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Manual de maus costumes

Manual de maus costumes

03
Mar11

Infantilidades

jorge c.

Sou insuspeito de gostar do Primeiro-ministro. Mas há situações em que é impossível não tomar partido porque, em rigor, são questões mais abstractas. É o caso desta anormalidade da conversa anti-políticos. "Os políticos" parecem ser uma entidade medonha. Tudo porque um conjunto significativo de cidadãos, devido à ignorância e à frustração, não consegue discernir entre pequenos ódios pessoais de factos, de lei, de democracia, enfim, de regras. Uma das regras é a presunção de inocência. É claro que para um político há questões éticas e morais com mais peso e que têm de ser muito bem medidas. Mas também é válido para o lado que acusa. Senão, começávamos todos a insinuar coisas sobre todos os governantes e ficávamos - se calhar para gáudio de muitos - sem classe governativa, por nossa conta e risco, power to the people.

Vem isto a propósito de mais um raciocínio recheado de demagogia e incapacidade de sentido crítico objectivo e devidamente definido pelas regras e pelo bom senso. Comparar um plágio de uma tese de doutoramento, que é algo mais ou menos detectável, com uma licenciatura supostamente tirada ao Domingo (e digo supostamente porque existe a possibilidade de não haver implicação directa de José Sócrates) é desonestidade ou, no mínimo, desnorte. Isto porquê? Porque não há uma prova concreta que determine o dolo. Comparar qualquer coisa que seja com um membro do aparelho de Estado estar a passar férias quando se está perante uma das maiores crises políticas por falta de democracia no próprio local de férias, sem sequer se dar conta, é um disparate. Ainda que seja comparável (dou de barato a capacidade imaginativa dos cidadãos), são factos que dizem respeito a cada indivíduo e que devem ser escrutinados e avaliados individualmente e nunca presumindo que se trata de uma característica dos políticos em abstracto. Até porque a consciência moral será sempre diferente em cada indivíduo, muito embora haja um conjunto de valores definidos com carácter geral.

Tomar cada caso destes como um mecanismo para acusar a classe política portuguesa (vejam, é só aqui e nas grandes ditaduras, a comparação extraordinária a que esta conversa conduz) de falta de responsabilidade política é pura e simples demagogia. Há uma manipulação emocional para tentar chegar a uma conclusão política. Sem disfarces, sem grande sofisticação - pura demagogia. Os políticos em Portugal e em grande parte das democracias do mundo são chamados à responsabilidade das suas opções políticas na acto eleitoral. Quando existe alguma falha na conduta ética minimamente exigida deve, pelo menos, haver factos objectivos que suportem a tese da obrigatoriedade moral do abandono do cargo.

Para além disto tudo, misturar questões ético-morais de grande relevância na vida pública com "passar à frente de velhinhos" chega a meter pena por nem haver ponta de discussão possível tal a mediocridade da perspectiva. E como se sabe, não se explica a mediocridade aos medíocres.

Não ponho em causa de forma alguma que todos estes problemas sejam passíveis de ser verdadeiros. Mas também não ponho em causa que o não sejam. E esta dúvida não pode tombar para um dos lados por capricho, tem de ter um fundamento que a sustente.

É claro que eu gostava que José Sócrates fosse um bronco irresponsável e mentiroso em todos os aspectos da sua vida. É claro que eu gostava que Armando Vara ardesse empalado em Praça Pública. Mas o meu gosto particular por estes indivíduos ou a minha animosidade política, não pode interferir com o escrupuloso cumprimento das regras mínimas do bom senso e da ponderação. Temos uma classe política fraca ou até medíocre? Não digo que não. Este não é o Primeiro-ministro que deveríamos ter? De certeza absoluta que não. Mas não vale tudo e, acima de tudo, há que distinguir o essencial do acessório para uma discussão honesta.

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