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Manual de maus costumes

Manual de maus costumes

08
Nov10

Imprensa falsa

jorge c.

Há umas semanas recebi um e-mail que dava a conhecer uma notícia sobre os mineiros chilenos. Era uma notícia caricata em que um dos mineiros tinha descoberto que a mulher estava grávida de cinco semanas. É fazer as contas. Concentrei-me na piada e não dei grande atenção ao factor noticioso. Numa posterior troca de mails com a Shyznogud, ela, que é muito mais atenta a estas coisas, acabou por descobrir que se tratava de uma notícia do Sensacionalista - um jornal humorístico ao estilo do The Onion (o nosso Inimigo Público, vá). Não foram precisos 2 minutos.

Hoje, a Shyznogud mandou-me esta pérola (via Facebook). Parece, então, que os jornalistas do Diário Económico não quiseram perder os tais 2 minutos para se certificarem da factualidade, nem para perceber a natureza do meio de comunicação que estavam a usar como fonte. Até nos podemos rir, ao início, mas depois começamos a sentir vergonha do alheio. O passo seguinte é começarmos a recear que isto esteja a influenciar a nossa percepção da realidade a partir da informação a que temos acesso.

Ora, isto suscita algumas questões que já foram colocadas, e bem, neste post do Jugular. Outras questões suscitará, como a qualidade das redacções, dos cursos de comunicação social, os mercados, etc. Mas para já isto serve.

Numa altura em que se fala tanto de censura e manipulação, parece que se esqueceu de discutir a qualidade do jornalismo face à urgência de informação tão reclamada pela internet. Se hoje o mercado dos media é renhido num espaço tão pequeno como o nosso, será que se vai prescindir de um conjunto de princípios basilares do jornalismo para responder tempestivamente, mas sem critério, a essa urgência?

07
Nov10

Um exército de taxistas

jorge c.

Num breve passeio por aí, reparo que a oposição à direita recebeu com naturalidade e até algum aplauso a ideia demagógica e populista de Passos Coelho de que falei no post anterior.

Talvez seja o cliché dos tempos. Quando a crise aperta o populismo ganha aliados nunca antes esperados. Vale tudo. Esta histeria anti-sócratista, que não é de hoje, levou o cérebro de muita gente a tirar umas férias, sendo substituído por um pedaço de ressentimento e taxismo (sem ofensa, é só um símbolo).

O justicialismo é um dos sinais mais evidentes do triunfo da demagogia. A crise social (seja de valores, de atitudes ou de costumes) faz com que se perca o discernimento e que se tente a todo o custo arranjar responsáveis com rosto para a nossa desgraça.

Já agora, dêem ali um saltinho a este post do Francisco Mendes da Silva.

07
Nov10

Da falta de cultura democrática

jorge c.

Quando eu era puto costumávamos gozar com alguns cidadãos devido à sua escassez de sensualidade. Dizíamos, então, que "aquele gajo devia processar os pais por ser tão feio". A malta ria-se e tal, mas no fundo, e por sermos proprietários de mais de 2 neurónios, sabíamos que aquilo não passava de uma graçola. Sei lá, podia dar-nos para defender aquela ideia peregrina, até porque alguns de nós enveredaram pelo santo ofício do Direito (entretanto tomámos medicação e ficou tudo bem e há até quem leia poesia).

Hoje, ouvi por alto umas declarações do Dr. Passos Coelho. Sim, porque a minha vida não é isto e infelizmente ninguém me paga para eu fazer comentário político indigente por aí. Dizia, então, o Dr. Coelho algo como isto: os governantes devem ser responsabilizados criminalmente por determinadas consequências das suas políticas (interpretação livre, para os mais rigorosos). Que boa ideia! Fez-me lembrar aquela minha doutrina infanto-juvenil. Acontece que PPC é líder do maior partido da oposição e potencial candidato a governante. Esta ligeira particularidade faz das suas palavras um dos maiores exercícios de demagogia que alguma vez foi dirigido ao país por um representante de um partido de poder. Como nos explicou o velho Aristóteles, a demagogia é a perversão da democracia.

Não vou aqui gastar a minha e a vossa paciência com uma exposição sobre a separação de poderes, os princípios do direito penal e da Constituição. Basta apenas apelar ao bom senso de todos para que se compreenda o disparate (a minha generosidade é infindável como os desígnios do Senhor) que aquelas declarações carregam. O problema é que o disparate é perigoso porque é isso que a demagogia é - perigosa.

