Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014
uma ignorância letrada

As declarações do ministro da economia, António Pires de Lima, sobre a inadaptação da investigação centífica às exigências do mercado são um sintoma de uma determinada mentalidade que vai ganhando, cada vez mais, espaço na opinião pública, como um vírus. Para esta mentalidade, torna-se urgente transformar a relevância de uma matéria num equívoco simplista ao estilo ovo e galinha. Para qualquer mente mais esclarecida, não será difícil perceber que o conhecimento e a ciência são a origem do desenvolvimento. Qualquer resultado que hoje tenhamos, qualquer solução para um problema que se coloca à humanidade, parte de uma questão que é colocada. O exercício que pretendemos que nos conduza ao resultado final pode falhar. E nesse erro da investigação está, muitas vezes, o resultado em si mesmo. Até quando reflectimos sobre determinado assunto, podemos não chegar a conclusão alguma e esse ser, em si mesmo, um resultado. Ora, para aquela mentalidade, típica da nova-gestão, isto parece não fazer qualquer sentido, porque lhe parece inútil. O processo é inverso. Assim, serão os negócios que determinarão a utilidade (através da rentabilidade imediata) do conhecimento e da ciência. É como se a característica que distinguisse os seres humanos dos animais fosse a sua capacidade de bem suceder nos negócios e não a inteligência, e aqui voltamos à galinha e ao ovo. Começa por colocar-se uma falsa questão à sociedade: o que terá nascido primeiro, o negócio ou o conhecimento? Não adianta, neste ponto da discussão, lembrar sequer as mais importantes conquistas da investigação científica. Porque é esta mesma mentalidade que desvaloriza a constituição, os direitos civis, a cidadania, a História, a Filosofia, a Literatura ou a Biologia. Importa, contudo, questionar a sociedade sobre o que pretende para si: um mundo cuja última finalidade é o efémero crescimento económico (efémero porque não está ao nosso alcance controlar todas as suas premissas e, por isso, é passível de não acontecer) ou, antes, um mundo sem finalidade, que se constrói com solidez e se desenvolve harmoniosa e sustentavelmente.



publicado por jorge c. às 10:10
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Terça-feira, 15 de Outubro de 2013
uma república de bananas

Há uns anos, quando o mercado português deixou de responder aos objectivos das empresas e a crise das dívidas estrangulou o seu financiamento, Angola passou a ser um destino necessário. Com a arrogância dos países desenvolvidos, partiu tudo em comitiva, mas para beijar a mão de um novo padrinho que abria as portas do seu país. O deslumbramento criou uma dinâmica de curto-prazo que não percebeu que, um dia, a fonte secaria. Angola tinha um interesse e Portugal uma necessidade. Por mera lógica, percebia-se que havia tudo menos convergência de interesses. Primeiro, era o dinheirinho que já não podia sair de lá. Depois, o recrutamento passou a ser feito com exclusividade para cidadãos angolanos a estudar em Portugal. Mas, não, Angola é que estava a dar.

Agora, é o Presidente Angolano que vem dar por terminada esta "parceria estratégica" (expressão caricata). Mãos na cabeça e ai jesus.

Se tivéssemos um Presidente da República, um Primeiro-ministro e um Ministro dos Negócios Estrangeiros, esta questão estaria resolvida. Mas não temos. E, assim, tenho de concordar com um amigo que no outro dia me dizia que vivemos numa República de Bananas. Somos subservientes a um país que tirou proveito da nossa necessidade e fechámos os olhos a atentados a direitos humanos básicos.

É esta prevalência da economia global sobre a vida em sociedade, a vida política dos povos, que nos está a matar. E o Primeiro-ministro já nos veio alertar para a perda de soberania. Os bananas somos nós.



publicado por jorge c. às 17:11
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Quarta-feira, 19 de Junho de 2013
portugal dos pequeninos

Fico sem saber se a Unicer acha que as pessoas são estúpidas.

Hoje, deparo-me com este vídeo (um viral! oh, um viral!). Passado um bocado, com este comunicado. Espantoso.

