Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Manual de maus costumes

Manual de maus costumes

21
Abr10

O carisma dos resultados

jorge c.

O que faz uma empresa cativar os investidores? Os resultados, claro. Mas os resultados não são tudo. Os investidores precisam de sentir o carisma daqueles em quem estão a investir. Foi isto que aconteceu com o Benfica. Não são só os resultados mas a magnitude e a dimensão que eles atingem. É o clube com mais mercado, com mais procura e expectativa. No entanto, o factor emocional, que regula as decisões em matéria de futebol, é demasiado inconstante para que se possa contar com ele. Este sucesso, porém, pode ser aproveitado e repetido, basta pensar que isto é um negócio e não agir emotivamente na sua gestão

21
Abr10

Política de montra

jorge c.

Luís Figo é, na minha douta opinião, o melhor jogador de futebol português no nível humano. Eusébio faz parte daquele grupo de jogadores que adoptaram a forma humana só para chatear os pobres mortais. Daí que aquilo que se exige a Figo é que a sua vida pública se limite ao futebol que é aquilo que ele sabe fazer melhor que qualquer outro. Ninguém quer saber das opiniões políticas de Figo. Já nos basta Pedro Marques Lopes ou Luís Delgado como comentaristas de vacuidades.

 

Tornou-se um vício fazer campanha política com figuras públicas, sejam desportistas, actores, músicos, etc. A sua participação roça, grande parte das vezes, a mediocridade. Para os políticos é óptimo ter uma celebridade a seu lado. Para a celebridade é importante mostrar que também é uma pessoa que sente a dor do homem comum e que pensa. Acontece que o cidadão comum gosta de um actor ou de um futebolista por aquilo que ele faz na sua profissão. Ninguém quer saber o que é que a celebridade tem a dizer uma vez em cada quatro anos sobre as obras públicas ou o serviço nacional de saúde.

 

Mas esta tendência é cada vez mais forte e agora até temos uma deputada que é actriz. Não que um actor tenha menos capacidade que outro cidadão qualquer para exercer o cargo. Por amor de Deus, até José Lello é deputado. Mas a verdade é que ficamos sem perceber qual é a fronteira entre o mediatismo e a relevância política e se é aceitável que, por motivos meramente eleitorais, as cadeiras do Parlamento comecem a ser ocupadas por manequins de montra de pronto-a-vestir, só para enfeitar (e até os podemos vestir ao nosso gosto).

 

O problema com Inês de Medeiros não é o que o Estado se dispõe a pagar para as suas deslocações. O problema da deputada independente é não ter noção da sua posição enquanto deputada e não perceber as prioridades que o cargo impõe. Mais uma vez estamos perante uma questão ética ou falta de noção da realidade, sendo que este é um dos mais preocupantes sinais do descrédito da classe política.

19
Abr10

Os verdadeiros gestores públicos

jorge c.

Uma notícia que passará certamente despercebida aos olhos dos críticos das remunerações de gestores como António Mexia é esta, da injecção de mais de 10 milhões de euros numa empresa municipal - a EPUL. Três anos a bater com a cabeça nas paredes em situação de falência técnica, mas um dos administradores acha normal porque - e passo a citar - "Não se trata de uma cervejeira, em que a produção sai diariamente". Pois se calhar o problema são administradores cervejeiros, merceeiros, incompetentes para a gestão de negócios desta natureza. Todos nós sabemos que o mercado não está famoso, mas será só esse o problema? Não estará a política conduzida pela empresa municipal errada no seu alvo, na sua forma ou até mesmo no seu objecto? Que falta faria esta empresa municipal? É que três anos de prejuízos avultados coma  consequência que está à vista é muita coisa e, de certa forma, começa a ser um hábito, um mau hábito.

 

Noutra parte da notícia ficamos também a saber que o Estado gastará o mesmo valor nas celebrações do centenário da República. Que bom! Estamos todos de parabéns! Mas onde não há dinheiro para pão se calhar também não deveria haver para rebuçados, palhaços e foguetes. O exemplo que o Estado dá nestas ocasiões é óptimo para nos afundarmos ainda mais naquilo que é a noção de responsabilidade e prioridade. Bem sei que a esquerda gosta da memória anti-poder, mas talvez esta não seja a melhor altura para caprichos.

18
Abr10

nuvens

jorge c.

Domingo é um bom dia para leituras. No entanto, parece que este não está lá muito famoso. Pelo menos na blogosfera, onde a preocupação é a terrível troca de palavras entre dois politiquinhos que todos nós permitimos que chegassem ao lugar que ocupam, as remunerações de gestores de empresas privadas com participação do Estado e uma dúzia de outros faits-divers, as leituras não são muito recomendáveis. A preocupação do país é com tudo aquilo que não é de facto importante. São pequenas nuvens que provocam aguaceiros rápidos e agressivos que nada dizem sobre o estado real do tempo, lembrando um pouco esta nossa Primavera temperamental.

