Domingo, 12 de Fevereiro de 2012
A nossa vida

A situação vivida, por estes dias, na Grécia, fez-me pensar como seria uma revolução no contexto da União Europeia. Poderia ser uma excelente obra de ficção: imaginar o povo europeu, em uníssono e em plena convergência de interesses, a rejeitar um poder que agride a sua paz social com imposições que excedem as suas possibilidades e que ferem a sua soberania. Os povos genuinamente solidários.

De que vale um projecto europeu que não se assume federalista e que ilegitimamente se impõe às soberanias? De que vale um projecto europeu que não dignifica, nem respeita a natureza da democracia e funciona, apenas, sob o primado da intransigência orçamental?

Quando um credor prevarica o agravamento da dívida, entramos no campo da usura. E por mais que eu acredite que os Estados têm de cumprir com as regras que subscreveram, há coisas muito mais importantes para salvaguardar. Nós, por exemplo. A nossa vida.



publicado por jorge c. às 23:05
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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011
Para uma ideia de Europa

As incertezas, vividas por estes dias, sobre o futuro da União Europeia reflectem, de certo modo, a falta de desígnio de um projecto que deixou de se discutir. Não pode haver projecto europeu sem um desígnio, sem objectivos perfeitamente definidos.

Os Estados-membros vivem, assim, uma crise existencial: deverão responder às exigências da União ou às exigências dos seus eleitores que, cada vez mais, desconfiam da direcção seguida? Havendo uma direcção, não é claro quem a esteja a liderar. A Comissão Europeia tem perdido voz de liderança para o eixo franco-alemão nas conversações diplomáticas.

É certo que em situações de emergência, discutir filosoficamente o futuro da UE não é uma prioridade. Contudo, se essa discussão não se tornar uma realidade e não apresentar soluções imediatas, é legítimo que países reféns dos seus próprios resgates financeiros, optem por abandonar um não-projecto e renascer das cinzas.

Em política, nada sobrevive sem um poder de decisão. Nenhum projecto é verdadeiramente um projecto sem definição de objectivos e regras imperativas, com uma estrutura hierárquica clara e inteligível. Assim, cabe aos Estados decidirem sobre o seu próprio futuro. Se isso significar o fim da UE, não é senão uma consequência lógica da falta de rumo.

Será caso para pegar num chavão, um tenebroso lugar comum que, agora, fará todo o sentido: as pessoas primeiro.



publicado por jorge c. às 22:05
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Sábado, 14 de Maio de 2011
Fora de jogo

Há umas semanas era capaz de admitir que o único partido com uma visão política europeia e com um discurso coerente sobre a Europa era o PS. Não tenho dúvidas que será o único, pelo menos, a ter esta discussão principalmente desde os trabalhos para o Tratado de Lisboa. O Governo adoptou, desde então, uma nova linguagem com dimensão europeísta. Mas, com a crise financeira, percebemos que essa linguagem concentrava-se apenas na perspectiva económica e de uma forma bastante técnica. Ou seja, de visão estratégica e de capacidade de discussão dessa visão com os parceiros europeus havia muito pouco.

Com o aparecimento dos programas eleitorais percebemos que afinal nem o PS mantém sequer a ilusão de que tem preocupações estratégicas na Europa para além das particularidades financeiras imediatas. Os partidos portugueses parecem não estar atentos ao que se passa dentro e com o espaço Schengen. A discussão sobre a livre circulação não chegou ainda às linhas orientadoras dos partidos para governar um país inserido numa realidade política maior. O ministro Silva Pereira ainda se pronunciou sobre as pretensões da Itália e de França de alterar as regras de Schengen afirmando que o Governo não se poderia pronunciar enquanto governo de gestão. Depois disso nem uma palavra.

A Europa não é um tema da moda, é a nossa realidade política. Para além do problema actual destas alterações à entrada e livre circulação, temos um problema de indefinição de poder político que será urgente resolver e que diz directamente respeito às soluções para uma crise financeira. As lideranças portuguesas não estão para aí viradas, o que diz muito da estrutura do pensamento político em Portugal, da sua falta de visão global e da sua cultura. Votar num partido sem uma ideia clara do que pensa sobre a Europa é votar numa brincadeira.



publicado por jorge c. às 12:00
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Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
Democracia às vezes

Eu nem sou de intrigas, mas o sr. Poul Rasmussen é uma pessoa com problemas, não é?

