Terça-feira, 20 de Setembro de 2011
Vitimização Impossível

Pedro Adão e Silva tem razão e não tem.

Tem razão quando diz que a discussão sobre a crise e a Europa foi desvalorizada durante o anterior Governo. Esta foi, fundamentalmente, a luta ilegítima de arredar os socialistas do poder.

Porém, não tem razão quando se refere a esse tempo com a expressão "com Sócrates". É que "com Sócrates" o argumento da crise e da Europa apareceu muito tarde, muito depois de Pinho-a-crise-acabou 2008, muito depois de orçamentos rectificativos atrás de orçamentos rectificativos e quase ao mesmo tempo do PECIV que, por acaso, não era senão uma actualização anual comum do PEC e que apenas trazia a alteração às pensões (depois acabaram por nos dizer que era exactamente o que estava no memorando da troika... nada de especial).

Uns meses antes de tudo isto, José Sócrates lá ia falando da crise internacional mas, sem se alongar muito. Como dizia Soares há umas semanas na Única, Sócrates não tinha grande cultura política. Por isso, limitava-se a repetir o que os seus conselheiros lhe iam dizendo. Tudo soava a um tremendo vazio.

Pedro Adão e Silva podia perfeitamente ter reforçado que a discussão de que fala é, agora, extemporânea e que muita gente alertou para isso numa altura em que se podia ter feito algo significativo. Não pode é colocar a questão com Sócrates na frente de um pensamento que o próprio parecia desconhecer e com o qual nada fez, de facto.

 

Adenda: O João Pinto e Castro alerta-me, num comentário, que a afirmação de Manuel Pinho é de 2006, pelo que deixa de fazer sentido o meu sarcasmozinho sobre essa questão.



publicado por jorge c. às 22:59
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Quinta-feira, 7 de Abril de 2011
A encruzilhada

Um pedido de ajuda externa feito por um governo de gestão é uma questão muito delicada. Mais delicado se torna com a dissolução do Parlamento. Isto é um imbróglio nunca antes visto. E dificilmente vai ficar tudo bem.

O que nos diz o nº5 do artigo 187º da Constituição (CRP para os amigos) é que "o Governo limitar-se-á à prática dos actos estritamente necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos". Ora, por mais sui generis que seja o momento, convém pensar out of the box como os gestores modernos. No essencial os limites impostos ao Governo não são taxativos, o que deixa muito espaço a interpretações extensivas. Não podemos pensar que isto só acontece para que o Governo subverta as suas competências, mas antes para que um governo em gestão, seja ele qual for, tenha margem de manobra na resolução de problemas imediatos e urgentes.

Resta-nos agora perceber que entendimento fazemos do momento que estamos a viver. Será um pedido de ajuda externa um acto de gestão estritamente necessário? A nossa capacidade de financiamento agravou-se. A dívida privada (essencialmente) e a pública perderam credibilidade e a banca não tem condições nem de financiar nem de se financiar. Com a especulação que paira por aí, corremos o risco de entrar num problema bancário profundo. O nosso dinheirinho, portanto. É capaz de ser chato.

Por outro lado, recorrer a ajuda internacional de um qualquer fundo é um acto político, uma decisão política e não um acto de gestão corrente das contas públicas. A sua inevitabilidade não é efectiva ou real. É claro que as suas consequências podem ser desastrosas. Não podemos afirmar com certeza de que teríamos capacidade para subsistir sem financiamento e com um volume de dívida tão grande. Ainda assim é uma opção política. Ora, com um governo demissionário e uma AR dissolvida, resta-nos o argumento de uma grande emergência nacional para suportar o conceito de "estritamente necessário". Mas, mesmo com todos os partidos de acordo (que neste momento, em rigor, não representam ninguém), tenho sérias dúvidas sobre a legitimidade para um acto com consequências que perdurarão sabe-se lá durante quanto tempo e que terão um peso significativo não só no quotidiano como no desenvolvimento do país; um acto que não é apenas "gestão dos negócios públicos".