 

Vamos a factos. Podemos considerar isto Marketing de guerrilha? Podemos, apesar de eu não saber bem o que quer dizer Marketing de guerrilha e isto soar-me apenas correcto. E é feio. Em primeiro lugar, porque temos uma fraca prestação dos tribunais de concorrência em Portugal. Em segundo lugar, apesar deste vídeo ser limpinho (passa perfeitamente por ter sido feito por um fã), tem tiques de agência de comunicação. Tiques que podemos ver, aliás, naqueles vídeos virais do Turismo de Portugal e de Portugal vs. Finlândia, etc. Malta que é viciada em fazer virais. Tem a marca de água. E não estamos a falar, propriamente, de agências que façam trabalhinhos para pôr na conta da amizade. Resta saber se estamos perante guerra entre marcas, entre agências de comunicação ou entre ambas. Eu aposto todas as fichas na última hipótese. 

Hoje, muitas empresas portuguesas são detidas por capitais estrangeiros. A própria Unicer é detida, em 44%, pela Carlsberg. Usar este argumento é de uma insensatez tal, que é difícil imaginar a falta de realismo destas luminárias. Para além do carácter xenófobo e de patriotismo serôdio, sobre os quais não iremos perder tempo, agora.

Empresas-eucalipto como a Unicer e a CentralCer dão, nestas e noutras circunstâncias, um exemplo péssimo, uma imagem tenebrosa dos empresários portugueses e ajudam ao naufrágio da economia em Portugal, devido às suas estratégias pequeninas de gestão. Nestas guerrinhas de números, de quotas de mercado e de gestão cega, dezenas ou centenas de pessoas são demitidas; centenas de famílias ficam descalças. E tudo para um joguinho infantil de monopolização do mercado.

As agências de comunicação, por outro lado, é que percebem disto. O! Uns génios! Os vídeos virais e a internet e o raio que os parta. Não passa pela cabeça destas amibas que o consumidor não é estúpido e que não gosta que o tratem como estúpido. E, sabendo da inocência (ou da clubite) de algumas pessoas, promover este discurso é de uma irresponsabilidade que não merece qualquer respeito.

O que falta, sobretudo, é uma noção simples de ética. Uma coisa que não seja só dita nas conferências. Que se pratique.



publicado por jorge c. às 15:29
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Terça-feira, 21 de Maio de 2013
o nemesis de gonçalves

Eis um dos mais brilhantes momentos da nossa televisão. Um enxovalho como há muito não se assistia na história da humanidade. 

 

Eis um rapaz que, no entusiasmo da melhor idade, cria, age e projecta. Enfim, tem iniciativa. 

 

E eis a academia a expor a sua enorme incapacidade de adaptar a linguagem do crescimento económico, do desenvolvimento e da inovação. A academia, que tem por missão educar com o máximo de abrangência, a castrar, a censurar e a oprimir a capacidade de outrém empreender um projecto sem medos.

 

Raquel Varela é o nemesis de Miguel Gonçalves. Tem um discurso maniqueísta e preconceituoso. Para além disso, acha que o melhor que tem a perguntar a Martim Neves (16 anos e criador de uma marca aos 15) é sobre o valor salarial.

 

Martim Neves, aos 16 anos já terá, certamente, conceitos de work ethics muito mais integrados do que a Professora Doutora Raquel Varela alguma vez ambicionará encontrar. Terá de se confrontar com isso. Não é algo que lhe apareceu no desktop mas, sim, algo que advém directamente da sua iniciativa comercial - uma consequência da criação de negócio. O problema é que a questão da iniciativa é travada pela própria escola que encontra, logo, inúmeros entraves para apresentar. Neste sentido, a escola tem sido reaccionária e castradora, não respeita a iniciativa do indivíduo, seja ela comercial, política, científica ou artística.

 

No vídeo poderemos ver, então, o momento em que Martim Neves desmonta o comentário despropositado de Raquel Varela. Com a arrogância essencial para estes seus 16 anos (maravilhoso, maravilhoso), o rapaz explica à Professora Doutora que a sua visão é limitada, porque não vê que o elemento fundamental da criação de emprego é o crescimento económico. É claro que não se trata de mais valer receber o salário mínimo do que estar desempregado. Os baixos salários são um problema gravíssimo. Mas, Martim irá compreender isso, certamente, com a ajuda da Escola e da família. Num programa como este, o comentário é de um total despropósito e serviu, apenas, para se humilhar a si própria.

