Quarta-feira, 21 de Abril de 2010
O carisma dos resultados

O que faz uma empresa cativar os investidores? Os resultados, claro. Mas os resultados não são tudo. Os investidores precisam de sentir o carisma daqueles em quem estão a investir. Foi isto que aconteceu com o Benfica. Não são só os resultados mas a magnitude e a dimensão que eles atingem. É o clube com mais mercado, com mais procura e expectativa. No entanto, o factor emocional, que regula as decisões em matéria de futebol, é demasiado inconstante para que se possa contar com ele. Este sucesso, porém, pode ser aproveitado e repetido, basta pensar que isto é um negócio e não agir emotivamente na sua gestão



publicado por jorge c. às 19:34
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Política de montra

Luís Figo é, na minha douta opinião, o melhor jogador de futebol português no nível humano. Eusébio faz parte daquele grupo de jogadores que adoptaram a forma humana só para chatear os pobres mortais. Daí que aquilo que se exige a Figo é que a sua vida pública se limite ao futebol que é aquilo que ele sabe fazer melhor que qualquer outro. Ninguém quer saber das opiniões políticas de Figo. Já nos basta Pedro Marques Lopes ou Luís Delgado como comentaristas de vacuidades.

 

Tornou-se um vício fazer campanha política com figuras públicas, sejam desportistas, actores, músicos, etc. A sua participação roça, grande parte das vezes, a mediocridade. Para os políticos é óptimo ter uma celebridade a seu lado. Para a celebridade é importante mostrar que também é uma pessoa que sente a dor do homem comum e que pensa. Acontece que o cidadão comum gosta de um actor ou de um futebolista por aquilo que ele faz na sua profissão. Ninguém quer saber o que é que a celebridade tem a dizer uma vez em cada quatro anos sobre as obras públicas ou o serviço nacional de saúde.

 

Mas esta tendência é cada vez mais forte e agora até temos uma deputada que é actriz. Não que um actor tenha menos capacidade que outro cidadão qualquer para exercer o cargo. Por amor de Deus, até José Lello é deputado. Mas a verdade é que ficamos sem perceber qual é a fronteira entre o mediatismo e a relevância política e se é aceitável que, por motivos meramente eleitorais, as cadeiras do Parlamento comecem a ser ocupadas por manequins de montra de pronto-a-vestir, só para enfeitar (e até os podemos vestir ao nosso gosto).

 

O problema com Inês de Medeiros não é o que o Estado se dispõe a pagar para as suas deslocações. O problema da deputada independente é não ter noção da sua posição enquanto deputada e não perceber as prioridades que o cargo impõe. Mais uma vez estamos perante uma questão ética ou falta de noção da realidade, sendo que este é um dos mais preocupantes sinais do descrédito da classe política.



publicado por jorge c. às 14:08
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Segunda-feira, 19 de Abril de 2010
A ler

Este post lúcido do Prof. Menezes Leitão sobre Baltazar Garzón.


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publicado por jorge c. às 13:13
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Os verdadeiros gestores públicos

Uma notícia que passará certamente despercebida aos olhos dos críticos das remunerações de gestores como António Mexia é esta, da injecção de mais de 10 milhões de euros numa empresa municipal - a EPUL. Três anos a bater com a cabeça nas paredes em situação de falência técnica, mas um dos administradores acha normal porque - e passo a citar - "Não se trata de uma cervejeira, em que a produção sai diariamente". Pois se calhar o problema são administradores cervejeiros, merceeiros, incompetentes para a gestão de negócios desta natureza. Todos nós sabemos que o mercado não está famoso, mas será só esse o problema? Não estará a política conduzida pela empresa municipal errada no seu alvo, na sua forma ou até mesmo no seu objecto? Que falta faria esta empresa municipal? É que três anos de prejuízos avultados coma  consequência que está à vista é muita coisa e, de certa forma, começa a ser um hábito, um mau hábito.

 

Noutra parte da notícia ficamos também a saber que o Estado gastará o mesmo valor nas celebrações do centenário da República. Que bom! Estamos todos de parabéns! Mas onde não há dinheiro para pão se calhar também não deveria haver para rebuçados, palhaços e foguetes. O exemplo que o Estado dá nestas ocasiões é óptimo para nos afundarmos ainda mais naquilo que é a noção de responsabilidade e prioridade. Bem sei que a esquerda gosta da memória anti-poder, mas talvez esta não seja a melhor altura para caprichos.



