Quinta-feira, 4 de Julho de 2013
Da impotência

Spínola dizia, em Portugal e o Futuro, que - e cito de memória - não bastava acharmos que éramos democratas, se os outros não o reconhecessem em nós. Apesar desta ideia do general se referir à imagem do país perante o exterior, podemos, de certo modo, fazer uma analogia para os dias que vivemos: um governo cuja consciência da actuação política não é entendida do mesmo modo pelo resto do país.

Precisamos, então, de compreender o que leva o governo de Passos Coelho a manter-se em funções, após um conjunto de acontecimentos inexplicáveis e desprestigiantes para a dogmática do poder político. Poderíamos acreditar, numa primeira hipótse, que se trata de excesso de zelo relativamente à necessidade de estabilidade institucional que o país precisa para gerir a sua credibilidade perante o exterior, não tivesse o disparo partido da carta de demissão de Vitor Gaspar, que compromete toda a acção governativa, admitindo um conjunto de falhanços e de mau estar dentro do governo. Esta hipótese - a que admite algum sentido de serviço público a Passos Coelho - não justifica, como vimos, a sequência de episódios (no mínimo) infelizes que lhe sucederam. Será, aliás, muito complicado acreditar no sentido de serviço público de um homem que desde 2008 traçou o seu caminho para o poder, atropelando o seu próprio partido,  reunindo-se de personagens pouco credíveis e de seriedade duvidosa, bem como de não-militantes com uma agenda contrária aos valores tradicionais do PSD, fazendo campanha pessoal quando Manuela Ferreira Leite preparava as eleições de 2009, contribindo para uma crise política que nos levou a um resgate financeiro e acabando num discurso fútil anti-constitucional. Os mínimos de compreensão do regular funcionamento das instituições não foram cumpridos. E isto é a base da política em Democracia. 

Chegamos, então, a uma segunda hipótese: Passos Coelho acha que está aqui para salvar a pátria. Colocando-se a si próprio num patamar de divindade, o Primeiro-ministro não abdica da sua ideia de tirar Portugal do fosso em que os socialistas nos meteram. Ignorando o que se passa no resto do mundo, Passos perdeu a noção da realidade e julga-se uma espécie de primus inter pares. Se esta hipótese se mostrar próxima da verdade, então o caminho será, decididamente, para uma autocracia. A solução seria um golpe de Estado ou o internamento compulsivo. Fica ao vosso critério, já que Presidente da República é uma figura dos nossos antepassados.

Seja qual for o entendimento mais viável que fazemos da situação, a verdade é que estamos perante uma profunda crise da democracia representativa e das instituições democráticas. Temos, neste momento, o pior Governo da nossa história, o pior Presidente da República da democracia e, para infortúnio geral, um líder de opinião incapaz.

Incrédulo, o país assiste a tudo isto em directo como um espectáculo burlesco, decadente e fatal, com um forte sentimento de impotência. "O que ser-se, então, neste país? Não ser-se?"



publicado por jorge c. às 10:51
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Quinta-feira, 21 de Abril de 2011
Passos errados

Quando um partido político se dispõe a disputar o poder é conveniente que saiba gerir a construção do seu programa. Em política não se mostra serviço, mas sim estrutura e consistência. A serenidade que o sentido de Estado exige não é conseguida apenas através de postura e palavras vagas de um qualquer trabalho de escola feito em dois dias. Os cidadãos podem ser ignorantes, mas não são estúpidos. As pessoas sentem que há qualquer coisa que não bate certo. Vivemos um tempo onde cada vez mais se nota um primado da comunicação e da imagem sobre os conteúdos. Ora, à falta de conteúdos firmes e objectivos, de nada vale este tipo de serviços hoje tão requisitados.

Desde a sua tomada de posse como Presidente do PSD, Passos Coelho foi-se precipitando numa ânsia muito denunciada de chegar ao poder. É claro que se pretende que os partidos queiram o poder. O contrário é avesso à sua natureza. Contudo, é exigível a um partido como o PSD  que saiba o seu lugar e trabalhe com rigor e assertividade o seu programa e o seu eleitorado. Torna-se hoje claro que isto não aconteceu. Desde a sugestão inconsequente de Revisão Constitucional até ao encontro com as entidades internacionais de ajuda financeira internacional, foram demasiadas as inconsistências do PSD. Passos fez do PSD um partido inexperiente, coisa que até agora não fazia parte da imagem do partido. Que o líder seja tomado por inexperiente é uma coisa. Já que o partido se transforme à imagem e semelhança do seu líder é outra conversa.