 



publicado por jorge c. às 13:06
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Segunda-feira, 8 de Abril de 2013
uma pergunta inocente

Tenho andado a pensar nas declarações do Primeiro-ministro sobre o acórdão do Tribunal Constitucional. Uma elegância. 

Como, desde então, ainda não tinha recuperado os sentidos todos, não me consegui expressar até agora. Acontece que já tudo foi dito sobre este assunto, e passo apenas a destacar a carta aberta do Tiago Antunes ao Sr. Presidente da República.

Resta-me, apenas, uma questão: aqueles que, à semelhança de Pedro Passos Coelho, acreditam que o Tribunal Constitucional aprofundou a crise, tendo interferido na política do Estado, também se revoltaram contra as agências de rating e, em abstracto, contra os mercados?

Vou guardar para mim a diferença entre os dois tipos de instituição para não condicionar respostas.



publicado por jorge c. às 21:59
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Sábado, 16 de Fevereiro de 2013
we can't rewind we've gone too far.

O CEO da SoundCloud cresceu num mundo em que se ensina a criar necessidades a partir das fragilidades nas personalidades. Talvez por ter crescido nesse mundo em que a linguagem do negócio e a dos conteúdos nem sempre converge, lhe tenha escapado uma canção que fez muito sucesso quando a Mtv dominava o mundo.

 

 

"Faz do teu negócio um sucesso". Mesmo que seja irrealista e ignorante, o gestor moderno sabe que as tendências se moldam, se transformam e que é possível influenciar pelo valor da marca. São coisas que foi lendo nos livros de auto-ajuda para os negócios, de forma a evitar uma depressão ou - sabe-se lá - a felicidade real. No entanto, como tudo na vida, a evolução dos meios tem uma lógica. Ora, essa lógica é que os consumidores querem estar dentro do conteúdo. 

No século XIX e no início do século XX, a música que conhecíamos era a que estava à nossa porta. A única coisa que circulava eram os músicos ou as partituras. O som, por si, não. Com as gravações, a música foi transportada para uma nova fase e o acesso aos seus conteúdos originais cresceu.

O vídeo veio dar ao mundo a imagem do artista tal como ele queria ser visto. Uma imagem trabalhada e produzida tal como o som. A televisão passou a ser o maior divulgador de música.

No final dos anos 90, a internet era já a ferramenta mais eficaz na divulgação de música e artistas. O All Music Guide, por exemplo, conheceu o seu maior sucesso mundial online. A maior e mais qualificada enciclopédia de música do mundo ganhou notoriedade que nunca teve com a edição em papel. Por sua vez, o Youtube trouxe a possibilidade da selecção de conteúdos que se mostrara impossível na televisão.

É certo que novos formatos surgirão e que novos meios terão a capacidade de abranger melhor a intenção artística dos autores e o voyeurismo dos fãs.

Mas é preciso não esquecer que hoje o consumo recai sobre o mediatismo e não sobre o valor da música. E é aqui que Ljung está enganado. Ele pode inverter a tendência da necessidade por uns tempos. Ganhará o seu quinhão. Mas nunca conseguirá resolver o grande problema da desvalorzação da música, da desculturização das massas em prol de um lucro ganancioso e irresponsável. Fomos longe de mais. 



publicado por jorge c. às 12:42
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Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011
A arte da possibilidade

Ben Zander falou, ontem, da Arte da Possibilidade. Talvez a palestra mais brilhante a que alguma vez assisti. No mesmo tópico: criatividade, liderança e felicidade. Tudo coisas em que acreditamos mas, o que fazemos por elas?

No mesmo World Business Forum, Bill Clinton dizia que os americanos ficam satisfeitos com o sucesso dos outos, que é bom os outros terem sucesso e que nós devemos fazer mais pelo nosso próprio sucesso em vez de ficar a olhar para o lado a resmungar.