Em primeiro lugar, o Presidente do PS europeu acha que a Europa está mal entregue no Parlamento que é o único órgão que ainda é eleito democraticamente por todos os cidadãos europeus. Portanto, o sr. Rasmussen primeiro acha que os especuladores estão a desgraçar as democracias, mas depois não acha nada bem que pessoas escolham livremente o Parlamento que entendem. Uma pessoa até fica baralhada. Mas há aqui um padrão. Honra seja feita aos socialistas europeus que são todos muito coerentes: ou eles ou o fim. A democracia é fixe, mas só quando se vota nos socialistas. Mais à esquerda temos os radicais irresponsáveis; à direita, os conservadores maus que têm como objectivo último destruir a humanidade. Só os socialistas querem o nosso bem. Somos mal agradecidos.

É também interessante como Rasmussen considera que a Europa está nas mãos erradas pelo lado da imposição da austeridade. Eu não sei o que ele andou a fazer estes anos todos, talvez os seus camaradas saibam, mas a União Europeia não determina descricionariamente muitas das regras que o senhor tanto critica. São regras estabelecidas, assinadas e ratificadas em Tratados por todos os Estados-membros. Não quer isto dizer que elas estejam absolutamente correctas, também acho que não estão. Mas quer dizer que, pelo menos, devemos cumpri-las enquanto estão em vigor porque se queremos uma prática solidária temos de ser responsáveis e mostrar que o somos e não querer mudar de regras a meio do jogo sempre que não são do nosso agrado.

Mudar de regras, de rumo e de filosofia monetária importa, acima de tudo, responsabilidade e continuidade. Os socialistas parecem não saber o que isto é. A culpa, claro, é da democracia.


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Terça-feira, 15 de Março de 2011
Por um fio

Vivemos dias extraordinários. Este é o tempo de definirmos o pensamento político contemporâneo. Daí que tenhamos de nos focar naquilo que é o interesse superior do país e não só. A Europa hoje é uma parte fundamental da nossa narrativa política e dela dependemos, tal como ela depende de nós. Os partidos portugueses não podem esquecer isto. A pressa de chegar ao poder é inimiga do interesse nacional. A urgência em derrubar governos não é compatível com soluções imediatas. Daí que seja um pouco triste ver a histeria que por aí anda antes mesmo de terminar o primeiro trimestre.

O que também não pode acontecer é o governo ignorar por completo as instituições democráticas. Se é certo que cada Estado-membro tem de apresentar as medidas de contenção orçamental para os anos seguintes, também se torna claro que uma antecipação dessa apresentação tem de ser devidamente comunicada ao país. Quando isso não acontece a confiança perde-se e dificilmente é recuperada. O governo não é o Estado. O governo representa o Estado.

O que aconteceu nos últimos dias não tem explicação. Se por um lado é verdade que o novo pacote de medidas estava previsto e era do conhecimento de todos que teríamos de o fazer obrigatoriamente em Abril com o propósito de projectar o défice dos anos seguintes, também não deixa de ser verdade que esse esclarecimento nunca foi dado e que o governo, ao antecipar, tinha de o comunicar explicando as razões por que o fazia. Principalmente depois do discurso do Presidente da República e da apresentação da Moção de Censura.

Uma sociedade política não se faz apenas de urgências económicas, mas também de confiança política. Essa confiança já não existe e resta apenas a execução orçamental. Quando assim é temos de ser pacientes. Mas já não podemos ser complacentes com discursos de defesa governamental.

Ontem, José Sócrates fez o seu último discurso de vitimização.



publicado por jorge c. às 13:15
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Sexta-feira, 11 de Março de 2011
Presente e Futuro

"A zona euro continua a ser uma coleção dos Estados soberanos. Esse é que é o nó da questão."

 

Esta conclusão está lá bem no fundinho deste artigo e é, só por si, um artigo. Mas é interessante lermos o que se está a discutir em toda a Europa e observar a discussão ao nível pátrio. É claro que o Governo português tem razão quando diz que é de um provincianismo atroz discutir uma moção de censura sem referir o peso maior da crise internacional e a situação político-económica da União Europeia. Lemos e percebemos que há decisões políticas a tomar. Chegamos a um ponto em que o federalismo europeu tem de ser trazido à colação, de vez.

