Quinta-feira, 23 de Junho de 2011
O direito a copiar

Nunca copiei na vida. Minto. Copiei duas vezes. E quando digo copiar, digo copiar a sério, uma pergunta inteira (copiar não é perguntar para o lado). Tive sempre por princípio nunca copiar. A minha verdadeira luta era o estudo em si, eu tinha de ultrapassar a preguiça e o pretensiosismo e limitar-me a marrar, coisa que acabei por nunca fazer, vencendo o curso por cansaço após dez longos anos.

Mas, lembro-me perfeitamente das duas vezes em que copiei. A primeira a História do Direito Romano, curiosamente por uma amiga que hoje é magistrada. A pergunta era sobre os expedientes do pretor, qual seria o aplicado naquele caso tão literariamente bem descrito pelo excelentíssimo Prof. Dr. Vieira Cura. Eu tinha 18 anos, era Janeiro e a última coisa que me apetecia fazer na altura era estudar História do Direito. Em rigor, era estudar o que quer que fosse. Lembro-me perfeitamente: ob fraudem creditorum, era este o expediente. Acabei por chumbar na segunda frequência porque em vez de um professor que lê o jornal nos exames tinha um inspector da Pide a vigiar. Lá se foi a Lei da Boa Razão. Mais tarde tive de fazer uma oral que me haveria de marcar para sempre, onde subi 8 valores. Seria, na altura, o maior especialista de todos os tempos em História do Direito.

Da segunda vez, havia chumbado 3 vezes a Direito Fiscal, uma das cadeiras mais desadequadas à realidade que alguém pode ter na vida. Temos de fazer um exercício de IRS, mas ajudar-nos a compreender o preenchimento do Modelo 3, que hoje dava tanto jeitinho? 'Tá quieto, ó malandro! Que é como quem diz Ó Dr. Rui Morais, excelente pessoa, provavelmente uma cabeça Fiscal, mas um péssimo professor. Fui a duas aulas. Acabaria inevitavelmente por copiar num dos exames por já estar cansado de chumbar sem sequer entender porquê. Levei uma pergunta feita de casa, mas em vez de a decorar levei-a escrita. Devo desde já dizer que sou a pior pessoa a fazê-lo. Tremia que nem varas verdes. Ainda hoje me lembro dos parágrafos que, por medo de ser apanhado, acabei por decorar. Dupla tributação internacional. Há gente para tudo nesta vida.

Tive, a certa altura, um professor que dizia que copiar era um dever académico. Ele lá teria a sua teoria. O soundbite era giro, os alunos ficavam todos contentes e aprendiam a amá-lo para sempre. Ficavam todos amigos. Na sua cadeira era frequente toda a gente copiar, quase sem necessidade. Seria fácil fazê-la. Foi assim que resolvi não copiar no exame em que até a croma gorda de óculos e com a cara em obras desde 1986 o fazia sem medo. Tinham todos de 15 para cima, eu tive 11. Mas, hoje, por causa de Álvaro Domingues e David Byrne, sei mais de Urbanismo do que qualquer outro cavalheiro que sentou o cu naquele exame e dispensou a cadeira com 18 copiando todos os lugares comuns que se escreviam naquelas sebentas. Copiar deve ser, essencialmente, um último recurso, um acto de desespero, e não uma tradição. Mas, não quero ser moralista. Longe de mim. Fui eu que andei lá 10 anos.

O Direito é um curso chato que exige muito sacrifício de estudo. São inúmeras figuras e relações jurídicas interligadas em processos complexos e repletos de excepções. Na vida comum de um jurista, ele terá sempre de consultar tudo e mais alguma coisa.