Sem uma ideia para o país nas diversas matérias que importam ao Estado e à sociedade portuguesa em sentido amplo, Passos e o seu staff foram incapazes de mostrar aos portugueses que constituiam uma verdadeira alternativa com força e liderança suficientes para conduzir uma possível governação. Meia dúzia de palavras vagas não chegaram para mobilizar os eleitores. A pouco mais de um mês das legislativas, parece ser evidente que o PSD de Passos vai ter muitas dificuldades em recuperar os erros que tem vindo a cometer. E, acreditem, têm sido demasiados.



publicado por jorge c. às 00:24
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Segunda-feira, 21 de Março de 2011
Dos conteúdos

Pedro Passos Coelho afirma que "o PSD não deixará o país ficar numa situação pantanosa". É uma promessa? Pronto, nós acreditamos e vamos já todos votar no PSD para assumir os destinos do país sem sequer saber o que pensa a direcção do partido da educação, da saúde, da cultura, do ambiente, do emprego, da justiça, da ciência, da Europa, do Mundo, enfim... Economia é suficiente. Vamos a votos!

Não obstante a necessária responsabilização do Governo por questões que aqui têm sido levantadas, parece-me que o PSD tem de ter alguma calma. Está tudo muito excitado com a possibilidade de chegar ao poder. E atenção, que apresentar um programa com a rapidez daquele inenarrável projecto de Revisão Constitucional pode não ser a melhor solução. O Governo não é a distrital do Porto.



publicado por jorge c. às 11:27
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Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011
Uma casa portuguesa

O Pedro Marques Lopes ensaia aqui uma passo doble, mas ele sabe que não passa de uma revienga. A questão que se coloca não é se Rio está ou não melhor preparado que Passos Coelho. O ónus da preparação está no Dr. Passos Coelho. Porque antes de ser Presidente de Câmara, o Dr. Rio foi Secretário-Geral do PSD. É um político com um percurso concreto e objectivo. Já o Dr. Passos Coelho foi líder da JSD e vai dizendo umas coisas que nós ainda não sabemos se vêm da cabeça dele ou não. Portanto, tem muito por provar ao país (não é ao partido, porque já é Presidente). Se calhar, se tivesse sido Presidente de Câmara já lhe conhecíamos algumas qualidades. Assim sendo, só lhe conhecemos a retórica insípida de quem não quer grandes comprometimentos e a instrumentalização das distritais e concelhias para preparar um aparelho. O meu querido amigo repare, por exemplo, que não se conhece qualquer ideia do PSD de Passos Coelho em relação à Europa. O que faz com que qualquer cidadão desconfie quando depois - só depois, já sabemos como é - do encontro de Sócrates com Merkel o Dr. Passos Coelho vier dizer qualquer coisa. Ou seja, é sempre extemporâneo. Em suma, não se trata dos outros vs. PPC. Trata-se, isso sim, de PPC mostrar que tem uma ideia, uma estratégia, uma definição de objectivos que até agora ainda não mostrou. De resto, o que Santana Lopes está a fazer foi o que a entourage de Passos Coelho andou a fazer durante 2 anos à Dra. Ferreira Leite - um vício de família.

 

 

Adenda: apercebi-me agora que o título que escolhi para este post tinha sido utilizado por Vasco Pulido Valente. É evidente que o meu título se refere às zaragatas dentro do PSD e nada têm que ver com o que escreve VPV.



publicado por jorge c. às 14:01
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Domingo, 7 de Novembro de 2010
Da falta de cultura democrática

Quando eu era puto costumávamos gozar com alguns cidadãos devido à sua escassez de sensualidade. Dizíamos, então, que "aquele gajo devia processar os pais por ser tão feio". A malta ria-se e tal, mas no fundo, e por sermos proprietários de mais de 2 neurónios, sabíamos que aquilo não passava de uma graçola. Sei lá, podia dar-nos para defender aquela ideia peregrina, até porque alguns de nós enveredaram pelo santo ofício do Direito (entretanto tomámos medicação e ficou tudo bem e há até quem leia poesia).