Para mim, enquanto soberanista, é difícil entrar neste assunto com imparcialidade, mas com o cenário actual só se pode enfrentar o bicho de caras. Há interesses superiores. O federalismo é uma solução. Mas, haverá outras soluções? Eu julgo que sim, que absorver politicamente o destino económico e social da União Europeia passa por ingerir na cultura e nos costumes de cada Estado-membro. É inevitável. E quando falo de cultura falo em todos os instrumentos industriais de fabricação - chamemos-lhe assim - cultural. Por isso tem de existir uma solução alternativa. Mas, isto seria uma outra discussão.

É importante agora compreender o que se vai passar no Conselho. Soubemos hoje que a Comissão Europeia está satisfeita com as medidas tomadas pelo Governo português, o que é um bom sinal nem que seja por uma questão de autoridade moral face aos nossos parceiros europeus. Nós fizemos a nossa parte, agora façam vocês a vossa. É tempo de parar uma pressão dos mercados que deixou de se justificar e que já não está ao nosso alcance responder.

Contudo, não se pode falar de Europa para umas coisas e negá-la noutros aspectos. A situação a que Portugal chegou talvez fosse evitável se o Governo tivesse percebido a tempo (em 2008) que era preciso interromper algum investimento e tomar algumas medidas de precaução. Não por causa dos assustadores mercados e do risco abstracto a que nos colocam agora mesmo, mas antes porque tinha um compromisso formal na contenção de contas públicas assumido com todos os Estados-membros, nomeadamente os limites do défice. A responsabilidade do Governo, nesta matéria, reside precisamente aqui. E não se pode esconder esta realidade com o argumento da "crise internacional". É uma desresponsabilização que tem de ser bem colocada em cima da mesa. Porque senão era escusado termos Governo. O problema é que isso seria dar razão a Manuela Ferreira Leite. Uma chatice.

Temos então três tópicos em cima da mesa: a responsabilidade interna do Governo; a resolução imediata do problema da dívida; e o problema nuclear do sistema político europeu.



publicado por jorge c. às 11:12
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Domingo, 27 de Fevereiro de 2011
Not searching for the real thing

Leio por aí que há muitas expectativas no encontro entre Sócrates e Merkel. Nos meios de comunicação social lê-se que os dois encontrar-se-ão para discutir a posição da Alemanha em relação à ajuda a Portugal. Mas ninguém parece querer saber qual a posição de Portugal em relação ao ritmo imposto pela Alemanha em termos fiscais e de crescimento económico. Das duas uma: ou o Governo português não tem uma posição para defender porque não tem força política na UE, ou os media não ligam muito a esse factor, o que me parece estranho já que a comunicação e assessoria do Governo é conhecida pela sua competência. Vou mais pela tese da nossa incapacidade de discutir a Europa com os nossos parceiros.

E se assim é, por que razão não aparece agora o PSD a assumir uma posição forte e consistente sobre a forma como Portugal deve enfrentar aqueles que lhe impõem regras desproporcionais? Como não haveremos de ficar com a sensação de que a nossa governação e a oposição estão a viver noutro universo?



publicado por jorge c. às 18:47
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Domingo, 6 de Fevereiro de 2011
De como Žižek está errado

O patusco Slavoj Žižek lá regressou com a sua habitual evangelização carregadinha de manipulação intelectual e preconceitos. Eu acho piada a Žižek, mas não posso deixar de notar esta sua tendência para a manipulação através de um discurso todo fixolas que a malta curte, tipo ya. Ora, como eu não curto, tipo ya, que a malta curta, tipo ya, achei por bem demonstrar como a ideia de fundo, de boa-fé, não é má de todo, mas o raciocínio e a justificação são absolutamente falsos. Isto não é uma discussão filosófica, por amor de Deus! Isto tem a ver com factualidade.

Portanto, diz-nos o nosso camarada: "Vamos lá romper o impasse da dicotomia entre liberais anémicos e extremistas". Porreiro. Por mim tudo bem. Mas, se formos lendo vemos que o único problema que Žižek tem é com os liberais-conservadores (suposição minha). É estranho, não é? Os extremistas até são capazes de se adaptar, os liberais é que andam a empatar isto tudo.

