Terça-feira, 12 de Outubro de 2010
O culto do chefe

Independentemente dos cenários possíveis após a votação para o Orçamento de Estado, há algo que se torna cada vez mais evidente: há um vazio de potencial governativo em Portugal. O desgaste do Primeiro-ministro dá-nos a entender que é pouco provável que este aguente a legislatura toda. Confesso que acreditava que era possível, mas a situação agravou-se e Sócrates perdeu (ou pelo menos parece-me que perdeu) dinâmica de liderança.

É provável que dentro do PS surja uma crise identitária na era pós-Sócrates. Este não é um tema novo. Prevê-se que o PS passe pelo mesmo que o PSD passou depois de Cavaco. Tornar-se-á necessário eleger alguém para liderar os socialistas. Esta necessidade é um vazio de poder.

Concluímos com facilidade que o culto da personalidade dentro dos partidos provoca esse mesmo vazio. E é exactamente na disputa intra-partidária que ele nasce. Seja no PS ou no PSD, no PCP ou no CDS, todos os partidos sem excepção escolhem um líder e não uma comissão política e uma proposta de poder. É claro que, quando chegam as legislativas, os eleitores vão escolher o Primeiro-ministro, dando mais valor à figura que lidera do que ao conjunto de pessoas que patrocinam um projecto político. Veja-se que Passos Coelho até dizia há dias que não tinha pressa de se candidatar a Primeiro-ministro. A tendência para esta situação é tal, que o líder do PSD até se esquece que no sistema eleitoral português ninguém se candidata a Primeiro-ministro.

Perante este cenário real percebe-se a gravidade dos cenários hipotéticos de que falava no início e em todos os outros em qualquer outra circunstância. O sistema semi-parlamentar em que vivemos precisa de uma efectividade material. Para isso é necessário que o Povo o realize. O que acontece é que estamos a viver num sistema semi-presidencial onde existem, em rigor, dois presidentes. O enfraquecimento de um pela conjuntura financeira e de outro por questões formais das limitações ao seu poder - a proximidade das presidenciais e o impedimento de dissolução do Parlamento - faz com que se gere instabilidade na forma de executar o poder. Quando nos limitamos a substituir um deles não estamos a mudar nada, estamos apenas a contribuir para a decadência do sistema.

Seria importante que esta discussão fosse levada a sério dentro dos partidos. Receio que este meu desejo de nada valha, pois torna-se óbvio que a preocupação dos aparelhos é alimentar este sub-sistema cada vez mais dominante. A crise também passa por aqui.



publicado por jorge c. às 16:58
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Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010
Direitos de personalidade

Reparei, por acaso, numa polémica em redor de Letizia Ortiz. Ao que parece, um jornalista escreveu uma biografia não autorizada da Princesa das Astúrias em que revela as suas orientações políticas e uma parte significativa da sua vida privada. Desconheço o tom mas suspeito que seja, em tudo, depreciativo.

Também por cá há um hábito de expor a vida das figuras públicas com má-fé. Na política, apesar de não ser tão frequente como noutros círculos, esta exposição tem sempre o objectivo de denegrir e descredibilizar o alvo. Aconteceu com Francisco Sá Carneiro e mais recentemente com Pedro Santana Lopes e José Sócrates, por exemplo.

Quando analisamos o espírito dos direitos de personalidade, nomeadamente o direito à imagem e à reserva sobre a intimidade da vida privada, vemos que as figuras públicas estão sujeitas a uma maior exposição, fruto da sua notoriedade, e que torna essa exposição inevitável. Mas a lei reconhece limites. É certo que estes limites estão carregados de subjectividade, mas bastaria um pouco de bom senso para que determinadas situações, como aquelas que colocam Letizia Ortiz numa posição desconfortável, fossem não só reprovadas pelos próprios pares como punidas pela lei.

A exploração da intimidade da vida privada é uma das formas mais imorais de fazer política. Ela é, também, uma arma perigosa da demagogia. Mais do que isto, trata-se de uma ofensa muitas vezes insanável da identidade e da personalidade das pessoas que não merece qualquer desculpa. Repito, trata-se de uma imoralidade.

