Sol Poente
Quando o primeiro sol da Primavera se põe por detrás dos prédio que ocupam agora o minifúndio que separava a parte mais pobre da parte mais burguesa da vila que agora é cidade, a luz reflecte-se nas janelas e dá-se uma preguiça longa que nos faz descansar de uma tarde de discussões e insultos. O Zé Moreira diz sempre que aquilo parece um projector para o cenário. E a verdade é que ali, à boca de cena, inventaram-se histórias, fez-se música e poesia e teatro, discutiu-se o futuro da nação, escreveram-se compêndios de sebentas e até mesmo livros, pela pena do Prof. Baptista Machado, que viriam mais tarde a servir de apoio ao pensamento jurídico deste que vos escreve. Namorou-se muito e desfez-se muita coisa, também. Lugar de encontros e desencontro; de velhos, novos, ricos, pobres, mal afamados e aprumadinhos. O mesmo lugar onde há cerca de 40 anos uma mulher entrou sozinha pela primeira vez e isso foi motivo de surpresa, e onde agora três mulheres e apenas um homem assumem o volante com a destreza da longevidade. É lá que o café sabe melhor e os finos sabem a mel em tardes soalheiras como a de hoje, mesmo estando eu tão longe. É lá que a moedinha rola depois do almoço, na mesma mesa onde, mais tarde, a rapaziada veterana se junta para reviver o passado numa rede comprida: serviço, recepção, passe e ataque na saída. Ponto. AASM Académica. Quase que se ouviam os gritos a 700 metros, pela avenida onde passei os melhores anos da minha vida, de uma esquina à outra, do pinguinho à 1920. 20 anos de dedicação a um café que, como diz o Steiner, é a característica fundamental de uma Europa que se calhar já não existe; uma Europa de cafés e tertúlias prolongadas pelo calor da discussão. Sem merdas, que ali não há tempo para psicanálise.
à memória do Sr. Tiago e ao Sr. Gil
à D. Maria, à Manela, ao Gil e à Paula
aos amigos