Mais à frente, como não poderia deixar de ser, vem a entrada a pés juntos a Cristo. O pobre desgraçado morre na cruz para a redenção dos pecados da rapaziada toda, mas ainda assim ele acha que o escandaloso Jesus só queria malta da dele. Claro. Todos nós sabemos que a teleologia cristã é promover o ódio. Eu julgava que a confusão entre a base do cristianismo e as atitudes da Igreja Católica tinha desaparecido no início do Séc. XX. Mas pelos vistos, ainda há quem use a mesma técnica usada pelos jacobinos do início do século. Ya, como está de se ver.

Aproveitando o facto de estar com a mão na massa, vamos lá falar dos conservadores, misturando com os liberais de forma a parecer que está tudo enfiado no mesmo saco. A malta da JCP normalmente não repara, e pelo que vejo, a do Bloco também não, tal é a ansiedade de concordar com o mestre. Estou a ser preconceituoso? Estou, porque eles merecem. Não sejam carneirinhos e a gente conversa. Até lá: aguenta, rapaz! (Esta referência ao Mário-Henrique Leiria foi só para competir com a do Chesterton para mostrar que nós também lemos cenas e assim).

Portanto, para o Žižek o facto dos conservadores insistirem "que cada Estado se baseia num espaço cultural predominante, que deve ser respeitado pelos membros de outras culturas habitando no mesmo espaço", significa automaticamente que se vão silenciar em relação ao racismo e perder a autocrítica. Claro, é uma lógica fortíssima. Como é que eu nunca pensei nisto? Ou seja, i conservador, que desejo que a minha comunidade se mantenha inalterada na sua estrutura, na sua cultura, através de um desenvolvimento sustentável de todas as suas premissas, serei um racista por negligência. Certíssimo quanto a honestidade intelectual e compreensão de posições ideológicas diferentes.

É claro que eu acredito numa sociedade integradora e que dê espaço ao outro: na sua religião, na sua cultura, no seu quotidiano. Todos os dias faço concessões. É esta a minha forma, e a de muitas outras pessoas, de aceitar uma Europa mais sofisticada e democraticamente madura. Mas é isso mesmo, eu faço concessões. Slavoj Žižek não faz. Para ele, o problema reside apenas num dos lados de uma barricada que ele continua a alimentar para beneficiar a sua narrativa ideológica. É um discurso radical que se manifesta na imposição das ideias a partir de manipulação preconceituosa. Em democracia, o espaço do diálogo não deve estar só limitado aos que concordam connosco. Ora, quando se atirou a Cristo, Žižek estava a projectar.



publicado por jorge c. às 10:58
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Sábado, 5 de Fevereiro de 2011
O Euro e a Alemanha solipsista

Angela Merkel, chanceler alemã, e Nicolas Sarkozy, presidente francês, que falaram à imprensa do seu pacto antes mesmo de o apresentarem aos parceiros durante o almoço de ontem, explicaram que o critério central deste pacto será alinhar todos os países com o mais bem sucedido. O que é encarado como uma forma de impor a disciplina alemã a todos os países europeus.

Ora, aqui está o real problema da estrutura político-económica da União Europeia, ou aquilo que alguns têm vindo a determinar como o problema sistémico da UE. Tenho tido esta conversa com algumas pessoas, em particular com o Paulo Coimbra, e chegamos sempre à conclusão - talvez única - que países com realidades político-económicas diferentes não podem obedecer aos mesmos graus ou critérios de exigência. A Alemanha tem de se capacitar que a integração europeia também passa por fazer cedências no campo solidário. Mas aqui não se trata já de uma questão de esforço e empenho, mas antes de uma impossibilidade. É como querer que um Mini carregue 4 toneladas com a mesma eficácia de um camião TIR. É esta a discussão que temos de ter antes de discutir investimentos públicos e afins: qual é o caminho estrutural que queremos dar à UE?



publicado por jorge c. às 13:20
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Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011
Reflexos

Não há nada como um espelho para alteração das percepções. A Shyznogud dá mais umas dicas de leitura.


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publicado por jorge c. às 18:53
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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011
They locked up a man who wanted to rule the world, the fools, they locked up the wrong man

Gostava imenso de saber mais de economia para poder compreender todas as desculpas possíveis para desresponsabilizar governos. É claro que eu discuto sempre da perspectiva da ignorância e longe de mim criticar gente tão informada e conhecedora das circunstâncias.