Num momento negro do nosso espaço público é preciso discutir, de vez, matérias como esta sem o tom sectário que costuma reinar. A lei é feita para todos e não deve servir apenas conveniências.



publicado por jorge c. às 19:47
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O problema de Portugal, afinal, sempre são os portugueses

Quando o lume aumenta a culpa morre solteira. O estado actual da política portuguesa resumir-se-ia muito bem numa simples palavra: desresponsabilização. Já vimos de tudo nos últimos anos. Nunca tínhamos era visto culpar uma massa geral e abstracta - o povo.

Deixem-me primeiro dizer que compreendo bem o que o autor do texto linkado quis dizer, sendo que chego mesmo a concordar com parte substancial do seu raciocínio e partilho até o mesmo cinismo. O que não consigo entender é o seguinte: como é que se consegue colocar responsabilidades, ainda que indirectas, de má governação por falta de cidadania?

É absolutamente verdade que o défice de cidadania em Portugal é responsável por uma certa decadência de toda a estrutura social e económica. Mas o afastamento dos cidadãos das mais elementares funções sociais (o associativismo, a participação política e nas demais instituições, por exemplo) não pode ser visto como inibidor de opinião pública, sendo esta também uma característica da cidadania, nem tampouco como responsável pela degradação da cena política e pelos resultados efectivos das governações.

Desprezo o discurso anti-político e anti-políticos. O que não posso deixar de observar é que a responsabilidade pela pedagogia e pela autoridade moral é, em grande parte, da classe política que assumiu essa mesma função depois do 25 de Abril, depois de 40 anos de paternalismo e autoritarismo. Onde está a pedagogia dos partidos políticos nas comissões políticas dos núcleos, das concelhias e das distritais? Onde está a demonstração da autoridade moral relativamente ao supremo interesse de cada comunidade? Onde está a opinião pública fora dos grandes centros urbanos, nomeadamente de Lisboa? Onde está o esclarecimento para a cidadania europeia?

Deixem a culpa morrer solteira, mas por favor não abusem das desculpas.



publicado por jorge c. às 17:26
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Domingo, 10 de Outubro de 2010
Against

A abolição da pena de morte foi uma conquista civilizacional, uma evolução na forma de encarar o direito penal na Europa Ocidental. Não quero com isto dizer que não entenda as diferentes formas de o encarar noutras culturas, mesmo que muito próximas da nossa - os EUA, por exemplo. No entanto, insisto que a abolição da pena de morte é uma evolução no pensamento e atitude civilizacionais.

Justificar a abolição não é uma tarefa fácil num mundo que compreende mais a Lei de Talião do que os princípios básicos da equidade e da dignidade humana. Explicar por que razão tirar a vida a alguém por crime cometido não é um fundamento lógico numa sociedade organizada e com pretensões de criar um ambiente de paz social é praticamente inútil. Daí que assinalar uma data, sair à rua e dizer "Não" seja uma atitude dogmática que talvez não me importe de adoptar.

Uma coisa é certa, sinto-me confortável por viver num país que admite em primeiro lugar, em matéria penal, a vida como interesse supremo.



publicado por jorge c. às 10:46
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Sábado, 9 de Outubro de 2010
rumba da memória


publicado por jorge c. às 11:06
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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010
O desemprego em abstracto é mau, os números, esses, são animadores

A conversa "anti-governo" pode ser chata para algumas pessoas. Eu compreendo que se sintam perseguidos por um mundo maldoso que só quer o desaire, mas a realidade é uma coisa tramada.

Andamos há cerca de um ano a ouvir o ministro Vieira da Silva a desvalorizar os números do desemprego. O sr. ministro não é insensível ao desemprego, de um modo geral. Aliás, a marca fundamental dos partidos de poder em Portugal, nomeadamente o Partido Socialista, é esta sensibilidade para os problemas sociais, para os mais desfavorecidos e todos aqueles lugares com que se enche a boca (acho que se chama demagogia, isto, não sei).

O problema são os números. E os números dizem-nos que o desemprego aumentou substancialmente. É claro que o sr. ministro considera, em abstracto, o desemprego como um problema. Mas, a seguir desvaloriza os números e está tudo bem. O desemprego é um problema, mas noutra dimensão que não a nossa.

A facilidade com que se relativiza a realidade é assustadora e típica de quem quer manter o poder sem qualquer interesse em servir.


