Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014
uma ignorância letrada

As declarações do ministro da economia, António Pires de Lima, sobre a inadaptação da investigação centífica às exigências do mercado são um sintoma de uma determinada mentalidade que vai ganhando, cada vez mais, espaço na opinião pública, como um vírus. Para esta mentalidade, torna-se urgente transformar a relevância de uma matéria num equívoco simplista ao estilo ovo e galinha. Para qualquer mente mais esclarecida, não será difícil perceber que o conhecimento e a ciência são a origem do desenvolvimento. Qualquer resultado que hoje tenhamos, qualquer solução para um problema que se coloca à humanidade, parte de uma questão que é colocada. O exercício que pretendemos que nos conduza ao resultado final pode falhar. E nesse erro da investigação está, muitas vezes, o resultado em si mesmo. Até quando reflectimos sobre determinado assunto, podemos não chegar a conclusão alguma e esse ser, em si mesmo, um resultado. Ora, para aquela mentalidade, típica da nova-gestão, isto parece não fazer qualquer sentido, porque lhe parece inútil. O processo é inverso. Assim, serão os negócios que determinarão a utilidade (através da rentabilidade imediata) do conhecimento e da ciência. É como se a característica que distinguisse os seres humanos dos animais fosse a sua capacidade de bem suceder nos negócios e não a inteligência, e aqui voltamos à galinha e ao ovo. Começa por colocar-se uma falsa questão à sociedade: o que terá nascido primeiro, o negócio ou o conhecimento? Não adianta, neste ponto da discussão, lembrar sequer as mais importantes conquistas da investigação científica. Porque é esta mesma mentalidade que desvaloriza a constituição, os direitos civis, a cidadania, a História, a Filosofia, a Literatura ou a Biologia. Importa, contudo, questionar a sociedade sobre o que pretende para si: um mundo cuja última finalidade é o efémero crescimento económico (efémero porque não está ao nosso alcance controlar todas as suas premissas e, por isso, é passível de não acontecer) ou, antes, um mundo sem finalidade, que se constrói com solidez e se desenvolve harmoniosa e sustentavelmente.



publicado por jorge c. às 10:10
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2 comentários:
De táxi pluvioso a 25 de Janeiro de 2014 às 11:56
De facto esta ânsia que se vive pelo investimento, só pode ser vista como alguma salvação, para quem esqueceu o que se passou no início do milénio (para não ir mais atrás), em que o investimento em Portugal fugiu todo para leste, todos os dias fechavam fábricas, que também foram chamadas para cá com vantagens dadas pelo poder político da altura. E até mais recentemente, com o caso Pescanova, com direito a ministro, o primeiro, não mais, um luxo de investimento e progresso, agora acho que é um buraco na Caixa Geral de Depósitos. bfds


De Pedro Pereira a 26 de Março de 2014 às 10:14
Uma vergonha!


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