Não vos falarei de Steve Jobs. Falarei, apenas, de como é maravilhoso que uma companhia alcance tanto sucesso com uma marca, que traga tantas melhorias para a tecnologia caseira, que inove tanto e inspire a mais inovação, ainda. Sim, talvez seja necessário ser controverso. Mas, quando a marca é assumidamente universal, a missão está cumprida e é, então, possível dar outro salto e outro salto mais e outro ainda e assim sucessivamente.

É isto que faz o desenvolvimento e não a reacção ressentida ao sucesso, à mudança e a toda a inovação que nasce das empresas e não do Estado; que é liderada por alguém que definiu para si mesmo, e por todos, esse lugar.


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publicado por jorge c. às 10:13
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Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011
Da função social das empresas

Ontem estive num almoço em que se falava de marcas, descontinuação de marcas, necessidades de inovação e carga fiscal. Não deixo de achar graça à forma como as empresas se auto-mutilam e depois ficam espantadas e nervosas com a consequência das suas políticas precipitadas. De há muito tempo para cá que foram as empresas que andaram a criar a necessidade no consumidor. Foram as empresas que, devido à necessidade de inovação, levaram o consumidor a viver de bens e produtos acessórios. O crescimento económico não pode, nem deve ser tão irresponsável.

A função social das empresas passa, também, por serem pedagógicas com o consumidor. A criação de necessidades mal equacionada poderá levar a que, mais tarde, o aumento dos impostos sobre o consumo seja um problema para todos (empresa e consumidor), as marcas pequem e morram por excesso e os produtos se tornem dispensáveis. As empresas não se podem esquecer que a sua natureza é social, que estão integradas num certo e determinado meio e que o seu objectivo (o lucro) não é obtido por obra e graça do Senhor. Por vezes, parece que se esquecem.



publicado por jorge c. às 09:18
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Sábado, 9 de Julho de 2011
Lixo

Ouvi há pouco Vitor Bento dizer que adjectivar as agências de rating, sem apresentar dados concretos que as contrariem, de nada vale. Os portugueses reagiram como se de um ataque patriótico se tratasse, mas não sabem se o seu Estado tem ou não capacidade para pagar a sua dívida. É verdade que as agências de notação financeira têm uma história recente que as descredibiliza. No entanto, ninguém nos garante que estamos em condições de responder às nossas responsabilidades. Sabemos que um plano de austeridade deveria acalmar os mercados ou, pelo menos, deveria dar-nos algum tempo para tranquilizar os nossos credores. Mas, também sabemos que esta austeridade é incompatível com o crescimento económico.

Os principais partidos portugueses têm-se atacado mutuamente, como se esta guerra fosse local, fosse entre a esquerda e a direita. Gente estúpida. O PS acusa o PSD de ter mudado de postura e de só agora criticar as agências de rating. O PSD acusa o PS de ter conduzido o país à bancarrota. Ambos ignoram a realidade.

Por um lado, o PS faz de conta que, enquanto esteve no governo, esteve sempre dentro do assunto. Ora, se o PEC 4 era o que estava no programa da troika, então o PS também aplicaria austeridade e esse mesmo PEC significava que os socialistas também não estavam seguros da capacidade de resposta. Seguindo uma política de austeridade, os socialistas também iriam travar o crescimento (que é o que defendem), mas certamente continuariam a discursar sobre "o problema sistémico do euro" como se nos últimos 6 anos não estivessem no governo e, como tal, dentro da discussão europeia. Conversa fiada e desonestidade intelectual - bem-vindos ao partido mais sectário do país.

O PSD na sua total ignorância das questões internacionais, como se viu ao longo da campanha, em que nem sequer no assunto tocou, vem agora abrir a cara de espanto por causa das agências que tanto o ajudaram a chegar ao governo. As reacções que se ouviram por aí são de uma indignação patriótica bacoca, serôdia, e de total incompreensão do que se está a passar. Bem-vindos ao partido menos preparado para governar do país.