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Domingo, 18 de Abril de 2010
nuvens

Domingo é um bom dia para leituras. No entanto, parece que este não está lá muito famoso. Pelo menos na blogosfera, onde a preocupação é a terrível troca de palavras entre dois politiquinhos que todos nós permitimos que chegassem ao lugar que ocupam, as remunerações de gestores de empresas privadas com participação do Estado e uma dúzia de outros faits-divers, as leituras não são muito recomendáveis. A preocupação do país é com tudo aquilo que não é de facto importante. São pequenas nuvens que provocam aguaceiros rápidos e agressivos que nada dizem sobre o estado real do tempo, lembrando um pouco esta nossa Primavera temperamental.

 

Pela Europa uma outra nuvem parece assumir o tópico de atenções. Não, não falo da crise grega e da especulação sobre o who's next?, mas sim da nuvem de cinza que está a dificultar a circulação de pessoas por causa da total falta de visibilidade. De repente, a ideia de Europa foi ameaçada por uma causa maior que apanhou desprevenido o velho continente e cujas alternativas podem não ser uma solução desejável ou até mesmo viável. Numa era de velocidade e rapidez de comunicação serão as formas mais tradicionais de circular que constituem a única solução possível para que as pessoas não fiquem retidas. Lembro, assim, as palavras de George Steiner nesse seu famoso ensaio "A ideia de Europa":

"A Europa foi e é percorrida a pé. Isto é fundamental. A cartografia da Europa é determinada pelas capacidades, pelos horizontes percepcionados dos pés humanos. Os homens e as mulheres europeus percorreram a pé os seus mapas, de lugarejo em lugarejo, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade. O mais das vezes as distâncias têm uma escala humana, podem ser dominadas pelo viajante que se desloque a pé, pelo peregrino até Compostela, pelo promeneur, seja ele solitaire ou gregário. Há extensões de terreno árido, proibitivo; há pântanos; os alpes elevam-se. Mas nada disto constitui um obstáculo intransponível."

No fundo trata-se de uma questão de prioridades que estabelecemos ao longo do tempo e às quais chamamos progresso. Talvez a prudência nos devesse obrigar a reservar alternativas baseadas nessa memória física da circulação, ou melhor, naquilo que mais nos aproxima.



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Sábado, 17 de Abril de 2010
rumba de sábado à noite


publicado por jorge c. às 12:20
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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010
LEV

Dia 19 17 de Abril começa a Literatura em Viagem, uma iniciativa da Câmara Municipal de Matosinhos que contará com conferências, mesas de debate, apresentações de livros e workshops. É um evento de grande valor para o concelho e que merece toda a divulgação possível mas que padece de um pequeno problema. Chamemos-lhe, aliás, limitação. É que se formos ver o programa percebemos que em 5 3 dias de evento (muitos dias e ainda bem) há uma única deslocação para fora da cidade de Matosinhos, para a freguesia de S.Mamede de Infesta não há qualquer deslocação fora da cidade de Matosinhos. Num concelho grande como é o de Matosinhos seria de esperar que houvesse alguma itinerância e que aqueles que devem ser o principal alvo destas iniciativas (os mais novos) fossem atingidos na sua zona de conforto. A cultura bem definida e localizada é uma forma de dar consistência às comunidades porque o que é importante nas gerações futuras é que elas identifiquem a sua zona de conforto como uma mais valia e não como um sítio a abandonar mais tarde - uma inevitabilidade fatalista. Com uma comunidade culturalmente forte poderemos ter um bom mercado. Não pensar isto é não pensar de uma forma global.



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Quarta-feira, 14 de Abril de 2010
O triunfo da justiça popular na opinião pública

Se por um lado o objectivo do direito processual é gerar um certo número de garantias e regras formais para um processo mais objectivo, justo e equitativo, em confronto com a justiça popular, por outro lado o direito substantivo vai criar um conjunto de formas e consequências do crime que pretendem reflectir aquela que seria a intenção objectiva, justa e equitativa da comunidade não fosse dar-se o caso de estar demasiado ocupada com a justiça popular.