Hoje, ouvi por alto umas declarações do Dr. Passos Coelho. Sim, porque a minha vida não é isto e infelizmente ninguém me paga para eu fazer comentário político indigente por aí. Dizia, então, o Dr. Coelho algo como isto: os governantes devem ser responsabilizados criminalmente por determinadas consequências das suas políticas (interpretação livre, para os mais rigorosos). Que boa ideia! Fez-me lembrar aquela minha doutrina infanto-juvenil. Acontece que PPC é líder do maior partido da oposição e potencial candidato a governante. Esta ligeira particularidade faz das suas palavras um dos maiores exercícios de demagogia que alguma vez foi dirigido ao país por um representante de um partido de poder. Como nos explicou o velho Aristóteles, a demagogia é a perversão da democracia.

Não vou aqui gastar a minha e a vossa paciência com uma exposição sobre a separação de poderes, os princípios do direito penal e da Constituição. Basta apenas apelar ao bom senso de todos para que se compreenda o disparate (a minha generosidade é infindável como os desígnios do Senhor) que aquelas declarações carregam. O problema é que o disparate é perigoso porque é isso que a demagogia é - perigosa.

Lembrem, assim, o Dr. Coelho de uma ex-ministra do seu partido - Leonor Beleza - que, no sentido da sua proposta, poderia ter sido condenada por decisões tomadas com base na segurança hierárquica. Lembrem este homem que a subjectividade das políticas e, em última análise, a escassez de recursos que conduz a uma inevitável restrição do providencialismo do Estado, não podem ser um factor de penalização de indivíduos concretos e que é o Estado que se deve assumir na sua condição democrática. Não sei se estamos todos sensibilizados acerca do conceito de democracia.

Podem tirar o homem do menezismo, mas não tiram o menezismo do homem.



publicado por jorge c. às 00:56
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Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010
Anda-se muito distraído

É perceptível naquilo que escrevo sobre Passos Coelho que não simpatizo com a sua persona política. No entanto não o subestimo. Tal como Sócrates, Passos é um homem das maroscas eleitoralistas que envolvem os partidos nas suas bases e que alimentam as máquinas das concelhias e distritais. Portanto, nem é ingénuo, nem tampouco burro.

Aqui, neste preciso momento, podemos verificar isso mesmo. O PS andou semanas a colocar a pressão do lado de Passos Coelho. Os mais distraídos não terão reparado na calma do líder do PSD. É que, agora, depois de todos os apelos, o PSD consegue colocar o ónus da responsabilidade da aprovação do OE no Governo.

É uma jogada política? É, claro. E muito bem feita, por sinal.



publicado por jorge c. às 10:27
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010
Os trunfos de Passos Coelho

O Dr. Passos Coelho tem a sua vida planeada. Na sua aparente indecisão sobre a aprovação do OE, ele obriga o Governo a negociar e admitir cedências num campo que lhe vai valer muita simpatia por parte do eleitorado. Quer-me parecer que esta aparência descarada quer mesmo levar o eleitorado a perceber que Passos está a pressionar o Governo.

Isto acabará por se traduzir numa vitória do PSD em todo este cenário e num enfraquecimento do PS. É que não bastava o líder do maior partido da oposição ter dado a entender que José Sócrates faltou à palavra nas negociações que ocorreram entre os dois, como também aparecer agora a trunfar sem dar hipótese ao Governo.

Há muita carta para bater. Veremos como tudo isto desenvolve, mas para já Passos Coelho, naquilo que a ele e ao PSD diz respeito, parece estar bem encaminhado.



publicado por jorge c. às 17:00
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Sábado, 25 de Setembro de 2010
O impasse

José Sócrates é um homem desgastado. Aflito por não querer governar por duodécimos depende do PSD e de Passos Coelho. Por sua vez, o social-democrata está desejoso para ficar por cima e triunfar nas negociações. Para já, PPC age da mesma forma que agiu com Ferreira Leite: aceita a sua posição, diz não ter pressa de chegar ao poder, mas assim que pode mina o caminho com o seu jeito dissimulado.