Uma lei fundamental existe como instrumento de organização não só para referência diária ou manual de conduta, mas também para nos proteger em momentos conturbados em que percamos o norte. Instrumentalizar a Constituição material à luz de um momento que pode não ser representativo da realidade constitucional é, de certo modo, fragilizar a segurança dogmática da CRP e a nossa própria confiança na discricionariedade que a CRP permite. Não é algo que deva ser feito com ligeireza e de forma dissimulada.

Era importante ser honesto com o país e não andar a fazer de conta que a questão é simples. Pelo menos o sr. Presidente da República terá essa obrigação.



publicado por jorge c. às 11:12
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Sábado, 26 de Março de 2011
Here comes your PREC

Aquilo que se tem passado na Assembleia da República nos últimos dias é pura e simplesmente violência democrática. Espero que os eleitores percebam isso nas próximas eleições. Lamento muito dizer isto, mas espero mesmo.



publicado por jorge c. às 15:59
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Quinta-feira, 24 de Março de 2011
A confiança em nós próprios

Sobre o despropósito de uma crise política neste preciso momento já citei o artigo de Pedro Santos Guerreiro há uns posts atrás. Julgo que não será necessário dizer mais nada. De leitura obrigatória será também este excelente post do Paulo Pinto - uma análise lúcida e equilibrada como pouco ou nada se tem visto. Pouco mais há a dizer, também.

É verdade que este assunto agora passará apenas para os compêndios da História ou para os arquivos dos mais combativos como argumentário de arremesso. O que importa agora são as eleições, a campanha, enfim... está-se mesmo a ver o filme. Não nos bastava já o risco de agravamento da situação económica do país, ainda vamos ter de assistir a uma trágica guerra civil entre as tropas sedentas de sangue - uma guerra civil larvar, como um dia ouvi Irene Pimentel dizer.

Contudo, não posso deixar de relevar o que aconteceu ontem, no sentido do que significa para a nossa democracia. Guerras à parte, uma crise política não pode ser inevitável quando se está no momento fundamental para restabelecer a confiança do exterior no país. Dê por onde der, o país tem de saber unir esforços mesmo com uma governação de que não gosta. O que é também muito relativo, visto que este foi o Governo eleito há um ano e meio. Mas, já lá vamos. Importa primeiro perceber que o problema da crise portuguesa é hoje um problema da confiança dos nossos credores na nossa capacidade enquanto devedores. A confluência de esforços é, nesse sentido, fundamental. Não pode o Governo ignorar as instituições representativas dos portugueses, nem o Parlamento confundir um instrumento crucial de restauração de confiança com uma moção de censura.

O Governo é eleito para tomar as decisões que achar convenientes para a prossecução do interesse nacional. O Plano de Estabilidade e Crescimento não é passível de ser votado na AR, é um compromisso que temos com a UE e cabe ao Governo tomar as medidas que achar adequadas à sua concretização. Foi este o Governo que elegemos para tal quando todos já sabíamos que estávamos perante uma crise grave.

É certo que nem só de actos eleitorais se faz a democracia. Mas, num momento tão delicado como é este que vivemos, valores mais altos se levantam, dir-se-ia.

O que aconteceu ontem foi um total desrespeito pelos resultados eleitorais, pela vontade soberana do Povo. O que aconteceu ontem foi confundir a vontade de mandar Sócrates embora com a necessidade de mostrar coesão nacional em nosso próprio benefício. Estamos agora mais perto de nos tornarmos um império de ressentidos, abertos cada vez mais à demagogia que nasce nas ruas com a irresponsabilidade de quem não compreende as regras do jogo nem quer compreender; de quem não se esforça nem admite que os outros o façam. Este foi só o primeiro passo para afundarmos a confiança em nós próprios.