O abuso sexual de menores é, nestes termos, um dos crimes que mais passa pela tentativa de justiça popular. O problema nuclear dessa justiça é que ela não está preocupada com as consequências do abuso sexual (o ferimento da autodeterminação sexual dos menores e do desenvolvimento da sua personalidade) mas antes com as causas e, sobretudo, com os eventuais causadores.

A falta de sensibilidade jurídica, intuitiva ou empírica, que o cidadão cada vez mais revela é um índice preocupante da falta de sentido do regime, da falta de rumo e de valores gerais e abstractos.



publicado por jorge c. às 18:41
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laicismo

Uma das coisas que mais gostava de ver era a não intromissão do ateísmo nos assuntos do Estado. O ateísmo provoca o desfasamento entre o Estado (o seu povo e a sua história) e a sua maior referência cultural e espiritual. Sou muito favorável ao laicismo do Estado e, como tal, não acho tolerável que um movimento ateu continue a infantilizar a sua política e a sua forma de compreender a liberdade religiosa.



publicado por jorge c. às 11:21
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Terça-feira, 13 de Abril de 2010
Salvem a Ler

A especulação sobre o negócio entre o Direct Group e a Bertlesmann é cada vez maior. A minha questão prende-se apenas com o seguimento que se irá dar a determinado tipo de negócios que o grupo alemão vinha aguentando até agora como a revista Ler. Temos todos noção de que a Ler não tem condições de ser um negócio rentável. Não há mercado para tal. A verdade é que a revista é a única referência de divulgação literária sem barreiras, sem questões partidárias subentendidas, com uma linguagem acessível e com caras novas distantes de certo corporativismo. Perdê-la é também perder um instrumento de divulgação plural e de grande qualidade, um dos nossos melhores instrumentos de cultura.

Por favor, salvem a Ler.


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publicado por jorge c. às 13:57
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Um mito

Vou considerar que é apenas falta de conhecimento político, uma certa ignorância, e abdicar da ideia de má-fé que tenta tomar conta do meu discernimento em relação ao mito de que a instabilidade dentro do PSD se deveu à não inclusão de adversários de Ferreira Leite nas listas para deputados.

Em primeiro lugar, e para não perder mais tempo com falhas de memória, é preciso não esquecer que Manuela Ferreira Leite foi eleita presidente do PSD há quase dois anos. Nessa altura, o seu principal adversário - Pedro Passos Coelho - não aceitou muito bem a derrota e continuou a fazer de conta que estava em campanha contra a líder do partido (ah, a unidade, a unidade), entrando num jogo de conferências e entrevistas programadas pelo seu gabinete de comunicação que pelos vistos se relacionava muito bem com o jornalista Francisco Almeida Leite do Diário de Notícias (que poderão também ler aqui) e com o líder da distrital do Porto do PSD, Marco António Costa, que é agora (surprise!) vice-presidente do partido.

Em segundo lugar, talvez não fosse de ignorar que MFL sabia, como toda a gente sabia, que era muito difícil vencer eleições contra José Sócrates numa altura em que se criou um certo entricheiramento da sociedade - os que apoiam Sócrates e os que não apoiam. Logo, é natural que, em caso de ganhar eleições, o PSD estaria representado na AR por uma maioria relativa e que, como tal, era de esperar que a bancada estivesse com a líder do partido e não contra. Seria portanto lógico que MFL chamasse a si aqueles em que depositava mais confiança política e não a criatura que lhe andou a minar o terreno durante dois anos sem parar.

O que temos aqui é uma falácia, um resultado falso na soma de um conjunto de factos que continua a contribuir para a necessidade de fulanização de que Passos Coelho tanto precisa para derrotar Sócrates. Isto não é política, é um jogo de vaidades pessoais.

Há quem goste de ser enganado. Eu não faço muita questão.



publicado por jorge c. às 12:23
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maus costumes

Dois pesos e duas medidas será a expressão mais adequada para o estado da opinião pública de hoje. Estamos a viver, e é cada vez mais evidente, um tempo onde não se discutem princípios mas sim pessoas (singulares ou colectivas). A fulanização da crítica é uma realidade demasiado perturbante para a podermos ignorar. Seja a Igreja, a política partidária ou outra coisa qualquer, tudo se trata como futebol, com o clubismo, com a parcialidade e dualidade de critérios que o caracterizam, e bem, exactamente por ser fruto de critérios emocionais e não racionais de reflexo social.