Para o Primeiro-ministro governar sem poder exibir o seu reflexo não deve ser uma opção. Já sabíamos que Sócrates era um político menor com um ego grande, mas julgo que ninguém acreditou que se deixasse enfraquecer tão depressa. Portanto, o Chefe de Governo vive agora o impasse que também está a ser provocado pela Presidência e a redução dos poderes do Presidente devido às eleições que se aproximam.

No meio do bailarico, o cidadão comum não sabe o que há-de pensar e está naturalmente preocupado. De um lado dá-se a ideia de que o governo socialista esconde uma realidade negra e que estamos à beira do abismo. Do outro, fala-se numa conspiração contra Sócrates.

Para o staff e pseudo-staff dos partidos parece estar tudo bem na cavaqueira do costume de ataques pessoais e na desconversa do "olha que não sôtor, olhe que não". Contentes na sua posição de palermas, os aparelhistas de um lado e do outro divertem-se como se estivéssemos numa Batalha Naval, convencidos de que estão a salvar o país através de propaganda e contra-propaganda.

O impasse do Primeiro-ministro é, por isso mesmo, o nosso. Sócrates é o Primeiro-ministro e se calhar não seria mauzinho de todo, no meio daquilo que se anda a passar, que aparecesse só para dar um olá às tropas. Não sei se isto é pedir demais.



publicado por jorge c. às 08:33
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Domingo, 25 de Julho de 2010
O erro de Passos Coelho

Em toda esta questão da Revisão Constitucional, o grande erro de Passos Coelho foi querer deitar cá para fora algo que não estava ainda solidificado e depois tentar tapar a bronca com a ideia de ante-projecto. A ânsia de dar um bom ar, de alternativa, pode pagar-se cara.



publicado por jorge c. às 15:10
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O PSD e a Revisão Constitucional II

Já que se vai criticar o projecto de  Revisão Constitucional de Passos Coelho, então que se diga algo de jeito, e não os disparates que andam aí de boca em boca, carregados de demagogia, desde o CDS até ao PC, passando pelo cidadão comum que, por norma, é parvo.

A Constituição assenta numa estrutura tridimensional: forma, matéria e realidade constitucional. Fala-se de uma tridimensionalidade devido à necessária interdependência dos três factores, sendo que é a realidade constitucional, ou seja, o comportamento e a exigência da realidade socio-económica e cultural, que vai projectar a necessidade das outras duas. É claro que, de um ponto de vista vanguardista, a forma ou a matéria podem influenciar, e muito, a sociedade. Mas, para isso será necessário que esta esteja aberta - não pronta (nunca está) - a uma alteração, muitas vezes significativa, da sua narrativa política.

 

Posto isto, e olhando a proposta do PSD, pode dizer-se que não houve este cuidado e o que se tentou fazer foi inserir um programa político numa proposta de Revisão Constitucional descuidando a realidade constitucional. A linguagem encontrada foi, portanto, desadequada e até um pouco ofensiva à ideia de Estado-providência a que o país se habituou e da qual fez costume. O que não quer dizer que os assuntos sobre os quais recai não estejam a necessitar, pelo menos, de uma discussão jurídico-política séria, nem tampouco que mais liberalismo seja anti-democrático. Penso até que foi isso que Passos Coelho quis dizer quando apelou a alguma calma no ataque que estava a ser feito à sua proposta já que esta teria de ser analisada e discutida dentro do PSD antes de ser formalmente apresentada.

 

Não deixa de ser interessante observar a histeria colectiva por causa dos direitos sociais num país com elevada percentagem de abstenção, com défices de participação cívica visíveis nas assembleias de freguesia por esse país fora e tão ignorante no que à sua própria Constituição diz respeito. E não olhem para mim. Eu nem gosto de Passos Coelho.



publicado por jorge c. às 12:49
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Terça-feira, 29 de Junho de 2010
O reforço ideológico do PSD

A minha insistência com Pedro Passos Coelho (PPC) não deve ser encarada como uma perseguição, mas antes como uma forma de avaliar bem todas as particularidades da sua conduta enquanto político. Sócrates está em queda, ou pelo menos na corda bamba do seu próprio sucesso e a queda é iminente. Resta portanto avaliar aquele que está mais próximo da sua substituição.

Ontem, numa declaração sobre o reforço ideológico do PSD e da sua adequação aos novos tempos, PPC deixou clara a sua forma de encarar os timings e, de certo modo, de fazer política. É, no geral, uma declaração feliz.