O meu problema é que eu tenho uma tendência para a assunção de responsabilidades em política, e por mais que a economia esteja sempre dependente das tais circunstâncias e se torne muito difícil prever o comportamento dessa corja de malfeitores que por aí anda à solta no mundo, não posso deixar de acreditar que a prudência e a responsabilidade são factores chave para a antecipação de problemas. Ufa, que grande frase...

Posto isto, restam-me algumas questões. O governo português, ao que se sabe, está integrado, juntamente com o Estado que representa, numa União Europeia. Assim de repente, o governo é bem capaz de estar a par das restrições orçamentais a que essa União obriga. Não será que, nesse sentido, seria de assumir a responsabilidade do não cumprimento daquilo a que se comprometeram perante os seus pares? Seria também interessante perguntar a razão de colocar a culpa num partido europeu. Tenho uma péssima memória e um arquivo pobrezinho mas, se não estou em erro, foi o actual governo que promoveu e assinou o Tratado de Lisboa, conhecendo os riscos  das imposições dos países mais fortes e conhecendo a estrutura política da UE. Se calhar aproveitava o facto de estarmos aqui todos e perguntava se faz sentido basearmos a nossa posição relativa a responsabilidade política em factores hipotéticos e sistemas financeiros que não existem, ou se era capaz de ser mais lógico responsabilizar a política pelo sistema real e efectivo em que ela assenta.

Em todo o caso, por amor de Deus, não quero estar aqui a pôr em causa a verdade do sistema financeiro que corrompe o homem e assumo desde já toda a minha ignorância. São só algumas questões que me surgiram durante a noite e nestas coisas devemos sempre falar para não ficar com nada cá dentro, não vá o diabo tecê-las.



publicado por jorge c. às 11:05
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Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011
"Uma ideia de Europa"

O Presseurop convidou 10 personalidades para escrever sobre uma ideia de Europa, entre as quais Gonçalo M. Tavares, Fernando Savater ou Anon Grunberg. A visão destas 10 personalidades é, felizmente, muito positiva e coloca a Europa num caminho cosmopolita que pode beneficiar todos os cidadãos europeus e até os que vierem de fora. Pede-se mais abertura, novos rumos com nova gente, uma atitude sofisticada e ao mesmo tempo solidária.

De certo modo, estas visões acabam por ter, na sua maioria, mais de utopia do que de realidade. Não digo isto com ressentimento, mas sim com preocupação. É possível que se sonhe demasiado e se deixe de dar atenção ao que se está a passar em tempo real.

Leia-se este exemplo de Loretta Napoleoni, economista italiana, que vê solidariedade nos motins londrinos do passado mês, vê uma atitude semelhante à do Maio de 68 nos jovens de hoje, por toda a Europa. Falamos, claro, dos mesmos jovens que deixaram passar a Convenção de Bolonha sem questionar as suas consequências no plano do conhecimento (a base estrutural de uma comunidade esclarecida), nomeadamente em matérias mais clássicas. Os mesmos jovens que assistem serenos às alterações da sua economia através de uma autoridade que não elegem e se resignam com a precariedade cada vez mais frequente no espaço europeu.

Comparar estudantes de há 40 anos com os de hoje é pura ficção. Senão vejamos uma particularidade do mercado contemporâneo: a especialização. Qualquer licenciado é, hoje, um técnico em área específica. É pouco provável que se olhe para a sua formação como uma mera base para um trabalho muito mais amplo e se lhe reconheça legitimidade para outras competências. No currículo de um jovem licenciado é mais importante o seu grau académico do que a experiência vivida e todas as suas actividades extra-curriculares. É evidente que aqui assumo uma questão pessoal, logo parcial. A verdade é que esta realidade não é uma invenção desse meu hipotético ressentimento e constitui - mais uma vez - um factor de preocupação dentro de um caminho impreciso.

Estamos longe de uma geração uniformizada com um carácter social e cultural nivelado por cima. Estamos ainda mais longe de uma uniformização económica dentro dessa geração. As possibilidades de circular não são as mesmas. As oportunidades existem, mas a possibilidade é outra coisa. E enquanto existir esse impedimento, seja cultural ou económico, as elites de hoje só poderão ser substituídas por novas elites e não por uma geração livre e solidária, como parece ser o ideário da economista italiana.