Não se pode continuar neste esquema de debate de ideias. Não é possível discutir com quem ataca quando é o seu adversário emocional que está em causa e que, quando se trata do seu aliado, branqueia ou defende com argumentos contrários, relativizando as circunstâncias. Os dois exemplos mais mediáticos - a pedofilia na Igreja Católica e o caso dos submarinos e do governo PSD/CDS - são paradigmáticos neste sentido. E é transversal, como se de uma guerra identitária se tratasse, uma luta de elites que já perderam noção dos valores que defendem e se deixam contaminar pelas proximidades emocionais ou corporativas. Ninguém se safa. É um triste espectáculo sectário.


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publicado por jorge c. às 12:02
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Segunda-feira, 12 de Abril de 2010
Da dignidade

A morte de Nascimento Rodrigues trará, certamente, muitas homenagens de reconhecida justiça. Aqueles que melhor conhecem o percurso do ex-Provedor de Justiça fá-lo-ão com muito mais rigor do que eu. No entanto, não posso deixar de o assinalar aqui com uma pequena nota para chamar à atenção daquilo que foram os últimos 2 anos da vida pública do venerando jurista.

Com efeito, é de todo lamentável que apesar dos seus apelos para abandonar o cargo, com a legitimidade que o conferia o fim de mandato, o Estado português entrasse numa vaga de indecisão prejudicando não só a vida pessoal de Nascimento Rodrigues como também o funcionamento de uma das instituições cruciais da democracia portuguesa e, acima de tudo, do contacto mais próximo que o cidadão pode ter com a justiça do seu país.

Trata-se, em rigor, de um atentado à dignidade de qualquer cidadão. A forma como não abandonou responsabilidades que já não lhe competiam formalmente faz deste homem um exemplo de dedicação à causa pública - o exacto oposto daquilo que lhe fizeram.

Que agora, pelo menos, saibam homenageá-lo com o respeito e admiração que não tiveram quando mais precisou.



publicado por jorge c. às 18:12
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Domingo, 11 de Abril de 2010
O homem sem qualidades

Julgo não ter ouvido mal. Pareceu-me claro que o que Pedro Passos Coelho disse no seu discurso de encerramento do congresso do PSD foi que Paulo Teixeira Pinto, presidente da Causa Real, ia conduzir uma comissão que iria estudar alterações à Constituição da República. Se não fosse um assunto sério até dava para rir. E, de facto, foi um momento cómico bem conseguido, não obstante o disparate.

 

Outro momento de que também gostei foi quando o Dr. Passos Coelho perguntou indignadíssimo por que razão eram as direcções dos partidos a escolher os representantes dos cidadãos na Assembleia da República. Ora, talvez o Dr. Passos Coelho tenha faltado à aula de Ciência Política, mas não seria mau de todo se lesse o capítulo dos catch all parties e - por que não, meu Deus? - já agora do nascimento do conceito de partido e do seu significado numa democracia plural.

 

Passos Coelho é uma espécie de rede social que vai seguindo com atenção os seus "amigos", absorve o estado geral das intenções e comunica pelos lugares comuns que gregos & troianos pretendem ouvir. Do liberalismo ao centro esquerda corre uma longa passadeira de ideias soltas que apanha quem puder. E na onda de entusiasmo os social-democratas esquecem-se, ou não se apercebem (já vimos este filme no PS), que tudo isto não passa de demagogia barata e sem sentido algum, a avaliar pelos dois exemplos acima dados.



publicado por jorge c. às 14:20
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Sábado, 10 de Abril de 2010
A hipocrisia de Passos Coelho

Um fim-de-semana tão bonito e esta gente enfiada num congresso. Eu vou seguindo em modo intermitente, mas pelo que já deu para perceber o PSD entrou em loop de hipocrisia. Para além da repetição dos lugares-comuns e das propostas surrealistas que começam a ser um traço fundamental da abordagem política de Passos Coelho, temos agora um discurso de unidade em que o líder social-democrata pede encarecidamente ao partido que não lhe faça o mesmo que ele andou a fazer à direcção cessante nos últimos dois anos. E o mais estranho é que o partido acedeu a esta espécie de estalinização moral em que o novo líder, depois de ter usado métodos muito pouco éticos e de ter sido desleal, vem agora impor uma conduta contrária aos seus opositores com um enorme descaramento e um moralismo serôdio.