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publicado por jorge c. às 11:20
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Nobre vs Nobel

O Prémio Nobel da Literatura tornou-se uma espécie de Óscar do meio. A Academia (até nisto) não só tem trejeitos políticos como ainda faz uns fretes só para não ofender. Compreende-se a expectativa dos autores por esse lado comercial do reconhecimento. Mas o reconhecimento não está aí. Nas estantes das livrarias, nas revistas da especialidade, nas críticas nos jornais, nas mesas dos cafés, na boca das gentes encontra-se mais literatura e mais vida do que numa Academia sonsa e disciplinada.

Mário Vargas Llosa é um grande escritor há muitos, muitos anos. Não merecia que lhe fizessem esta desfeita.



publicado por jorge c. às 10:01
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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010
Opinião pública

Há uma questão que me anda a perseguir nos últimos dias. Todo este ruído em torno do Governo, seja a favor ou contra, faz-me pensar: será que há quem acredite convictamente que se pode estar do lado do Governo? Não incluo os sequazes socialistas, descendentes desse lema o'neilliano "vota no PS mesmo quando não merece", nem mesmo os independentes que pululam em torno de um conceito falso que é o socialismo europeu. O que dá a entender é que a opinião pública, no meio do ruído, apercebe-se que há mais matéria desfavorável do que favorável. Se essa matéria é demagógica ou enganadora, falsa ou desonesta, parece ser um pouco indiferente agora, visto que quem a acusa de tal são os tais seguidores cuja credibilidade está associada ao Governo.

É aqui que se chega ao primeiro-ministro e se encontra o seu espantoso currículo como bem lembrava Vasco Pulido Valente há uns dias no Público. A opinião pública sabe somar 2+2 e conclui que o mais provável é estar a ser manipulada pela propaganda para manter a imagem de alguém que sempre viveu disso mesmo. É claro que ninguém pode pensar pela opinião pública e que a própria compreende circunstâncias diferentes. Não é essa a minha intenção. No entanto, não posso deixar de observar que a massa crítica em torno de Sócrates é hoje muito mais consistente e, quer queiramos quer não, assente em coisas concretas, nem que seja por ter feito ouvidos de mercador nos últimos dois anos.

A República, tão em voga nos últimos dias, precisa da opinião pública. A democracia é, também, a opinião pública. E ignorar a sua relevância com desculpas rebuscadas e com sobranceria é entrar no sectarismo mais perigoso de todos, aquele que conduz ao autoritarismo.



publicado por jorge c. às 19:19
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Segunda-feira, 4 de Outubro de 2010
rumba da nação (celebração antecipada)


publicado por jorge c. às 15:29
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A ler

Este post sobre cidadania - a nossa - e não outra coisa qualquer. Para nos lembrarmos do que fomos, do que somos e para onde podemos estar a caminhar.

 

Via Shyznogud.



publicado por jorge c. às 15:19
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Sábado, 2 de Outubro de 2010
rumba óbvia


publicado por jorge c. às 12:50
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Black bird

Imaginemos que uma cidade se reflecte num rio largo e todas as pessoas se conseguem ver como num espelho. Imaginemos agora que essas pessoas se conseguem rir de si próprias de uma forma melancólica e de se verem a si e aos outros. Imaginemos também que esse reflexo quase cínico nos faz - isso mesmo - imaginar palavras e sons e cores e formas de outras cidades, de outras pessoas iguais a nós com outra forma e outra cor e outro som e outras palavras.

De repente, numa espiral de emoções e pensamentos cruzados, acordamos, é fim de tarde em Lisboa e estamos sentados no Jardim de Inverno do S.Luiz a ver Andrew Bird de olhos fechados a balouçar ao som de The night they drove old Dixie down, de violino na mão pronto a cantar-se e a contar-se. E a cidade parece fazer um pouco mais de sentido.

 

Ao Rui Tavares e ao Paulo Pena.


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publicado por jorge c. às 11:31
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Orgulho e determinação

Um dos argumentos favoritos dos socratistas durante este período de Governo socialista era o de que Sócrates era determinado. Várias vezes repeti que a determinação não era um programa político. E como crianças convencidas que os adultos só querem chatear, alguns amigos meus olhavam para o lado como quem diz "está bem, abelha". Agora andam aí, enrascados com argumentos rebuscados. É um espectáculo deprimente.


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publicado por jorge c. às 11:02
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