Lembrem, assim, o Dr. Coelho de uma ex-ministra do seu partido - Leonor Beleza - que, no sentido da sua proposta, poderia ter sido condenada por decisões tomadas com base na segurança hierárquica. Lembrem este homem que a subjectividade das políticas e, em última análise, a escassez de recursos que conduz a uma inevitável restrição do providencialismo do Estado, não podem ser um factor de penalização de indivíduos concretos e que é o Estado que se deve assumir na sua condição democrática. Não sei se estamos todos sensibilizados acerca do conceito de democracia.

Podem tirar o homem do menezismo, mas não tiram o menezismo do homem.

04
Nov10

A função social das empresas

jorge c.

Se um dos problemas do país é, neste momento, a crise de valores, temos de perceber de que valores estamos a falar. Não se pode apenas atirar para o ar um pacote de lugares comuns do moralismo. É preciso avaliar com atenção a função de cada um no meio.

O que entendemos, então, por função social das empresas? Para além da evidente relevância que as empresas têm no desenvolvimento social e do impacto dos seus produtos e serviços, estes sujeitos têm uma função interna para a estabilidade das comunidades. A sua organização é fundamental não só para responder ao mercado como também para dar qualidade de vida aos seus trabalhadores. Não são, por isso, positivas as cargas horárias impostas pelos empregadores, nomeadamente a jovens trabalhadores que estão dispostos a tal por se encontrarem no início de carreira e recearem o desemprego.

Pode parecer um assunto insignificante, mas não é. Repare-se que com uma carga horária pesada não é possível viver fora das empresas, despender tempo para as famílias, aproveitar as vilas e cidades, patrocinar actividades socio-culturais, não só criando públicos como participando; não é possível, enfim, viver, ter vida, mundo. E a falta de mundo é hoje um problema grave no seio das empresas, porque dele nasce a compreensão, a inteligência e a capacidade de evoluir. Mais: quanto maior é o volume de negócio da empresa mais esse cuidado deve ser tido em conta. É que, no fim de contas, o cansaço da dedicação sem retorno desgasta a imagem de qualquer negócio. No limite, a insatisfação gera desconforto e insegurança e isso pode ter efeitos perigosos - a saúde, por exemplo.

Este é, sobretudo, um problema de organização. Gastam-se rios de dinheiro em acções de formação, de motivação e coaching, mas é-se incapaz de olhar para dentro e perceber um grupo de pessoas.

01
Nov10

feminismos

jorge c.

A vitória de Dilma Rousseff nas presidenciais brasileiras deu origem a uma reacção pela qual eu não esperava em certos sectores. Apesar da total ignorância em relação à política brasileira, o que é perfeitamente natural, a reacção foi feminista. Pouco importa se Dilma é uma cidadã exemplar, honesta, de confiança para um cargo de poder. É mulher e é de esquerda.

Não posso deixar de procurar as minhas virtudes no meio desta confusão de conceitos. Cresci com duas mulheres no poder, para além da atitude autodeterminada da minha mãe e das minhas avós. Num dos países mais conservadores do mundo Thatcher mandava, e até mesmo em Portugal havia uma mulher na cadeira do poder por força de uma série de circunstâncias. Nem sequer tive tempo para ser machista num mundo que se abria ao pluralismo a cada dia que passava. Ainda não há muito tempo tivemos uma mulher na fila para S.Bento. O seu azar foi não ser de esquerda. É imperdoável! Ou se calhar não conta por ser velha e feia, que é um tipo de critério muito querido por uma certa mentalidade.

Acredito que seja possível o poder não obedecer à mesma lógica sexista da maioria das actividades. O género político pode não ser relevante face às adversidades contemporâneas da região em causa ou até mesmo à credibilidade do seu sector político. E não acredito nisto por achar que o mundo está cheio de gente bonita e bem disposta que gosta de rir, mas sim por encontrar na linguagem política uma tónica diferente que abafa mentalidades mais impulsivas. O discurso político é tendencialmente manipulador e joga no campo das necessidades. Uma mulher na política não é usada como uma mulher, mas como uma política. É uma figura abstracta e não a mulher concreta que ocupa um lugar ao nosso lado. Talvez possamos, até, falar aqui, e apesar do descrédito social, de um endeusamento da classe política, algo que os demais são incapazes de atingir.

Talvez até seja uma vitória para os movimentos feministas. Talvez seja mais um passo numa luta legítima pelo pluralismo. Mas, será mesmo isso que interessa quando falamos de Poder?

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