Parece que estamos condenados a uma continuação da política mais hipócrita e incoerente em benefício da ideia de alcançar o poder pelo poder. Eu, pelo menos, não me revejo neste tipo de gente.



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Sexta-feira, 9 de Abril de 2010
a memória é tramada

Talvez o Francisco Mendes da Silva não se recorde, mas em Novembro de 2007 também se ouviram 4 fabulosos contra o FC Porto. A memória é uma coisa tramada. E ainda há tão pouco tempo levaram 5. Enfim... nem vale a pena gastar mais tinta com a doença alheia. Em Maio na baixa!


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publicado por jorge c. às 19:30
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maus costumes

Existem duas formas de discutir política em todas as suas variantes (direito, economia, sociologia, etc.). A primeira é a menos comum e passa por pensar um assunto não como o nosso gosto pessoal mas sim como o bem geral ou a necessidade geral, para já não falar da realidade em detrimento do wishful thinking. A segunda é a projecção das nossas subjectividades emocionais para dar relevo a uma ideia. Ora, sendo esta a mais comum das formas de discutir política parece ser certo que maior parte das vezes não vale, simplesmente, a pena. Quem acha que uma sociedade se regula por factores emocionais subjectivos, pelas características singulares de um indivíduo que pensa emocionalmente, não tem condições para discutir ou aceitar contraditório. A sua opinião será sempre clubística.


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publicado por jorge c. às 17:43
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O despropósito de Vale de Almeida

"O Tribunal Constitucional não dá razão ao presidente da república". É assim que Miguel Vale de Almeida encara o sistema político português. Pelo Presidente da República (vamos ignorar a infantilidade de um deputado da nação ter escrito em minúsculas propositadamente só para chatear) ter feito aquilo que constitucionalmente é expectável e que lhe compete, ainda para mais tratando-se de um tema delicado e que não reúne consenso em toda a sociedade, como qualquer pessoa intelectualmente honesta verifica com facilidade, por esse simples facto, dizia, Miguel Vale de Almeida acha que está aqui uma questão de razão. Eu compreendo que em antropologia não se adquiram muitas noções de Direito, mas já é de desconfiar quando este entrincheiramento identitário conduz um deputado a escrever publicamente um despropósito deste tamanho sobre o sistema político, o qual deveria conhecer melhor do que ninguém, tanto pelo lugar que ocupa como pelo seu conhecimento académico.

 

Em primeiro lugar, o Presidente da República é uma entidade que é eleita directamente pelos portugueses e que, como é sabido, representa um dos maiores garantes da Constituição, sendo considerado até o seu guardião. Daqui se retira que não foi Cavaco Silva - o monstro que odeia homossexuais - que enviou um diploma da Assembleia da República - the horror! the horror! - para que o Tribunal Constitucional se pronunciasse quanto à sua constitucionalidade. Isto é um procedimento mais do que comum naquela que é a profissão de Presidente da República e que não passa, para infelicidade de muita gente, por andar a perseguir grupos específicos.

 

Passado este pedaço que irritou Vale de Almeida & companhia lda. - veja-se lá, um PR pedir o controlo da constitucionalidade num diploma que mexe, de certo modo, com Direitos Fundamentais relacionados com a família - o deputado independente a termo certo não compreendeu muito bem como é que o sistema funciona e por que é que existem dois tipos de veto: o político e o constitucional. E eles existem exactamente porque, se for por uma questão de razão ou de opinião, o PR tem a faculdade de o vetar politicamente. Não usa o veto constitucional como um mero instrumento para esse efeito. Pensar que o faz é desacreditar na totalidade o princípio da separação dos poderes e o valor efectivo do Tribunal Constitucional e a independência dos seus juízes.

 

É natural que um deputado independente que tem como hábito entrincheirar posições para as suas pequenas guerras identitárias se refira a estas situações deste modo leviano. Dir-se-ia até pouco democrático. No entanto, é para mim intolerável que um deputado o faça com tão má-fé ignorando todo o respeito que a Presidência da República lhe deve merecer enquanto representante do povo. Ainda para mais quando o faz desta forma dissimulada e provocadora, o que não ajuda de forma alguma ao regular funcionamento e relacionamento institucional.

