora do âmbito especulativo sobre o que Cavaco pensa ou deixa de pensar. Naquilo que são os poderes objectivos do PR nada havia a fazer e só Dias Loureiro poderia sair pelo seu próprio pé. Tudo o resto são assuntos da Justiça e decisões do Governo (a nacionalização) e, neste último caso, se queremos questionar alguma coisa terá de ser sempre, em primeiro lugar, a decisão do executivo.

De resto, concordo com alguns aspectos da sua crónica, nomeadamente no que diz respeito às escutas e à fabricação de consenso. Com jeitinho e boa vontade, até nós fabricamos aqui um consenso.



publicado por jorge c. às 13:51
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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010
O futuro da história

 

O Diário de Notícias faz hoje 146 anos. A data é assinalada com uma edição especial em que Gonçalo M. Tavares é o director convidado. Hoje, comemora-se mais a longevidade do jornal do que a sua relevância no panorama da comunicação. À parte de alguns exclusivos (as entrevistas ao PM e uma polémica publicação de e-mails de outros jornalistas no caso das fantasmagóricas escutas de Belém), o DN perdeu aquela magnitude tão presente no seu edifício da Av. Liberdade. Foi-se conformando, ao longo dos anos, ao seu papel de jornal do regime, do bloco central, do interesse instalado e dos joguinhos medíocres dos bastidores do poder. O jornal conta com bons jornalistas, com bons cronistas, mas a sua direcção parece fraca demais para o seu passado histórico. Sabemos que o grupo Controlinveste tem um objectivo legítimo de negócio. Mas também devemos saber impor aquilo que pretendemos dos meios de comunicação e ser mais críticos com as suas fragilidades.

Contudo, este ano recuperou parte da sua história com o Media Lab, levando milhares de crianças às suas instalações num projecto que tem mais de pedagógico do que marketeiro. Um jornal que coleccionou no seu passado um conjunto de benfeitorias não se pode furtar à sua função social e cultural.

A grande dificuldade dos media por esta altura é o futuro do formato. É sabido que o papel tem perdido procura e os conteúdos online continuam abertos. Mas, não nos podemos esquecer que isto é um negócio e que, se queremos qualidade no serviço de informação, com todas as particularidades que isso envolve, temos que pagar. Talvez este fosse um bom tema para o DN levantar este ano junto dos leitores, começando por mostrar que o interesse principal é manter o nível de informação online bem alto e começar a preparar uma estrutura de futuro, e não apenas ganhar dinheiro. Até porque terá que explicar que fechar os seus conteúdos não faria sentido numa comunidade habituada ao gratuito. Portanto, numa lógica de interesse público os jornais têm de se fazer pagar e os leitores têm de suportar a qualidade da informação que exigem. Ou será que não exigem nada?



publicado por jorge c. às 10:15
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Sábado, 25 de Dezembro de 2010
Ninguém deu por isso

No dia 21 de dezembro, o primeiro-ministro Viktor Orbán fez aprovar uma lei que limita a liberdade de imprensa. Porque é que ninguém na Europa fala nisto, numa altura em que a Hungria se prepara para assumir a presidência da UE?, pergunta o colunista do Gazeta Wyborcza, Jacek Pawlicki.



publicado por jorge c. às 16:19
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Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010
Sobre o Facebook - um post que me pode trazer tantos dissabores

 

Mark Zuckerberg é o homem do ano, para a Time. Faz sentido. O Facebook é indiscutivelmente um fenómeno global e deu à internet uma nova vida. No meio de todas as redes sociais, esta é hoje a mais concorrida (vamos colocar o YouTube ou o YouPorn noutra prateleira). O mediatismo é tal que até aos cinemas chegou - A Rede.

Mas, o que traz mais o Facebook ao universo virtual, para além da participação?

Acreditou-se que através dos social media a divulgação de informação seria muito maior, tal como a sua acessibilidade. Contudo, hoje, a utilização que vemos ser feita da rede Facebook é sobretudo fútil, desinteressante e vouyeurista. É claro que isto parte da observação da minha página pessoal. Mas dá para perceber, pelo menos, aquilo que o utilizador comum faz de um instrumento com tantas potencialidades. De notar, também, que no Facebook as linguagens misturam-se. Adicionamos amigos, familiares, colegas de trabalho, pessoas que vamos conhecendo de outras redes sociais (blogs, twitter, etc.) ou até mesmo pessoas que não conhecemos de lado nenhum.