publicado por jorge c. às 10:51
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Terça-feira, 22 de Março de 2011
No fundo, é isto

Estas eleições são um crime porque acontecem no pior dia possível, ameaçando o sucesso da própria cimeira do euro que nos ia acudir. Estas eleições são um crime porque Portugal tem até Junho dez mil milhões de euros para pedir emprestados, porque a banca está em stress, porque as empresas públicas estão a ficar sem dinheiro. Estas eleições são um crime porque vão produzir meses de foguetório político para eventualmente chegar a minorias e inviabilidade negocial entre PS e PSD. Estas eleições são um crime porque são contra o interesse nacional, contra os portugueses, contra a sensatez. Se é crime, há culpado e não é preciso jogar Cluedo: Sócrates foi o primeiro responsável por esta crise política, como admitiu ontem Luís Amado, fosse por calculismo político ou por cegueira não ensaiada. Passos Coelho podia ter evitado a crise, se engolisse outro elefante, e pode mesmo perder nestas eleições o que ganharia noutras daqui a mais tempo. Ou seja: depois da ajuda externa que ainda não chegou mas já partiu.

 

Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios



publicado por jorge c. às 23:39
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011
O estado das coisas

Quem viu o debate quinzenal de hoje só pode ficar preocupado. Vê-se um país sem liderança e que não pode entrar numa crise política porque a oposição não tem nada para oferecer. É esta a encruzilhada.



publicado por jorge c. às 19:11
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Domingo, 12 de Dezembro de 2010
"um pé numa galera e outro no fundo do mar"

Em Portugal e o Futuro, Spínola dizia algo muito relevante na altura e que costumo citar muitas vezes: não é apenas aquilo que achamos de nós mesmos, mas também a forma como os outros nos vêem.

É chato, não é muito animador, mas a verdade é que tem de haver motivos de preocupação. E sem os dramas do costumes ou o optimismo acéfalo e sectário, seria importante perceber que é preciso agitar a sociedade portuguesa que ainda tem possibilidade e capacidade para agir. Dar esperança com base em coisas objectivas e concretizáveis. E sim, é um lugar comum, mas um lugar comum que também quero repetir. Façamos algo pelas nossas vidas. Não desperdicemos tempo a defender ou atacar quem não sabe sequer o que fazer da sua própria vida, quanto mais da dos outros.

Deprimir não é a solução, nem iludir.



publicado por jorge c. às 13:13
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Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010
O mito

 

 

Paulo, deixa-me ilustrar o teu post com esta fotografia do Público. Ela retrata também muito do espírito dos dois países na sua relação histórica.

 



publicado por jorge c. às 09:30
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Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010
O problema de Portugal, afinal, sempre são os portugueses

Quando o lume aumenta a culpa morre solteira. O estado actual da política portuguesa resumir-se-ia muito bem numa simples palavra: desresponsabilização. Já vimos de tudo nos últimos anos. Nunca tínhamos era visto culpar uma massa geral e abstracta - o povo.

Deixem-me primeiro dizer que compreendo bem o que o autor do texto linkado quis dizer, sendo que chego mesmo a concordar com parte substancial do seu raciocínio e partilho até o mesmo cinismo. O que não consigo entender é o seguinte: como é que se consegue colocar responsabilidades, ainda que indirectas, de má governação por falta de cidadania?

É absolutamente verdade que o défice de cidadania em Portugal é responsável por uma certa decadência de toda a estrutura social e económica. Mas o afastamento dos cidadãos das mais elementares funções sociais (o associativismo, a participação política e nas demais instituições, por exemplo) não pode ser visto como inibidor de opinião pública, sendo esta também uma característica da cidadania, nem tampouco como responsável pela degradação da cena política e pelos resultados efectivos das governações.