 

Por último, não é demais acrescentar que a matéria em questão - o casamento entre pessoas do mesmo sexo - é uma opção política. Não foi essa dúvida que o PR suscitou, certamente, ao TC. Mas é mais fácil colocar assim as coisas porque, enfim, há que abater Cavaco Silva, nem que seja por ele comer de boca aberta e não ser moderno. Nem que para isso se desrespeite a Presidência da República, o princípio da separação dos poderes e, em última análise, o povo português.



publicado por jorge c. às 13:04
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Quinta-feira, 8 de Abril de 2010
Da família

A discussão sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo suscitou nos últimos dois anos uma outra discussão sobre o conceito de família.

Esta guerra maniqueísta e despropositada assentou sempre em erros lógicos e em falta de objectividade jurídica de ambas as partes. Dominadas por um excesso de emoções e fervor pseudo-ideológico, as campanhas levadas a cabo por determinados grupos estiveram até hoje, e provavelmente daqui em diante também, despidas de qualquer sensatez e compreensão do movimento natural das sociedades. Chamemos-lhe endocentrismo, no sentido de que é um preconceito que nasce do desconhecimento do seu próprio meio e uma consequente projecção da sua percepção subjectiva e condicionada do mesmo.

 

O conceito de família é um conceito que está em permanente evolução. A família pode ser uma zona de afectos ou simplesmente um vínculo de sangue. E dentro dessa zona de afectos, de uma convivência forte e consistente, ela tem de ser protegida objectivamente porque vai introduzir o elemento de estabilidade social tão pretendido pela comunidade. Na nossa evolução civilizacional achou-se que a forma que mereceria mais atenção seria a família tradicional pois ela sugeria, em abstracto, uma maior estabilidade contribuindo assim para um equilíbrio social. É hoje entendido que outras formas que a família foi adoptando voluntaria e involuntariamente não são menores do que aquela que define a família tradicional. No entanto, são inegáveis as suas diferenças e o objecto da protecção.

 

O objectivo do Direito é definir bem as linhas que distinguem as posições jurídicas subjectivas. É por isso que não faz sentido inserir no mesmo naipe um amigo e um irmão enquanto sujeitos hierarquicamente equivalentes à luz do Direito. O meu sentimento de proximidade a um amigo pode ser mais forte do que de um irmão, mas o que a lei deve proteger inicialmente é o parentesco porque é aquele que mais se aproxima de uma consistência abstracta e determinável pela comunidade. No fundo, é este o sentido daquilo a que chamamos instituição ou pilar civilizacional. Se não compreendermos, pelo menos, este princípio base dificilmente compreenderemos todo o resto e em particular o casamento civil. E sem compreender o casamento civil como é que é possível discuti-lo?



publicado por jorge c. às 11:49
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Terça-feira, 6 de Abril de 2010
A grande ilusão

Diz-se que a necessidade aguça o engenho. Em Portugal aguça a ilusão. Qualquer coisa, aliás, aguça a ilusão em Portugal: uma moda qualquer, uma novidade... o progresso, meu Deus, o progresso!

Desta vez a crença está nas exportações. Há um grupo indefinido de cidadãos portugueses que está convencido que a solução é exportar. E de facto nós temos exportado imensa gente, pessoas, que infelizmente não têm o valor de mercado pretendido. Uma chatice, esta coisa dos Direitos Humanos. À quantidade de gente que sai estávamos ricos e a esta altura o país prosperava.

Porém, a realidade é outra e a pergunta que se deve fazer é: exportar o quê?

Há alguma coisa para exportar? Que condições têm as empresas para exportar? Se o grosso do tecido empresarial português são PME's não seria adequado certificar-mo-nos de que existe volume de negócio para isso, que existe capacidade de produção para isso? E com quem se vai competir, estarão as empresas portuguesas no mesmo pé de igualdade?

Um país trapalhão (desenrascado, como lhe chamam), sem cultura de exportação, a braços com uma tremenda falta de crescimento económico, que durante anos delapidou o seu património agrícola e cultural convencido de que era o progresso, um país onde existe cada vez menos solidariedade e noção de função social das empresas, um país destes quer ter ambição nas exportações? Há aqui qualquer coisa que não faz sentido.



publicado por jorge c. às 12:14
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