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Manual de maus costumes

Manual de maus costumes

18
Set10

Aconteceu na Europa

jorge c.

Em 1506, depois de um longo período de peste e do consequente fervor religioso, Lisboa foi vítima de um dos maiores massacres da História de Portugal. Uma migalha fazia rebentar uma das mais sanguinárias operações de ódio de que há memória.

Entretanto, o mundo foi mudando, as mentalidades mudaram e consolidou-se a tolerância necessária à melhor convivência entre os homens dentro da sua diversidade identitária. Proclamámos o Direito como a nossa fonte de regulação em comunidade e o fiel depositário dos valores que entendemos como fundamentais. Chegámos mesmo, depois de cenários infernais, a declarar em conjunto numa Carta aqueles que julgamos serem os direitos universais do Homem e do Cidadão. Bastar-me-ia uma breve leitura pelos primeiros artigos desta Carta para compreender que o que se passou em Lisboa não faz sequer parte de uma escala actual de valores que se foram conquistando, em grande parte baseados numa experiência arrepiante, e que defendemos hoje como uma marca essencial da nossa civilização.

Por toda a Europa assistimos durante séculos a atentados sistemáticos ao outro. Perseguimos, discriminámos, ostracizámos, diminuímos, hostilizámos, massacrámos. E é exactamente dessa experiência e da necessidade de coexistir comunitariamente que nasce a União a que pertencemos, não parcial ou limitadamente, mas sim de plena cidadania. Somos hoje, enquanto cidadãos europeus, responsáveis e guardiões de uma História em construção - uma História de valores e de princípios muito bem definidos. Abrir o flanco ou perverter o espírito dessa História pode tomar proporções catastróficas.

Aquilo a que todos temos assistido em França nas últimas semanas não é um assunto de menor relevância nesta matéria, não é uma simples questão de política de imigração ou um tema de trato burocrático, nem tampouco uma divergência ideológica. Trata-se, pelo contrário, de matéria respeitante aos direitos civis universais e à dignidade da pessoa humana. E não falamos aqui do campo ideológico pois parece ser de senso comum que o que está escrito na Convenção para a Protecção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais é um conjunto de princípios gerais e abstractos que nos definem enquanto comunidade e não uma mera declaração ideológica (esquerda-direita) de apenas uma parte de nós.

Com efeito, parece-me que discriminar um grupo específico numa circular que pretende reflectir o procedimento administrativo adequado a uma determinada legislação é um acto que atenta contra esses mesmos princípios e que, portanto, fere o direito comunitário num dos seus pilares fundamentais. No mínimo.

Não irei aqui ensaiar um discurso sobre identidades e as suas ramificações, causas e consequências. Não é de todo a minha pretensão converter ignorantes em cidadãos conscientes. Posso apenas dizer que não é o gostar ou desgostar de um certo grupo de pessoas que está aqui em causa, mas o tratamento humano e político que lhe damos, a forma como aplicamos a nossa lei, a equidade da nossa Justiça. E foi exactamente nesse sentido que o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou de um modo bastante categórico que a lei é para ser cumprida e que a Comissão agirá sempre em conformidade com o Direito Comunitário.

É esta dogmática da lei que nos faz ter segurança institucional e acreditar que as conquistas civilizacionais serão preservadas. É esta dogmática que impede homens sem cultura europeia, sem consciência histórico-filosófica, homens como Nicolas Sarkozy ou José Sócrates, de banalizarem o mal operando administrativamente sobre os direitos fundamentais.

13
Set10

Bodin is dead, baby. Bodin is dead.

jorge c.

Pouco ou nada se falou na necessidade de, a partir de agora, o Orçamento de Estado ser aprovado por Bruxelas. Talvez não seja um assunto muito sexy, mas ainda assim custa-me que em pleno centenário da República não se discuta amplamente um dos princípios estruturantes da Constituição da República, anteriores a ela própria, ou seja, da Carta Constitucional de 1822 - o Princípio da Soberania Popular.

Portanto, se bem entendemos, o que se passa é que para o nosso orçamento ser aprovado, ele terá de ir a Bruxelas receber autorização. Portanto, pessoas em quem nós não votamos vão decidir sobre a gestão dos nossos recursos e da sua escassez. Se isto não é uma ingerência consentida, então não sei o que é. Gostava de compreender o júbilo de alguns.

12
Set10

Educar para a saúde

jorge c.

Acabo de ver Philadelphia pela décima vez, aproximadamente. Perdi a conta ao número de vezes que revisitei o filme. Se o Muro tinha sido um acontecimento significativo na minha visão mais universal, este filme foi fundamental para a minha educação enquanto homem e enquanto cidadão. Em 1993 tornava-se claro para mim que era preciso informar, divulgar e, mais do que tudo, educar. Em 2010 ainda se discute se a educação sexual é um bom ou um mau tema para darmos às nossas crianças, porque, tal como em 1993, ainda não se compreendeu que é de saúde que estamos a falar e não de intimidade.

 

12
Set10

A ler

jorge c.

A Irene Pimentel, mais uma vez (qualquer dia crio uma etiqueta com o nome dela).

Neste post, a Irene faz a gentileza de inserir afirmações num contexto histórico e factual e não inventa comparações descontextualizadas e extemporâneas. Estou sempre a aprender com a Irene. Note-se, também, a questão que coloca inicialmente no que diz respeito ao formato entrevista para um historiador, feito nos termos em que o foi. Isto é muito relevante. Valorizar uma afirmação nesse contexto como uma coisa escabrosa é, no mínimo, pateta, para todos os lados. Haverá certamente um livro que justifique o que o autor disse. Algo que tenha que ver com o contexto histórico aqui narrado pela Irene Pimentel. Mas alguém leu a biografia? Por que é que se está a entrar nesta vaga de tratar a entrevista como se fosse a biografia em si mesma?