Sei muito pouco de matéria financeira e económica. Mas, há uma coisa que ainda sei fazer: juntar dois mais dois. 



publicado por jorge c. às 13:03
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Domingo, 22 de Maio de 2011
O costume

A inexistência de um único vinho da Sogrape nesta peça é reveladora de duas coisas: preconceito e ignorância arrogante. Durante anos, em Portugal, o hiato entre os vinhos caros e os vinhos baratos era o mesmo entre os bons e os maus e era profundo. Empresas como a Sogrape equilibraram o mercado e apresentaram vinhos bem feitos e competentes a preços acessíveis. Pela primeira vez, e só aí por meados dos anos 90 ou até mais tarde, é que se começou a falar do conceito de "relação qualidade/preço" porque só empresas grandes tinham uma mentalidade mais evoluída e não tão familiar. O alentejano deixa de ser o vinho de eleição nas jantaradas da rapaziada ("olha uma de Monte Velho, que pomada!") e o Douro começa a entrar e a tomar território. Por causa dos vinhos que estão naquela lista? Não, por causa do Esteva.

Muito mais haveria para dizer sobre esse preconceito. Até com vinhos de topo isto acontece. Temos má crítica de vinhos, um mercado desconhecedor (a mudar, é certo) e excessivamente influenciável. Temos uma cultura vinícola fraca e queiroziana - superficial e fútil. As revistas de vinhos são pagas para destacar certas marcas e quem não o faz não entra. Os retalhistas ou não pagam ou competem a preços inadmissíveis, negociando muitas vezes abaixo do preço de custo e interferindo desse modo na concorrência directa do produto. Tudo isto é relevante para nós, consumidores. Mas o Fugas do Público prefere fazer artigos parciais. Já estamos habituados. É o costume.

 

 

Nota: Este post é escrito com um disclaimer já que o seu autor tem uma relação próxima com a Sogrape. Era só para avisar.



publicado por jorge c. às 11:44
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Sábado, 21 de Maio de 2011
Coisas realmente importantes

"Ponto primeiro: nós, com esta política de concorrência não vamos a lado nenhum. O PSD não abre a boca sobre o assunto. Nós, com esta autoridade de concorrência, não conseguimos garantir condições para uma política de concorrência sã, não conseguimos garantir que players novos entrem nos mercados..."

 

Paulo Portas, hoje, em entrevista à Única (sem link)



publicado por jorge c. às 12:24
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Segunda-feira, 9 de Maio de 2011
ética, integridade e história

Quando Pauline van der Meer Mohr falava há uns dias sobre ética, integridade e história como aquilo que é fundamental ensinar às futuras gerações de gestores (e não só, digo eu), lembrei-me deste artigo que tinha lido há umas semanas na Economist.

De facto, a nossa concepção do ensino superior têm andado às avessas com as necessidades reais. Pensar que tantas vezes servimos urgências inconsequentes do mercado e ignoramos a consistência social, económica e cultural é algo que nos deveria envergonhar.

A velocidade do mercado é inimiga da serenidade operacional. Mas sem uma serenidade operacional e instrumental dificilmente conseguiremos contribuir para o desenvolvimento da comunidade para que estamos a trabalhar. No fim, percebemos que é uma pescadinha de rabo-na-boca. Por isso é fundamental que se compreenda um conjunto de realidades sem olhar para elas de uma perspectiva meramente lucrativa. Podemos chamar a isto a função social das empresas.

Não é apenas aos alunos que compete uma maior aplicação formal, nem se chega lá com palestras de esclarecimento. Agir no seio da academia passa por criar espaços de interesse comum que entusiasmem os alunos numa aplicação material na sua formação. Não falamos só do contacto com as necessidades reais dos mercados primários, mas também com as carências sociais das comunidades, bem como a percepção das diversas lideranças que se encontram espalhadas por todo esse universo, desde o poder político ao poder social.

Trabalhar neste âmbito é mostrar às novas gerações as vantagens da sua própria rede social real, é dar-lhes cultura social, é conduzi-los pelo caminho da integridade e do respeito por valores essenciais. É estranho que ainda tenha de se explicar isto como se fosse uma novidade.



publicado por jorge c. às 15:01
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Sexta-feira, 11 de Março de 2011
Presente e Futuro

"A zona euro continua a ser uma coleção dos Estados soberanos. Esse é que é o nó da questão."

