Segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014
a minha bola

Um dia ganhei uma bola, cosida em pentágonos verdes e brancos. Era uma manhã de primavera, daquelas frescas que anunciam o calor da tarde. Saímos da escola muito cedo para chegar a horas ao Estádio do Mar. Nessa manhã eu já era feliz. O Prof. Salgueiro nunca me havia deixado para trás. Os rapazes também não, mesmo sabendo que só por morte súbita do adversário eu conseguiria aguentar a bola no pé mais de três segundos. Mas, eu estava sempre com eles. Era assim. Nunca me deixariam para trás. "Vais para a equipa técnica". E lá fui eu, na inocência dos 8 anos, fazer de massagista, com uma caixa de primeiros socorros com algodão, água oxigenada e pensos rápidos e muito voluntarismo para um futuro de ortopedista, carreira que acabaria por falhar por só mais tarde perceber que a boa-vontade e a caixa de primeiros socorros não eram bem recebidos na academia. O torneio lá seguiu. Centenas de miúdos de todo o lado para disputar a grande final inter-escolas do concelho de Matosinhos. O Neno na baliza, porque o Victor Hugo queria era jogar na frente (eu sempre achei, e até muito tarde, que o Hugo seria um grande guarda-redes) e depois, na frente, o Bruno e o Ricardo, muito rápidos, tecnicamente dotados para a idade. Lá pelo meio, o Joaquim Luís e o Augusto, que já eram mais velhos e acabariam por ter algum sucesso nas suas carreiras marginais, assustavam os outros minorcas sem ortodoxias. Não se engalfinharem todos à pancada dentro do campo era uma sorte. Fazia parte do charme do trabalho de equipa. Acabaríamos num lugar ridículo, na velha tradição mamedense de se preferir seduzir o sucesso do que estabelecer logo um compromisso. Era, então, chegada a altura de atribuir e receber os troféus: taças, medalhas, um capri sonne, um pão com fiambre ou queijo e uma bola para cada um. Uma bola para cada criança daquelas. Foi então que o vi. Estava ali, mesmo à minha frente e eu, como S.Tomé, só acreditei quando o vii, em carne e osso, tão vivo e tão presente, como no meu imaginário. Lembro-me de não conseguir dizer nada. O Victor Hugo acabaria por falar por mim e dizer com aquele seu ar muito assertivo, de quem está a constatar um facto que os outros parecem não ter coragem de admitir, que eu era do Benfica. "Ele é do Benfica. Nós não". E ele olhou para mim e sorriu, para depois me fazer uma festa na cabeça e me dar a bola que correria pela minha rua durante anos e que seria um marco dessas amizades imaculadas que só se fazem na rua.

Para mim, o Eusébio é a minha bola, a minha rua, os meus amigos, o meu Porto, a generosidade e a solirariedade que fazem dos rapazes todos bons rapazes, que fazem com que todos os rapazes, no momento em que vêem uma bola ali perdida pensem, imediatamente, em lhe dar um chuto e marcar golo. Porque tal como aquele rapaz que chegaria a Lisboa em 61 para ser o melhor, os bons rapazes só procuram a alegria mágica do golo - a mais refinada das artes.


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publicado por jorge c. às 09:44
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Domingo, 11 de Setembro de 2011
Tatuagem

Por cada corpo que cai, uma aflição. Todos os anos. A memória. Onde estavas eu estava ali e eu ali e eu a fazer e a acontecer o mundo inteiro a mexer-se e Nova Iorque a dormir como se alguém sonhasse alguma vez que o mundo a humanidade se violentasse assim. Eu estava lá longe a decorar critérios e normas e conteúdos de normas para quê? para que a memória não falhe a dogmática mesmo não estando lá. "A falsa intimidade da televisão", da dela, a preto e branco os corpos a cair a humanidade a cair e a memória todos os anos de uma falsa intimidade da televisão a preto e branco e o telefone de S. a tocar para dizer que o mundo está a cair, a angústia em directo e as lágrimas que caem todos os anos porque o mundo está a cair. E a memória sempre a memória a correr como algoritmos para que não te esqueças dos critérios das normas determináveis que determinam e que deixam de determinar e que precisam da nossa conformação até que nos conformamos e o mundo começa a cair aos poucos e reconstrói-se aos poucos ferido no orgulho e na inocência, a reagir ao medo aos barbudos ao diabo. Não é a bolsa que está a cair estúpido é o mundo e nós com ele a magoar os outros por causa do medo e a tolerância escrita em algoritmos vê lá não te enganes que não pode ser com todos só com alguns. Acordar outra vez em Nova Iorque todos os anos para que a memória te ajude a pensar em dias melhores.

 



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Terça-feira, 17 de Maio de 2011
"I've been dreaming of a time when to be English is not to be baneful to be standing by the flag not feeling shameful, Racist or partial "


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Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010
Ainda sobre a questão dos ciganos

"Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos."

 

Victor Hugo, autor desta carta ao Parlamento Português a propósito da abolição da pena de morte em 1876, estaria hoje a procurar o livro de reclamações na recepção da Assembleia da República.

 

Devo esta memória a este post do Luís M. Jorge.


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publicado por jorge c. às 22:39
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