Há uns anos, um director de curso da faculdade, por mera demonstração de poder (um pobre coitado que tinha ficado com o lugar que já ninguém queria ocupar) resolveu proibir os post-it's nos códigos. Para quem não conhece o procedimento, é algo muito comum nos nossos cursos. Os post-it's e os marcadores ajudam-nos não só a identificar as secções e artigos específicos como também a organizar o estudo. Muitas vezes deixávamos siglas para distinguir uma ou outra figura. Ninguém morria por causa disso. Mas os moralistas acham sempre que os copiões andam aí, contra os não-copiões que se esforçam muito para decorar uma merda de uma figura no meio de um código com pouco mais de 2327 artigos. A vida de qualquer jurista passará, essencialmente, por tomar notas, verificar, voltar a estudar e a procurar, organizar-se com post-it's ou com qualquer outro método. Ninguém passa a Obrigações por decorar ou copiar, mas antes por compreender a realidade e o mar de possibilidades numa relação subjectiva. É isto que, acima de tudo, faz um bom jurista. Cabral de Moncada dizia, citado nas primeiras páginas do manual de Sebastião Cruz, que um bom romanista era um bom civilista e que um bom civilista era um bom jurista. Nesta sequência, para mim lógica, reside toda a verdade de um curso de Direito.

Não me querendo alongar muito mais na volatilidade do copianço, o que aconteceu nos exames do CEJ não é nada de extraordinário, nem nenhuma novidade. A grande maioria dos alunos copia. Mas, como diz o chavão do professor/empregado de mesa: "podem copiar desde que não sejam apanhados". Estes foram. E, como tal, devem ser punidos exemplarmente. Mas não se faça disto um drama nacional. Deixem-se de moralismos e superioridades fúteis. Sentem o rabo num exame do Prof. Horster e sintam o mundo desabar na vossa cabeça por causa de um artiguinho que não encontram ou de uma notinha de rodapé da qual não se lembram e que vos fará chumbar com um 9 redondinho depois de um mês de estudo intenso. É tudo um jogo. Ninguém sabe mais ou menos por causa disso.



publicado por jorge c. às 10:04
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Quinta-feira, 8 de Julho de 2010
A arte sacro-erótica

 

Nem sequer estava a par desta polemico-patetice. Parece que a Playboy tenciona acabar com a edição portuguesa por causa da controvérsia gerada por esta capa fabulosa. Sou insuspeito porque nunca perdi mais de 1 minuto da minha vida a ver revistas com senhoras de mamas ao léu. Confesso que tenho outras prioridades e no papel não é a mesma coisa. Manias. 

Mas, de facto, esta capa é espantosa e faz todo o sentido numa revista como a Playboy, dando-lhe até o toque artístico e irreverente que tanta falta faz a este tipo de publicações tão dedicadas à banalização da sensualidade.

Depois de A última tentação de Cristo, do próprio Evangelho de Saramago, é lamentável que este género de polémica ainda apareça, como também é lamentável que a Playboy não defenda a sua posição com mais afinco em vez de ceder à pressão moralista.


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publicado por jorge c. às 11:12
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Domingo, 27 de Junho de 2010
Sobre a educação sexual a um Domingo de manhã

Que Deus Nosso Senhor me perdoe que hoje é Domingo e nem se devia falar destas coisas. Mas tenho ouvido tanto disparate sobre a educação sexual nas escolas que me é difícil a abstenção nesta matéria.

Será que alguém no seu perfeito juízo acha que o Estado se prepara para interferir na esfera mais íntima dos seus cidadãos intruindo-os nos prazeres carnais e, de algum modo, no deboche e na devassidão? Custa-me a crer que em pleno séc. XXI ainda haja quem pense na sexualidade como um segredo sem qualquer componente biológica e que por isso é melhor não tocar no assunto.

Há um sem número de temas relacionados com a sexualidade que são pequenos avanços na nossa compreensão da humanidade e da vida em comunidade. Julgo que ensinar a uma criança para que serve um preservativo sem qualquer tipo de desconforto não será o mesmo que introduzi-la à aplicação oral do mesmo objecto no órgão sexual masculino.

Somos, ainda hoje, vítimas de uma péssima relação com a sexualidade. Ainda hoje ela é muitas vezes iniciada com um défice preocupante de informação e sob uma ideia distorcida da forma como lidamos com o inevitável instinto. Talvez para muitos seja melhor continuar a alimentar tradições como a desfloração do rapaz, numa pensãozeca com uma profissional não-sindicalizada da área pela mão do próprio pai, e manter o discurso o mais obscurantista e moralista possível cá fora, do que educar social e cientificamente alguém para que não cresça ignorante e tenha uma relação mais saudável com os outros e até consigo mesmo.



publicado por jorge c. às 11:11
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