 

Esta conclusão está lá bem no fundinho deste artigo e é, só por si, um artigo. Mas é interessante lermos o que se está a discutir em toda a Europa e observar a discussão ao nível pátrio. É claro que o Governo português tem razão quando diz que é de um provincianismo atroz discutir uma moção de censura sem referir o peso maior da crise internacional e a situação político-económica da União Europeia. Lemos e percebemos que há decisões políticas a tomar. Chegamos a um ponto em que o federalismo europeu tem de ser trazido à colação, de vez.

Para mim, enquanto soberanista, é difícil entrar neste assunto com imparcialidade, mas com o cenário actual só se pode enfrentar o bicho de caras. Há interesses superiores. O federalismo é uma solução. Mas, haverá outras soluções? Eu julgo que sim, que absorver politicamente o destino económico e social da União Europeia passa por ingerir na cultura e nos costumes de cada Estado-membro. É inevitável. E quando falo de cultura falo em todos os instrumentos industriais de fabricação - chamemos-lhe assim - cultural. Por isso tem de existir uma solução alternativa. Mas, isto seria uma outra discussão.

É importante agora compreender o que se vai passar no Conselho. Soubemos hoje que a Comissão Europeia está satisfeita com as medidas tomadas pelo Governo português, o que é um bom sinal nem que seja por uma questão de autoridade moral face aos nossos parceiros europeus. Nós fizemos a nossa parte, agora façam vocês a vossa. É tempo de parar uma pressão dos mercados que deixou de se justificar e que já não está ao nosso alcance responder.

Contudo, não se pode falar de Europa para umas coisas e negá-la noutros aspectos. A situação a que Portugal chegou talvez fosse evitável se o Governo tivesse percebido a tempo (em 2008) que era preciso interromper algum investimento e tomar algumas medidas de precaução. Não por causa dos assustadores mercados e do risco abstracto a que nos colocam agora mesmo, mas antes porque tinha um compromisso formal na contenção de contas públicas assumido com todos os Estados-membros, nomeadamente os limites do défice. A responsabilidade do Governo, nesta matéria, reside precisamente aqui. E não se pode esconder esta realidade com o argumento da "crise internacional". É uma desresponsabilização que tem de ser bem colocada em cima da mesa. Porque senão era escusado termos Governo. O problema é que isso seria dar razão a Manuela Ferreira Leite. Uma chatice.

Temos então três tópicos em cima da mesa: a responsabilidade interna do Governo; a resolução imediata do problema da dívida; e o problema nuclear do sistema político europeu.



publicado por jorge c. às 11:12
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Quinta-feira, 10 de Março de 2011
Enriqueçam, meus queridos

Ora então muito bom dia a todos. Queria aqui anunciar em primeiro lugar que hoje é dia 10 de Março e, agora que estamos todos familiarizados com o conjunto musical Bloco de Esquerda, podemos seguir com as notícias do dia que nos fizeram chegar à capa da Forbes. Está tudo bem já que mantemos 3 cavalheiros nos mais ricos do mundo. Eu fico muito satisfeito. Até acho que devíamos começar a tratá-los como tantas vezes fazemos com profissionais da Pátria. Sempre que alguém se referisse a Belmiro dizia "o nosso Belmiro de Azevedo". Ou então, "o nosso Américo Amorim". Devíamos ter orgulho nos nossos milionários que parecem fazer sucesso lá fora. Essencialmente é isto que nos falta. Basta de ressentimento com o'rrricos. Vamos deixá-los ser ricos e criarem postos de trabalho para que o país cresça e para que, assim, acabemos com os pobres. Não era muito mais espectacular acabar com os pobres? Olhe que sim.



publicado por jorge c. às 10:37
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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011
They locked up a man who wanted to rule the world, the fools, they locked up the wrong man

Gostava imenso de saber mais de economia para poder compreender todas as desculpas possíveis para desresponsabilizar governos. É claro que eu discuto sempre da perspectiva da ignorância e longe de mim criticar gente tão informada e conhecedora das circunstâncias.