Devemos sempre alimentar este cosmopolitismo de proximidades, como tão bem descreveu Steiner. O que não podemos é ignorar o resto da fotografia.



publicado por jorge c. às 12:50
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Sábado, 25 de Dezembro de 2010
Ninguém deu por isso

No dia 21 de dezembro, o primeiro-ministro Viktor Orbán fez aprovar uma lei que limita a liberdade de imprensa. Porque é que ninguém na Europa fala nisto, numa altura em que a Hungria se prepara para assumir a presidência da UE?, pergunta o colunista do Gazeta Wyborcza, Jacek Pawlicki.



publicado por jorge c. às 16:19
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Sábado, 18 de Setembro de 2010
Aconteceu na Europa

Em 1506, depois de um longo período de peste e do consequente fervor religioso, Lisboa foi vítima de um dos maiores massacres da História de Portugal. Uma migalha fazia rebentar uma das mais sanguinárias operações de ódio de que há memória.

Entretanto, o mundo foi mudando, as mentalidades mudaram e consolidou-se a tolerância necessária à melhor convivência entre os homens dentro da sua diversidade identitária. Proclamámos o Direito como a nossa fonte de regulação em comunidade e o fiel depositário dos valores que entendemos como fundamentais. Chegámos mesmo, depois de cenários infernais, a declarar em conjunto numa Carta aqueles que julgamos serem os direitos universais do Homem e do Cidadão. Bastar-me-ia uma breve leitura pelos primeiros artigos desta Carta para compreender que o que se passou em Lisboa não faz sequer parte de uma escala actual de valores que se foram conquistando, em grande parte baseados numa experiência arrepiante, e que defendemos hoje como uma marca essencial da nossa civilização.

Por toda a Europa assistimos durante séculos a atentados sistemáticos ao outro. Perseguimos, discriminámos, ostracizámos, diminuímos, hostilizámos, massacrámos. E é exactamente dessa experiência e da necessidade de coexistir comunitariamente que nasce a União a que pertencemos, não parcial ou limitadamente, mas sim de plena cidadania. Somos hoje, enquanto cidadãos europeus, responsáveis e guardiões de uma História em construção - uma História de valores e de princípios muito bem definidos. Abrir o flanco ou perverter o espírito dessa História pode tomar proporções catastróficas.

Aquilo a que todos temos assistido em França nas últimas semanas não é um assunto de menor relevância nesta matéria, não é uma simples questão de política de imigração ou um tema de trato burocrático, nem tampouco uma divergência ideológica. Trata-se, pelo contrário, de matéria respeitante aos direitos civis universais e à dignidade da pessoa humana. E não falamos aqui do campo ideológico pois parece ser de senso comum que o que está escrito na Convenção para a Protecção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais é um conjunto de princípios gerais e abstractos que nos definem enquanto comunidade e não uma mera declaração ideológica (esquerda-direita) de apenas uma parte de nós.

Com efeito, parece-me que discriminar um grupo específico numa circular que pretende reflectir o procedimento administrativo adequado a uma determinada legislação é um acto que atenta contra esses mesmos princípios e que, portanto, fere o direito comunitário num dos seus pilares fundamentais. No mínimo.

Não irei aqui ensaiar um discurso sobre identidades e as suas ramificações, causas e consequências. Não é de todo a minha pretensão converter ignorantes em cidadãos conscientes. Posso apenas dizer que não é o gostar ou desgostar de um certo grupo de pessoas que está aqui em causa, mas o tratamento humano e político que lhe damos, a forma como aplicamos a nossa lei, a equidade da nossa Justiça. E foi exactamente nesse sentido que o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou de um modo bastante categórico que a lei é para ser cumprida e que a Comissão agirá sempre em conformidade com o Direito Comunitário.

