Não há tempo

Quando as referências começam a desaparecer, começamos a temer que algo de bom se perca, uma orientação, uma estrela. Há qualquer coisa de espiritual nas nossas referências. Olhamos para elas como criaturas abençoadas pela clarividência ou pela transcendência. E, nesse sentido, tem sido uma semana negra.
Hoje, vejo partir um homem que muito me ensinou. Mais do que a música que fez, da qual não sou propriamente um fanático, Jorge Lima Barreto foi o meu guia espiritual na compreensão da música, da sua história, da sua estrutura, da sua estética e da sua sociologia. Foi ele que me ensinou a pensar na música popular como um fenómeno sociológico e a abstrair-me dos hypes e dos underdogs para identificar aquilo que é verdadeiramente criativo.
Da sua obra, destaco a Anarqueologia do Jazz e Rock & Droga. Nestas duas obras compreendemos a importância da música popular na cultura civilizacional contemporânea. Lima Barreto foi um visionário e, mais do que isso, um pedagogo, apesar de incompreendido e pouco divulgado. Dizia-se que os eruditinhos da musicologia tinham renegado Lima Barreto por não considerarem a música popular contemporânea uma arte digna de ser estudada. Se assim foi, perdemos todos muito com essa ignorância e preconceito. Mas mais perdemos com o desaparecimento desta figura ímpar da nossa cultura, o eterno companheiro de Vitor Rua por esses becos sinistros e obscuros da música, da estética... enfim, da arte.
Não há tempo.