O meu problema é que eu tenho uma tendência para a assunção de responsabilidades em política, e por mais que a economia esteja sempre dependente das tais circunstâncias e se torne muito difícil prever o comportamento dessa corja de malfeitores que por aí anda à solta no mundo, não posso deixar de acreditar que a prudência e a responsabilidade são factores chave para a antecipação de problemas. Ufa, que grande frase...

Posto isto, restam-me algumas questões. O governo português, ao que se sabe, está integrado, juntamente com o Estado que representa, numa União Europeia. Assim de repente, o governo é bem capaz de estar a par das restrições orçamentais a que essa União obriga. Não será que, nesse sentido, seria de assumir a responsabilidade do não cumprimento daquilo a que se comprometeram perante os seus pares? Seria também interessante perguntar a razão de colocar a culpa num partido europeu. Tenho uma péssima memória e um arquivo pobrezinho mas, se não estou em erro, foi o actual governo que promoveu e assinou o Tratado de Lisboa, conhecendo os riscos  das imposições dos países mais fortes e conhecendo a estrutura política da UE. Se calhar aproveitava o facto de estarmos aqui todos e perguntava se faz sentido basearmos a nossa posição relativa a responsabilidade política em factores hipotéticos e sistemas financeiros que não existem, ou se era capaz de ser mais lógico responsabilizar a política pelo sistema real e efectivo em que ela assenta.

Em todo o caso, por amor de Deus, não quero estar aqui a pôr em causa a verdade do sistema financeiro que corrompe o homem e assumo desde já toda a minha ignorância. São só algumas questões que me surgiram durante a noite e nestas coisas devemos sempre falar para não ficar com nada cá dentro, não vá o diabo tecê-las.



publicado por jorge c. às 11:05
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Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010
Momento solidário

Se há alguma coisa que me tira do sério é a esperteza saloia. Por isso mesmo não poderia estar mais solidário com a situação contratual da Jonas com a Ensitel. Mas para agravar isto ainda temos o total descaramento desta empresa em tentar cortar o pio às críticas que lhe foram feitas. Se é certo que há uma decisão em tribunal, também é certo que essa decisão se circunscreve apenas à resolução do conflito e não apaga todo o histórico da relação entre as duas entidades, pelo que se torna inconcebível uma tentativa de censura deste calibre. É que não vejo outro motivo para a empresa recorrer aos tribunais para que a Jonas apague os seus posts sem ser com base num caso julgado. Nem quero acreditar que alguém se possa ter sentido ofendido com o tom coloquial da Jonas naqueles posts, porque isso seria apenas um problema da Ensitel em viver em sociedade (motivo bastante para se dar ordem de encerramento compulsivo à empresa, olha agora não saber viver em sociedade...). E, portanto, como dizia, se a matéria do caso julgado não é objectivamente a natureza da relação contratual mas sim a decisão sobre o efeito, então o que aqui temos é um explícito atentado contra a liberdade de expressão.

Say goodbye to another one.



publicado por jorge c. às 12:38
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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010
O big show está no ar

Tenho um amigo que acredita que em Portugal não há mercado suficiente para fazer comunicação (social) alinhada com determinada cor política, como é a prática nos EUA, em França ou em Espanha. Simplesmente não há mercado. Porque se houvesse se calhar até era melhor, diz ele. Eu acredito que sim, não sei. Mas sei que, de facto, o mercado é curto e, por isso, qualquer tentativa de o fazer só pode dar barraca, à partida. A não ser, claro, que estejamos a falar de capital vindo do Além e que está sempre a ser injectado mesmo que o projecto em causa seja um fracasso de comercialização.

Por tudo isto, não deixa de ser engraçado que estas duas simpáticas personagens da ficção política portuguesa tenham dado as mãos unindo-se para um fim que descobriremos mais tarde qual é. Para já, não vale a pena especular, mas vai ser muito divertido assistir a este big show.

