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Manual de maus costumes

Manual de maus costumes

15
Fev11

Da carreira política

jorge c.

Poderia ter mas não tem razão Alfredo Barroso, neste artigo ao qual cheguei através da Alda Telles. Poderíamos começar logo por desmontar o erro lógico do cronista quando este cita Mário Soares - o maior político profissional que o país conheceu desde o 25 de Abril. Ficávamos por aqui e a conversa acabava-se. Não seria sério nem pedagógico. E a nossa função aqui, na blogosfera, muitas vezes, é educar as massas como Arnaldo Matos, mas em bom, do lado do Bem da Força.

A oligarquização dos partidos só acontece por falta de cidadania. A lógica dos partidos é que as pessoas participem no debate público e se desloquem no seu circuito de conforto conhecendo deste modo os actores políticos que se disponibilizam para as representar. A existência numa sociedade democrática pressupõe, assim, duas premissas: cidadania e representatividade.

Posto isto, podemos avançar para a desconstrução do texto a partir desta relação ou até, se preferirem, interdependência. Nenhum partido sobrevive numa lógica de poder sem um aparelho partidário competente e eficaz. Quando falamos em aparelho (lato sensu) temos de pensar na estrutura organizativa, na agenda política, na salvaguarda do legado político-ideológico e na disposição perpétua para o sacrifício pessoal pela causa pública. Ora, nada disto é possível sem uma carreira política de preparação. Um político não tem de ser um técnico numa área específica, mas antes alguém capaz de fazer lobby por essa área juntando à sua volta os instrumentos mais eficazes para a sua concretização.

Chegados aqui, convém dizer que o exemplo que Barroso oferece ajuda-nos a realçar a importância da cidadania. O exemplo dado é, então, José Lello, como um apparatchik. É natural que devido à existência de personagens destas - péssimas, diga-se -  se confunda a carreira política com o aparelhismo carreirista, aquela coisa dos cães de fila sem qualquer competência que não passam de carregadores de pianos com uma pseudo-retórica. Mas é exactamente neste tipo de político que temos de nos focar para compreender que só uma cidadania mais activa os faz desaparecer. Se forem expostos às necessidades das comunidades sendo obrigados a demonstrar as suas aptidões serão facilmente reduzidos à sua insignificância. É o Princípio de Peter. Numa sociedade mais informada e mais exigente isto é possível. Ou, como diria Cavaco Silva, a boa moeda afasta a má moeda.

E por falar em moeda, se calhar se pagássemos bem aos nossos políticos teríamos uma classe mais competente e poderíamos estar a colocar à frente dos mais aptos uma escolha que pudessem seguir, em concorrência com carreiras melhor remuneradas. Não seria também mau de todo discutir a lei de financiamento dos partidos. Porque normalmente esta conversa entra sempre por campos demagógicos e pensar o financiamento numa lógica positiva de remuneração dos seus funcionários, que no fundo estão ao serviço da democracia, pode ser uma solução.

O discurso anti-políticos baseado em figuras específicas é, todo ele, pura demagogia. Não tem consequência nem alternativa. Vive essencialmente da ideia de que alguém tem de ser culpado pelo "estado a que nós chegámos", um culpado com rosto e bem definido que nos ajude a aliviar as frustrações. Pois numa sociedade democrática convém perceber que, no limite, somos sempre todos responsáveis e que parte de nós, da nossa iniciativa individual, tentar melhorar o espectro para que possamos ser melhor representados. O resto é conversa de taberna.

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