Esta particularidade é muito interessante e merece alguma atenção. Quando eu junto num universo virtual pessoas que nunca se iriam encontrar, o mais provável é gerar-se algum desconforto. A linguagem que uso com os meus amigos não é certamente a mesma que uso no meu trabalho. Por isso, mandar para o caralho a Shyznogud, ou ela mandar-me a mim, pode constranger, de certo modo, o meu chefe, ou até a minha mãe. Os amigos da família têm, também, outra linguagem. Mas mais do que estes, as pessoas que conhecemos da internet compreenderão muito mais a nossa linguagem escrita do que muitos daqueles que conhecemos de longa data. Não nos podemos esquecer que aqui usamos uma linguagem escrita e que nem todos conseguem decifrar coisas simples como a ironia (essa criatura tão mal tratada e tão incompreendida por estas bandas) ou nem mesmo deixar de se levar tão a sério. Daí que não faça muito sentido querer reunir o mundo dentro de casa sem qualquer critério. Veja-se, a título de exemplo, o tom de retórica que adequamos a cada espaço e a cada pessoa - ali é para todos.

O que a net nos dá é uma das melhores oportunidades para aprender a filtrar e a ter critérios na selecção de pessoas com quem queremos partilhar informação. Recuperar o passado ou querer observar a vida alheia, para além de fútil, é egoísta, mais egoísta do que este meu comentário que é apenas pretensioso e snob. Para o poder fazer criei um blog (que muitos deles - os amigos - nem fazem ideia que existe porque lêem isto no feed do Facebook e por ali se ficam).

O ruído que hoje existe no Facebook é ensurdecedor: joguinhos e frasesinhas de pacote de açúcar e criancinhas abandonadas, ou cãezinhos, e merdinhas inúteis que dantes apenas nos surgiam pelo e-mail. Todo esse ruído que caía em bloco no mail até ao meio-dia passou todo para lá. É claro que eu não sou obrigado a adicionar ninguém, mas depois acontecia-me isto:

 

 

Não quero com isto dizer que a minha utilização da rede seja melhor do que a dos outros. Bem, em parte... No entanto, parece-me que nem todos estarão conscientes daquilo em que se tornou a internet enquanto navegavam serenamente entre o MSN e o Hi 5. Reduzir a utilização da internet a uma rede social apenas é, no mínimo, pateta.

Num destes dias estava num café com uma amiga. Entretanto, chegou uma miúda. Sentou-se na mesa do lado e abriu o portátil com ele virado para mim. Abriu o Facebook e ali ficou durante todo o tempo em que lá estive. Acredito que para muita gente este seja o procedimento habitual. Isto nada tem de sofisticado. É o sedentarismo dos tempos modernos.

Ainda assim, mérito para Zuckerberg que percebeu bem a coisa.

 

 

A imagem lá de cima é do Jonas por sugestão minha e da outra.



publicado por jorge c. às 16:51
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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010
O big show está no ar

Tenho um amigo que acredita que em Portugal não há mercado suficiente para fazer comunicação (social) alinhada com determinada cor política, como é a prática nos EUA, em França ou em Espanha. Simplesmente não há mercado. Porque se houvesse se calhar até era melhor, diz ele. Eu acredito que sim, não sei. Mas sei que, de facto, o mercado é curto e, por isso, qualquer tentativa de o fazer só pode dar barraca, à partida. A não ser, claro, que estejamos a falar de capital vindo do Além e que está sempre a ser injectado mesmo que o projecto em causa seja um fracasso de comercialização.

Por tudo isto, não deixa de ser engraçado que estas duas simpáticas personagens da ficção política portuguesa tenham dado as mãos unindo-se para um fim que descobriremos mais tarde qual é. Para já, não vale a pena especular, mas vai ser muito divertido assistir a este big show.

 

Ler devagarinho este post, que se não fosse a Alda tinha-me escapado.



publicado por jorge c. às 09:49
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