Desprezo o discurso anti-político e anti-políticos. O que não posso deixar de observar é que a responsabilidade pela pedagogia e pela autoridade moral é, em grande parte, da classe política que assumiu essa mesma função depois do 25 de Abril, depois de 40 anos de paternalismo e autoritarismo. Onde está a pedagogia dos partidos políticos nas comissões políticas dos núcleos, das concelhias e das distritais? Onde está a demonstração da autoridade moral relativamente ao supremo interesse de cada comunidade? Onde está a opinião pública fora dos grandes centros urbanos, nomeadamente de Lisboa? Onde está o esclarecimento para a cidadania europeia?

Deixem a culpa morrer solteira, mas por favor não abusem das desculpas.



publicado por jorge c. às 17:26
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Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010
O fim do sonho

Não irei dizer nada de novo neste post. Venho apenas reforçar o que tenho dito nos últimos dois anos e meio. Depois de tudo o que se disse, de todos os avisos sobre o estado das contas públicas, do irrealismo do Governo, da necessidade mais do que evidente de acautelar a despesa, de uma forma absolutamente intolerável e pornográfica, há quem não tenha vergonha e venha defender a governação do Engº Sócrates. É de um desplante sem nome.

O país recebe com tristeza a austeridade do novo plano de reequilíbrio das contas. A verdade é que a necessidade destas medidas é inegável. O que se deve, portanto, discutir é toda a ilusão que o Governo socialista andou a vender durante os últimos anos. Não, as coisas não estavam bem, a crise não tinha acabado, as empresas não tinham capacidade de resposta por falta de medidas preventivas da recessão e o grande investimento público deveria ter sido suspenso. Agora, vai tudo. Parece que os catastrofistas, os alarmistas e toda essa gente do lado do mal tinha alguma razão para recear um tempo em que estas medidas tivessem de ser tomadas. Quem paga somos todos, não é o vizinho do lado. Mas a vitimização e os atestados de ignorância soam sempre melhor a quem julga viver num lugar transcendente onde tudo é possível se fecharmos os olhos e fizermos muita força.



publicado por jorge c. às 16:56
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Domingo, 5 de Setembro de 2010
Guerra semi-fria

O impasse da política portuguesa deve-se essencialmente a um jogo de estratégias eleitoralistas, ou de não-queda, financiado pelo PS e pelo PSD. Os socialistas tentam aguentar o poder com a táctica da diabolização, desta vez mais comedida, não passando de mera desonestidade intelectual e soundbites estafados. O PSD sabe que não pode ser parte do problema e que, por tal, não pode provocar a queda do governo. Nesse sentido, ameaça com ligeireza a reprovação do Orçamento de Estado.

Todo este tacticismo anacoreta perturba a concentração no essencial e alimenta a demagogia das facções mais descentradas. É um clima de guerra-fria entre medrosos, calculistas de berma-de-estrada e demagogos num país com um grande défice de interesse e de cidadania.



publicado por jorge c. às 12:19
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Sábado, 4 de Setembro de 2010
Uma tragédia

Nunca teci qualquer juízo sobre o processo Casa Pia. Nunca achei ou deixei de achar que este ou aquele eram culpados ou inocentes. Só um tonto pode achar alguma coisa baseado em nada ou, no máximo, na boateira do "eu conheço uma pessoa que...". Ainda bem que todos conhecemos pessoas, é bom sinal!

Chegados ao fim deste processo, não obstante a próxima maratona de recursos para instâncias superiores, resta comentar aquilo que verdadeiramente me preocupa em abstracto, aquilo que diz respeito à Justiça e ao seu reflexo social.

Foram 5 anos de julgamento. Foram ouvidas centenas e centenas de testemunhas (quase um milhar). Foram atirados na lama nomes de pessoas que nada tinham que ver com o processo e, mesmo as que tinham, foram-no sem qualquer fundamentação. Os magistrados foram postos em causa do primeiro ao último dia. Os advogados contribuíram mais do que ninguém para o atraso do andamento do processo. Os arguidos viram as suas vidas adiadas. As vítimas ficaram a aguardar. O país inteiro especulou, difamou e, mais do que tudo, duvidou. Duvidou e continua a duvidar, e é este o principal problema deste processo - a dúvida.

