Da carreira política
Poderia ter mas não tem razão Alfredo Barroso, neste artigo ao qual cheguei através da Alda Telles. Poderíamos começar logo por desmontar o erro lógico do cronista quando este cita Mário Soares - o maior político profissional que o país conheceu desde o 25 de Abril. Ficávamos por aqui e a conversa acabava-se. Não seria sério nem pedagógico. E a nossa função aqui, na blogosfera, muitas vezes, é educar as massas como Arnaldo Matos, mas em bom, do lado do Bem da Força.
A oligarquização dos partidos só acontece por falta de cidadania. A lógica dos partidos é que as pessoas participem no debate público e se desloquem no seu circuito de conforto conhecendo deste modo os actores políticos que se disponibilizam para as representar. A existência numa sociedade democrática pressupõe, assim, duas premissas: cidadania e representatividade.
Posto isto, podemos avançar para a desconstrução do texto a partir desta relação ou até, se preferirem, interdependência. Nenhum partido sobrevive numa lógica de poder sem um aparelho partidário competente e eficaz. Quando falamos em aparelho (lato sensu) temos de pensar na estrutura organizativa, na agenda política, na salvaguarda do legado político-ideológico e na disposição perpétua para o sacrifício pessoal pela causa pública. Ora, nada disto é possível sem uma carreira política de preparação. Um político não tem de ser um técnico numa área específica, mas antes alguém capaz de fazer lobby por essa área juntando à sua volta os instrumentos mais eficazes para a sua concretização.
Chegados aqui, convém dizer que o exemplo que Barroso oferece ajuda-nos a realçar a importância da cidadania. O exemplo dado é, então, José Lello, como um apparatchik. É natural que devido à existência de personagens destas - péssimas, diga-se - se confunda a carreira política com o aparelhismo carreirista, aquela coisa dos cães de fila sem qualquer competência que não passam de carregadores de pianos com uma pseudo-retórica. Mas é exactamente neste tipo de político que temos de nos focar para compreender que só uma cidadania mais activa os faz desaparecer. Se forem expostos às necessidades das comunidades sendo obrigados a demonstrar as suas aptidões serão facilmente reduzidos à sua insignificância. É o Princípio de Peter. Numa sociedade mais informada e mais exigente isto é possível. Ou, como diria Cavaco Silva, a boa moeda afasta a má moeda.
E por falar em moeda, se calhar se pagássemos bem aos nossos políticos teríamos uma classe mais competente e poderíamos estar a colocar à frente dos mais aptos uma escolha que pudessem seguir, em concorrência com carreiras melhor remuneradas. Não seria também mau de todo discutir a lei de financiamento dos partidos. Porque normalmente esta conversa entra sempre por campos demagógicos e pensar o financiamento numa lógica positiva de remuneração dos seus funcionários, que no fundo estão ao serviço da democracia, pode ser uma solução.
O discurso anti-políticos baseado em figuras específicas é, todo ele, pura demagogia. Não tem consequência nem alternativa. Vive essencialmente da ideia de que alguém tem de ser culpado pelo "estado a que nós chegámos", um culpado com rosto e bem definido que nos ajude a aliviar as frustrações. Pois numa sociedade democrática convém perceber que, no limite, somos sempre todos responsáveis e que parte de nós, da nossa iniciativa individual, tentar melhorar o espectro para que possamos ser melhor representados. O resto é conversa de taberna.