Já agora, eu também podia colocar a questão como "Salazar fascista?". A seguir tinha de ir perguntar a historiadores como o Prof. Rosas que disparate era esse. Tanto preciosismo político para umas coisas e para outras nicles batatóides. Vai ficar tudo bem.

11
Set10

O dogma do anti-dogma

jorge c.

Quando fiz este post sobre a biografia de Salazar já contava com este tipo de reacções (à biografia, não ao post, par Deus). Não sei se a Fernanda já teve oportunidade de ler a biografia feita por Filipe Ribeiro Menezes, mas quase que aposto que isso é indiferente. Para a Fernanda parece bastar a sua vontade histórica.

O romantismo de Delgado, aquela ideia sonhadora do General sem medo pelas ruas do Porto, não passa disso mesmo - romantismo. Eu respeito isso. Mas parece que para uma certa mentalidade é mais fácil continuar a romantizar do que ouvir o que se tem a dizer sobre o tema, dar pelo menos uma oportunidade a quem o estudou. Como diz e bem o João Miranda sobre o mesmo assunto: "Eu não sei se Salazar era um “democrata-cristão convicto”, mas quem passou 7 anos a estudar Salazar não fui eu, foi o Filipe Ribeiro Menezes. Para se manter um nível adequado ao debate intelectual talvez seja melhor perguntar-lhe porque é que ele pensa assim. Ou então ler o livro."

A esquerda portuguesa tem muitos dogmas para resolver.

11
Set10

Acordar com Nova Iorque

jorge c.

A década de oitenta acabou mais cedo do que se esperava. A falsa festa decadente e yuppie do ocidente foi interrompida pela Queda do Muro. "O Muro está a cair" foi a primeira frase que me marcou, e a imagem de gente a precipitar-se na ânsia da mudança, numa noite fria, no meio de lágrimas e silêncios aliviados, é a fotografia que abre a minha década.

Cresci e fui adolescente num mundo livre onde o dinheiro caía do céu, a informação circulava cada vez mais rápida e onde se respirava paz. Tinha todos os motivos para me tornar etnocêntrico. A Europa era agora uma lição de democracia e os Estados Unidos uma fonte de inspiração. Mas estava na moda ser multicultural. A minha geração, ou todos aqueles que beberam os anos 90, achou que ser multicultural era comer "comida étnica", ouvir "world music" e ser solidário com as criancinhas em África usando uma t-shirt branca em hora e data a definir. Felizmente também li e ouvi muita música e comi muitas coisas diferentes. Tive foi a sorte de tentar compreender o outro, estivesse ele no outro lado de um outro muro ou mesmo a meu lado, na minha Europa livre.

Pensar de uma forma global e diversa, plural e tolerante, foi meio-caminho para acreditar que finalmente tudo estaria no sítio.

A 11 de Setembro de 2001, dez anos escorreram pelo cano abaixo. Vi o mundo mudar entre uma gigante nuvem de cinzas que trouxe o ódio, o terror, o medo, a paranóia, a conspiração, a demagogia, o preconceito, a inquietação, a perseguição, a desconfiança, a vergonha, o moralismo e nos mandou para trás, quando já não pensávamos lá voltar, para uma guerra-fria que mói e nos destrói todo o sentido de Humanidade que julgamos estar sempre a conquistar.

 

05
Set10

Guerra semi-fria

jorge c.

O impasse da política portuguesa deve-se essencialmente a um jogo de estratégias eleitoralistas, ou de não-queda, financiado pelo PS e pelo PSD. Os socialistas tentam aguentar o poder com a táctica da diabolização, desta vez mais comedida, não passando de mera desonestidade intelectual e soundbites estafados. O PSD sabe que não pode ser parte do problema e que, por tal, não pode provocar a queda do governo. Nesse sentido, ameaça com ligeireza a reprovação do Orçamento de Estado.

Todo este tacticismo anacoreta perturba a concentração no essencial e alimenta a demagogia das facções mais descentradas. É um clima de guerra-fria entre medrosos, calculistas de berma-de-estrada e demagogos num país com um grande défice de interesse e de cidadania.

05
Set10

NFL

jorge c.

Está de volta a liga de futebol americano. Depois de uns meses de pausa, a NFL regressa e com alguns resultados surpreendentes. Ainda é cedo, mas já dá para fazer algumas previsões de como começará este ano. Centremos, para já, as atenções nos Saints, vencedores do Super Bowl. A equipa mantém-se praticamente a mesma, o que, depois de um campeonato consistente e coeso como o do ano passado, é um excelente sinal. Mas, este primeiro jogo foi um jogo de azares para a equipa de New Orleans, com as lesões. Uma derrota sofrida, mas ainda assim um jogo espantoso, de grande resistência e dedicação. Arrisco dizer que em New Orleans a glória chegou para ficar e teremos mais um bom ano de football*.

Os especialistas parecem mais apostados numa “época dos Cardinals”, apesar de alguns problemas de balneário, nomeadamente em relação a Matt Leinart. É uma equipa forte, sem dúvida, mas o football é um desporto de persistência e consistência. Sem uma equipa solidária e disposta a morrer em campo é muito difícil chegar à grande final. Quanto aos Giants e aos Steelers, já se sabe, começam sempre as épocas galvanizados com grandes vitórias e depois é sempre a descer.

A liga poderá ser acompanhada durante todo o ano na televisão por cabo, no canal ESPN. Com paciência irei falando dela ao longo do ano. Só podemos dizer “thank you, cable”!

 

 

*Refiro-me assim para não provocar confusões.

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Jorge Lopes de Carvalho mauscostumes@gmail.com

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