Feito um grande Otelo (façamos de conta que a Justiça é Desdémona), a partir deste processo, o país desconfia legitimamente do sistema. Será possível ser vítima de uma cabala tão rebuscada? Será possível que "nomes ligados à política" passem incólumes? Será possível lutar pela defesa do bom nome em Portugal? Podemos confiar na independência dos magistrados? Podemos confiar na boa-fé processual dos advogados? Podemos confiar na melhor diligência do MP? Podemos acreditar num sistema de Justiça? Podemos esperar que se faça justiça?

Tudo isto são questões legítimas que este processo levantou. Não me lembro de um tempo em que não se dissesse "isto está tudo mal" ou "os poderosos safam-se sempre" ou outras larachas do género. A verdade é que, com este caso, estas questões fazem todo o sentido. A dúvida está instalada. Ela é, agora, objectiva e inevitável. Não há alteração de legislação, mudança de liderança ou reforma do sistema que safe a imagem da Justiça portuguesa. Se o cidadão não acredita e rejeita a Justiça, ela não existe.

 

Adenda: este post do Funes, como sempre, também toca no essencial.



publicado por jorge c. às 08:45
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Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010
Algumas notas políticas dos últimos dias

1. O PCP apresentou Francisco Lopes como candidato presidencial. Era de esperar que o comunista fosse empurrado para algum lado, depois de nos últimos 2 anos ser responsável por alguns comunicados do seu partido. Era um sinal. Mas talvez surpreenda que tão fraca figura seja a cara do PC à mais alta magistratura da nação. Isto sugere-nos apenas que Cavaco tem cada vez mais a vida facilitada.

 

2. O Presidente da República, interrogado sobre a embrionária proposta de revisão constitucional que poderá ser apresentada pelo PSD, respondeu aos jornalistas perguntando se já havia entrado algo na Assembleia da República. É claro que mesmo que tivesse entrado, Cavaco diria que "não é altura para o PR comentar esta situação", como já vem sendo hábito, pois temos um Presidente que prefere comentar filamentos de vacas leiteiras. Mas, a verdade é que foi o único a dizer o óbvio. Ninguém pensou que fosse necessário, mas depois das constantes declarações diabolizadoras e populistas da esquerda, e sobretudo do PS, parece que foi mesmo necessário. A falta de honestidade intelectual é, a cada dia que passa, ainda mais assustadora.

 

3. Ahmadinejad revelou ao mundo o que anda por debaixo das saias do Irão - "um mensageiro da paz que mata". Não tendo prestado muita atenção às características do novo brinquedo de guerra, não posso deixar de reparar que esta postura do Irão face ao mundo inteiro acaba por ter muito menos impacto do que as execuções sumárias no grande público, ou pelo menos em parte dele, parte significativa e participativa. Também eu estive presente no Camões naquela vigília que tanta polemicazinha tem gerado na blogosfera (é de ficar de boca aberta, como bem nota Alexandre Homem Cristo, apesar do exagero do "ódio", pois eu chamar-lhe-ia mais palermice), mas no meio de tanta gente não ouvi ninguém tocar no assunto. Bem sei que não é um factor tão emocional. Ainda assim, se calhar um aviãozinho destes é capaz de violar uns quantos direitos humanos. Digo eu.

 

4. O CDS é um lugar estranho. Depois de nas últimas rentrées ter apostado na discrição, na sobriedade dos grupos de estudo e na necessidade de apresentar ideias longe de um discurso demagógico (foi esta a ideia com que fiquei, perdoem-me se estou errado), o Partido de Portas regressa ao circo das feiras e dos comícios inflamados, pondo tudo em alerta e ameaçando o governo sabe-se lá bem com o quê. É tudo tão confuso. Talvez seja este um dos motivos pelos quais nunca conseguirei votar num CDS em que Paulo Portas seja líder, ou até mesmo num CDS que aceita toda esta palermice.



publicado por jorge c. às 18:32
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Segunda-feira, 16 de Agosto de 2010
A seguir..