 

Ler devagarinho este post, que se não fosse a Alda tinha-me escapado.



publicado por jorge c. às 09:49
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Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010
Exportar é preciso

O Dr. Faria de Oliveira foi a Gaia reforçar aquilo que havia dito ontem o Presidente da República: devemo-nos preocupar e concentrar nos mercados primários. Até aqui tudo bem. Mas, como impulsionar algo que necessita de dois sectores fundamentais (o primário e o secundário) que estão, neste momento, decrépitos? Com um sector terciário confuso e desorganizado, torna-se difícil não entender estas palavras como meros lugares comuns, algo que temos de dizer para disfarçar a nossa total impotência relativamente aos mercados secundários. É que - vai-me desculpar o Dr. Faria de Oliveira - a preferência dos portugueses nos produtos nacionais a curto prazo é algo demasiado subjectivo para que possamos ter alguma confiança nela.

Tenho defendido a suspeita de que pouco temos para exportar, que o volume de negócio da grande maioria das empresas portuguesas é insuficiente para concorrer lá fora e que podemos estar a apostar nos mercados errados (Angola, por exemplo). Posso perfeitamente estar enganado, até porque essa minha suspeita não passa de mera especulação. Acontece que até agora nada me provou o contrário, salvo raríssimas excepções.



publicado por jorge c. às 20:16
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Terça-feira, 9 de Novembro de 2010
Vinhos de Portugal

Sogrape has not only succeeded in creating what is considered by many to be the quintessential Portuguese wine, Mateus, they have managed to move beyond its origins to succeed in both volume brands and with some of the most iconic wines in Portugal. These achievements are a testament to the sense of purpose of the Guedes family, still running this family-owned firm. For this willingness to continually develop, for its ability to successfully promote its many brands and for its role as a flagship Portuguese wine company, we are proud to award Sogrape Vinhos the Wine Star European Winery of the Year 2010.

Casos de sucesso, é disso que estamos à procura? Pois parece que a comunicação social portuguesa ignorou um dos prémios mais importantes no mundo dos vinhos. Este prémio de Melhor Produtor atribuído à Sogrape Vinhos é um reconhecimento de qualidade, não só à empresa como aos vinhos portugueses. Já no ano passado 3 vinhos portugueses estiveram entre os 20 melhores na escolha anual da Wine Spectator, sendo que dois deles eram também desta empresa.

Estamos a falar em matéria de exportação e, acima de tudo, em valorização cultural. Somente isto.



publicado por jorge c. às 20:08
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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010
A função social das empresas

Se um dos problemas do país é, neste momento, a crise de valores, temos de perceber de que valores estamos a falar. Não se pode apenas atirar para o ar um pacote de lugares comuns do moralismo. É preciso avaliar com atenção a função de cada um no meio.

O que entendemos, então, por função social das empresas? Para além da evidente relevância que as empresas têm no desenvolvimento social e do impacto dos seus produtos e serviços, estes sujeitos têm uma função interna para a estabilidade das comunidades. A sua organização é fundamental não só para responder ao mercado como também para dar qualidade de vida aos seus trabalhadores. Não são, por isso, positivas as cargas horárias impostas pelos empregadores, nomeadamente a jovens trabalhadores que estão dispostos a tal por se encontrarem no início de carreira e recearem o desemprego.

Pode parecer um assunto insignificante, mas não é. Repare-se que com uma carga horária pesada não é possível viver fora das empresas, despender tempo para as famílias, aproveitar as vilas e cidades, patrocinar actividades socio-culturais, não só criando públicos como participando; não é possível, enfim, viver, ter vida, mundo. E a falta de mundo é hoje um problema grave no seio das empresas, porque dele nasce a compreensão, a inteligência e a capacidade de evoluir. Mais: quanto maior é o volume de negócio da empresa mais esse cuidado deve ser tido em conta. É que, no fim de contas, o cansaço da dedicação sem retorno desgasta a imagem de qualquer negócio. No limite, a insatisfação gera desconforto e insegurança e isso pode ter efeitos perigosos - a saúde, por exemplo.

Este é, sobretudo, um problema de organização. Gastam-se rios de dinheiro em acções de formação, de motivação e coaching, mas é-se incapaz de olhar para dentro e perceber um grupo de pessoas.



publicado por jorge c. às 16:58
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