É esta dogmática da lei que nos faz ter segurança institucional e acreditar que as conquistas civilizacionais serão preservadas. É esta dogmática que impede homens sem cultura europeia, sem consciência histórico-filosófica, homens como Nicolas Sarkozy ou José Sócrates, de banalizarem o mal operando administrativamente sobre os direitos fundamentais.



publicado por jorge c. às 09:25
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Segunda-feira, 14 de Junho de 2010
Depoimento de um rapaz europeu - 25 anos de aderente

Sou um rapaz português que cresceu mais tempo dentro da Europa do que fora dela. Como todos os outros rapazes e raparigas da minha geração fui ganhando expectativas. Mas, ao contrário dos senhores que dizem coisas relativamente importantes por esses meios de comunicação fora, não encaro o 25º aniversário da nossa adesão à UE como uma questão do interior para o exterior, mas sim o contrário.

 

O que ganhou Portugal? O que ganharam os portugueses? Certamente que muita coisa. Mas para a minha geração não é tanto o crescimento que interessa, mas sim o desenvolvimento do país em termos que nos permita crescer enquanto cidadãos e nos possibilite uma maior qualidade de vida. Olhando em volta reparamos com algum desgosto que a qualidade de vida dos portugueses pode ter melhorado no que diz respeito ao consumo, mas tem-se degradado psicologicamente e até socialmente. Há menos cidadania e há mais egoísmo e ressentimento.

 

Não se trata apenas da má aplicação dos fundos comunitários - a péssima, aliás - mas também da má aplicação das directivas, a desproporcionalidade, a insensatez e o desfazamento com que algumas directivas foram sendo aplicadas. Para não falar na intempestividade e na falta de autoridade moral.

 

Poucos se sentem europeus. Poucos se sentem com condições de se sentirem europeus. E esse problema da qualidade de vida que afecta essencialmente os mais idosos, as famílias de classe média cada vez menos média, os adolescentes na definição do seu futuro e os recém-licenciados vai projectar-se num desenvolvimento social e cultural insuficiente que não fortalece a Europa, mas sim que a distancia de si mesma e a enfraquece no seu espírito comunitário e na tão pretendida solidariedade.

 

Que contributo estamos nós a dar para o futuro desta Europa? Era esta pergunta que o Estado e os cidadãos deveriam fazer mais vezes. Porque sem um país sólido e solidário de nada adianta pretender uma Europa com as mesmas características.



publicado por jorge c. às 13:12
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Sexta-feira, 7 de Maio de 2010
Piores dias virão

Mais de 20 anos de más políticas, no que diz respeito à aplicação dos fundos comunitários, são parte do problema criado por Portugal para hoje ter índices de crescimento económico tão baixos. Sair de uma crise financeira exige uma estrutura de base que impulsione nos vários sectores a produção de bens que possibilite a criação de postos de trabalho, a capacidade de exportação e por aí fora. Portugal não tem onde se agarrar. A agricultura não existe, o tecido empresarial no Vale do Sousa, do Ave e da região de Setúbal e Alverca faliu. A falta de visão estrutural e global dos governos desde Cavaco Silva, passando por António Guterres, Durão Barroso e José Sócrates, que personificam o Estado nas suas decisões, conduziu o país a um ponto sem retorno.

 

A presença numa união monetária deve exigir responsabilidades. A senhora Merkel tem a sua razão quando, lá no aconchego da sua casa, pensa em expulsão de incumpridores. Os países da UE receberam muito dinheiro durante mais de 20 anos. Esse dinheiro não cai do céu. Restam três possibilidades: continuar na mesma e subsidiar os incumpridores, expulsar os incumprimdores da moeda única, correndo o risco de terminar com a União, ou então criar novas regras e políticas financeiras directas com poder de decisão orçamental.

 

Continuar na mesma conduzirá inevitavelmente a um decréscimo da qualidade de vida da maioria dos europeus, mesmo daqueles que hoje não sentem a crise com tanta gravidade, criando um abuso do princípio da solidariedade. Expulsar os países que entram em incumprimento da moeda única é um atentado contra esse princípio da solidariedade que norteia a União Europeia e seria condená-la ao fim. Uma nova política unitariamente mais agressiva e directa supõe a ingerência nas políticas orçamentais dos Estados-membros. O panorama político ficou dependente do panorama económico e preso aos seus desígnios. Não vale a pena culpar o capital, mas sim a ignorância na relação com o capital, a má relação com a realidade social e cultural dos países e a megalomania progressista e imprudente.

 

 

Adenda: acabo de ler este post curioso do Miguel Morgado que vai muito ao encontro do que aqui escrevi com a vantagem de ser mais rigoroso.



publicado por jorge c. às 13:27
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