... esta série dedicada aos 50 anos da Guerra Colonial, por Irene Pimentel, alguém por quem nutro imenso respeito e admiração, de dia para dia, sempre um pouco mais; alguém com quem só se pode aprender.



publicado por jorge c. às 22:57
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Um ministério sem talento

Sabemos que estmos fora de Portugal quando vemos o património cultural bem preservado, devidamente indicado e disponível. O património é a nossa melhor fonte de memória colectiva. Protegê-lo e sustentá-lo é uma obrigação de todos e, como tal, do Estado.

Se há alguma coisa que o Ministério da Cultura deveria fazer era salvaguardar o património, gerindo a sua manutenção, que é algo substancialmente mais importante que comprar quadros ao sr. Berardo, não desfazendo.

Portanto, esta notícia reflecte o respeito que um país tem pela sua memória.



publicado por jorge c. às 12:13
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Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010
Um problema de carácter

Se a opinião pública serve para os governos e restantes partidos poderem formular o seu programa imediato, ela nunca pode servir como barómetro de nada. A opinião pública é, em regra, parcial, egoísta e despropositada. Tem-se visto isso mesmo em relação aos problemas que envolvem a Justiça. De repente temos milhares de especialistas em magistraturas. O que não temos, e deveríamos ter, é noção do ridículo e da ignorância. Podíamos perfeitamente colocar a questão deste modo: os portugueses combatem a sua própria ignorância com o ridículo.

Um dos vícios mais comuns da opinião pública é a descredibilização. Imagine-se uma figura de menor relevância que escreve num jornal. Durante determinado período de tempo, comentou sobre certa matéria, sendo que a sua opinião era favorável a um grupo e desfavorável a outro. O que é que faz a opinião pública? Há sempre alguém que conhece alguém. Há sempre alguém que conhece um especialista naquela matéria e que, por conseguinte, aquela pessoa não acerta uma e só diz mentiras. É, aliás, público que ela se transforma em Liliana Romanoff ou que come criancinhas ao pequeno almoço.

É sabido que a democracia é imatura, que os portugueses têm muita dificuldade em lidar com a opinião contrária sem fazer juízos de valor, subjectivos. É sabido que a parcialidade política é muito mais emocional do que ideológica, que a grande maioria dos portugueses desconhece profundamente a raiz e a evolução da sua ideologia política e que, em rigor, há pouca gente a discernir entre os elementos técnicos e os elementos políticos dos assuntos. O problema é que essa imaturidade ofende, é imoral. Dir-se-ia que a opinião pública é mal formada.



publicado por jorge c. às 11:14
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Domingo, 8 de Agosto de 2010
O vírus

O problema do "sistema" não é tanto o sistema em si. Se perguntássemos a todos os portugueses se gostam do actual regime de Estado-Providência em comparação com o que conhecem de outros regimes, arrisco-me a advinhar que uma maioria qualificada de 2/3 responderia que sim. Quer isto dizer que, em princípio, compreende-se que a base do regime não é mázinha de todo. Acontece que, com a sua evolução, há uma série de vícios que se vão entranhando e formando aquilo a que chamamos o "sistema". Esses vícios têm uma tendência viral. Uma vez que alguém o começou, o mais natural é que alguém o continue. Um bom exemplo disso é o entendimento que se dá à expressão real politik e a tolerância com a manipulação de consciências que daí nasce.