PPC sabe que Sócrates foi roubar espaço que pertencia ao PSD. Ao contrário daquilo que se diz, não é o PSD que tem características mais à esquerda, mas sim o PS que foi ocupando um espaço político que pertencia ao PSD. Este foi um dos grandes trunfos de Sócrates e que este aprendeu muito bem com António Guterres. Inventaram-se os Fóruns Novas Fronteiras, foi-se buscar o discurso reformista, falou-se em inovação. Resultou.

Na sua declaração de ontem, PPC mostra que pretende recuperar esse espaço. Num discurso muito abrangente, conseguiu envolver todo aquele que é o espectro social-democrata, as bases e as elites como é costume dizer. Foi, enfim, inclusivo. E sem tornar o seu discurso forçado ou inconsistente, o Presidente do PSD conseguiu firmar os conteúdos programáticos do partido em abstracto que, no fundo, são a sua natureza e que sempre lá estiveram. Daí a ideia de reforço e não de reformulação.

Mas esta novidade introduzida pela direcção passista não é senão aquilo que estava bem explícito no programa do PSD para as últimas legislativas, de Manuela Ferreira Leite, e que os sequazes do novo líder tanto atacaram. Essa abstracção programática e os conteúdos ideológicos, numa corrente social-democrata contemporânea, já lá estavam e, como disse na altura Marcelo Rebelo de Sousa, era claro que aquele programa servia para demonstrar a intenção de uma mudança do comportamento político e do panorama ideológico - um programa para uma maioria relativa e consequentes eleições antecipadas.

De qualquer modo, o impacto da declaração de PPC parece-me positivo. Apesar da contínua superficialidade da proposta política, da constante formação de grupos de estudo e de trabalho, o discurso funciona e politicamente é bem conseguido.

Acontece que esta distância que se pretende criar no espaço ideológico não tem qualquer reflexo no campo prático. O que PPC está a fazer é tentar ocupar o espaço do Bloco Central sozinho, como Sócrates ocupou. E, não obstante a inteligência e o sentido de oportunidade com que o faz, é uma manobra com um certo toque de populismo ou, melhor, de eleitoralismo e que, na prática, vai-se reflectir na mesma forma de fazer política, aproveitando as frequências mais populares para desenhar a sua estratégia, aproveitando a opinião pública. Como é óbvio, nem sempre o que a opinião pública pretende é a política que um partido traça inicialmente e daí que seja fácil concluir que tanto consenso ou dá em volatilidade política e demagogia, ou acaba em total contradição com o que se propagandeou.

Em suma, apesar de ter uma imagem mais leve e menos conflituosa que a de Sócrates, PPC é também um fruto do aparelho que o criou e que o próprio alimentou. As suas semelhanças com o actual Primeiro-ministro estão à vista e a probabilidade de continuarmos numa política de mediatismo e aparência é cada vez maior. Resta saber o que pretende Passos Coelho, de facto. O romantismo um dia acaba.



publicado por jorge c. às 11:41
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Segunda-feira, 28 de Junho de 2010
Aquilo que é mesmo óbvio

Depois de mais uma sondagem que revela maior intenção de voto no PSD, começamos a pensar naquilo que poderia hoje ser um PSD no governo. Não nos seria difícil adivinhar, para além do spin abrantino que já se faz, o estilo que seria usado por muitos. Andar-se-ia na linha dos Candais e dos Santos Silvas.

Não gosto muito de entrar em polémicas directas com as pessoas à custa do seu estilo. Mas, neste caso específico, vemos uma pessoa rancorosa, maldosa, mal-educada, sem qualquer espírito democrático, com fortes probabilidades de chegar a um ministério. Para já não falar na linguagem fanfarrona. Portanto, julgo ser importante apontar o dedo a este género de afirmações que vão definindo o carácter político deste ex-Secretário de Estado do Engº Guterres.