 

Pela Europa uma outra nuvem parece assumir o tópico de atenções. Não, não falo da crise grega e da especulação sobre o who's next?, mas sim da nuvem de cinza que está a dificultar a circulação de pessoas por causa da total falta de visibilidade. De repente, a ideia de Europa foi ameaçada por uma causa maior que apanhou desprevenido o velho continente e cujas alternativas podem não ser uma solução desejável ou até mesmo viável. Numa era de velocidade e rapidez de comunicação serão as formas mais tradicionais de circular que constituem a única solução possível para que as pessoas não fiquem retidas. Lembro, assim, as palavras de George Steiner nesse seu famoso ensaio "A ideia de Europa":

"A Europa foi e é percorrida a pé. Isto é fundamental. A cartografia da Europa é determinada pelas capacidades, pelos horizontes percepcionados dos pés humanos. Os homens e as mulheres europeus percorreram a pé os seus mapas, de lugarejo em lugarejo, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade. O mais das vezes as distâncias têm uma escala humana, podem ser dominadas pelo viajante que se desloque a pé, pelo peregrino até Compostela, pelo promeneur, seja ele solitaire ou gregário. Há extensões de terreno árido, proibitivo; há pântanos; os alpes elevam-se. Mas nada disto constitui um obstáculo intransponível."

No fundo trata-se de uma questão de prioridades que estabelecemos ao longo do tempo e às quais chamamos progresso. Talvez a prudência nos devesse obrigar a reservar alternativas baseadas nessa memória física da circulação, ou melhor, naquilo que mais nos aproxima.

16
Abr10

LEV

jorge c.

Dia 19 17 de Abril começa a Literatura em Viagem, uma iniciativa da Câmara Municipal de Matosinhos que contará com conferências, mesas de debate, apresentações de livros e workshops. É um evento de grande valor para o concelho e que merece toda a divulgação possível mas que padece de um pequeno problema. Chamemos-lhe, aliás, limitação. É que se formos ver o programa percebemos que em 5 3 dias de evento (muitos dias e ainda bem) há uma única deslocação para fora da cidade de Matosinhos, para a freguesia de S.Mamede de Infesta não há qualquer deslocação fora da cidade de Matosinhos. Num concelho grande como é o de Matosinhos seria de esperar que houvesse alguma itinerância e que aqueles que devem ser o principal alvo destas iniciativas (os mais novos) fossem atingidos na sua zona de conforto. A cultura bem definida e localizada é uma forma de dar consistência às comunidades porque o que é importante nas gerações futuras é que elas identifiquem a sua zona de conforto como uma mais valia e não como um sítio a abandonar mais tarde - uma inevitabilidade fatalista. Com uma comunidade culturalmente forte poderemos ter um bom mercado. Não pensar isto é não pensar de uma forma global.

14
Abr10

O triunfo da justiça popular na opinião pública

jorge c.

Se por um lado o objectivo do direito processual é gerar um certo número de garantias e regras formais para um processo mais objectivo, justo e equitativo, em confronto com a justiça popular, por outro lado o direito substantivo vai criar um conjunto de formas e consequências do crime que pretendem reflectir aquela que seria a intenção objectiva, justa e equitativa da comunidade não fosse dar-se o caso de estar demasiado ocupada com a justiça popular.

O abuso sexual de menores é, nestes termos, um dos crimes que mais passa pela tentativa de justiça popular. O problema nuclear dessa justiça é que ela não está preocupada com as consequências do abuso sexual (o ferimento da autodeterminação sexual dos menores e do desenvolvimento da sua personalidade) mas antes com as causas e, sobretudo, com os eventuais causadores.

A falta de sensibilidade jurídica, intuitiva ou empírica, que o cidadão cada vez mais revela é um índice preocupante da falta de sentido do regime, da falta de rumo e de valores gerais e abstractos.

14
Abr10

laicismo

jorge c.

Uma das coisas que mais gostava de ver era a não intromissão do ateísmo nos assuntos do Estado. O ateísmo provoca o desfasamento entre o Estado (o seu povo e a sua história) e a sua maior referência cultural e espiritual. Sou muito favorável ao laicismo do Estado e, como tal, não acho tolerável que um movimento ateu continue a infantilizar a sua política e a sua forma de compreender a liberdade religiosa.

13
Abr10

Salvem a Ler

jorge c.

A especulação sobre o negócio entre o Direct Group e a Bertlesmann é cada vez maior. A minha questão prende-se apenas com o seguimento que se irá dar a determinado tipo de negócios que o grupo alemão vinha aguentando até agora como a revista Ler. Temos todos noção de que a Ler não tem condições de ser um negócio rentável. Não há mercado para tal. A verdade é que a revista é a única referência de divulgação literária sem barreiras, sem questões partidárias subentendidas, com uma linguagem acessível e com caras novas distantes de certo corporativismo. Perdê-la é também perder um instrumento de divulgação plural e de grande qualidade, um dos nossos melhores instrumentos de cultura.

Por favor, salvem a Ler.

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Um blog de:

Jorge Lopes de Carvalho mauscostumes@gmail.com

Links

extensão

  •  
  • blogues diários

  •  
  • media nacional

  •  
  • media internacional

    Arquivo

    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2013
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2012
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2011
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2010
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D