Quero com isto dizer que, em rigor, não é o "sistema" que simboliza o regime. É, sim, a perda de valores que serviam para o justificar que constitui a ideia de "sistema". Essa degradação justifica-se com o conformismo, e esse conformismo tem origem na sua característica viral que, como qualquer outro vírus, ataca discretamente sobre a capacidade de reacção das imunidades.



publicado por jorge c. às 11:10
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Sexta-feira, 16 de Julho de 2010
Crise interna

Apesar de não ter dados concretos, a realidade a que tenho acesso pode servir de exemplo. Empresas de amigos a fechar, amigos desempregados, processos judiciais até ao tecto por causa de créditos, insolvências e por aí fora. Esta conjuntura, nos seus meandros, não é apenas fruto de uma crise internacional. Parte destes problemas teriam sido resolvidos com diferentes políticas e muita gente poderia estar a enfrentar a crise internacional com outra capacidade. Dizer que está tudo bem e que, no fundo, Sócrates é o maior e só não salvou isto por culpa de terceiros, é gozar com estas pessoas. Ou então é não sair muito à rua. O que em muita gente se torna evidente.



publicado por jorge c. às 13:26
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Quinta-feira, 8 de Julho de 2010
Regionalização - para início de conversa

Por que se fala de regionalização?

Apesar de parecer de fácil resposta, a questão traz mais implicações que o tradicional romantismo político de descentralização. Sendo que falamos de Portugal, há várias coisas a ter em conta: a necessidade, as pessoas, o timing, a organização.

O tema começa sempre pelo regionalismo bacoco, pela rivalidade e pelo sentimento de inferioridade. É inevitável começar mal. A defesa da regionalização nunca foi sustentada pesando prós e contras, mas sim com matéria identitária e populista. Ora, como se pode defender em absoluto algo como a regionalização tendo em conta a qualidade dos nossos políticos no panorama partidário português, tanto na Assembleia da República como nas autarquias? Só a hipótese de caciquismo deixa logo muito que pensar. E se as pessoas nos deixam reticentes, imagine-se os meios, numa altura de profunda crise onde a má organização, o excesso burocrático, a saturação de funcionários públicos (lembremo-nos do recente congelamento e da eventual descida dos salários), a fiscalização e outros assuntos não são de ignorar.

É de notar também que o fim dos fundos comunitários apressa esta discussão e uma parte dos responsáveis até agora estará algo ansioso para lhe dar início. As regiões, vítimas de 30 anos de má política, estão a um passo de ficar sem a ajuda que, ainda assim, foi equilibrando as contas, não obstante os "projectos de interesse nacional" que levaram muito dinheiro que lhes estado destinado para Lisboa.

Estas questões não são, para já, argumentos contra ou a favor, mas sim tópicos de reflexão.



publicado por jorge c. às 10:20
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Domingo, 27 de Junho de 2010
Soares é fixe

Nestas homenagens ao dr. Soares ouvimos várias personalidades dizer que este homem era o pai da democracia e do nosso sistema parlamentar e mais não sei o quê. Bem, eu sei que o dr. Soares é pai do dr. João Soares, de resto não faço ideia. Lembrei-me então de uma entrevista dada por Melo Antunes em que este dizia claramente que houve um aproveitamento político da revolução por muita gente e que, por mais simpatia que tivesse pelo dr. Soares, ele não era pai de cosíssima nenhuma.

Até o Prof. Freitas do Amaral vem com aquela conversa de endeusamento do dr. Soares. Mas que grande patetice!

Considero Mário Soares um político fora de série e uma figura fundamental no quadro político que se começou a definir mesmo antes do 25 de Novembro. Mas, daí a endeusar-se um homem que cometeu inúmeros erros políticos e cuja relevância é tão grande como a de Ramalho Eanes ou Sá Carneiro, vai um passo muito grande. Mário Soares criou um mito que outros fazem questão de alimentar.

Este país adora estátuas.

 

 

Nota: Não posso deixar de referir a oportunidade desta homenagem a meses das presidenciais. Só por curiosidade.



publicado por jorge c. às 22:29
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