É claro que não vou envolver o próprio Passos Coelho neste tipo de declarações. Mas depois não se queixem dos amigos e dos familiares - gordos ou magros.



publicado por jorge c. às 11:24
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Sábado, 26 de Junho de 2010
O dr. Coelho

Nos últimos tempos a tensão entre CDS e PSD aumentou. O Partido Portas começou a atacar o partido do dr. Coelho devagarinho. O dr. Coelho começou a ver a coisa a correr mal, principalmente depois das polémicas com Cavaco, porque a consequência de o apoiar para as presidenciais é uma inevitável colagem da imagem do Presidente ao PSD. O dr. Coelho tinha de arranjar uma solução. E para este homem admirável não há tempo a perder. É preciso dar sempre uma boa imagem e evitar cair na boca do povo. Daí que o dr. Coelho passe a contar com o CDS, não se percebendo bem em que medida e a que propósito. A não ser o propósito da jogada politiqueira. Aí sim, faz todo o sentido e é válido, claro. Nós podemos é não achar muita gracinha. Isso já é outra conversa.



publicado por jorge c. às 15:12
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Sexta-feira, 28 de Maio de 2010
Necessidade e consequência

Vasco Campilho parece estar muito entusiasmado com os resultados de uma sondagem que dá quase maioria absoluta ao PSD. Pois eu não sei se isso será assim tão positivo.

O problema com estes resultados, nesta altura precisa, é que eles evidenciam uma consequência política e não uma necessidade. Se fosse uma necessidade não seria o PSD de Passos Coelho a estar em tal destaque já que, como temos vindo a ver, não obstante a assunção de partilha de responsabilidades que lhe competia, o líder do PSD tem sido calculista no sentido eleitoral. Assim foi com o TGV, assim foi com a comissão parlamentar de inquérito e assim tem sido relativamente a inúmeras matérias das quais se destaca a matéria de impostos.

Ora, nós não necessitamos de um Primeiro-ministro que seja politicamente calculista. Nós necessitamos de alguém que tenha total convicção no que está a fazer e não esteja tão preocupado com o modo de o fazer. Nós necessitamos de firmeza na liderança e não de plasticina política moldável ao sabor das circunstâncias.

Tudo o que acontecer será, então, uma mera consequência das circunstâncias e não uma afirmação convicta da vontade soberana. Será apenas cansaço, o que não contribui em nada para a consciência.

Se o Vasco fica satisfeito pela vitória através do cansaço, eu não.



publicado por jorge c. às 11:17
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Sexta-feira, 30 de Abril de 2010
A ânsia do poder

Anda por aí uma gente a aproveitar a subida do PSD nas sondagens para tentar sugerir Passos Coelho como a solução, visto ele ter sido muito responsável nesta campanha de salvação nacional pelo bloco central Armani.

Não é bem Passos Coelho que nós precisamos que seja responsável, mas sim José Sócrates. Não só responsável como consciente. Em primeiro lugar, que ouça a oposição e colabore para que a situação, pelo menos, não piore. Depois, seria interessante o Primeiro-ministro pensar em abandonar o cargo a médio-prazo tentanto deixar a casa mais ou menos arrumada. Isso sim seria responsabilidade.

O que não pode acontecer é uma saída imediata do governo. Não só porque não há muita certeza daquilo que é Passos Coelho (a postura de responsabilidade numa conferência de imprensa não me basta, lamento), como também seria totalmente desadequado ao momento uma mudança radical. Essa mudança é necessária, sim, mas não agora que precisamos de estabilizar o barco, tirá-lo das águas agitadas.

O oportunismo tem limites. Isso também é responsabilidade.



publicado por jorge c. às 15:19
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Quarta-feira, 28 de Abril de 2010
longe demais

Acabo de ouvir a declaração conjunta do Primeiro-ministro e de Pedro Passos Coelho. No meio de tanto lugar comum fico com a ligeira sensação que ninguém sabe muito bem o que fazer a não ser encenar uma estabilidade política que todos sabemos que não existe. O problema é político porque é a má política que castra a economia, que impede o desenvolvimento e a estabilidade daquilo que é o grosso do mercado português e que são as PME's. Não podemos aceitar mais desculpas e rodriguinhos. Alguém tem de se responsabilizar.



publicado por jorge c. às 13:51
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Terça-feira, 13 de Abril de 2010
Um mito

Vou considerar que é apenas falta de conhecimento político, uma certa ignorância, e abdicar da ideia de má-fé que tenta tomar conta do meu discernimento em relação ao mito de que a instabilidade dentro do PSD se deveu à não inclusão de adversários de Ferreira Leite nas listas para deputados.

Em primeiro lugar, e para não perder mais tempo com falhas de memória, é preciso não esquecer que Manuela Ferreira Leite foi eleita presidente do PSD há quase dois anos. Nessa altura, o seu principal adversário - Pedro Passos Coelho - não aceitou muito bem a derrota e continuou a fazer de conta que estava em campanha contra a líder do partido (ah, a unidade, a unidade), entrando num jogo de conferências e entrevistas programadas pelo seu gabinete de comunicação que pelos vistos se relacionava muito bem com o jornalista Francisco Almeida Leite do Diário de Notícias (que poderão também ler aqui) e com o líder da distrital do Porto do PSD, Marco António Costa, que é agora (surprise!) vice-presidente do partido.

Em segundo lugar, talvez não fosse de ignorar que MFL sabia, como toda a gente sabia, que era muito difícil vencer eleições contra José Sócrates numa altura em que se criou um certo entricheiramento da sociedade - os que apoiam Sócrates e os que não apoiam. Logo, é natural que, em caso de ganhar eleições, o PSD estaria representado na AR por uma maioria relativa e que, como tal, era de esperar que a bancada estivesse com a líder do partido e não contra. Seria portanto lógico que MFL chamasse a si aqueles em que depositava mais confiança política e não a criatura que lhe andou a minar o terreno durante dois anos sem parar.

O que temos aqui é uma falácia, um resultado falso na soma de um conjunto de factos que continua a contribuir para a necessidade de fulanização de que Passos Coelho tanto precisa para derrotar Sócrates. Isto não é política, é um jogo de vaidades pessoais.

Há quem goste de ser enganado. Eu não faço muita questão.



publicado por jorge c. às 12:23
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Domingo, 11 de Abril de 2010
O homem sem qualidades

Julgo não ter ouvido mal. Pareceu-me claro que o que Pedro Passos Coelho disse no seu discurso de encerramento do congresso do PSD foi que Paulo Teixeira Pinto, presidente da Causa Real, ia conduzir uma comissão que iria estudar alterações à Constituição da República. Se não fosse um assunto sério até dava para rir. E, de facto, foi um momento cómico bem conseguido, não obstante o disparate.

 

Outro momento de que também gostei foi quando o Dr. Passos Coelho perguntou indignadíssimo por que razão eram as direcções dos partidos a escolher os representantes dos cidadãos na Assembleia da República. Ora, talvez o Dr. Passos Coelho tenha faltado à aula de Ciência Política, mas não seria mau de todo se lesse o capítulo dos catch all parties e - por que não, meu Deus? - já agora do nascimento do conceito de partido e do seu significado numa democracia plural.

 

Passos Coelho é uma espécie de rede social que vai seguindo com atenção os seus "amigos", absorve o estado geral das intenções e comunica pelos lugares comuns que gregos & troianos pretendem ouvir. Do liberalismo ao centro esquerda corre uma longa passadeira de ideias soltas que apanha quem puder. E na onda de entusiasmo os social-democratas esquecem-se, ou não se apercebem (já vimos este filme no PS), que tudo isto não passa de demagogia barata e sem sentido algum, a avaliar pelos dois exemplos acima dados.



publicado por jorge c. às 14:20
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Sábado, 10 de Abril de 2010
A hipocrisia de Passos Coelho

Um fim-de-semana tão bonito e esta gente enfiada num congresso. Eu vou seguindo em modo intermitente, mas pelo que já deu para perceber o PSD entrou em loop de hipocrisia. Para além da repetição dos lugares-comuns e das propostas surrealistas que começam a ser um traço fundamental da abordagem política de Passos Coelho, temos agora um discurso de unidade em que o líder social-democrata pede encarecidamente ao partido que não lhe faça o mesmo que ele andou a fazer à direcção cessante nos últimos dois anos. E o mais estranho é que o partido acedeu a esta espécie de estalinização moral em que o novo líder, depois de ter usado métodos muito pouco éticos e de ter sido desleal, vem agora impor uma conduta contrária aos seus opositores com um enorme descaramento e um moralismo serôdio.

Parece que estamos condenados a uma continuação da política mais hipócrita e incoerente em benefício da ideia de alcançar o poder pelo poder. Eu, pelo menos, não me revejo neste tipo de gente.



publicado por jorge c. às 12:20
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